Eram horas de jantar e Amy e John ainda não tinham chegado do seu passeio. Tentei ligar à minha mãe, mas o seu telemóvel está desligado.

– Eles devem estar a chegar – disse Caleb sentado ao meu lado no sofá da sala.

Esperei mais uns minutos e tentei ligar-lhe mais uma vez. Telemóvel desligado.

– Tenho fome – disse Caleb.

– Pois… eles disseram que estavam cá à hora de jantar.

– Podíamos ir jantando sem eles, quando eles chegarem comem – disse Caleb.

– Ok, vamos ver o que há no frigorífico.

Fomos até à cozinha e abri o frigorífico. Por acaso havia comida já feita de ontem, era só aquecer e comer. Coloquei comida para mim e para Caleb no micro-ondas e enquanto aquecia pus a mesa.

Jantamos e ainda nenhuma noticia. Mas onde é que eles estão? Será que aconteceu alguma coisa?

– Eles devem estar a divertir-se tanto que perderam a noção do tempo, eles já vêm – disse Caleb.

– Talvez tenhas razão.

Arrumei a cozinha e voltei para a frente da televisão na sala. Passava um pouco das dez quando finalmente alguém entrou em casa. Levantei-me do sofá e fui ver quem era.

– O pai? – perguntei ao ver que a minha mãe entrava sozinha.

– O teu pai teve de ficar no hospital – disse a minha mãe quase a chorar.

– Teve de ficar no hospital? Como assim?

– Há uma coisa que deves saber – disse Amy.

Caleb veio ter connosco à entrada de casa.

– Finalmente! Já jantámos e tudo! O pai?

– Vamos sentar-nos na sala – disse Amy.

Obedecemos. Apaguei a televisão para que pudéssemos ouvir sem distrações.

– O vosso pai não foi despedido por falta de dinheiro para lhe pagar. Ele foi despedido porque descobriram que ele é alcoólico.

– O pai é alcoólico? – disse Caleb.

– Sim. Ele já é há alguns anos, mas nunca bebeu tanto como agora – disse Amy – os médicos dizem que ele deve ter começado a beber mais porque deve ter feito alguma coisa que ele tem medo que saibam, e como ele quer esquecer o que fez, ele bebe.

– Mas o que é que ele fez? – perguntei.

– Não sei – disse Amy.

– Então, o pai vai ficar no hospital? – perguntou Caleb.

– Sim, pelo menos uns dias – disse Amy.

– Então, vocês não foram passear hoje? – perguntei.

– Não, o pai tinha uma consulta marcada no médico, e como ia demorar algum tempo, e como não era para vos conta já, inventámos essa desculpa.

– Porque é que não nos contas-te logo? – perguntou Caleb.

– Então, mas não era só uma consulta? Porque é que ele vai ficar lá? – perguntei.

– Ele vai ficar lá porque a situação é pior do que eu pensava. O álcool está a destruir o seu corpo por dentro. E eu não vos contei logo porque não sabia como iam reagir.

– O que lhe vai acontecer? – perguntou Caleb.

– Ele vai fazer mais exames para verem o seu corpo por dentro, ver o que está a acontecer e depois dar-nos-ão noticias.

– Pode ser algo grave? – perguntei.

– Acho que deve de ser – disse Amy a limpar as lágrimas.

Nunca vi a minha mãe chorar. Eu sentia uma dor tão grande no peito ao vê-la fazê-lo. Caleb também já tinha lágrimas nos olhos, mas subiu as escadas para o seu quarto para ninguém ver. Eu abracei a minha mãe.

Quando esta se acalmou, levei-a até ao seu quarto e ficou a dormir na sua cama. De seguida fui para o meu quarto e deitei-me na minha cama. Os pensamentos enchiam a minha cabeça. O que terá feito o meu pai para estar assim?

Lágrimas começaram a cair pelo meu rosto. A minha garganta doía, como se um nó a aperta-se. Acabei por adormecer minutos depois.