Luz do Luar

11 No Café II


Youko caminhava a passo leves em direção ao portão da frente.

"O que você está tentando fazer?" perguntei a ela sem esconder meu mau humor.

Youko se virou, fazendo seu longo cabelo flutuar.

"Estou muito curiosa a respeito do café onde você trabalha," disse ela, sem esconder seu bom humor.

"Me responda! Você deve saber que eu detesto ser o centro das atenções."

"Foi por isso que eu tentei prevenir um tumulto, não foi?"

"Não muda o fato de que atraímos atenção."

"Mas que má sorte, hein?"

"E de quem é a culpa...?" Seu comportamento intrépido me irritava. "Afinal, quem te contou que eu trabalho em um café?"

"Ouvi alguns rumores!"

"Não minta."

Era de conhecimento comum que eu tinha um bico em algum lugar, mas nunca contei a ninguém da escola que eu trabalhava em um café.

"O que você quer?"

"O que você pensa que eu sou, Nonomiya? Não é nada estranho desejar saber mais sobre a pessoa que se ama, é? Pode chamar de sentimentos puros de uma dama apaixonada."

"Você se julga uma dama de pensamentos puros? Ridículo. Deixe-me contar uma coisa: você está longe de ser inocente." Zombei.

"Sabe, parecer madura pode ser um verdadeiro incômodo às vezes. Ainda sou nada mais que uma garota de dezessete anos. Além disso, recentemente perdi meu pai, então, acho que você deveria ser um pouco mais gentil comigo, Nonomiya." Replicou Youko fazendo um biquinho.

Fiquei surpreso em ver que ela também podia fazer essas expressões infantis.

Mas não iria mais longe que isso. É claro que eu sentia muito por ela, mas, no fim, isso não era da minha conta.

"Até amanhã."

Acelerei meu passo e me distanciei da Youko.

"Onde você está indo? Esse aí é o portão dos fundos."

"Diferente de você, eu venho de bicicleta e não de trem. Se conseguir acompanhar minha velocidade, talvez eu te ajude guiando-a até o café, que tal?"

Fui bem frio. Eu não queria me dar ao trabalho de ajustar-me aos outros. E me importaria muito menos com alguém que tentasse entrar no meu território sem minha autorização.

"Tudo bem, pode ser. Espero que minhas costas não fiquem muito doloridas, mas, bem, eu sempre quis fazer isso."

Contudo, Youko era muito menos indefesa do que eu esperava. Antes que percebesse, ela estava andando ao meu lado.

"No que você está pensando?"

"Eu sempre quis fazer isso ao menos uma vez! Andar de bicicleta à deux."

"Quem disse que eu vou levar você?"

"Não se preocupe. Não devo ser muito pesada."

"A questão não é essa." Eu estava irritado. Como ela não mostrava qualquer inibição, decidi falar o que queria sem me reprimir também.

"Admito que deveria ser mais delicado com você, já que perdeu seu pai há pouco tempo. Contudo, eu não sinto como se tivesse de dançar conforme sua música; ao menos, não como os outros. Nem todos serão atenciosos com você, lembre-se bem disso. Agora que conheço a sua verdadeira natureza, ainda posso sentir um pouco de simpatia mas, certamente, não lhe serei favorável." Censurei-a.

"Mmm! É desse jeito que o meu Nonomiya deve ser." Youko balançou a cabeça fortemente, fazendo uma cara de satisfação. "Amo essa atitude desinibida."

Minhas palavras tiveram o efeito oposto. Enquanto tentava afastá-la, acidentalmente eu a atraía ainda mais. Vendo-me perder a fala, ela mostrou seu ocasional “sorriso de irmã mais velha”.

"Você não poderia me dar uma chance? Percebo agora que a minha confissão de ontem foi muito precipitada! Assim como você não sabe como realmente sou, eu também ainda não o conheço direito. Acho que é necessário a nós dois aprofundarmos nosso conhecimento mútuo. Ainda não é tarde demais para tomar uma decisão após nos conhecermos melhor, certo?"

Sua opinião era bem razoável.

Mas pensando bem, para o que acontecera até aquele ponto, eu não conseguia acreditar cegamente em suas palavras. Olhei diretamente nos olhos da Youko.

No que ela estava pensando?

Ela não evitou meu olhar nem um pouco. Em seus grandes olhos castanhos eu podia ver claramente meu próprio reflexo. No fim, fui eu quem me rendi. Eu libertei ela do meu olhar e montei na minha bicicleta.

"Suba."

"Obrigada!"

Ouvi sua voz cheia de alegria. Depois de ela subir na garupa, parti. Ela era leve, assim como tinha dito.

"Prometa-me que não fará mais nada que possa chamar atenção para mim como fez hoje."

"Darei o meu melhor."

"Não, não diga que só vai "dar o seu melhor", me prometa."

"Nonomiya, o vento é tão agradável. Andar de bicicleta juntos é ainda melhor do que eu imaginara."

Observei nosso reflexo em um espelho de rua. Youko estava segurando sua saia com a mão direita, me envolvendo com seu braço esquerdo, e sorrindo alegremente enquanto contemplava a vista da cidade pela qual passávamos. Completamente incapaz de continuar reclamando com a garota que confiara seu corpo a mim, apenas murmurei: "Quanta sorte."

Continuei a impulsionar a bicicleta enquanto canalizava todo o meu descontentamento e desgosto reprimidos em pedalar. Talvez por inveja ou ciúmes, senti os intensos olhares dos outros estudantes que iam para casa. Ficou claro de quem era a culpa, já que nunca sentira isso enquanto andava de bicicleta sozinho.

Eu estava passeando de bicicleta com Youko na garupa.

Esse era um daqueles doces momentos dignos de serem chamados de “lembranças da adolescência”. Eu, no meio desse período da vida, provavelmente deveria me orgulhar de tal evento pelo qual qualquer um me invejaria.

Para falar a verdade, eu estava orgulhoso o suficiente ao ponto de sentir uma sensação de superioridade, acreditando que não havia mais ninguém que pudesse ter algo tão nobre como ela em sua garupa.

Bem, isso durou apenas pelo pouco tempo em que esqueci a sua personalidade problemática e a receita de assassinato.

Durantes as próximas horas eu claramente seria transformado em seu brinquedo, então, precisava estar emocionalmente preparado. Eu tinha aceitado o pedido de Youko. A razão era simples: eu estava interessado nela.

Além disso, chame de característica minha ou apenas de uma preferência: eu adorava aquelas conversas emocionantes com ela.