Luar do Leblon
1 1. Novos ares
Eu definitivamente me perco no meio de tantas caixas, só faz uma semana que me mudei e está tudo uma bagunça. Há algumas semanas atrás meu pai recebeu uma proposta no antigo trabalho em São Paulo, para trabalhar na mesma firma, só que no Rio de Janeiro. Entendo ele ter aceitado, o salário é ótimo e o efetivaram. A parte ruim são os amigos que eu deixei por lá, a parte boa são as lembranças, a parte horrível das lembranças é a saudade.
Uma mudança e tanto.
Mas estou feliz por estar de volta depois de sete anos, a cidade é linda e encantadora, as praias são maravilhosas tanto quanto eu me lembrava, e é quase impossível me imaginar incomodada com algo, a não ser pelo calor que é de matar. Acabo rindo sozinha enquanto termino de arrumar mais peças de roupa no guarda roupa.
Sara: Porque não arruma tudo amanhã? – Disse minha mãe parada na porta olhando para as caixas. – Está tarde, aconselho você a dormir já que amanhã é o seu primeiro dia de aula. – Ajeitou o cesto de roupa em seus braços e saiu.
Marina: Tem razão, boa noite. – Eu respondi baixo, já pensando em como recomeços assustam.
Minha única incerteza é não ter a certeza de que vamos ficar aqui. Eu nunca consigo me acostumar. As promoções estão sempre rodeando minha família, atualmente somos três, minha mãe, meu pai e eu. As camas mudam, o travesseiro muda... Até os cobertores. Uns mais quentes que outros.
Fui até a janela do meu quarto e dei uma breve olhada no mar, que no instante, estava calmo. Ainda tinha algumas pessoas pela orla, e são os tipos de pessoas que minha mãe diria para eu me manter longe. Resolvi ir dormir e esperar o amanhã, quando eu finalmente conheceria meus maravilhosos e simpáticos amigos do Ensino médio.
________________________________________________________________
Marina: Fala sério, mãe. Vai mesmo me levar até a escola? – Perguntei enquanto pegava meu suco de caixinha na geladeira.
Sara: E porque não? – Sorriu – Vai se arrumar. E penteia esse cabelo pelo amor de Deus.
Enfiei o canudinho dentro da caixinha e saí rindo da cozinha. Acordei cedo hoje, quer dizer, meia hora antes do que deveria. Tomei banho, mas a preguiça me impediu de lavar o cabelo. Terminei meu suco, jogando rapidamente a caixinha no lixo. Diferente das outras garotas, sou bem rápida no quesito “me arrumar”, já que escolher uma calça jeans e colocar o tênis não é tão difícil. Vesti a camisa da escola, reparando bem no bordado “Elite” em um pequeno círculo localizado em cima do meu seio direito. Ótimo, manga e gola V. Um calor dos infernos lá fora e a blusa é de manga. Qual é o problema desse lugar? Balancei a cabeça negativamente enquanto colocava todo o meu cabelo pra trás fazendo um coque frouxo, coloquei minha franja atrás da orelha e sorri para a minha pálida imagem no espelho. Quem é que precisa de maquiagem? Eu só preciso de sol.
Peguei minha mochila azul, saí do quarto e com um pouco de pressa, tentei chegar até a porta sem que minha mãe me visse. Não funcionou.
Sara: Eu já disse que vou te levar, sem trapacear Marina.
Blá blá blá.
Passamos pelo corredor e enquanto esperávamos o elevador, resolvi abusar um pouco da minha comodidade.
Marina: Mãe, você não acha que já tá na hora de me dar um carro? Você sabe que eu sou responsável. – Eu disse enquanto entravamos no elevador. Minha mãe apertou o botão para o estacionamento e me olhou.
Sara: Claro que é. Pra acontecer o mesmo que aconteceu em Floripa? Não confio no seu sensor volátil.
(Eu só tentei estacionar depois de umas cervejas e acabei batendo na traseira de um carro. Que bateu em outro, e o outro bateu em outro e assim sucessivamente).
Marina: Mãe, eu estava sobre o efeito de bebidas. – Saímos do elevador e andamos até o carro, abri a porta do mesmo e sentei no banco do carona, e esperei que ela entrasse também.
Sara: Bebidas as quais você não estava autorizada para ingerir. – Disse ela, colocando o cinto de segurança e começando a dirigir.
Marina: Eu tenho 17 anos, não 10. Você e o meu pai precisam parar de me tratar como se eu fosse de vidro. – Cruzei os braços em baixo do peito, e continuei – Eu quero um carro.
Sara: Mais tarde eu resolvo isso com seu pai, agora desembucha essa cara que assim ninguém vai nem chegar perto de você. – Sorriu e eu acabei sorrindo junto, desviando meu olhar para o lugar que se passava por mim. Um sol de rachar, uma orla bem movimentada e o mar agitado. Pessoas correndo, outras de skate e vários de bicicleta. Eu amo o Leblon.
Acabei descobrindo que meu colégio fica a duas quadras do condomínio, na rua de trás.
Marina: Preciso questionar seu exagero?
Sara: Receio que não. – Rimos, ela parou o carro e olhamos juntas para a escola. – Boa sorte.
Marina: Valeu mãe. – Abri a porta do carro e saí, batendo a mesma, comecei a caminhar devagar em direção à escola e olhando em volta, me dei conta de que eu era a pessoa mais transparente no meio de todas aquelas pessoas bronzeadas. Eu definitivamente preciso de sol. Joguei a mochila nas costas e continuei caminhando, até avistar a secretaria.
Indo para a secretaria, pude ver que tinha uma menina batendo em um menino de casaco e boné. Casaco? Sério? Eu to aqui quase tirando essa blusa de manga e o garoto tá de casaco. Todo mundo olhava, mas ninguém se metia, tentei não ser a intrometida, mas a vontade foi maior que eu. Se alguém da diretoria pega aqueles dois daquele jeito, não ia ser bom. Cheguei bem perto, segurando a menina por trás, acabei prendendo seus braços com um pouco de força a mais do que deveria.
Marina: Seja lá o motivo da briga, será que vocês podem resolver depois? Alguém pode fazer fofoca na diretoria. – A menina soltou os braços e se virou pra me olhar. Ela me analisou de cima a baixo e de repente resolveu que eu era a melhor pessoa pra ela gritar.
...: O PROBLEMA É QUE EU AVISEI PRA ELE, CARA! AVISEI QUE NÃO QUERO ELE FICANDO COM ESSAS VAGABUNDAS QUE SÓ QUEREM SE APROVEITAR DA IMAGEM DELE . – Eu olhei pra frente afim de ver a reação do garoto mas ele tinha sumido.
Marina: Eu achei que ele fosse seu namorado.
...: TÁ LOUCA? ELE É O MEU MELHOR AMIGO, MAS NÃO DÁ PRA ATURAR ESSAS FURADAS DELE.
Marina: Tá ok, se acalma. Meu nome é Marina, eu sou nova aqui nesse colégio e seria muito bom ter alguém pra me explicar como tudo funciona. Tá afim de ir até a secretaria comigo?
A menina continuou me olhando. Parecia aquele tipo de análise “essa serve pra andar comigo” “essa não serve nem pra eu colar na aula de matemática”, até que por fim balançou a cabeça positivamente.
...: Meu nome é Gabriela, estudo aqui a minha vida toda e ninguém nunca me impediu de bater naquele babaca. Ou seja, eu já gosto de você um pouco. – Ela virou a cabeça de lado apontando pra diretoria. – Vamos lá.
Fale com o autor