Lua da Meia Noite
11 Raízes da Floresta
Notas iniciais
Quando deixei meu casamento inteiro nas mãos de minhas amigas e das mulheres Blanchard, eu realmente deixei meu casamento inteiro nas mãos de minhas amigas e das mulheres Blanchard. Quando o dia vinte de novembro chegou e o inverno já estava na porta, fazendo com que fosse necessárias botas de pelos de animais e casacos pesados, acordei embolada nos meus cobertores e com meu estômago embrulhado. Hoje era o dia do meu casamento e não exagerei nem um pouco quando disse que apenas fazia companhia a elas e dizia sim ou não.
Para começar, iria ver meu vestido hoje.
Me levantei da cama quando ainda eram sete da manhã e sem ser acordada por ninguém em semanas. Uma parte de mim se sentiu triste com a subida falta de movimento na casa, da qual eu já havia me acostumado, mas havia algo naquilo que me fazia ficar em paz. Depois de me preparar para o dia e descer as escadas, percebi que não estava sozinha. Meu pai estava na sala de jantar, tomando seu café de forma distraída, e se levantou assim que me viu. Seus olhos brilhavam e suas pernas logo o fizeram ficar na minha frente, enquanto seus braços me envolviam.
— Minha garotinha – ele sussurrou e foi tudo que saiu de seus lábios por um tempo. Não o repreendi ou tentei o afastar. Na verdade, o entendia. Durante todo o noivado, minha cabeça estava ocupada demais para pensar nas consequências de meu casamento. A dele também, provavelmente. Mas agora o dia havia finalmente chegado e todos os efeitos dele já não seriam mais coisas a se pensar em um mais tarde que nunca chegava. Eram a realidade.
Eu iria me mudar. Iria morar com os Blanchard e deixaria tudo para trás. Deixaria o sobrenome Bertrant, deixaria Etienne, deixaria a casa onde nasci e cresci, deixaria a aldeia, Katriane e Therese, e deixaria meu pai. Eles não sumiriam da minha vida, e nem eu da deles. Mas os veria com bem menos frequência, o que fazia meu coração se apertar. Pensar em papai, então, fazia meus olhos arderem, pois além da saudade que sabia que ia sentir, meu rosto se esquentava com a culpa de mentir para ele. Não perguntei a Rowena, mas ele não poderia saber quem eu era. Em toda minha vida, nunca escondi de má fé nada de meu pai e era uma pedra no coração saber que iria começar agora.
Era doloroso deixar Etienne, também. Nesse pequeno mês em que Eveline foi afastada da vida do filho (tirando as manhãs, em que ele ainda ia para a casa dos Foucher), fomos mais próximos do que em todos seus dez anos de vida. Eu gostaria muito de continuar ao seu lado, observando e finalmente aprendendo sobre meu irmão. Me sentia terrivelmente culpada em como fomos praticamente desconhecidos em todo esse tempo, e agora que estávamos próximos, iríamos nos separar outra vez.
Minhas amigas, então, era uma das partes que mais me doía. Katriane e Therese eram minha infância. Eram tardes sentadas ao sol fazendo desenhos indistinguíveis e noites espremidas em uma cama só. Eram segredos surrados e histórias contadas em apenas um olhar. Eram os encontros na praça, as danças nas festas e as risadas altas quando estávamos afastadas o bastante de nossos pais. Eram as caminhadas pela aldeia, todas de braços dados, rindo da consciência que definitivamente devíamos estar atrapalhando as pessoas.
Os momentos que compartilhei com elas, os anos que passei com meu irmão, toda minha convivência com meu pai, todos eles pertenciam a uma menina. A garota Belle, a menina Bertrant. E não era de meu interesse dar as costas para essa menina, mas era necessário que ela não fosse mais quem eu era. Eu iria me casar agora, não seria mais uma criança. Seria uma mulher. E isso doía. Mas, como todas as coisas em Melenuit, era preciso.
Então me afastei o bastante apenas para poder olhar para cima e encontrar os olhos de papai. Tão marrons, tão brilhantes, tão fortes. Sorri para eles, sorri de verdade, pois apesar de tudo, estava feliz. Meu coração pesava, meu estômago doía, e mesmo assim eu podia dizer que estava feliz.
— Bom dia, papai – segurei em suas mãos, sentindo o calor delas. Eram mãos grandes e calejadas pelo trabalho nas forjas, mas fortes e firmes como sempre foram. Ignorei o calor atrás dos meus olhos por ser, provavelmente, a última vez em muito tempo que diria essas três palavras.
— Bom dia, meu anjo. – Sua barba fez cócegas em meu rosto enquanto ele sorria de volta para mim. Em seus olhos sinceros eu pude ver o mesmo sentimento que guardava dentro de mim: seu coração estava pesado, mas feliz. Sorrindo, me lembrei de Aimeé.
Esconder sentimentos parece ser uma coisa que os Bertrant são incapazes de fazer, não é mesmo?
Sim, Aimeé, era isso mesmo. Ao contrário dos Blanchard, de olhos tão incomuns e misteriosos, guardando mil segredos a sete mil chaves, os olhos Bertrant não tinham o que esconder. Com facilidade, nossas emoções brilhavam dentro deles para quem quisesse ver, e não havia qualquer problema nisso.
— Rowena pediu que eu lhe lembrasse que seu casamento foi marcado para as cinco horas, quando estiver anoitecendo. – Papai sorriu e era inevitável como seus olhos brilhavam quando falava dela. – Então ela chegará aqui por volta da hora do almoço para começar a lhe preparar. Pelo visto existe todo um dia de cuidados para a noiva e coisas assim.
— Não a deixe ouvir falando “coisas assim”. – Adverti, cutucando sua barriga. – Ou é provável que lhe dê de sacrifício ao Lobo.
— Eu não duvido nem um pouco disso. – Ele riu. – Que mulher...
— Papai! – Eu amava meu pai e tinha uma grande afeição por Rowena que crescia cada vez mais, porém algumas coisas são dispensáveis de se ouvir. – Vai se casar com ela, não vai?
— Se tudo der certo, Belle, se tudo der certo.
Então ele me puxou para a mesa e comemos como todas as manhãs, apesar de tudo. Estava frio e eu usava botas pesadas, uma capa e várias camadas de vestido. Esperava que houvessem pensado no tempo quando planejaram meu vestido, pois se não teríamos problemas.
Papai saiu para trabalhar como todas as manhãs e, com um beijo, me prometeu que voltaria no meio da tarde, para ver como eu estava e ajudar no que precisasse. Sozinha em casa e de repente acovardada com suas lembranças, me refugiei em meu quarto. Ali, pelo menos, eu poderia me sentar na cama e me despedir do cômodo que havia sido meu refúgio por longos quinze anos. O lugar onde eu escondia meus tesouros mais preciosos, onde me afastava dos olhos desdenhosos de Eveline, onde poderia pensar sem ter medo que vissem em meu rosto quais eram as raízes dos pensamentos.
Mesmo vestida, me deitei de novo na cama já arrumada. Minha querida fita vermelha já estava desgastada e rasgando, mas a rubi em meu anel de noivado ainda reluzia. Ele ainda ficaria aí, mesmo depois da fita se rasgar, me lembrando do meu primeiro ato de coragem, me lembrando do que eu era capaz.
Com o frio e a nostalgia, fui incapaz de resistir ao sono que pesava as pálpebras. Consegui apenas tirar a capa e as botas antes de deixar ser arrastada para um sono agitado e curto. Abri os olhos com medo de ter dormido demais, me levantando com pressa, mas me parei ao observar uma cena inédita.
Aimeé estava em meu quarto.
O inédito nisso era que ela não estava me jogando algo, ou me lançando das cobertas, nem mesmo me dizendo frases maliciosos e me cortando em um sorriso. Ela estava com um costumeiro vestido preto e o cabelo solto, meio sentada no parapeito da janela. O vento batia em seus cabelos e mesmo assim, não chegava a usar um agasalho sequer. Olhava para a floresta, as mãos no colo e a boca fechada. Dessa forma parecia com uma pintura de uma princesa de um mundo esquecido.
— Vovó me disse que hoje seria um dia difícil para você, Bebelle – ela me olhou, os olhos focados e o sorriso de canto. – Com o casamento e todas as emoções que vem com ele. Ela me pediu para ter sensibilidade. – Com um pequeno impulso, ela desceu janela. Havia algo de estranho em Aimeé, algo de perdido. Estava em seus olhos concentrados e em suas mãos na cintura, até mesmo em sua cabeça um pouco tombada.
— Ela pediu isso? Logo para você? – Passei a mão no rosto, arriscando um sorriso. – É o ser mais sensível que conheço, Aimeé.
Isso fez com que sorrisse, o que fez seu rosto parecer mais com o dela. Finalmente, o que quer que havia lhe dado passou ou foi trancado atrás de seus olhos, então seu sorriso se afiou e os olhos acenderam.
— Venha logo, preguiçosa, é o dia do seu casamento e você precisa estar impecável em algumas horas – ela parou, me olhando de cima a baixo e balançando a cabeça em reprovação. – Que a mãe Lua tenha piedade, vovó vai ter trabalho.
Soltei uma risada pois sabia que ela estava apenas me irritando, como fazia com Aloys. Ela riu de volta e pegou pelo braço para me fazer descer. Na cena tão comum de algumas semanas atrás, estava Rowena em minha sala, sozinha. Senti a ponta de frustração me abalar o sorriso, mas o dourado de vovó reluziu e ela me acalmou sem eu precisar falar.
— Aloys foi buscar suas amigas, querida, logo todos estarão aqui – seus braços se abriram e, confesso, não pensei duas vezes antes de ir até ela. Seus braços me envolveram e seu aroma se infiltrou dentro de mim, me trazendo a tranquilidade que meu interior precisava. Talvez Rowena possuísse algum dom bruxo especial de saber exatamente o que as pessoas necessitavam. Ou talvez ela apenas fosse boa demais. – Já almoçou, meu bem?
— Na verdade, não. – Respondi, percebendo que havia cochilado durante a hora do almoço. — Mas não estou com fome – emendei, vendo sua sobrancelha se arquear.
— Deve comer alguma coisa, Belle, não queremos você fraca justo hoje.
— Principalmente hoje. – Aimeé frisou. Tinha se jogado no sofá da sala, tal qual seu irmão costumava fazer, mas a saia de seu vestido levantava e eu podia ver suas botas pretas por baixo. – Planejei sua festa durante semanas, pirralha. Se você desmaiar ou algo assim, juro que escondo seu corpo no armário de vassouras e só lhe tiro de lá quando não aguentar mais ficar em pé! E já aviso que eu adoro dançar.
Conviver com Aimeé era saber quando suas ameaças eram brincadeiras cruéis ou verdadeiros avisos. Essa era um aviso. Minha confirmação veio do silencio de vovó, que não repreendeu a neta (ou escolheu ignorá-la) e me levou para a cozinha para comer alguma coisa. Já estava na metade do meu prato, esquentado por ela, quando ouvi a porta se abrindo. De repente já não estava tão interessada na minha sopa de cebola (um prato costumeiro nesse frio), nem mesmo na voz animada de Katriane. Minha amiga e refeição que me perdoem, mas o amor é egoísta.
Aloys entrou na cozinha, logo atrás de minhas amigas, vestindo as costumeiras roupas pretas desbotadas e meio rasgadas de sempre. Sempre pensava em perguntar se ele não tinha outras roupas ou, já que todas eram da mesma cor, se pareciam. Mas nunca perguntei e talvez isso se devesse ao fato de que havia coisas mais interessantes para me focar do que suas roupas, como seu sorriso para mim e o brilho de seus olhos.
— Bom dia, Belle – ele disse, olhando para mim. Percebi pelo canto de olho Rowena chamar Katriane e Therese, e ir com elas para a sala. Fiz uma pequena nota sobre a beijar depois por me dar um tempo a sós com meu noivo. Era tudo que eu queria, que eu precisava, ainda mais hoje e agora, a algumas horas de subir no altar e me tornar Mabelle Blanchard.
— Bom dia, Aloys – respondi, e, como sempre acontecia quando me via, não esperei muito para o beijo. Normalmente, em meio a sua irmã e sua avó, e até mesmo minhas amigas, ele não passava de um toque de lábios na testa ou no rosto, brevemente nos lábios. Mas agora, talvez por todas as circunstâncias, suas mãos febris seguraram em meu rosto, a ponta de suas unhas acariciou minha pele e seus lábios se encaixaram nos meus.
Ali estava. Eu não queria parecer ridícula ou infantil, mas também não queria mentir. Uma das razões de estar feliz em me casar era isso, não podia negar. Era Aloys. Era como meu corpo reagia ao dele, como minha magia reconhecia a dele e pareciam querer dar as mãos, nos puxando cada vez mais próximos. Eu estava completamente apaixonada por ele, pelo que me fazia sentir. Desde a pele formigando até o coração falho. Saber que acordaria todo dia com esse beijo me fazia desejar que o dia acabasse logo.
O dia. Não o beijo. Infelizmente, foi ele que teve um fim rápido demais.
Os nós dos dedos de Aloys fizeram um carinho em meu rosto, passando pelo meu maxilar e descendo pelo pescoço, os olhos acompanhando todo esse trajeto da minha pele. Um rápido pensamento passou pela minha cabeça, de que a Lua cheia seria daqui apenas dois dias e meu noivo se parecia mais com um lobo do que com um homem até mesmo quando respirava, mas o empurrei para o fundo de mim.
— Eu, provavelmente, vou ser renegado de todo o dia. Outra vez. – Ele bufou, me fazendo rir.
— Não seja dramático, Aloys.
— Eu?! Eu não sou dramático! – Suas sobrancelhas se franziram. – Fiquei de fora de praticamente tudo e agora não vou poder nem ver você trocar de roupa!
— Pare já com isso! – Não deve ter soado muito sério, uma vez que eu ri enquanto sentia meu rosto esquentar. – Você é homem, o que ia saber sobre fazer um casamento acontecer? Sendo sincera, nem eu sei. Também vai ser uma surpresa para mim, sei de muita pouca coisa.
— Posso viver com isso. – Sorriu. – O que não posso viver é com Aimeé. Ela passou o mês inteiro me infernizando! Falando sobre o tempo dela com você, esfregando na minha cara em como ela estava do seu lado e eu não. Acertei a cabeça dela algumas vezes nesse meio tempo, não sinto culpa, ela é uma peste.
— Não seja ruim com sua irmã – pareci Rowena falando. – Tenho certeza que tudo que ela queria era te irritar, e conseguiu, pelo visto.
— Claro que conseguiu. O sentido da vida dela é me fazer ficar irritado. – Revirou os olhos, mas então se concentrou em mim de novo, sorrindo, e se inclinou a ponto que achei que iria me beijar de novo. Mas apenas pegou meus lábios com os dentes, e por pouco senti que não furaram. – Como esta os nervos, bambina? Tudo pronto para hoje?
— Absolutamente – Deus, era uma vitória eu conseguir falar uma palavra assim com ele tão perto, então me senti feliz. – Porque me chama de bambina, aliás?
— É “criança”, em italiano. – Uma risada abafada saiu de sua garganta enquanto eu sentia meu sangue ferver. Lhe dei um tapa, que o fez rir ainda mais, seus caninos aparecendo. – Se acalme, Belle, não precisa se zangar.
— Você me chama de criança! – Bati o pé. – Você é igual a Aimeé com o “Bebelle”!
— Claro que somos iguais. Somos gêmeos. – Ele respondeu com um sorriso cretino no rosto. Bufei, irritada, e continuaria assim se ele não me segurasse a cintura, me abraçando. – Mas eu lhe chamo assim em uma língua especifica, que você ainda vai descobrir o porquê. Talvez me perdoe quando isso acontecer.
— Eu...
— Tenha santa paciência, Mabelle! – A voz de Aimeé veio alta e irritada da sala. – Vão ter muito tempo para isso, mas agora não!
Talvez Rowena tivesse a repreendido, mas não ouvi. Preferi xingar minha cunhada e fazer meu noivo rir. Infelizmente, ele preferiu obedecer, provavelmente dando voz a razão, sabendo que não tínhamos tanto tempo. Então me levou até a sala onde sua avó e sua irmã esperavam, junto com uma Katriane particularmente impaciente. Therese nem parecia ter notado algo enquanto se divertia observando o sofá, perdida muito fundo dentro dela mesma.
Mesmo não querendo, senti minhas bochechas esquentarem. Mas não tive muito tempo para me sentir embaraçada por ter colocado todos olhando para o teto enquanto trocava carinhos com Aloys, já que Aimeé não perdeu tempo de me tirar de seus braços.
— Já que mataram as saudades, saia. – Estreitou os olhos para o irmão. – Hoje será um dia de embelezamento feminino. Com muitos penteados, maquiagens, cremes e mudanças de roupas. – Sua língua estalou quando disse isso, e, aproveitando que estava de costas para Kat e Therry, seus dentes aparecerem no sorriso venenoso. Aloys estreitou os olhos para ela, o maxilar trincado, e eu tinha certeza que ele estava ponderando se valia a pena uma briga agora.
Graças a Deus, não teve que decidir nada.
— Meu querido, porque não fica um tempo com Patrick? – Rowena sorriu, seus passos firmes e leves a levando até os netos, apartando a briga que estava por vir. – Não se esqueça que as três horas vamos todos para casa, sim?
— Sim, vovó. – Aloys respondeu sem desviar os olhos dos da irmã. Ambos brilhavam, cinza-violeta, com desafio e uma palpável predisposição a violência. Finalmente, meu noivo olhou para mim, me dando um beijo no rosto. Deu um aceno para minhas amigas e fez questão de quase derrubar a irmã com uma trombada quando passou por ela. Aimeé soltou uma palavra nada bonita que ficou meio presa em sua garganta quando vovó a olhou, então ela mordeu a bochecha e seus olhos reluziam.
— Belle – Therese me chamou, finalmente acordada de si mesma. – Você vai se casar hoje, não é? Como está se sentindo?
— Assustada. – Respondi sem pensar. Era a verdade, mas eu sorri. – Estou morrendo de medo, Therry, mas não desistiria por nada nesse mundo.
— Quem diria, hem, Belle – Kat sorriu e seus olhos se encheram de lágrimas. – Logo você, se casando! E logo com Aloys! É como dizem, sabe, às vezes vale a pena não superar os amores de infância.
— Oh, definitivamente. – Vovó sorriu, seus olhos brilhando. Gostaria de a perguntar o que tinha feito seu dourado se acender assim, de quem ela havia lembrado, mas não tive a chance. – Mas podemos conversar mais sobre isso no banheiro, sim?
E conversamos. Foi tudo que fizemos durante toda a tarde, além de eu receber mais mimos do que minha vida inteira. Tive minha pele limpa da cabeça aos pés, meus cabelos lavados três vezes e penteados por uma hora inteira até estarem tão brilhantes e soltos como favos de mel. Aimeé foi quem os penteou, e Rowena quem passou a próxima hora arrumando meu cabelo. Kat e Therry se ocupavam em me fazer rir, lembrando momentos marcantes de nossas vidas como quando Kat tinha treze anos e se atrapalhou toda ao tentar chamar atenção de Lenard, caindo dentro do poço da praça. Ou quando Therry, sempre tão distraída, acabou trocando todos os frascos de lugar no boticário e instalou o caos na vida de seus pais. Ou eu mesma, quando era criança, dei um prejuízo enorme em papai, colocando metade de suas joias em mim e saindo por aí.
Rowena permanecia calada a maior parte do tempo, mas ela não precisava falar. Bastava a olhar através do espelho e espiar seus olhos brilhantes e o sorriso pequeno nos lábios para saber que estava feliz e satisfeita de estar em um momento como essa, em estar conosco. Aimeé, assim como a avó, ficava em silêncio, deixando sua adorável voz sair apenas para fazer um ou outro comentário mordaz.
Quando o meio da tarde chegou e o relógio bateu três horas, todas tivemos que nos separar. Eu já estava de banho tomado, maquiada e penteada, meu corpo coberto apenas por um roupão grosso de peles, esperando o momento de entrar no vestido. Elas haviam me feito prometer que não espiaria e apenas o veria depois, quando fosse realmente o vestir. Prometi, mas encarar o manequim coberto à minha frente era uma tortura.
Com sorte, não tive que esperar muito. Uma criada subiu para me ajudar a vesti-lo quando já eram quase cinco horas e me mantive tão apegada a minha promessa que cheguei até mesmo a dar as costas para o espelho e fechar os olhos. De repente, não queria mais vê-lo tanto assim. Algo ridículo e irracional dentro de mim pensava que estava ruim, que eu estava feia, mesmo quando a mulher me elogiou com o queixo caído. Enfim, tomei coragem o suficiente para segurar nas saias e me virar, encarando meu reflexo.
Rowena havia feito um trabalho magnifico arrumando meu cabelo castanho em cachos que caiam suavemente pelos meus ombros e colo. Meus cílios, não tão longos como os de Therese, pareciam serem ainda maiores e escuros, o que os deixava bem mais interessantes do que eram, trazendo algo de sensual. Percebi que minhas bochechas estavam mais vermelhas, mas isso de nada tinha a ver com maquiagem ou truques. Era pura ansiedade.
Para horror de Eveline, se ela comparecesse, pintaram meus lábios de vermelho. Eu me sentia magnifica com essa cor nos lábios, ousada e destemida. Me lembrei de como Aloys disse que eu ficava magnifica com ela e não havia nada que me impediria de usar. Mas o que eu devia, realmente, dar um beijo nas quatro, era o meu vestido. Havia superado tudo que esperava. Apenas de vê-lo meu coração batia tão rápido que saia do peito e me deixava com vontade de sair correndo pela aldeia para exibi-lo.
Tio Masson havia se superado.
O vestido era pesado, apesar da aparência leve. As saias, justas nos quadris e longas o bastante para arrastarem no chão, eram enfeitadas por renda na primeira camada. Os desenhos nela eram de rosas. Porém, depois do transparente, vinha mais um tecido, cetim, acredito, e então mais um, mais pesado e resistente. Do lado de dentro desse tecido, protegendo minhas pernas do frio quase invernal, havia pelos de animais. Prendendo a saia ao meu corpo estava um corpete, e dentro dele também havia aquecimento por dentro. Menos no meio das costas, onde havia uma fileira de pele exposta pelas amarras e ali, quase gritei quando vi, a fita era vermelha. Por cima de mim, para me proteger os braços, estava uma capa de seda fina, e mesmo ela havia calor, mesmo que em quantidade menos, para os meus braços. Todo ele era branco, de menos a fita que prendia meu corpete, e eu sentia vontade de girar dentro dele.
Sendo realista, tinha uma pequena chance de não ser o vestido mais bonito de que a aldeia se lembrava de ver. Uma chance mínima. Mas definidamente era o vestido mais bonito que eu me lembrava de ver.
Eu estava tentando não chorar, me lembrando em como minha maquiagem estava bonita, ainda incapaz de parar de olhar para meu vestido no espelho, quando ouvi uma batida suave na porta. Logo depois papai entrou, já todo arrumado, com os cabelos meio bagunçados que gostava, calças, botas e blusa e um casaco grosso e elegante. Seus olhos brilharam quando me viu e eu achei que ele iria chorar, mas não passou disso. Andou até mim e colocou as mãos nos meus ombros, seus lábios abertos em um sorriso.
— Você é a mulher mais bela dessa aldeia, querida. Espero que Aloys saiba a sorte que tem. – Então suas sobrancelhas franziram, mas acabou suspirando. – Devo me acostumar com o fato de que já é uma mulher, Belle, e não poder fazer mais nada se não gosto de algo.
— Está feio, papai? – Perguntei, mordendo os lábios. Mas sua mão foi carinhosa em meu rosto, e seu sorriso me fez querer chorar outra vez. Seus olhos brilhavam com tantos sentimentos que podia sentir seu coração pesado junto com o meu.
— Não há nada que fique feio em você, meu amor. – Me beijou a testa, e senti falta de sua barba, mas ele havia a feito para o casamento. Sem ela, parecia ainda mais jovem e seus olhos eram ainda mais vivos enquanto me olhava. – Mas pode ficar um pouco mais.
De dentro do pesado e elegante casaco escuro, papai me tirou uma caixa preta. Era pequena, do tamanho da palma da sua mão, e de ébano. No mesmo momento em que a vi meu sangue correu mais rápido pelo corpo, meu coração pulando tanto que achei que ia ter que me sentar. Porém, contrariando-o, minhas pernas se mantiveram bem firmes enquanto sentia o gancho no estômago, arrastando-o para baixo, e um arrepio descer por toda minha espinha. Olhei imediatamente para meu pai, que estava me olhando como se não houvesse percebido nada, e provavelmente não tinha, pois sorria e estava começando a falar.
— Era do meu pai. – Sorriu, me estendendo a caixa. Consegui impedir meus dedos de tremer enquanto a segurava. – E foi do pai dele, e assim por diante. Sempre de pai para filho, passando como uma relíquia entre as gerações da família Bertrant. É meu último presente para você. Gostaria que usasse.
Dessa vez tive que morder minha língua para impedir que as lágrimas descessem dos meus olhos. Com dedos trêmulos (pela energia que passava por mim ou pelo momento) abri a caixa. Nela havia um colar. Delicado e simples, mas evidentemente caro, antigo e requintado. Apenas uma corrente tão fina que poderia se confundir na minha pele, e um pingente o enfeitando: uma delicada e entalhada rosa vermelha, enfeitada de cristais de granada para fazer a cor. Era um colar evidentemente feminino, o que era de se estranhar já que pertencera a vários homens, e não me lembrava de ver meu pai o usando, mas ele, obviamente, havia o guardado com muito esmero.
A joia estava quente contra a minha pele, liberando o calor que já sabia reconhecer quando o toquei. Magia. Ele passou pela minha pele, fazendo minha nuca se arrepiar e minha respiração falhar.
— Pai, é lindo, maravilhoso, eu nem sei... – Verdadeiramente, não tinha palavras. Gostaria de ser Aimeé nessas horas, sempre pronta com alguma resposta. Mas não era. Estava perdida e extasiada, e, principalmente, absorvida pelo colar. Ele não esperou que eu formulasse uma resposta coerente, apenas foi para detrás de mim. Quando o pingente encostou em meu colo, o senti queimar. Mas não como fogo em brasa, e sim como uma lufada de vento quente da fornalha. Como se ele sentisse o que eu tinha, e estivesse aliviado.
— Guarde ele com muito cuidado, Belle – papai disse, atrás de mim. – É uma joia muito antiga que está na família a gerações. É algo especial. Vai sentir como se te protegesse.
Eu podia sentir muito mais que isso. Podia sentir ele pulsando, como um segundo coração. Podia sentir seu calor se espalhando por mim. O ar que entrou pelos meus pulmões me pareceu mais puro e me virei para abraçar meu pai. O fiz com toda força, sem ligar para vestido ou penteado. Precisava disso. Sentir ele me erguendo mais uma vez, como uma menina. Sua menina. Pelo menos mais uma vez.
Quando ele me soltou, não dissemos nada enquanto descíamos as escadas e íamos para a sala. Etienne estava lá, também, arrumado e pronto, e sorriu para mim, apesar de aparentar estar triste. Será que não gostava de nossa separação tanto quanto eu? De qualquer forma, lhe dei um beijo no rosto e juntos saímos de casa, entrando na carruagem da família para superar a pequena caminhada que seria até a Igreja.
Quando chegamos achei que meu coração ia parar. Apertei o braço de meu pai ainda na carruagem, de repente querendo que esse momento não houvesse chegado. Olhei para ele, a garganta seca, mas ele estava sorrindo para mim. Não precisou falar nada enquanto colocava a mão sobre a minha em meu braço. Etienne saiu primeiro, indo em direção a Igreja, permitindo que eu vislumbrasse seu interior. Todas as pessoas da aldeia haviam comparecido. Desde as famílias ricas até os humildes. Todos presentes para verem a menina Bertrant se casar com o Filho do Lobo. Estava com pressa de ver Katriane e Therese. Aimeé também, e Rowena, que devia estar magnifica. E...
Aloys.
Ele estava lá dentro, em pé, esperando que eu entrasse e o aceitasse na frente de Deus e dos homens. Podia imaginá-lo de roupas negras e o cabelo desarrumado, os olhos violeta-cinza cintilando na luz das mil velas do lugar. Minhas pernas tremeram e puxei o ar para meus pulmões, buscando coragem uma última vez no castanho vivo de meu pai. E lá estavam eles, brilhando para mim, como sempre haviam brilhado em todos os dias da minha vida. Não iriam deixar de brilhar hoje. Não iriam deixar de brilhar nunca.
Papai era meu ponto de estabilidade. Sempre tão calmo, firme, estável. Eu poderia confiar que ele iria me firmar quando estivesse sem chão, seja de uma forma boa ou ruim. E foi exatamente isso que ele fez quando me guiou para fora da carruagem e me firmou no chão, beijando minha testa uma última vez antes das portas se abrirem e a marcha nupcial invadir meus ouvidos.
Tentei evitar olhar para frente. Não queria olhar Aloys antes que parasse, ou com certeza iria tropeçar. A Igreja estava lotada. Eu podia ver os Pottier ao lado dos Giraud (e meu coração se encheu de alegria quando vi Kat e Lenard de braços dados), e os Guillot, com Therese sorrindo para minha figura. Avistei os Foucher, com todos os seus filhos e, não acreditei no que vi, Eveline. Ela havia vindo e não estava nem um pouco surpresa pelo seu rosto torcido de desgosto e a boca enrugada de amargura. Disse a mim mesma que não iria me importar e, para isso, me concentrei em quem estava sorrindo para mim, tão feliz quando eu pelo meu casamento.
Como minha futura irmã e Rowena.
Aimeé estava deslumbrante. Seu vestido era vermelho escarlate, com o corpete apertado em sua cintura fina, o colo e os ombros amostra, junto com um generoso decote. A saia do vestido era toda pregada, com enfeite em volta e a barra era negra. Podia ver seus olhos cintilando de aprovação e o sorriso cruel torcido de maneira engraçada. Quase podia a ouvir dizendo “parabéns, Bebelle, parece que você teve salvação”.
Talvez tivesse passado tempo demais com ela.
Seu cabelo estava solto e arrumado, pela primeira vez, e caia em uma cascata negra por suas costas, acariciando sua pele e contrastando com a mesma. Os lábios pintados de vermelho e a postura de um animal selvagem, finalmente entendi porque seu sorriso, dessa vez. Aimeé sabia bem que sua beleza era reparada e conhecida, então fez questão que hoje, de uma forma ou de outra, eu a alcançasse. Vi pelos seus olhos o orgulho em si mesma, e talvez devesse considerar um elogio.
Afinal, Aimeé era uma pessoa estonteante e segura de si, bela e poderosa. E iria se tornar minha irmã daqui a poucos minutos. Sorri para ela, devolvendo seu sorriso, o que a faz abrir o dela um pouco mais, fazendo uma pequena e debochada reverencia.
Então meu olhar foi atraído pela mulher ao seu lado. Rowena. Ela me olhava com calma e sorriso tranquilo, até orgulhoso, o tipo de sorriso que minha mãe deveria estar me dando invés de desviar o rosto. Seu cabelo negro estava preso em um coque alto e relaxado, como se tivesse sido feito às pressas. Os olhos dourados estavam destacados pelos cílios longos e negros. E seu vestido me deixou sem ar.
Era azul.
Um tipo de azul que eu nunca havia visto antes. Descia do corpete, que deixava seus seios ressaltados, e era pregado na saia. Bem menos do que o de Aimeé. Ele parecia absorver a luz, guardar em seus olhos e então a devolver para o ambiente. Observei seus olhos, que mesmo com o vestido ainda eram o foco principal, e eles reluziam para mim. Senti o gancho em direção a ela, forte e definitivo, e tive vontade de correr para seus braços. Mas não podia. Não agora. Agora tinha que ter coragem de olhar para frente.
Então vi Aloys.
Lá estava ele, me esperando no altar. Os cabelos negros bagunçados e rebeldes emoldurando seu rosto lupino e magro. A calça negra, e, não acreditei, um terno! Ele ficava lindo de gravata, apesar que estava bem mais larga do que as regras mandavam. E ele, se tivesse que apostar, diria que estava um pouco desconfortável. Eu teria rido disso se não estivesse tão presa.
Aqueles olhos...
Seus olhos, tão cinza, tão violetas, tão dualísticos como ele mesmo, me focaram desde o momento em que as portas se abriram. Senti o peso de seu olhar em cada passo que dei, conseguia sentir seu calor me puxando em sua direção, meu coração correndo de encontro ao dele. Do jeito que Aloys me olhava eu podia acreditar que não havia mais ninguém na Igreja. Na aldeia. No mundo.
Ficou tudo muito claro enquanto olhava para lá, para seus olhos. Assim como foi na festa, sabia o que tinha que fazer, sabia o que queria fazer. Meu coração, apesar de forte, batia de forma mais calma agora enquanto todo meu mundo se resumia ao meu noivo me esperando.
— Cuide bem dela, rapaz. – Papai disse para ele quando chegamos ao altar. Apesar da voz baixa, seus olhos eram sérios, assim como os de Aloys. – Minha filha é a melhor coisa que te aconteceu na vida, não ouse se esquecer disso.
— Eu tenho total certeza desse fato, Mr. Bertrant. – Ele respondeu, tão sério como se estivesse fazendo um juramento, olhando nos olhos de meu pai. Durou apenas alguns segundos, mas foi o bastante para fazer com que minhas mãos suassem. Enfim, papai pareceu satisfeito e me deu um último beijo antes de ir para seu lugar.
Aloys me beijou na testa e me pegou pela cintura, me puxando para mais próxima, fazendo o calor de seu corpo se infiltrar pelo vestido.
— Belle – ele sussurrou em meu ouvido. – Você acaba comigo dessa forma, me aparecendo desse jeito tão perto da Lua cheia. Já rodei o mundo e posso lhe garantir, bambina, que não há mulher, mágica ou não, que chegue aos seus pés.
Seu elogio foi o bastante para eu quase explodir. Sua mão em minha cintura me fazia derreter, mas forcei que minhas pernas ficassem bem firmes aonde estavam. Todo o mundo a minha volta se apagou. Só existia eu e ele, sua mão em minha cintura, seu corpo perto do meu, seu cheiro profundo, de floresta, completamente inebriante. Até mesmo as palavras do padre eram zumbidos ou sons distantes na minha cabeça. O mundo havia se fechado.
Ele olhava para mim de tempos em tempos, sorria com cuidado, com o canto da boca, e então voltava a olhar para o padre. Era assim que uma noiva se sentia em seu casamento? Feliz? Realizada? Com vontade de rolar no chão e se partir em lágrimas ao mesmo tempo? Porque era isso que eu sentia.
— Aloys Blanchard, aceita Mabelle Bertrant como sua legitima esposa para amar, respeitar e proteger, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe?
— Aceito. — Sua voz soou firme e não havia qualquer hesitação. Agora, me olhava nos olhos. Senti minhas pernas tremerem e me segurei em seus braços para não correr o risco de cair.
— Mabelle Bertrant, aceita Aloys Bertrant como seu marido para amar e respeitar, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe?
— Sim. — Respondi com os lábios tremendo, em não mais que um sussurro. Me amaldiçoei pela minha inerente falta de controle do tom a minha voz em situações fortes, e o desgraçado de meu noivo teve a audácia de sorrir, como se achando graça da situação. Apertei seus braços, fazendo uma cara má humorada (que na verdade o fez rir um pouco mais) e eu tentei novamente. — Sim.
Dessa vez, toda a Igreja havia escutado.
— Se alguém tiver qualquer coisa contra esse casamento, que fale agora ou cale-se para sempre. – O padre prosseguiu, e meus olhos foram imediatamente para Eveline. Ela estava me olhando, os olhos estreitos e os braços tremendo com a força que apertava as mãos. Olhei no fundo dos olhos da mulher que deveria estar ao meu lado no altar, sorrindo e feliz. Olhei e esperei que ousasse dizer algo, que tentasse estragar mais esse momento para mim. Com pouco juízo que lhe restava, ela virou o rosto. — Agora, pelos poderes a mim investidos, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Por alguma razão, não fiquei nem um pouco surpresa quando Aloys me puxou para seus braços e juntou seus lábios nos meus, em uma cena digna da privacidade de um quarto, e se afastou mais cedo do que eu gostaria. Alguns adultos ficaram escandalizados, mas a população mais jovem da aldeia (principalmente Katriane) gritou e bateu palmas.
Enquanto ria tanto que sentia o ar sair dos meus pulmões e Aloys me erguia em seu colo e meus braços estavam em seu pescoço. Enquanto todos se levantavam para nos saldar e parabenizar com palmas e vivas. Enquanto Rowena enxugava discretamente as lágrimas e Aimeé sorria de forma que sua covinha aparecia. Enquanto meu pai me olhava como se eu fosse seu maior tesouro, sua menina, e seu maior orgulho. Enquanto isso, olhei para baixo.
Aloys estava tão feliz que sorria abertamente, sem se preocupar com quem via seus dentes ou não. Os olhos brilhavam e seus braços me sustentavam como se não fosse nada. Pus as mãos em seu rosto, as bochechas coradas e o coração batendo enquanto juntava meus lábios com os dele mais uma vez.
Estava feito.
Havia me casado com Aloys Blanchard.
Agora, eu era um deles.
Mas não de forma como todos achavam. Não era apenas um nome. Não era apenas uma nova casa. Era uma nova vida que eu iria descobrir. A vida guiada pelo que corria no meu sangue, pelo que esquentava meu colar, pelo que brilhava nos olhos violeta-cinza de Aloys. E faria isso não apenas como uma Blanchard, mas como uma Bertrant também.
E, principalmente, como Mabelle.
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