Luzes da Rebelião

5 Capítulo 5- O aliado infiltrado


—Diga ao Leo que o quero aqui, agora.

O subalterno saiu da sala com o rabinho entre as pernas a fim de avisar Leo que o chefe o estava chamando. Perambulou pelo complexo até que o encontrou. Estava deitado sobre algumas caixas cobertas por uma lona pesada no depósito. A camisa desabotoada era um completo sinal de que ele adorava quebrar as regras. O bigode todo desgrenhado e a fumaça do cigarro pairava ao seu redor como uma nuvem espessa. Era a pior visão que se podia ter de um agente.

—O que está fazendo aí Leo?

—Ora, não é claro, respondeu, soltando uma baforada.

—O chefe quer vê-lo, disse o colega, apressando-o. Além do mais, abotoe a camisa, alinhe-se, você sabe perfeitamente bem que ele nos quer impecáveis.

Leo levantou-se rapidamente de cima das caixas, jogou o cigarro sob o pé e apagou-o. Ajeitou a camisa, abotoou-a e seguiu pelo corredor penteando o bigode o melhor que podia. Passou pelo banheiro para dar uma olhada em si mesmo antes de seguir para o escritório do chefe.

—Entre, ouviu o chefe dizer antes mesmo de abrir à porta.

—O senhor estava me procurando? Indagou Leo.

—Você está me devendo o último relatório sobre o garoto. Quero saber como andam as investigações.

—O relatório está sobre a sua mesa, senhor, se lê-lo verá que não alcançamos nenhum progresso, o garoto está indetectável a várias semanas.

—Isto é um absurdo, te deixei no comando porque achei que você seria a pessoa ideal para a trabalho, não podemos perdê-lo.

—Desde a noite que a equipe do Jacó o perdeu na praia não mais foi rastreado.

—Não me fale deste idiota. Não consegue sequer cumprir uma missão simples como esta.

—O Jacó sempre se mostrou muito competente senhor, a falha na missão não foi culpa direta dele. O garoto estava sendo escoltado pela Ohana. Ela é muito poder…

—Já chega, cale-se agora mesmo e vá fazer o que te mandei.

Leo ouviu aquelas palavras em silêncio, sabia que o chefe era um homem durão e não lhe custou nada banir o Jacó da equipe e colocá-lo numa cela de molho. Portanto sabia que deveria agir com cautela se não quisesse o mesmo fim.

—Vou intensificar as buscas senhor, encontraremos o garoto o quanto antes.

—É isso que quero ouvir, é assim que quero o trabalho, que todos estejam empenhados em cumprir o propósito.

Leo saiu da sala do chefe com o semblante preocupado, as coisas não estavam saindo do jeito como deveriam. Estava vendo-se sem saída, depois de pensar por horas chegou a uma conclusão, mas para por seu plano em ação, precisaria de uma pessoa de total confiança dentro da Firma, mas quem? Aquela pergunta permaneceu martelando sua cabeça por horas a fio, até que decidiu recrutar Jacó para ajudar-lhe. Aguardou o seu turno noturno para poder ir até a cela onde Jacó estava preso todo aquele tempo.

Assim que pode, levou a bandeja com a comida do detento e assim encontrou a oportunidade perfeita para conversarem.

—Jacó, o chefe está uma fera depois do que aconteceu na sua última missão, pelo jeito não vai te soltar tão cedo.

—Não preciso de ninguém aqui de conversinha mole. O que sei é que preciso sair daqui, se conseguir sair vou mostrar ao chefe que pode confiar em mim.

—A questão é justamente esta, ele não tem a menor intenção de te libertar, ao que parece, vai te deixar apodrecer aqui para dar o exemplo.

—Você só pode estar de brincadeira!

—Falo sério, mas já que estou aqui, tenho uma proposta para você; se aceitar me ajudar, te solto daqui.

Leo permaneceu ali conversando com Jacó por quase uma hora, explicando-o tudo o que podia dizer para convencê-lo a ajudar-lhe.

—Você só pode estar de brincadeira comigo, disse Jacó. Eles são nossos inimigos.

—Você está errado Jacó, pense… O maior erro é compactuarmos com esta farsa. A Firma nos doutrinou por anos para fazermos exatamente o que ela queria. Sem que pudéssemos dizer nada ao contrário. Aqui somos apenas soldados cegos lutando por algo que não nos diz respeito. Por algo que não é a verdade.

—Mas os despertos vão destruir o mundo se os deixarmos a vontade, precisamos detê-los.

—Olhe ao seu redor homem, a luta que lutamos é infrutífera, a cada um que abatemos, despertam dois, o mundo está mudando rápido demais para conseguirmos manter o controle. Já não podemos mais. É em vão resistir.

—Você é um deles, disse Jacó lentamente, enquanto tudo parecia ir para o seu lugar. É um traidor da causa.

—Não é o caso, respondeu Leo olhando-o nos olhos diretamente. Apenas vejo o que antes não via. Veja por si mesmo. E com apenas um movimento sutil, Leo fez com que o homem encarcerado parasse por um instante e ali Jacó, segurando as barras das grades e com o olhar fixo num único ponto num horizonte qualquer parecia em transe.

Líderes antigos, guerras, a fome, doenças e temores vinham-lhe em flashs. Parte da história da humanidade passou diante dos seus olhos. Muitas decisões foram tomadas e muitas consequências abateram os humanos de forma irreparável. A crueldade manifesta de uns tornaram a vida humana no que conhecemos.

Quando Jacó piscou, pareceu sair daquele torpor. E Leo tornou a falar:

—É isso tudo que te disseram ser normal; por muitos anos vêm cobrindo o sol com a peneira. A mudança nos moldes que vemos hoje é muito lenta e consequentemente insatisfatória. O que precisamos é de uma revolução. Pense, meu amigo, sobre o que viu. Reflita sobre tudo o que já viveu, o que sabe sobre tudo e também sobre o que lhe disseram. Se tiver sorte, encontrará a resposta que espera há tanto tempo.

—Você fez isso comigo? Você, de alguma maneira manipulou as coisas para que eu as visse assim.

—Sim, eu lhe mostrei tudo isso, e isso é apenas a verdade, nada mais. Não manipulei sua mente, só encontrei uma fenda na sua própria cabeça onde estava tudo armazenado e deixei vir a tona para o seu próprio bem.

—Preciso da sua ajuda, disse Leo. Você é o único em quem confio para estar ao meu lado.

Leo já havia dito tudo o que podia dizer-lhe para convencê-lo. Agora Jacó precisaria decidir se estava com Leo ou contra ele, pois estava claro que no caso de Jacó recusar ajudá-lo, Leo estaria correndo perigo. Seria descoberto em fração de segundos e teria um fim pior do que jamais poderia ter pensado.

Jacó nada disse por um tempo e quando se dirigiu ao Leo, falou:

—Eu estava cego de fato. Me fizeram acreditar que seguia pelo caminho reto quando na verdade caminhava em círculos.

—Só há luz com o despertar, meu amigo. Enverede por este caminho, desperte para realidade e juntos poderemos ajudar a mudar o mundo.

Ainda indeciso, Jacó fez menção de recusar a sua proposta.

—Já fui longe demais com tudo isso Jacó; vim até aqui porque preciso de você. Somos amigos.

—Não me venha com essa agora. Desde que fui preso, você sequer tomou conhecimento do que estava acontecendo comigo.

—Não é verdade, acredite. Agora decida-se.

—Como você vai me tirar daqui sem levantar suspeitas.

—Com a verdade , não é óbvio? Vou te libertar e quando estiver longe e em segurança, tratarei para que tudo esteja como deve estar.

—Abra esta cela, meu amigo e estarei contigo.

Leo abriu um sorriso de satisfação e em seguida girou a chave na fechadura da porta da cela.

—Aguarde um instante até que eu lhe diga para sair. Tudo tem que estar em ordem.

Jacó esperou pelo que lhe pareceu horas, tamanha era a sua ansiedade. Leo voltou ao escritório e desativou as câmeras por um minuto, tempo suficiente para tirar Jacó dali.

Quando estavam juntos no escritório, Leo fez um telefonema por uma linha restrita. Informou o que estava acontecendo e pediu ajuda para retirar Jacó das instalações em segurança.

—Jacó, terei que deixá-lo aqui por um momento, mas peço a você que quando este telefone tocar, apenas pegue-o, mantenha consigo e saia pela porta que dá acesso ao corredor. Eu organizo tudo por aqui e vou me encontrar com você em seguida.

Ali ele permaneceu sozinho, suava frio pensando na possibilidade de ser descoberto, Se fosse interceptado sofreria as consequências severamente.

Cerca de dez minutos intermináveis tinham se passado quando o telefone tocou. Jacó olhou para ele e no tela do aparelho estava escrito: Saia da sala agora.

Ele abriu a porta e uma lufada de vento o cercou, deu um passo adiante e em seguida estava diante de Edward, Ohana e Petro, que o olhavam ao mesmo tempo curiosos e indecisos.

Leo, assim que pode voltou ao escritório dos seguranças, entrou no sistema e em segundos encontrou as imagens, modificou-as com um piscar de olhos e programou o alarme para disparar numa hora precisa. Até que descobrissem a verdade, estaria a salvo e talvez conseguiria manter seu disfarce. A ronda seguiu normalmente, durante a madrugada encontrou outros dois colegas durante uma pausa para o café e o alarme soou pontualmente. Os seguranças correram para ver o que estava acontecendo e Leo os seguiu, rastrearam o sistema de monitoramento a fim de encontrar algo, mas nada suspeito foi detectado, então formaram uma equipe e iniciaram as buscas pessoalmente. Reviraram tudo o que podiam e quando constataram a fuga do Jacó alertaram o chefe.

—Como pode ter fugido? Indagou. Alguém o ajudou a fugir certamente.

—Não há vestígios de arrombamento, senhor. Disse um dos seguranças.

—Leo, onde você estava?

—Está suspeitando de mim, senhor? Perguntou.

—Não é isso, mas convenhamos que você era o homem designado para este andar esta noite de acordo com a escala.

—Sim, senhor. No horário do jantar lhe trouxe a refeição, conversamos um pouco e é só isso.

—Você percebeu alguma coisa estranha?

—No começo não, senhor, mas quando ele percebeu que nossa conversa estava se alongando, começou a resmungar mais que o de costume e me mandou embora. Eu sai de lá levando apenas a bandeja.

—Ora, ora, era só o que me faltava. Um homem que consegue fugir de seu cárcere sem deixar qualquer pista.

—Nós vamos encontrá-lo, senhor, disse um dos seguranças.

Assim que os ânimos arrefeceram um pouco, o turno de trabalho de Leo terminou e o mais rapidamente possível, deixou o complexo e rumou para a Livraria Pó Arcano.

Edward o recebeu assim que chegou, levou-o ao escritório onde estavam Ohana e Petro custodiando Jacó.

—Diga, por que nos pediu ajuda. Por que ele está aqui.

—O chefe me chamou para uma conversa ontem e pelo que percebi está muito descontente com o resultado do relatório que o entreguei. Ele quer encontrar o garoto de qualquer maneira.

Petro engoliu em seco quando o ouviu falar assim. Sabia exatamente bem de quem estava falando. Ohana, repousou uma mão em seu ombro dando-lhe apoio. Ela mesma já havia enfrentado problemas na remoção de Gus de seu apartamento até a sede.

—Você nos prometeu que iria despistá-lo.

—E estou cumprindo minha parte no trato, mas o cerco está se fechando, não conseguirei fazê-lo por muito mais tempo.

E quanto a ele? perguntou Edward, indicando Jacó que estava sentado diante dele.

—Ele é meu amigo, está do meu lado e vai nos ajudar.

—Isso é verdade Jacó?

—Leo e eu tivemos uma boa conversa. Ele me mostrou fatos irrefutáveis que coloca a minha perspectiva de vida num canto obscuro da realidade. Agora entendo o quando fui enganado.

—Bem, não se sinta tão mal por isso, disse Ohana, todos nós já passamos por isso de um jeito ou de outro.

—Deem a ele um local para dormir em segurança. A partir de agora está sob nossos cuidados e proteção Jacó. Aqui a Firma não poderá te encontrar. Por outro lado, acredito que já é ora de transferirmos o garoto para um outro local, onde poderá continuar a sua iniciação.

—Para onde exatamente está pensando em mandá-lo, Edward?

—Preparem-no para mandá-lo para Valquíria a Verbena. Avisem-na que chegou o momento.

Todos se olharam por um momento. Sabiam que a Verbena Valquíria era conhecida como uma das mais poderosas dentre todos os despertos.

—Tenho informações seguras de que ela atualmente está vivendo reclusa na Umbra Rasa. Ela está ciente de que este momento chegaria e estará pronta ajudar-nos.

Todos saíram do escritório. Edward ficou sozinho, acendeu seu cachimbo e fechou-se com seus pensamentos. "A batalha está apenas começando, um após outro está se colocando no seu devido lugar".