Luz Sobre o Mármore Frio "Druna"
2 Poções e Impaciência
O dia seguinte chegou com o céu encoberto e o vento frio se infiltrando pelas frestas das janelas de Hogwarts. O Salão Principal estava cheio do burburinho habitual do café da manhã: o tilintar de talheres, o bater de copos, o murmúrio das conversas e o ocasional gargalhar vindo da mesa da Lufa-Lufa.
Luna estava sentada ao lado de Gina na mesa da Grifinória, distraidamente enchendo seu prato com torradas enquanto explicava à amiga sobre um artigo que lera no O Pasquim naquela manhã.
— Então, eles dizem que as Cabeças de Neblina estão ficando mais ativas por causa das mudanças na pressão atmosférica… — comentou Luna, com o olhar distante.
Gina, já acostumada, apenas assentiu, mordendo uma maçã.
— Cabeças de Neblina… certo. Isso é perigoso?
— Só para quem não acredita nelas — respondeu Luna, dando uma pequena mordida na torrada e olhando para o teto, onde as nuvens projetadas se moviam lentamente.
Do outro lado do Salão, Draco Malfoy observava a cena com um misto de tédio e irritação. O simples jeito como Luna parecia imune ao mundo ao redor o incomodava. Ele não entendia como alguém conseguia andar pelos corredores de Hogwarts com aquele ar distraído e ainda não tropeçar em si mesmo.
Quando o café terminou, as turmas começaram a se dispersar para as aulas. Luna e Gina desceram juntas para o porão onde ficava a sala de Poções, onde, infelizmente, teriam que trabalhar junto com as turmas do sexto ano. As duas meninas não sabiam muito bem o motivo disso; Hermione havia explicado em algum momento naquela manhã enquanto tomavam café, mas nenhuma das duas havia prestado atenção no falatório matinal da amiga.
Nas masmorras, sempre era mais frio e úmido, e o cheiro de ingredientes armazenados se misturava ao de fumaça que escapava das caldeiras e ao mofo das paredes de pedra, tornando tudo meio enjoativo.
O professor Snape já estava à frente da classe, sua expressão habitual de desdém mais acentuada do que o normal. Seu olhar percorreu a sala e pousou sobre Luna com uma pequena contração nos cantos dos lábios — o mais próximo que chegava de um suspiro de exasperação. Mas, mesmo assim, havia algo no professor que fazia Luna, de alguma forma, sentir certo afeto por ele. Talvez fosse o tanto de zonzóbulos que giravam em torno da cabeça dele, ou talvez a sutil coloração de sua aura. Luna não sabia muito bem o motivo.
— Abram os livros na página 213. Hoje, faremos a Poção Revigorante — disse Snape, sua voz cortando o ar como uma lâmina. — E, como alguns de vocês insistem em desperdiçar ingredientes, vamos trabalhar em pares.
Um murmúrio percorreu a sala.
— Potter, com Weasley. Parkinson, com Zabini. Lovegood… — Snape fez uma pausa, e o olhar de Luna encontrou o dele sem qualquer sinal de inquietação. — Com Malfoy.
Draco se endireitou na cadeira, incrédulo. Estava distraído ao fundo da sala, conversando com Crabbe e Goyle.
— O quê?
Snape arqueou uma sobrancelha.
— Algum problema, Sr. Malfoy?
Draco fechou a boca e bufou, pegando seus livros e caldeirão para se deslocar até a mesa de Luna.
— Ótimo — murmurou ele, pousando os materiais com mais força do que o necessário. — Isso vai ser… maravilhoso.
Luna sorriu serenamente, sem ao menos perceber a expressão enojada que o loiro lhe lançava.
— Acho que vai ser, sim.
Ele a encarou como se ela tivesse acabado de dizer que o sol nascia no oeste.
— Você realmente tem algum problema, não é? — Draco abriu o livro e começou a ler as instruções, sem esperar por uma resposta. — Vamos deixar claro: você só mexe nos ingredientes quando eu disser. Não quero que coloque alguma coisa absurda aí dentro, tipo… sei lá… suco de abóbora ou asas de fada.
— Asas de fada podem ser úteis em certas poções — disse Luna, ainda sorrindo. — Mas não nessa, é claro. Você prefere cortar as raízes ou mexer a poção?
— Eu prefiro que você não fale comigo, DiLua.
Luna não se ofendeu. Apenas inclinou a cabeça levemente, como se estivesse analisando uma criatura rara que encontrou na floresta.
— Você tem medo de errar a poção? — perguntou com genuína curiosidade.
— Medo? — Draco soltou uma risada curta e arrogante. — Eu sou o melhor dessa sala. E não preciso de você me atrapalhando.
Draco revirou os olhos e começou a cortar as folhas de asfódelo. Ele trabalhou rápido e com precisão, mas, cada vez que olhava para o lado, Luna estava mexendo o caldeirão no sentido oposto ao indicado ou observando o teto como se esperasse que algo interessante acontecesse ali.
— Está mexendo no sentido errado! — ele exclamou, quase derrubando a faca.
— Ah, desculpe. É que senti que a poção queria girar assim — respondeu Luna, calmamente corrigindo o movimento.
— A poção queria? — Draco arfou, incrédulo. — Você conversa com líquidos agora?
— Só quando eles respondem.
Ele respirou fundo, decidido a não enlouquecer antes do fim da aula. Mas, à medida que trabalhavam, algo nele começou a notar detalhes estranhos. Luna não errava na quantidade de ingredientes, apesar de sua aparente distração. Cada corte dela era exato, e cada movimento no caldeirão parecia fluir com uma naturalidade que Draco não conseguia imitar, por mais prática que tivesse.
A poção, curiosamente, começou a ganhar a coloração esmeralda perfeita muito antes do tempo previsto.
Snape passou pelas mesas, inspecionando os trabalhos. Quando olhou para a deles, seus olhos se estreitaram, mas ele não disse nada — apenas fez um aceno mínimo de aprovação antes de seguir adiante.
Draco franziu o cenho, ainda mexendo a poção.
— Não sei como você fez isso.
— Eu só escutei o que ela tinha a dizer — respondeu Luna, lavando calmamente as mãos.
Draco, impaciente, tentou acelerar o processo, acrescentando a raiz triturada antes da hora.
— Não! — Luna segurou a mão dele. Foi um gesto rápido, mas Draco congelou por um segundo. — Tem que esperar o vapor ficar azul-claro. Se colocar agora, vai estragar tudo.
Ele a encarou, surpreso por alguém ter ousado tocá-lo daquela forma. Mas não havia malícia no olhar dela, apenas uma confiança tranquila.
— Não toque em mim, sua sujeitinha esquisita — falou entre dentes, afastando-se do toque. Luna apenas deu de ombros.
— E como você sabe disso? — perguntou, quase desafiando, o rosto pálido torcido em um ar de repulsa.
— Li no Guia Prático de Poções para Estados Emocionais. É um bom livro. Tem desenhos muito bonitos — ela sorriu levemente.
Draco bufou, mas recuou, cruzando os braços.
— Faça do seu jeito, então.
No fundo da sala, Gina, que tinha terminado sua própria poção com Hermione, observava a dupla com curiosidade. Ela não conseguia ouvir o que diziam, mas ver Draco Malfoy e Luna Lovegood dividindo um caldeirão era uma cena que, por si só, parecia saída de um sonho maluco.
Quando a aula terminou, Snape mandou todos limparem a bancada. Draco rapidamente guardou suas coisas, ansioso para se afastar.
— Foi… tolerável — disse ele, como se a palavra lhe causasse dor.
— Fico feliz — respondeu Luna, sorrindo. — Acho que podemos ser bons parceiros, se quisermos.
Ele deu uma risada curta e sem humor.
— Não crie expectativas, DiLua Lovegood.
E saiu da sala antes que ela pudesse responder.
Luna ficou observando a porta por um momento, depois pegou seu livro e seguiu para o corredor, onde Gina já a esperava.
— O que foi aquilo? — perguntou Gina, arqueando uma sobrancelha.
— Aula de Poções — disse Luna, como se fosse óbvio. — Foi divertida.
Gina a olhou por um segundo mais longo do que o necessário.
— Hum… se você diz. Aquele cara de fuinha não te distratou, né?
— O de sempre, mas não ligo para isso, Gina.
Gina bufou indignada. Achava inaceitável o jeito que os colegas tratavam Luna, e pior: ficava ainda mais revoltada por a amiga simplesmente não se ofender.
As duas seguiram juntas pelos corredores, mas, mesmo enquanto conversavam, Luna sentia uma estranha mistura de irritação e curiosidade sobre Draco Malfoy. E, embora não admitisse para ninguém, Draco também saíra da aula pensando nela — com raiva, claro, mas pensando.
Nos corredores silenciosos do porão, um frasco esquecido de asfódelo ainda exalava um leve aroma adocicado, como se guardasse o eco de uma conversa que, por mais improvável que fosse, estava apenas começando.
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