Acordei feliz. Finalmente os dias de sol chegaram. Pelo que diz nas notícias é melhor aproveitar esta semana porque depois o sol irá desaparecer outra vez. No céu mal havia nuvens e estava de um azul muito claro.

Hoje é sábado, levantei-me só há hora de almoço.

– Bom dia – disse o meu pai quando me sentei à mesa para almoçar.

Porque é que o meu pai estava ali novamente? Ele não trabalha agora? Ainda há pouco tempo mal o via, ou passava quase a semana inteira sem o ver, e agora, já faz uns quatro dias que não vai trabalhar.

– O que se passa pai? – perguntei.

Eu tinha de perguntar. Não lhe ia dizer que o vi beber, ou que o segui. Mas tinha de saber se ele foi despedido, tinha de saber o que se passava.

– Porquê? – perguntou John.

Dava para ver no olhar dele que ele sabia do que eu estava a falar, mas ele não queria dar-me o braço a torcer.

– Porque é que estás em casa? Não devias estar a trabalhar? – perguntei.

– Pois é pai, também tenho notado que há uns dias que não trabalhas – disse Caleb.

Amy não conseguiu esconder a sua cara de tristeza. John suspirou fundo e depois disse:

– Eu fui despedido.

– O que aconteceu? – perguntei.

– Nada que eu tenha feito. Simplesmente o hospital está a deixar de ter dinheiro para pagar todos os salários e tiveram de despedir algumas pessoas – disse John.

Ele estava a mentir. A minha mãe sabia, mas não disse a verdade. Talvez tenham concordado a mentir para que não saibamos de algo que aconteceu com o meu pai.

John trabalha naquele hospital há quase quinze anos, acho que não o iriam despedir assim, ele é um dos melhores médicos de lá. Ele sempre se gabou disso, ele sempre amou fazer o que faz. Curar pessoas, salvar vidas.

– O comer está bom? – perguntou a minha mãe para mudar de assunto.

– Sim, como sempre – disse John dando um sorriso falso.

As olheiras do meu pai estavam cada vez mais negras. Há muito tempo não via o meu pai andar pela casa de pijama, ele sempre veste um fato, mesmo nos dias de folga. Sempre gostou de andar arranjado, mas hoje, ele estava de pijama.

A última vez que o meu pai ficou de pijama o dia todo foi quando apanhou uma gripe. E até nesse dia ele cria se vestir, ir trabalhar, mas é claro que a minha mãe não deixou, ele iria contagiar os seus pacientes.

Talvez ele só tenha bebido daquela vez. Talvez, não aconteça mais. Ele fê-lo porque foi despedido, e estava mal com isso naquele momento. Não quer dizer que ele agora seja alcoólico. Espero que daqui a uns dias ele esteja melhor, e com um ar melhor.

– Vais sair hoje? – perguntou Amy.

– Acho que não, porquê? – perguntei.

– Eu e o teu pai vamos sair os dois, há muito que não o fazemos. É para tomares conta do Caleb.

– Eu já não sou bebé posso cuidar de mim – disse Caleb.

– Sim, sim – disse – ainda só há pouco tempo aprendeste a atar os sapatos.

– É mentira, eu já sei há muito, só te pedi porque não me apetecia abaixar.

– Podem ir divertir-se eu fico com o Caleb – disse.

– Ok, eu vou-me vestir – disse John levantando-se da mesa.

A minha mãe levantou-se e ia a pegar nos pratos mas eu impedia:

– Deixa estar, eu levanto a mesa.

– Ok, eu vou acabar de me arranjar – disse Amy dando-me um beijinho na testa, subindo as escadas depois.

Levantei a mesa e coloquei a loiça suja na máquina de lavar. Como não cabia lá toda, tive de lavar alguma à mão. Quando acabei de o fazer, John e Amy desceram as escadas prontos para sair.

– Portem-se bem – disse a minha mãe.

– Não te preocupes – disse.

– Nós voltamos ainda antes da hora do jantar – disse John – até logo.

– Até logo – disse eu e Caleb em coro.

John e Amy saíram de casa. Caleb foi para o seu quarto e eu sentei-me no sofá da sala a ver televisão. Passou-se um pouco quando recebi uma mensagem da Lauren, «O Jake convidou-me para sair hoje à noite, estou super nervosa, deseja-me sorte». Respondi, «Calma, vai correr tudo bem, boa sorte».

Jake e Lauren estavam a dar-se muito bem, acho que aquilo vai dar em alguma coisa.