Luz Sobre o Mármore Frio "Druna"
1 Primeiro Olhar
O vapor quente escapava da locomotiva enquanto o Expresso de Hogwarts começava a se mover lentamente, rasgando o nevoeiro matinal da estação King’s Cross. O som ritmado das rodas sobre os trilhos preenchia o ar, misturado às vozes ansiosas dos estudantes e ao cheiro inconfundível de ferro quente e madeira antiga.
Luna Lovegood caminhava pelos vagões com o olhar distante e sereno. Seus passos eram leves e quase flutuantes, como se não tocasse o chão. A longa saia lilás esvoaçava suavemente, e seus cabelos dourados — despenteados como sempre — captavam a luz que entrava pelas janelas, refletindo uma aura quase etérea. Ela carregava uma mala mais volumosa do que o necessário e um exemplar de O Pasquim cuidadosamente dobrado.
A agitação nos outros compartimentos era evidente: risadas altas, vozes disputando atenção, grupos se separando em pequenos círculos. Mas Luna preferia evitar a confusão — barulho demais era um incômodo desnecessário, ainda mais neste início de ano carregado de tensões.
Buscava um lugar mais calmo, um refúgio para se acomodar e se preparar para o que viria. E foi assim que, quase por acaso, empurrou a porta entreaberta de um compartimento no fundo do vagão.
Draco Malfoy estava ali, sozinho, encostado no assento junto à janela. O rosto pálido e fechado, os olhos cinzentos frios como aço. Seu cabelo loiro, curto e impecavelmente penteado, contrastava com o olhar sombrio que lançava para fora, observando o mundo como se não quisesse participar dele.
Ao perceber a presença de Luna, Draco franziu o cenho, adquirindo uma expressão de irritação imediata.
— Você está no lugar errado, DiLua — disse ele com voz cortante, carregada de desdém.
Luna, impassível, esboçou um leve sorriso, daqueles que pareciam carregar segredos que ninguém mais entendia. Decidiu ignorar o apelido.
— Não existe lugar errado quando o trem ainda está em movimento, Malfoy. Além disso, os outros compartimentos estão lotados.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso com a resposta, mas rapidamente retomou a postura arrogante.
— Eu quero ficar sozinho. Saia daqui.
— Posso ficar em silêncio — respondeu Luna, sentando-se calmamente no banco oposto e ajeitando a saia com naturalidade. — E, de qualquer forma, realmente não há outro lugar no trem. Além disso, duvido muito que você queira ficar sozinho de verdade.
Draco a encarou com irritação e curiosidade, mas desviou o olhar para a janela.
— E por que você acha isso?
— Porque pessoas que querem realmente ficar sozinhas não olham para a porta quando alguém entra — disse Luna, com a voz calma e firme, abrindo O Pasquim na página central. — Você olhou.
O silêncio que caiu entre eles era pesado, preenchido pelo som constante do trem e pela respiração contida de Draco. Ele tentou ignorar, mas sentiu algo estranho naquela presença tão diferente de tudo que conhecia.
— Você lê esse lixo que seu pai escreve? — perguntou, mais para se distrair do que por real interesse.
— Não é lixo — disse ela, sem se ofender. — Ele fez um ótimo trabalho com a matéria sobre o Surrupio de Chifre Curvo. — Falava como se fosse algo trivial. — Diz que está em perigo de extinção, mas eu acho que ele só sabe se esconder muito bem.
Draco bufou, desdenhoso.
— Criaturas imaginárias. Seu pai é um lunático. Você também.
— Só porque você não viu algo, não quer dizer que não exista — respondeu Luna, com um brilho suave nos olhos.
A irritação dele aumentou. Ela não se ofendia, não tentava convencê-lo — apenas afirmava. E havia uma força estranha naquela certeza. Garota doida, pensou.
O trem fez uma curva leve, e a luz do sol que entrou pela janela iluminou o rosto dela, destacando os olhos claros como um lago sob o céu de inverno. Draco desviou o olhar, desconfortável.
— Por que não está com seus amigos? — perguntou, com o tom cínico de sempre.
— Harry, Rony e Hermione estão em outro vagão — disse Luna, fechando o jornal com delicadeza. — Provavelmente estão ocupados monitorando o lugar.
— E o idiota do Longbottom?
— Provavelmente em algum canto com suas plantas — respondeu Luna, sorrindo.
— Você é estranha — murmurou Draco com escárnio.
— Obrigada. Gosto de ser estranha. Acho que isso me torna uma pessoa legal — replicou ela, inclinando a cabeça com curiosidade genuína. — Mas nem todo mundo concorda.
Ele estreitou os olhos.
— Por que será, não é mesmo?
— Pois é. Gostaria de saber também. Acho que todo mundo deveria ser esquisito — disse Luna serenamente.
Antes que ele pudesse responder, a porta foi aberta com força. Pansy Parkinson entrou, o olhar carregado de reprovação ao ver Luna.
— Draco! O que está fazendo aqui com a DiLua Lovegood? Não sabe que ela é doid… — ela fez uma careta, interrompendo-se.
— Porque ela não me irritou o suficiente para eu mandar embora — respondeu Draco friamente. — Fecha a porta, Parkinson.
Pansy obedeceu, contrariada. Luna inclinou-se para Draco, com um brilho nos olhos.
— Você não precisava me defender.
— Não defendi você, DiLua — murmurou ele, quase rosnando. — Só cale a boca.
O trem seguia, o ritmo das rodas quase hipnótico. Draco voltou a olhar pela janela, mas no reflexo viu o rosto sereno de Luna, com os olhos no jornal. E, apesar de tudo, não conseguia afastar a sensação de que aquele encontro era o início de algo que não poderia controlar.
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Ao chegar a Hogwarts, a movimentação era intensa, como sempre. Corredores cheios, vozes e passos apressados. Luna caminhava com sua tranquilidade sonhadora, carregando a leveza que sempre a caracterizava.
Logo encontrou Gina Weasley, sua melhor amiga, que a aguardava perto do Salão Principal com um sorriso aberto.
— Olá, Luna — disse Gina, abraçando-a. — Já encontrou as coisas que perdeu no trem?
— Mais ou menos — respondeu Luna, sorrindo. — Encontrei um dos meus livros perto do compartimento do Draco Malfoy, então terminei a viagem com ele e com a amiga dele, Pansy Parkinson.
Gina arqueou as sobrancelhas, surpresa e irritada, mas manteve a calma.
— Malfoy foi mau com você? E a ridícula da Parkinson?
— Ele foi um tanto mal-educado, como sempre, mas passou a maior parte do tempo olhando pela janela — disse Luna. — Pansy foi um pouco malvada, mas eu não me deixei abalar.
Gina apertou a mão da amiga, olhando ao redor.
— Seja cuidadosa, Luna. Se precisar, sabe que eu sou capaz de azarar aquele imbecil. Ou qualquer um que foi idiota com você.
— Sei — respondeu Luna. — Não se preocupe, Gina.
Mais tarde, nos corredores, Luna cruzou com Harry, Rony e Hermione. A amizade entre eles era natural, cheia de cumplicidade.
Draco, por outro lado, mantinha-se distante, rígido e isolado. Mas algo naquele breve encontro no trem havia plantado uma semente incômoda que nenhum dos dois queria admitir.
E Hogwarts, com seus corredores misteriosos e segredos antigos, seria o cenário onde essa história proibida começaria a se desenrolar — entre luz e sombra, entre o que pode ser dito e o que precisa ser guardado.
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