Luz da Lua
2 Todos estão doidos
Notas iniciais
Acordei cedo como de costume em um dia de semana. Peguei minhas roupas e fui tomar um banho. Encarei meu colar refletido no espelho. Ele sempre me trouxe uma boa sensação, como um “Hey, você não está sozinha”, mas deve ser algo que trago da infância. Sempre que quero... Quero, falar com mamãe, o aperto com força e de alguma maneira algo acaba acontecendo de bom ou de não tão ruim. Como quando tinha treze anos.
“Olhei no relógio. Já passará do toque de recolher. As sirenes estavam começando a se aproximar do beco. Era noite e acabará de começar a chover. Eu não acharia nunca o caminho de casa.
Para o novo presidente. Qualquer um na rua depois do toque de recolher era um marginal delinquente. Ainda mais um sem pai nem mãe.
A sombra de quatro policiais entraram no inicio do beco. Apertei meu colar com força. Mãe onde quer que você esteja me ajude. Não quero ser levada para longe outra vez. Por favor. Logo que acabei de pedir, vi Luke pular sobre a enorme lata de lixo que o deixou a menos de um metro de um muro onde eu poderia pular e sair do beco. O fiz. Depois o segui até chegar em casa.” Nunca conto nada para ninguém, pois já sou estranha o suficiente para ser chamada de louca e ser internada em um hospício.
Depois de vestida–Uma calça jeans justa e preta, uma regata branca e um casaco preto com estampa de caveiras. Penteei meu cabelo, comprido que batia no meu estomago quando o jogava por cima do ombro. Delineei meus olhos e finalizei com um rímel, assim meus olhos pareciam ainda menores do realmente eram o que faz algumas pessoas acharem que tenho descendência japonesa, apesar de minha pele morena.
Coloquei ração e água para Luke e arrumei a mesa para o café.
Ouvi a porta do quarto de Sandy abrir. O apartamento não era nem de longe grande, mas tinha dois quartos. O que para mim, Luke e Sandy era o suficiente apesar de eu achar que ela merece muito mais do que isso por ter aguentado cuidar de mim por seis anos sozinha, sem a menor ajuda de ninguém.
–Bom dia, Mel. –Disse ela sentando-se á mesa.
–Bom dia. –Respondi forçando um sorriso.
Os olhos de Sandy estavam preocupados. Senti que ela iria me contar algo importante.
–O que aconteceu Sandy? –Perguntei temendo a resposta. Mas normalmente nunca escondíamos nada uma da outra.
–Henry falou comigo ontem na lanchonete...
–Não acredito que ele foi atrás de você. Ele te fez algo?! –Não confio naquele garoto. Ele pode ser louco ou pior.
–Ele não fez nada. Você devia escuta-lo...
–Mana, na boa. Você acredita nele?
Contei-lhe tudo o que havia acontecido na noite passada e nas semanas que se passaram também.
–E eu estou roxa de quando ele me jogou na faixada do prédio. –Disse por fim.
–Mel. –Ela estava séria demais para mentir. –Eu... Eu sou uma feiticeira. Mamãe também era. Ela foi embora e não sei o que aconteceu depois. Mas não quis ir junto. Decidi ficar com você... Não posso te contar muitas coisas, você irá descobrir no decorrer de sua jornada, mas Henry é uma espécie de Deus. Ele é um príncipe de seu mundo.
Minha cabeça estava dando mil voltas, mas nada daquilo entrava nela.
–Eu... Eu não entendo.
–Vá para escola. –Ela se levantou e beijou minha testa suavemente num breve adeus. –Não se esqueça de Luke, ele é muito importante. Mais do que você pensa.
Peguei minha mochila que parecia mais leve do que de costume.
–Enfeiticei sua mochila. Nela cabe um hipopótamo se quiser guardar um. Queria poder fazer mais, porém meus poderes são limitados aqui na terra... Pense Mel, há tempos o mundo mudou. O que conhecíamos há anos praticamente não existe mais. Todos nós vivemos com medo, pobreza, injustiça. Isso tudo é reflexo do que acontece na Terra del Luna.
–Ah, obrigada. Mas eu não vou... –Decidi me calar.
Uma lagrima no rosto de minha irmã fez com que meu coração gelasse.
Fechei a porta atrás de mim. Desci as escadas correndo e comecei a andar a caminho da escola. O que estava acontecendo? Minha irmã era uma feiticeira. Minha mãe também. Meu pai pelo visto um mero mortal e eu também, mas me escolheram para uma missão maluca. Nada fazia sentido. Luke começou a andar mais perto de mim, inquieto. O coloquei em meus braços, mas ele continuava inquieto.
Passei por um beco onde três mendigos dormiam no chão. Uma cena que infelizmente já se tornara normal. A maior parte da população morava nas ruas. Quase sempre te atacavam quando te viam com algo para comer. Poucos de nós- pobres- Tínhamos casa. Os três levantaram quando passei. Luke pulou do meu colo e os enfrentou.
–Luke. Vem aqui. –Disse, afastando-me até minhas costas encontrarem a parede. –Não tenho nada para vocês. –Avisei com firmeza.
Eles sorriram. Os dentes eram grandes como pontudas estalactites no teto de uma caverna fedorenta. Um deles levantou a cabeça e deixou transparecer suas orbitas negras ao invés de olhos, uma fumaça igualmente negra saia destas e dançavam envoltas aos seus corpos pálidos.
Luke pulou e enfiou suas garras no pescoço de um deles. O outro pulou em cima de mim. Empurrei o corpo dele com as mãos enquanto ele tentava me morder. Uma baba gosmenta escorria de suas presas. Virei o rosto enquanto lutava para tentar tira-lo de cima de mim. A gosma escorreu para o chão e o corroeu como acido.
–AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH!!!!!!!!!!! –Gritei apavorada.
A qualquer momento ele arrancaria um pedaço de meu rosto ou me queimaria com sua baba acida.
De repente ele foi arremessado para longe.
Henry havia chutado o monstro, com uma força sobrenatural. Depois deu alguns socos na cara do segundo bicho e quando este estava caído pisou no crânio da criatura. Olhei para o lado e Luke estava sentado no peito do terceiro monstro que tinha um imenso corte no pescoço.
Com um som estridente como um grito por socorro as coisas se desfizeram em uma fumaça negra.
–Acredita em mim agora? –Perguntou Henry me estendendo a mão.
Segurei e levantei.
–O que eram aquelas coisas!? –Perguntei um tanto histérica.
–Capangas de Davi . Monstros das sombras. Ele já sabe que o colar está com você e que isso é uma ameaça. Não tem mais volta. Temos que partir agora.
Peguei Luke e o examinei rapidamente com os olhos.
–Você está bem?–Perguntei sem esperar uma resposta. Depois olhei para Henry. –Certo. Sem escolhas né?
Ele assentiu com a cabeça. Respirei fundo.
–Ok... Vou com você.
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