Luz do Luar

12 No Café III


Vesti meu uniforme de garçom na sala dos funcionários, pus as apertadas calças pretas, abotoei a minha camisa branca e o colete preto que ia por cima, deslizei meus pés no par de sapatos de couro e por último coloquei o longo avental ao redor dos quadris. Depois de conferir minha aparência no espelho, só para ter certeza, fui em direção da cozinha. No momento em que entrei na cozinha, meu nariz foi excitado pela agradável aroma dos grãos de café, um cheiro que eu adorava.

A razão pela qual eu havia escolhido trabalhar no café Victoria era, de fato, o melhor café da vizinhança. Ao me avistarem, meus colegas me cumprimentaram.

“Senhor Kousuke?” Dirigi-me às largas costas do homem que triturava café em um moinho de mão. O robusto destinatário de óculos virou-se em minha direção com um sorriso caloroso. Continuei: “Eu estou encarregado de servir as mesas hoje, mas posso trocar com alguém da cozinha?”

“Qual é o problema?”

“ É uma coisa pessoal, estou receoso, para falar a verdade, um dos meus colegas veio aqui hoje.”

“Hã? Por que você quer mudar seu posto, então?”

“Bem, eu não serei capaz de ficar na companhia do meu colega. Além do mais, não é um pouco constrangedor ser observado enquanto trabalha?”

Como se eu fosse deixar ela me observar! Sabia que minha resistência era infantil, mas essa era minha última chance depois de ter falhado miseravelmente em impedi-la. Houve alguém além do gerente que reagiu intensamente às minhas palavras.

“Ei, Nonomiya! É um cara ou uma garota?” perguntou a mulher que estava vestida como uma confeiteira e que colocava algumas frutas em um parfait logo ao meu lado.

“Se for um cara eu troco com você. Se ele for do meu tipo, é claro!”

Todo o pessoal fez uma careta, como se tivesse tomado um remédio amargo, quando perceberam que o mau hábito da Suenaga havia reaparecido.

Suenaga era a integrante mais velha do pessoal do Victoria, e até mesmo o gerente tirava seu chapéu para ela.

Segundo ela, ainda estava na universidade, mas vendo como ela se portava mais importante que o gerente em certos dias— não, quase todos os dias —me passava a impressão de ser mais velha que isso.

“Desculpe te desapontar, Suenaga. É uma garota!”

“Hum. Bem, o fato de que você trouxe uma garota para cá me deixou muito interessada.”

Com movimentos habilidosos Suenaga rapidamente finalizou o parfait e, depois, jogando um pedaço de chocolate na sua boca, foi até o balcão de onde poderia ter uma vista das mesas.

“Quem é ela? Vamos lá, conte!”

Ela fez uma careta no balcão e espiou a loja enquanto rolava o pedaço de chocolate em sua boca. O resto do pessoal também não perdeu a chance e examinou o café por trás dela.

Eu esperava que alguém os repreendesse pela conduta bisbilhoteira, mas até mesmo aquele em posição de fazer isso, o gerente, estava espiando com o rosto cintilando de curiosidade. Desistindo, confessei:

“É ela.”

E apontei para Youko que havia pegado um assento próximo à janela e estava sentada como uma indescritível dama.

Uma onda de ânimo surgiu no pessoal. A reação positiva dos rapazes era tão grosseira que eu me sentiria como um idiota se tivesse dito que esperava isso deles.

“Maldição! Que linda! Boa demais para você, Nonomiya, isso é certeza!”

Suenaga estava aparentemente irritada com alguma coisa e desferiu seu punho de ferro no meu estômago.

“Alguém sabe por que eu mereço ser socado?” Minha questão trêmula encontrou apenas olhares de desprezo.

“Você sempre age como se não se importasse com amor nem nada, mas fica agindo escondido, hein, seu arrassa corações!”

Aparentemente, Suenaga acha que eu e Youko somos namorados.

“Suenaga e seu novo namorado não têm se entendido muito bem ultimamente, sabe...” sussurrou o gerente em meu ouvido.

“Então é apenas uma questão de tempo até eles se separarem, suponho.”

“Provavelmente.” Ele acenou depois de ter recuado de novo.

Suenaga poderia ser considerada bonita se ficasse calada. De fato, ela muitas vezes era abordada pelo sexo oposto. Contudo, infelizmente, sua aparência era arruinada por sua personalidade inflexível, que também era o motivo de seus relacionamentos nunca durarem muito. Pelo menos eu não conheci nenhum que tivesse durado.

“Hmm?! Tetsuya?! Se apaixonando por todas ou o quê?!”

“ N-Não estou! Não estou apaixonado nem nada do tipo!”

“É melhor que continue assim!”

O sacrificado de hoje era o Tetsuya. O chute certeiro da Suenaga atingiu-o bem nas nádegas.

Todas as vezes em que ela não estava se dando bem com seu namorado ou quando rompia com um, seu humor despencava em queda livre.

E nós do Victoria apenas chamávamos essa Suenaga mal-humorada de "a fera". Infelizmente, no entanto, não havia nenhum herói disfarçado no nosso café. Logo que a besta ficava furiosa, não havia jeito senão sobreviver à tempestade.

“Senhor Kousuke, eu estou indo servir as mesas.”

“C-Certo, boa sorte.”

A discrição é a melhor característica do heroísmo, afinal.

Da cozinha ressoavam os gritos do pobre homem que se tornara a vítima da besta.