Lucy & Emma
1 Meus Queridos Sentimentos
Notas iniciais
Um bom rapaz;
Era assim que meus pais me definiam.
No final do mês passado, exatamente no dia 31 de Outubro de 1933; ou respectivamente ontem; recebo a pior noticia já existente; a qual mudou a minha vida para sempre.
Meu pai falecera.
James Willians; um bom soldado militar; um bom marido, e um pai. Agora com sua vida esvaída por uma simples bala que percorrera seu coração de pedra.
(...)
Era para eu estar em prantos nesta hora; ou ao menos triste, ressentido com sua perda. Porém tudo o que sentia era a completa raiva que me consumia por dentro, retirando tudo o que um dia houve de bom ali. Se é que houve um dia em que eu teria sido completamente tomado por uma felicidade intensa.
Mas existia somente a raiva; a pior de todas as raivas que senti na vida.
Raiva por ele ter morrido.
Raiva por ter perdido meu futuro; ou por ele nunca mais ser o mesmo.
Raiva e furor por nunca ter sido tratado como filho, pelo meu pai.
E a pior de todas;
Raiva por que sei que não irei sentir tanta falta dele quanto deveria.
(...)
É quando noto que todos os que permaneciam no cemitério, em volta do túmulo de James; estavam se retirando. Um tanto sentidos, e escondendo o corpo da chuva com seus guarda-chuvas pretos. Todos de vestes pretas, inclusive eu.
–Venha querido. — indaga Clara; minha ama.
Ela estava com seu chapéu mais volumoso; um preto barrotado de penas e enfeites desnecessários. Juntamente ao seu vestido de luto. Suas rugas se envergaram enquanto tentava sorrir, e demonstrar qualquer tipo de conforto para minha pessoa. Porém ninguém sabia. Eu não precisava disso. Somente olhava profundamente para aqueles olhos inchados pequenos e azuis cheio de lágrimas; as quais se estendiam até os pés de galinha laterais.
–Ande querido Thomas. — ela insistia após notar reação nenhuma de minha parte.
–Prefiro ficar aqui mais um pouco, se não se incomoda. — tento sorrir; porém percebo não me saio muito bem após notar o olhar que recebo em troca.
–Claro que não; fique o quanto precisar. — ela responde se afastando lentamente, lavando consigo o guarda-chuva que cobria nos dois; e eu acento. — Somente não demore tanto está bem? Parece que esta chuva irá demorar à passar...
–Serei breve. — tento sorrir novamente.
E ela se vira. Todos se viram.
Eu estava só.
(...)
Olho para o chão; a grama molhada era como um alívio para mim. Perceber o quão resistente ela era; suportava tudo e nem sequer saia do lugar.
Então fico em frente à lápide do meu pai; onde estava escrito: James Arthur Willians, 1884-1933.
Se não sentisse saudades dele; pelo menos saberia que o mesmo não existia mais, ao notar o que as pessoas dizem ao referir-se à ele. Elas não diriam mais: "Olha só, como este se parece com o pai!", mas sim: "Olha só, como este se parecia com o pai..."
(...)
Cansado de tentar encontrar uma lembrança que me faria recordar dele; eu me viro e saio. Seguindo para um caminho diferente, que nem eu mesmo saberia se estivesse em condições normais. Tomado pela tremenda chuva que caia gelada sobre mim.
O que seria da vida agora? Por mais normal que fosse parecer para mim.
A questão era exatamente essa; seria normal apenas para mim.
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