Lupos

1 "Fim de Mundo"


–Odeio lugares novos.

Menti para minha mãe pelo décima vez, quando finalmente chegamos à cidade que resolvi batizar de "Fim de Mundo", desde que soube da mudança.

–Vamos lá, Dakota!–mamãe tentou me animar– Aqui não é tão fim de mundo assim. Você vai aprender a gostar.

A verdade é que eu sempre gostei de viajar, para todo tipo de lugar, de praias até fazendas. Mas nunca tinha me mudado para outra cidade e sabia que não ia gostar da experiência.

Estava fazendo aquilo pela minha mãe. Desde que meu pai se fôra a alguns anos ela não aguentava mais nossa casa e nem o resto da cidade. Aqui ela também receberia mais, ajudando-a a nos criar sozinha. Com "nos" me refiro a mim e a meu irmão Jason, de oito anos, enquanto eu tenho quinze.

A cidade era pequena e aconchegante, com calçadas de pedra e várias casas lojas. A rua estava completamente vazia, mesmo que ainda fossem sete horas da noite.

–Estão todos em uma festa naquela praça ali.–disse minha mãe apontando para um anúncio da festa pregado em um muro.–Vamos chegar em casa agora, se quiser vir aqui depois de se instalar, pode.–falou, tentando me agradar.

–Posso vir também mãe?–perguntou Jason, acordando.

–Você é muito novo e está morto de sono. Desculpe, querido, você não pode.– respondi por ela, já que sei que ela odeio negar as coisas a nós.

Ele me olhou com aquela cara de cachorrinho que caiu do caminhão da mudança, derretendo-me. Sempre gostei do meu irmão e sou excessivamente carinhosa com ele, mas não ia ceder.

–Não!–tampei seus olhos de brincadeira– Agora durma, amanhã eu saio com você.

Não demorou para chegarmos à grande casa. Ela era de madeira clara, com uma varanda na frente e outra nos quartos do andar de cima., as paredes eram cortadas por vidraças que permitiam entrada de luz pra a vasta sala de estar. Subi as escadas e meu quarto já estava meio pronto com as coisas que vinheram no caminhão da mudança, faltando apenas as roupas, meu notebook e meus livros. A varanda vinha do meu quarto e do corredor, que no fim dava na varanda, fui para lá e vi a rua com mais a frente a casa de nossos vizinhos, para rás havia uma bela vista, mesmo de noite, com um vale, montanhas e um lago mais ao fundo, refletindo a luz a lua cheia.

Tomei um banho quente e me vesti. Pus um vestido preto que realçava meu cabelo ruivo que descia até a cintura e uma bota preta de cano longo, sem deixar nada de minha perna a mostra. Saí do quarto, indo em direção a porta.

–Lembra como chegar lá? E melhor eu ir te deixar lá, não é?–perguntou minha mãe assim que me viu. Ela já devia ter se arrependido.–Vai saber voltar? E se você se perder? E...

–Mãe!–interrompi a onda de perguntas– Essa cidade é pequena, é impossível que eu me perca! Não se preocupe, sei como pedir informação, aqui pode ser o fim do mundo mas devem falar a mesma língua que nós. Alem do mais, quero andar um pouco, não precisa e me deixar.

Ela hesitou um pouco, sem saber mais como protestar.

Abriu a boca para uma última tentativa e, como eu sabia o que era, respondi logo.

–Não, mãe. eu não vou levar o Jason!

–Peguntar não ofende!–retrucou– Tudo bem. Tome cuidado, não saia com estranhos, não beba nada que não saiba o que é...bem, você sabe o reto do discurso. Boa sorte.

Me beijou na testa e acenou para que eu saísse, abracei-a e fui embora.

A rua era iluminada apenas com as luzes alaranjadas dos postes, o que era estranho para mim que era acostumada com faróis de carros iluminando tudo. Mesmo ao longe eu podia ouvir música e vozes de conversas paralelas. Mas algumas vozes estavam muito altas e...próximas.

Foi aí que vi três garotos vindo em minha direção. Eles não pareciam animados, até que me viram, seus olhos eram ferozes e pareciam zangados, deviam ter cerca de dezoito anos. Agradeci a Deus por não ter levado Jason, ele já estaria chorando um horas dessas..

Virei na primeira rua que apareceu e, no final dela, havia uma livraria aberta (o que era estranho uma hora daquelas), se ela não tivesse parecido eu á teria ligado para minha mãe. A livraria fechava a rua, deixando saídas para a direita e esquerda, então ela ficava bem destacada.

Quando estava perto olhei de canto de olho para trás e os garotos haviam parado, de longe eu só podia ver o reflexo de um sorriso por baixo de um capuz, o que me fez acelerar o passo.

Entrei e fui atingida pelo vento gelado e o cheiro de livros. Fui para a parte onde ficavam os do gênero ficção, meus favoritos, escolhi um e já ia me sentar em uma das poltronas para ler quando...

–Droga!–xinguei mais alguns nomes enquanto analisava minha roupa. Merda! Estava com cheiro de café forte, a mancha escondida pelo tecido.

–Desculpe.–uma voz séria pediu, enquanto seu dono estendeu a mão para me ajudar a levantar.–Eu não estava prestando atenção...

–Tudo bem eu...–comecei, mas foi aí que finalmente olhei para ele.

Ele era completamente lindo, mesmo com características um tanto comuns, tirando pelos seus olhos, que eram de um tom castanho muito claro, quase amarelos, que brilhavam em contraste com o cabelo preto como carvão. Usava um casaco de capuz (que abaixou quando esbarrou em mim), uma calça preta, um par de fones (que também tirou para me ajudar) e um tênis marrom escuro. Parecia incrivelmente forte e era quase uma cabeça mais alto do que eu. Ele me olhava de um jeito estranho, com as bochechas coradas ou pelo frio ou pela vergonha, e lembrei que eu não tinha terminado o que estava dizendo.

–Eu sinto muito, foi minha culpa, eu não estava olhando para frente. e estou bem, não se preocupe.–Meu Deus, eu estava me enrolando completamente–Sou Dakota.

–Ryan.–apresentou-se, sorridente.–e sua sorte é que esse café estava frio. Pega.–me passou alguns guardanapos e limpei meu vestido o máximo possível.–Nunca tinha te visto antes, Dakota.

–Ah, eu me mudei para cá agora, tipo realmente agora, para uma casa nessa rua... –apontei, já que não sabia o nome da rua.

–Então você é a nova vizinha. Moro na casa em frente.–o encarei por uns instantes–É uma cidade pequena, sabemos quando alguém se muda para cá. Principalmente quando se mudam para a casa onde uma família inteira foi morta por um assassino misterioso...–arregalei os olhos, quase caindo de novo.–Calma, é brincadeira! Estrangeiros e as coisas em que acreditam.– falou quase se engasgando de tanto rir.

Empurrei levemente seu braço, sem acreditar e suspirando de alívio.

–Você quase me matou! Eu ia chegar em casa gritando para ir embora!

Ele abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas foi interrompido.

–Vamos Ryan?!–uma garota, tão bonita quanto ele, chamou. Tinha o mesmo cabelo escuro e olhos quase dourados, ela era da mesma altura que eu, diferente dele, que era mais alto.–Quem é essa?–perguntou, sorrindo simpática.

–Nossa nova vizinha, Dakota. E essa é minha irmã, mas como pode ver a beleza da família veio toda para mim.–ela o empurrou, diferente de mim o dela pareceu bem mais forte.

–Sou Rebekah, prazer em conhecê-la. Vocês chegaram hoje, não é?

Assinto.

–Na verdade foi a alguns minutos atrás.

Ela sorriu, parecia ser legal, embora tivesse a aparência perfeita para ser uma patricinha. Mas felizmente não era.

–Se quiser posso te mostrar toda a cidade amanhã, já que as aulas já vão começar e...O que houve com sua roupa?–perguntou vendo o estado de meu vestido.

Olhei para o lado e ela seguiu meu olhar até seu irmão, levantando uma sobrancelha.

–Ok, ok, podemos ignorar esse ponto.–ele falou, fazendo ela bufar.–Pode ir na frente, Bekah, já vou indo.– se despediu e ela saiu, balançando negativamente a cabeça.–A rua não é muito segura a essa hora, todos estão naquela festa idiota. Vou acompanhar você até sua casa, em troca pelo que fiz com seu vestido. Isso é...se você for agora...se quiser ficar aqui mais um tempo...

–Não, já vou agora, vamos.–interrompi. u não conseguiria ler com cheiro e molhada de café. Saímos da livraria rumo a nossas casas.–Se a rua é tão perigosa assim a essa hora, por que mandou sua irmã ir na frente sozinha?

Ele abriu a boca, mas a fechou, hesitando, depois falou.

–Minha irmã sempre foi boa em se virar sozinha. Ela fez até karatê quando tinha sete anos, chegou até a faixa...rosa?–parecia não ter certeza.

–Acho que não existe uma faixa rosa.–pensei alto e nós dois rimos.

–Como eu disse, ela sabe se virar, até mesmo para criar uma nova cor de faixa.–um silêncio desconfortável se seguiu, até que ele notou que eu estava tremendo, nem eu notei.–Toma meu casaco, pode devolver para Rebekah amanhã, tenho certeza de que ela estará em sua porta às nove da manhã e só posso dizer uma coisa:–aproximou seu rosto do meu para sussurrar em meu ouvido– Boa sorte.

Quando vi já estávamos em frente à nossas casas. Ele caminhou rápido e silenciosamente em direção a sua, apenas acenando sem olhar para trás.

Eu não notei que estava sorrindo até entrar em casa.

–O que aconteceu?–minha mãe quase gritou ao ver o estado de minha roupa, quantas pessoas perguntariam até o fim da noite?–E que sorriso é esse? Quer saber, amanhã você responde, é bom descansar já que amanhã você vai passar o dia fora.

O que?

–Como assim?

– A vizinha passou aqui, disse que vocês vão sair amanhã.–falou meu irmão, aparecendo no topo da escada, ainda de pijama e com a cara amassada.–Mas ela também não quer me levar!

Nossa, Ryan estava certo.

–Então eu vou apenas tomar um banho e ir dormir. Boa noite mãe. Vai dormir também, Jason.

Subo as escadas direto para o banheiro e encaro meu sorriso bobo no espelho.

Amanhã seria um dia longo. Parece que, no fim, a cidade pequena não seria tão "fim do mundo".

Notas finais
E aí, gostaram?? Por favor sejam legais comigo, mas não deixem de falar em que posso melhorar. Até o próximo cap. ;)