Lua da Meia Noite

12 Noite de Magia


Notas iniciais
PEOPLE, READING HERE IT! READING. THAT. IN HERE! READING! DO NOT JUMP! NO! DO NOT DO THAT! CONTINUE READING! ARE READING? IT WORKED? Love ♥ (Foi em inglês agora que é pra dá uma inovada, sacaram?) Gente! Meu Deus do Céu! Jesus Cristo! Me socorre! Eu quebrei minha promessa com vocês e não postei sábado passado (27/05), e vou ser bastante honesta do porque. Bom, deixando vocês inteirados de tudo rapidamente: eu tenho depressão. Eu vou a um psicologo e tomo medicamentos. Mas vou nisso tudo pelo nosso maravilhoso SUS. A dois meses atrás, meus remedios acabaram. E só uma medica podia dar eles de novo para mim, certo? Certo, só medicos tem autoridade pra dar remedios, gente, isso é básico. Mas o médico da minha equipe (é, equipe, não sei se todo mundo vai entender, basicamente eles separam a galera por região e tem um medico pra cada galera) saiu, e por FUCKING DOIS MESES a galera inteira (me incluindo) ficou sem medico. Resultado? Eu fiquei sem meus remédios. Resultado? No sábado passado, dia 27/05, eu tentei suicídio. CALMA! Eu tô bem, gente, calma. Foi só um susto (mais nos outros que em mim). Minha saúde está perfeitamente normal, voltei a tomar meus medicamentos e já conversei sobre o episodio com minha psicologa. Está tudo caminhando e eu levando, sabe, indo. Estou abrindo aqui a minha intimidade com vocês porque acho que vocês merecem saber das coisas. Então é isso. Desculpe gente, mas não foi por enrolação que eu deixei vocês na mão UHASUHA' Voltando a nossa programação usual: Obrigada a Prinmononoke, Cat (Isa ♥), felicitysmok, Izzy, Mrs Claflin, Valarie Lockwood, Filha de Hades, Rezenae (Duda ♥), Dorothy Mel, Salayne (Docemargo ♥), ScoobyLoo e Sabri e pelos comentarios lindos, perfeitos, pedaços do céu, maravilhosos e perfeitos² ♥ O cap é pra vocês ♥ Aproveitem ♥

Saímos da Igreja sob aplausos e vivas, e eu pude jurar que vi Aimeé jogar uma moeda em direção a Aloys. Mas se aconteceu, foi aquela coisa de um segundo, e logo eu estava mais preocupada em como eu iria voltar para casa andando com esse vestido, mas não precisei. Sem pensar, meu marido me pegou no colo, arrancando mais gritaria da multidão, e me colocou dentro da carruagem da família Bertrant, que estava bem na porta, como deixamos. No mesmo momento ele entrou comigo e fechou a porta. Não sabia como iriam Rowena, Etienne, meu pai ou Aimeé. Mas que me perdoassem, eu não me importava. Minhas bochechas estavam coradas e dormentes pelo tempo que estava sorrindo, e meus olhos brilhando.

Marido.

Demorei tanto tempo para me acostumar com a ideia de ser noiva de Aloys Blanchard e quando finalmente havia me caído a ficha, tinha que me acostumar com a ideia de ser sua esposa. Com a ideia desse homem de olhos violeta-cinza, que brilhavam na semiescuridão da carruagem. Seus cabelos se mexiam com o sacolejar do trajeto e seu sorriso exibia todos seus dentes afiados. Sentia meu coração bombardear sangue pelo meu corpo, minhas pernas tremerem e algo dentro de mim gritar corra, mas foi em vão. Ele era rápido demais e eu já estava no colo dele, sendo firmemente segurada pelas suas mãos febris e fortes. Subitamente odiei meu vestido e quis arrancá-lo por impedir de sentir suas mãos em mim de forma plena.

— Ah, Belle – ele respirou meu nome, sua língua acariciando cada silaba de modo que me fez corar, e isso não tinha nada a ver com o calor que havia começado a sentir. Suas mãos estavam em meus quadris e seu rosto perto do meu, enquanto eu olhava de soslaio pela janela da carruagem, a cortina fina e escura nos escondendo.

— Aloys, e se...

Ele obviamente não estava muito interessado no que eu tinha a dizer, pois interrompeu a palavra em um beijo. Eu não estava interessada no que tinha a dizer. Tudo que interessava eram os lábios deles nos meus. Talvez fosse a Lua cheia tão próxima e já tão alta no céu, mas havia uma força excessiva em seus braços, em seus lábios, em suas mãos. Mas não me importei e não tinha vergonha alguma disso.

Deixei que minhas mãos subissem para seu cabelo macio, se afundando na escuridão de suas mexas. Seus lábios me tiravam o fôlego e suas mãos firme faziam meu coração bater tão rápido que minha cabeça rodava. Mas então acabou.

Aloys interrompeu o beijo tão bruscamente quanto havia começado e senti pavor de ter feito algo errado. Mas no cinza dos seus olhos estava a irritação de parar e me recolocar no lugar. Imediatamente arrumei meu cabelo e respirei fundo algumas vezes, agradecendo quantas vezes tive que recompor Katriane, pois agora sabia como me ajeitar. Ainda mais que tive apenas alguns segundos para a carruagem parar e meu marido sair dela, estendendo a mão para mim.

Aceitei e desci bem na porta de casa – ou da casa de papai, agora -, imaginando como Rowena e as outras teriam organizado para fazer de lá um lugar para acomodar tantas pessoas. Imediatamente Aloys me abraçou a cintura e já havia barulho de dança e conversas dentro da casa, mais barulhenta do que presenciei durante toda minha vida. E, mesmo assim, o único barulho que me importava eram as palavras surradas em meu ouvido.

— Isso sim foi um beijo de consumação. – A voz de Aloys veio rouca até mim. – Queria fazer isso desde que te vi entrar na Igreja, mas achei que você me bateria eu estragasse sua entrada. E vovó iria me matar. Mas me perdoe se não aguentei ficar em um ambiente fechado com você.

— Lhe faço perder o controle? – As palavras dispararam de minha boca, em um sussurro como as dele, e meu rosto se virou, meus olhos capturando os dele, brilhantes e selvagens. Seus lábios se abriram, mesmo que por um momento, e sua seus dentes capturaram a ponta da minha orelha, me fazendo sangrar e me curando no mesmo instante. Quando me olhou de novo, em seus lábios havia uma gota de sangue e seus olhos eram animais.

— Você não faz ideia, Mabelle. – Deus seja louvado, eu não sabia dizer se havia sido uma fala humana que se transformava em rosnado, ou um rosnado que bravamente se assemelhou com uma voz humana. Meu coração bateu mais forte, senti novamente o impulso de correr, mas sorri. Eu nunca correria de Aloys, por mais que meus instintos me dissessem para fazê-lo. Não enquanto, apesar de tudo, eu ainda queria me jogar em cima dele.

Mas tínhamos uma festa para participar.

Nosso salão de festas, ou o salão de festas de papai, era de um tamanho considerável, uma vez que se tratava da casa de uma das famílias mais ricas da aldeia. Não havia tanta gente como na cerimônia, mas mesmo assim estava praticamente lotado. Toda as famílias afortunadas estavam lá, sem falta, e alguns humildes, como a família dos empregados de papai e de seus empregados na loja, foram os que pude reconhecer. Estava tudo muito bonito, luxuoso sem exagero e brilhando em tons de prata, preto e vermelho. A música era animada, mas ninguém estava na pista de dança, e eu sabia porquê. Quem a abria eram os noivos.

A música mudou quando nos aproximamos da pista, decaindo das notas frenéticas e animadas para umas mais calmas e convidativas a se fechar os olhos e a sentir. Gostaria de ter aprendido música, então saberia quais eram as notas, mas de qualquer modo, a melodia era maravilhosa além do limite.

Deixei que Aloys segurasse em minha cintura e me guiasse bem para o meio, no centro das atenções de todos. Olhando em seu rosto, não vi nenhum nervosismo sobre dançar na frente de mais da metade da aldeia, mas acho que nunca havia visto ele nervoso quando se tratava de ser o alvo de olhares. Eu, por outro lado, senti meu estômago dar uma puxada para baixo, olhando de canto de olhos aquelas pessoas que esperavam por uma bela e emocionante dança.

— Belle – Aloys me chamou, e eu me concentrei em seus olhos. Na luz das velas que iluminavam o salão, seus olhos cintilavam e refletiam meu próprio rosto. – Se concentre em mim, sim?

Eu podia fazer isso. Me concentrar nele era uma das coisas que eu, definitivamente, podia fazer. Em seu rosto perto do meu, no calor do seu corpo, na firmeza de suas mãos e em seus olhos de duas cores distintas, criando um mosaico perigoso e sedutor. Apenas para tornar minha tarefa mais fácil, meu marido me puxou um pouco mais para ele, e então começou a girar.

Eveline havia me ensinado a dançar. Quero dizer, havia me feito aprender os passos. Apesar de proibir que eu tocasse algum instrumento e me aprofundasse no mundo da música, ela dizia que uma dama devia saber dançar, para poder se apresentar nos bailes da mais alta sociedade. Havia ficado semanas repedindo para mim “um, dois, um, dois” sem que eu aprendesse nada. Então papai me ensinou. Me colocou em cima de seus pés e girou comido por dias até que eu já pudesse acompanha-lo com eles no chão.

Então tudo que realmente precisei fazer foi me concentrar em Aloys e deixar que meus pés refizessem os passos gravados em minha memória. Não era difícil. Enquanto eu não pensasse muito, meu corpo sabia exatamente o que fazer, mesmo já tendo tempos em que eu não dançava uma valsa, propriamente. Mas a solução era simples: não pensar no que estava fazendo. E para não pensar no que estava fazendo, mergulhar nos olhos do homem à minha frente era uma boa solução.

Meu colar ficava mais quente quando ele estava perto, e eu não sabia se era por causa dele também ter magia ou se era porque Aloys fazia com que tudo, naturalmente, se esquentasse. Guardei essa pergunta para vovó, junto com tantas outras que rodavam minha mente sempre que me permitia ficar sem ar. Ele me conduzia com elegância pelo salão, seus pés trilhando o caminho com a graça de um dançarino experiente, enquanto seus braços me seguravam com firmeza. Olhei em seus olhos durante toda a música, sentindo-o me segurar.

Parecia ter medo que eu caísse. Não no chão, mas dele. Medo que eu escorregasse de seus braços, então me segurava como se a qualquer momento eu pudesse sair voando. O segurei de volta, apertando sua mão e ombro, implorando para que visse nisso e em meus olhos que eu não iria a lugar nenhum, nunca.

Muito menos essa noite.

Quando a música terminou e, pela última vez, Aloys me rodou como em um sonho, as palmas invadiram nosso mundo. Me concentrar nele havia sido realmente a solução para esquecer das dezenas de olhos que me encaravam, mas agora eles voltavam a mim de uma vez só. Não liguei. Já havia acabado. Meu coração batia rápido enquanto eu sorria e sentia minha mão ser apertada. Meu marido segurou-a com as duas mãos e a beijou pouquíssimo tempo antes da pista ser invadida pelos outros casais.

Consegui avistar Katriane, visivelmente ansiosa e impaciente, que atravessava o salão para me ver. Ao mesmo tempo, Aloys olhou para onde sua irmã estava com sua avó, e sorrimos um para o outro. Sem dizer nada, ele me deu um beijo na testa e foi em direção a elas, enquanto eu esperava no mesmo lugar pelo impacto da chegada de Kat.

Minha amiga se jogou nos meus braços, tremendo. Por um momento achei que estava chorando, mas quando olhei em seu rosto, ele estava seco, apesar dos olhos brilhantes e marejados. Seu sorria ia de canto a canto e mesmo assim não parecia largo o suficiente, pois ela tentava o aumentar a cada segundo. Katriane pegou em minhas mãos e as beijou, então meu rosto e me abraçou tão forte que eu quase chorei antes de me segurar pelos ombros e me olhar no fundo dos olhos.

— Os Pottier vieram ter comigo e meus pais logo antes de vocês chegarem – seus lábios tremiam e seu peito subia e descia com uma irregularidade levemente preocupante. – Estou noiva, Belle! Noiva de Lenard!

Como quando descobrimos juntas o significado oculto das demonstrações amorosas de Lenard quando mais novo, segurei em seus braços e ela nos meus, enquanto girávamos mais uma vez. Kat ria e quase chorava, e devia estar tão feliz quanto eu esta noite.

— Katriane, Deus abençoe, não sabe quanto estou feliz! Ah, Deus, você e Lenard! Finalmente! Eu disse que iria acontecer, eu disse!

— Belle, eu poderia te beijar! – Sua voz tremia e era obvio que ela não tinha muito controle de suas ações no momento. Estava feliz demais para isso. – Meu Deus, é tudo graça a você, Belle, eu... eu nunca vou poder te agradecer o suficiente, nunca.

— Case-se com Lenard, Kat – respondi, segurando em suas mãos. – Tenha com ele sete filhos e um pequeno cão. Seja feliz com ele pelo resto de sua vida. A cada dia que acordar sorrindo vai ser o bastante.

Minha voz tinha embargado e minha amiga se lançou em meus braços, chorando. Eu mesma sentia os olhos cheios de água, mas os segurei para não estragar minha maquiagem, ou Aimeé me mataria por arruinar sua obra prima.

Kat se recuperou com algumas puxadas fundas de ar e me dando mais beijos no rosto e agradecendo, foi procurar Lenard ou refazer a maquiagem. O que aparecesse primeiro. Então fiquei sozinha por segundos de ser puxada para um abraço. Mas agora quem me abraçava era consideravelmente mais alta que eu e possuía o cheiro profundo da floresta e a sutileza de uma ave nos gestos.

— Seja bem-vinda a família, querida – vovó me abraçava como uma mãe, me embalando com os braços e me segurando as costas e a cabeça, beijando meu cabelo. Sorri contra seu vestido e ergui os olhos para encarar seu dourado reluzente e sorriso largo, mais feliz do que havia visto ela dar em toda minha vida.

— É real, vovó? – Perguntei, meu coração batendo junto com as batidas fortes da música. O colar ficou ainda mais quente em sua presença, quase desconfortável, mas ela tocou ele com a ponta do dedo, ainda sorrindo, e ele voltou a parecer apenas um segundo coração.

— É mais que real, Belle – me passou os dedos no rosto, arrumando com ternura alguns fios que haviam escapado do meu penteado. – É magia.

Magia.

Havia começado a me perguntar o que não era magia, e cada vez estava mais convencida de que muita pouca coisa não possuía um toque mágico. Era um erro das pessoas acharem que o encantado estava em feitiços e olhos exóticos (apesar de estar, afinal), e não procurar mais em lugar nenhum. Magia estava por toda parte, até na mais simplória das coisas.

Não havia nada mais mágico do que a felicidade de Katriane ao, finalmente, noivar com Lenard. Nem no amor de alguém por um desconhecido que lhe acalentava tanto. Magia temperava a noite e todos respiravam ela, não apenas os Blanchard, não apenas eu. Mas todos.

Porque qualquer noite em que tantas pessoas se encontrassem tão felizes que sentiam que o peito iria explodir, só podia ser mágica.

Uma mão quente tocou meu ombro, mas era leve demais para ser de Aloys, apesar de ser tão firme quanto. Virei para trás e vi Aimeé sorrindo para mim, sorrindo de verdade, com sua covinha aparecendo. Seu cabelo já estava um pouco bagunçado e ela não parecia se importar nem um pouco com esse fato.

— Então é oficial, pirralha – ela estalou a língua. – Agora somos irmãs.

— Na frente de Deus e dos homens, Aimeé – respondi, sorrindo para ela, que me revirou seus selvagens olhos violeta-cinza.

— Jure pela Lua e pela Mãe, e então vamos conversar.

— Pelo...?

— Ah, deixe para lá – Aimeé riu, e sua risada a transformava. Fazia seus olhos perderem a ameaça e seu sorriso todo o gume. Muitas vezes eu via a irmã de meu marido como uma figura a parte, alguém notoriamente não humano, em cada gesto e em cada respiração. Mas, algumas vezes, raras vezes, eu podia a ver como uma garota de dezessete anos. Esse era um desses. Quando parou, segurou em meus ombros e inclinou a cabeça. – Aloys foi sequestrado pelo namoradinho de Katriane, e o irmão que não vê graça na vida de Therese. Eu digo para se vingar de tal afronta dançando o bastante para deixa-lo louco.

— Mas... que afronta?

— Ora, querida – foi vovó que respondeu, com as mãos na cintura. – De lhe deixar sozinha na sua festa de casamento! Aimeé, leve-a, você sabe o que fazer.

— Sim, vovó – Aimeé respondeu, e seus olhos já estavam brilhando de novo com a malicia e seu sorriso cortando caminho até o centro. Senti meu rosto esquentar, mas minha cunhada estava na minha frente, segurando uma taça que não sabia onde havia pego. Cheirei quando ela pôs bem em frente ao meu rosto: champanhe. Conhecia pois já havia visto papai beber, às vezes, em ocasiões especiais. Era uma bebida cara e que eu nunca havia provado, mas eu podia imaginar que iria fazer agora. – Vamos logo, Bebelle. Foi muito adorável vocês dançando como se não houvesse mundo em volta, mas agora Aloys não está aqui para você parar de piscar. E isso aqui – seus olhos se acenderem enquanto ela balançava a taça. – É um ótimo jeito de fazer seu próprio mundo.

— Eu não sei se devo... – Apesar de falar isso e apesar de morder os lábios, peguei a taça. Aimeé revirou os olhos enquanto jogava seu longo cabelo por cima do ombro, deixando seu colo ainda mais evidente.

— Mabelle, acorde! Você já tem quinze anos, é uma mulher casada e dona da própria vida que está na própria festa de casamento! O que está te impedindo? Medo de levar bronca do papai? – Sua sobrancelha estava arqueada, seus olhos brilhantes e o rosto de quem iria colocar fogo em alguma coisa. Não duvidava que fosse. Mas se algo queimasse na minha festa, gostaria de fazer parte.

Virei a taça sem pensar muito no assunto.

Devo esclarecer um ponto: eu não tinha qualquer intenção de beber muito. Não tinha mesmo. Sabia que, já só havia bebido uma vez, provavelmente ainda não tinha forças para aguentar mais do que a taça, e a confirmação foi a sentir queimando minha garganta. Mas quando Aimeé riu e começou a dançar eu senti raiva por não conseguir a acompanhar.

Aimeé parecia com uma chama viva, crescendo e rodando, consumindo a si e aos outros em seu próprio calor. A saia de seu vestido rodava, seus cabelos voavam e seus olhos estavam fechados. Os passos eram sensuais, seus movimentos instavam olhares pesados de todos ao redor. Sua dança era tão suave quanto lasciva, e ela continuava como se o mundo não existisse.

Senti raiva pois, apesar dos meus esforços, não conseguia atingir seu nível. Então bebi para escorregar para dentro de mim tanto quanto ela, e então bebi até não me importar se dançava tão bem ou não, pois, para mim, cada movimento era uma libertação e meu coração pulsava, dando vazão a todos meus desejos. Morreria se ficasse parada, então era tudo que não fazia.

Realmente não percebi quando Katriane se juntou a nós, ou Therese. Mas percebi quando Lenard, Dartan e Soryver apareceram, pois com eles veio Aloys. Parou por um mero segundo na orla do salão, seus olhos pregados em mim, tão cinzas que me senti arrepiar. Observei seus olhos, sua posição, e podia jurar que até mesmo sua respiração era perceptível para mim: pesada e curta. Ele veio em minha direção, tão preciso e rápido quanto um predador em caça, e eu nem sequer tentei fugir. Não me envergonho. Estava embriagada demais para me envergonhar de não ter fugido, e de suas mãos em mim.

— Belle – senti suas unhas em minha cintura, fazendo um trabalho duplo com a ponta de seus dedos que me apertavam. Seu corpo tremeu enquanto ele respirava em cabelo, suas mãos deslizando para meus quadris. Estava escuro demais e o salão cheio demais para alguém perceber. – Eu sei que existe toda uma tradição e você merece mais do que isso, mas se você dissesse que sim eu lhe levaria para qualquer canto onde ninguém olhasse o que é meu e rasgaria cada pedaço do seu belo vestido.

Isso me fez jogar a cabeça para trás, meus pulmões – já em brasa pela dança – agora oficialmente em chamas. Suas mãos em mim faziam minha cabeça rodar, mas não me afastei. Não seria capaz disso. O que ele disse fez uma parte que eu não sabia que existia de mim sorrir, e então o beijei.

No momento em que nossos lábios se encontraram eu soube que eu não devia ter feito isso. A Lua estava cheia demais, eu estava bêbada demais. E mesmo assim eu havia feito, aceitando com prazer o estralo de meus ossos quando Aloys me segurou e o calor de sua pele. Seus lábios eram tão quentes quanto qualquer parte de seu corpo, e eu podia sentir o quanto sua frase era verdadeira senti-o pulsar embaixo.

Mas enquanto meu noivo era infernal, eu ainda sentia necessidade de fazer coisas básicas como respirar. Me separei dele, a cabeça girando três vezes mais do que antes, e coloquei um dedo sobre seus lábios.

— Um momento – pedi, me desprendendo dele e buscando qualquer coisa que me apontasse o Norte outra vez. Pois embora eu pensasse em comandos corretos como: beber água, sentar, respirar, comer alguma coisa, me sentia incapaz de fazer algo além de me esforçar para não tropeçar nos meus próprios pés. Felizmente, o Norte me encontrou, eu só não sabia que ele assumiria a forma de Aimeé Blanchard.

Eu havia a perdido de vista e, sinceramente, não me importei em ficar a procurando. Se realmente precisasse, era apenas ir na direção em que os homens da festa estavam olhando. Mas ela havia me achado. Estava gloriosa com seus olhos brilhantes e cabelo grudado na testa de suor. Seu colo reluzia, também, e seus lábios tinham um leve sorriso de quem sabe demais, exibindo a ponta de seus caninos. Ela me levou até uma mesa vazia, segurando em meu braço, e me largou em uma cadeira, se sentando na minha frente. Aimeé parecia exultante e uma parte de mim se lembrou dela falando “...e já vou avisando que adoro dançar”, se fosse dizer, diria que seu sentimento vai muito além do adorar.

— Belle, Belle, Bebelle, você me surpreende cada vez mais – ela riu, pegando um copo na mesa e colocando na minha boca, me dando de beber como no dia em que descobri que ela não era ruim. Uma parte de mim queria xingar quando não senti o gosto do álcool, mas outra agradeceu. Não fazia ideia de como estava com sede. – Atraiu atenção, sabia?

— Aloys me viu dançar – soltei no meu primeiro fôlego. – Ele viu e, Aimeé, foi a Providencia que o impediu de me jogar no chão, porque vi que era isso que queria fazer. – Puxei o ar pela boca, ignorando o sorriso de escarnio nos lábios de minha cunhada e engasgando ao me lembrar de uma pequena parte. – Oh, Deus... – O copo teria caído no chão se não fossem os rápidos reflexos dela, pois eu o soltei e segurei justamente em seus braços. Ela me olhou irritada, mas ignorei. – Ele me jogaria no chão, Aimeé! Eu... Ele... Ele quer... Deus me ajude.

Nesse exato momento minha adorável cunhada me fez o enorme favor de jogar a cabeça para trás e soltar uma risada que quase foi mais alta que a música. Observei sua figura enquanto sentia que devia ficar com raiva, afinal ela estava rindo de mim, mas falhei miseravelmente. Apenas fiquei a olhando, vendo como suas clavículas eram saltadas e seu cabelo foi para trás, a meio caminho do chão. Quando ela parou, ainda sorria, os caninos aparecendo e os olhos brilhando de malicia.

— Belle, antes de tudo, me diga, o quanto você sabe sobre sexo?

— Sei sobre o que?

— Sexo, Mabelle – uma sobrancelha dela se levantou. – O que pessoas fazem quando sentem tesão uma pela outra e querem aliviar isso.

— Eu... eu não... – queria arranjar um jeito de dizer que a resposta era “nada” sem soar ridícula, mas pela expressão que Aimeé fez, eu poderia pensar pelo resto da minha vida que ainda sim soaria como uma criança. Ela se largou na cadeira, a boca aberta, perdida entre expressar um escarnio exacerbado ou uma pena profunda.

— Lua iluminada, eu sabia que você era inexperiente, mas como você é melhor amiga de Katriane, pensei que já soubesse...

— Katriane? O que Katriane tem a ver com isso?

— Pobre Bebelle. — Aimeé me deu um sorriso perigoso. — Katriane sabe uma coisa ou outra, tenha certeza. Achei que ela iria compartilhar com a melhor amiga, mas vocês nessa vila são tão hipócritas que não se sentem à vontade para falar com as melhores amigas sobre as aventuras com o namorado.

— Não se sentem à vontade de falar sobre o que, querida? – Olhos dourados, sorriso flutuante, cabelos negros soltos – eu jurava que ela começou a noite com eles presos -, e uma vermelhidão no rosto incomum. Rowena apareceu atrás da neta, colocando as mãos nos ombros dela, e sorrindo para mim. – É uma dançarina incrível, Belle, lhe dou os parabéns.

— Sobre transar, vovó. – Aimeé continuou o assunto sem me dar chance de o desviar. – Ou sobre tesão. Ou sobre qualquer coisa.

— Oh – de uma forma mais sutil, vi a mesma reação nela. Porém, mais do que achando graça, Rowena me pareceu preocupada enquanto deslizava para uma cadeira ao meu lado. – Eu acredito que, infelizmente, você não está nem em condições de ter essa conversa. É preciso que esteja razoavelmente sóbria para assimilar o que eu vou dizer, então vamos tratar disso.

Logo eu estava bebendo água, e, não sei de onde, vovó me deu café. Talvez tivesse invocado ou feito com magia, eu realmente não sei. Não tive tempo de fazer perguntas antes que ela erguesse meu queixo com sutileza enquanto encostava a bebida nos meus lábios, fazendo o amargor descer pela minha garganta. Por último, acabei fugindo da minha própria festa e me refugiei em meu quarto (a cabeça muito menos pesada e o corpo muito menos quente), com Rowena ao meu lado. Aimeé ficou no salão por ordens da avó. Aparentemente ela achava mais seguro a neta não estar presente, e eu não sabia se ficava feliz ou aterrorizada com isso.

Ela escancarou todas minhas janelas e me pôs sentada na cama, mandando que eu não deitasse acontecesse o que acontecer. Concordei, com mais uma xicara de café na mão.

— É uma pena que tenhamos essa conversa nessa circunstância, Belle. Se me tivesse dito antes, poderia ter sido melhor. Mas vou tentar fazer da melhor forma possível. – Rowena se sentou ao meu lado, os olhos focados em mim. – Primeiramente, o que você sente quando está com meu neto?

— Me sinto incrível. É algo de outro mundo, como se apenas eu existisse...

— Não, querida. – Ela me deu um sorriso amável. – Digo da outra forma. Quando vocês ficaram sozinhos na floresta, por exemplo. O que você sentiu?

— Ah – minha boca se abriu, enquanto sentia meu rosto esquentar. Mas olhei nos olhos de vovó, no fundo de seu dourado, que aguarda de forma paciente minha resposta, e engoli minha vergonha. – Eu me senti... quente. Queria que ele me tocasse mais, e queria tocar também. Queria grudar cada pedaço meu nele e nunca mais desgrudar. Soltei uns barulhos estranhos, também. Como quando você se machuca, mas ele não estava me machucando.

— São gemidos, querida. – Rowena estendeu a mão e pegou a minha. – Eles aparecem tanto em situações que já conhece, como quando você se machuca, como nessas, e tem sentidos completamente opostos. Enquanto um é a forma sonora de sua dor, o segundo é do seu prazer. É uma forma primitiva e instintiva de homens e mulheres manifestarem que estão gostando do que seu parceiro está fazendo.

— Então... – Uma parte de mim queria me esconder de baixo da cama, mas pisei em cima dela com mais um gole de café. – É normal soltá-los? Tive medo que estivesse fazendo alguma coisa errada...

— É absolutamente normal, Belle. Algumas pessoas soltam mais, outras soltam menos. Vai de cada pessoa, e a única coisa que você tem que se preocupar em relação a eles é deixá-los sair quando quiserem sair. – Ela riu um pouco, mas escondeu com a mão e não tirou sarro de mim. Agradeci mentalmente por isso. – Os gemidos, como eu disse, são a manifestação do prazer que a pessoa sente. Sabe o que é prazer, Belle?

Eu sabia. Quero dizer, achava que sabia. Era prazeroso comer meu prato favorito, e prazeroso abrir um livro novo. Mas tinha a leve impressão de que o prazer de que Rowena falava era de um tipo bem diferente, então fiquei calada.

— Prazer é exatamente o que você disse para mim, querida – ela sorriu. – É se sentir quente por dentro. É diferente de desejo. Enquanto o segundo é, usando suas palavras, querer tocar na pessoa e querer que ela te toque de volta e grudar cada pedaço seu nela, o prazer acontece enquanto você efetivamente faz essas coisas. Entendeu até agora?

— Desejo é querer que a pessoa te toque e querer tocar. – Respondi, como a resposta de algum teste. – Prazer é o que acontece quando tocamos e somos tocados. E gemidos são uma forma de expressar esse prazer.

— Muito bem – ela riu. – Agora, bom, você sabe que meu neto lhe deseja, obviamente. E vou arriscar e dizer que você o deseja, também. – Ela arqueou uma sobrancelha, me instigando a discordar, e deu um sorriso muito parecido com o de Aimeé quando não o fiz. – Vocês já sentiram prazer um com o outro, pelo que me lembro. – De novo, uma pausa. Mas dessa vez senti meu rosto esquentar mais um pouco, bebendo um longo gole para permanecer em silêncio. – O que vai acontecer hoje à noite é como o que aconteceu na floresta. Mas agora os dois estarão se firmando como marido e mulher, e não vão apenas se beijar.

Tinha mais? Era uma pergunta ridícula, mas fez meu coração acelerar. Era possível atingir mais prazer do que Aloys me mostrou, naquela noite na floresta? A imaginação me fez morder os lábios e segurar a xicara com força.

— Mas, Rowena... – Soltei o ar para ter coragem de a olhar nos olhos de novo. – O que... o que eu faço? Quero dizer, Aloys já parece tão seguro de si... e se eu fizer algo que o desagrade?

— Honestamente, querida, eu duvido que você faça alguma coisa que ele não goste. Faça apenas o que lhe der vontade, sim? Não pense no assunto, não imagine o que os outros pensaram disso, pois ninguém vai saber. Não se prenda a nada. Apenas faça o que tiver vontade. Aloys é seu marido, e se há alguém no mundo com quem pode se libertar, é ele. Principalmente em quatro paredes – ela me respondeu. – Mas devo te dizer algo importante: sempre, em qualquer momento, se ele fizer algo que não goste, diga. Não pense em se forçar para o deixar feliz, pois não deixará. É um ato de intimidade forte entre os dois, e deve ser o mais prazeroso possível para ambos. E isso não vai acontecer se estiver desconfortável com alguma coisa, não acha?

Tudo que fui capaz de fazer foi concordar com a cabeça. Essas coisas, eu achava, não se eram para serem conversadas, mas agradeci aos céus por estar tendo essa conversa, mesmo que estivesse querendo me enfiar debaixo de minhas cobertas. Finalmente entendi porque Aimeé ficou para trás. Teria sido um inferno com ela presente, me jogando comentários maldosos com o sorriso pingando escárnio. Mas era apenas vovó. Com seus olhos dourados e sorriso gentil, levou a mão até meu rosto e o acariciou, fazendo com que me acalmasse.

— Agora, querida – ela continuou. – Ainda são apenas nove horas. Porque não desce e aproveita sua festa? Tenho certeza que suas amigas estão te procurando.

Katriane e Therese. Eu tinha que falar com elas. Principalmente com Katriane, e perguntar exatamente o que ela e Lenard faziam em todas as vezes que sumiam dessa forma. Me levantei, muito mais firme do que entrei, e apesar de estar um pouco letárgica com o fato de terem se passado três horas desde o início da festa, desci as escadas depois de abraçar Rowena um pouco mais. Por um momento, pensei ter sentido um cheiro almiscarado forte nela, diferente do dela, mas então eu já tinha a soltado e a música voltava a dominar cada pensamento meu.

Não avistei nem Aloys e nem Aimeé quando desci, mas sim Therese. Ela rodava e ria, dançando em seu próprio mundo na maior parte do tempo, mas as vezes fazendo par com quem quer que se colocasse ao seu lado, homem ou mulher. Deslizei até lá, segurando em suas mãos, e seus olhos pesados se abriram para mim. Ela sorriu.

— Belle! – Seu sorriso era bonito, e não tinha nada a ver com seus dentes, ou algo assim. Era porque era tão preguiçoso e tão vago que parecia que ela estava sorrindo para algo dentro de você. Therese era uma criatura profunda, do tipo que reparava inocentemente se você dormiu menos e algo tão fútil, como o brilho dos olhos, era destaque para ela. – Você sumiu! Vi você na pista, e vi de novo, e de novo, e de novo, até que não vi mais.

— Fui conversar com Rowena, Therry – respondi, rindo. – Não vai acreditar no que ela me contou! Mas antes precisamos achar Katriane e fazê-la pagar por não ser honesta conosco.

— Kat mentiu? – Seus olhos se arregalaram, a boca se abrindo. Isso me fez rir mais, me jogando em seus braços e abraçando minha amiga etérea.

— Pode-se dizer que sim, Therry. E não uma vez, mas várias! É um absurdo, não acha? Somos suas amigas! Vamos, ela tem que nos dar explicações!

Acabei arrastando minha pobre amiga – que ainda não entendia nada do que estava acontecendo – por todo o salão até achar Katriane. No processo, perdi Rowena de vista, e já não sabia onde estava Aimeé e muito menos Aloys. Mas os esqueci por um instante, mesmo que fosse difícil, e me concentrei na minha amiga agarrada a Lenard em um canto, nada surpreendente,

— Katriane! – Gritei e me impedi de rir com muita dedicação de sua cara surpresa e aterrorizada enquanto se afastava de Lenard com um pulo, as mãos indo de uma vez para os cabelos, tentando arrumá-los com olhos arregalados. Quando me reconheceu, soltou uma respiração longa e irritada.

— Ah, é você, Mabelle – Kat parou de se arrumar, e eu poderia avisar sobre seu decote absurdamente baixo, mas preferi rir da sua cara. – Vai ficar rindo ou vai me dizer porque foi tão rude?

— Vou ficar rindo e dizer porque fui rude, Kat – cruzei os braços, rindo de suas bochechas vermelhas. – Você, que sabia que eu iria me casar, nunca se deu o trabalho de me contar o que fazia! Isso foi traição, Katriane! Como minha melhor amiga pôde me ver indo em direção a algo completamente desconhecido e não me dar qualquer luz?

— Eu... você está falando sério? – Suas bochechas esquentaram enquanto sua cabeça tombava. Kat estava bêbada, eu podia perceber, e seu cérebro alcoolizado trabalhava as informações da melhor forma que podia. No final, ela disparou em minha direção, segurando em meus braços. – Mabelle Bertrant...

— Blanchard— a voz de Therese veio do além, corrigindo minha amiga, que engasgou antes de continuar.

— ... Blanchard! Eu não acredito que me procurou na sua festa de casamento para isso! Eu ia justamente...

— O que? – A parei, segurando-a dessa vez. Suas bochechas esquentaram ainda mais.

— Ia justamente dar algum prazer para meu noivo!

— E como vai fazer isso, assim, só de curiosidade? – Arqueei uma sobrancelha e acho que nunca vi Katriane tão envergonhada na vida. Por um breve momento pensei em Lenard, atrás dela, escutando tudo. Senti pena dele, mas eu tinha coisas mais importantes para me preocupar. Eu iria para minha lua de mel, e minha melhor amiga tinha a obrigação moral de não deixar eu ir completamente despreparada!

— Algo envolvendo o pênis. – Não foi Katriane que respondeu. Tanto eu quanto ela olhamos para trás de mim, onde Therese estava brincando com seu vestido, os olhos pesados em nós. – Sabe, Belle, é um órgão do corpo, assim como o braço ou os olhos. Mas existe apenas nos homens e fica no mesmo lugar da nossa vagina. É realmente sensível, e os homens gostam que mulheres mecham nele com as mãos ou com a língua.

— Therry... – tentei falar, mas meu queixo estava caído demais para completar alguma frase. Felizmente, não era o caso de Katriane.

— Como diabos sabe disso, Therese?!

— Meus pais são donos do boticário – ela encolheu os ombros. – Para os remédios e fusões que fazem, precisam conhecer o corpo humano. Muitas mulheres já foram lá buscando algo que esquente a noite, seja algum creme, erva ou perfume. São quase as mesmas mulheres que, todo mês, fazem mamãe ficar sem dormir preparando infusões e chás para evitar que engravidem. Sorrel quer ser médico, também. Ele tem muitos livros sobre anatomia humana. E além do mais – ela encolheu os ombros. – Não sei porque, as pessoas nunca acham que estou prestando atenção. Já ouvi muitas conversas por aí.

— Existe como não ficar grávida? – A voz de Kat saiu fina e eu não me surpreendia dessa ter sido a parte que a interessou. Imaginei o quanto esse medo a perseguiu pelos anos, e agora saber que ele poderia ser evitado devia ser um choque,

— Therese... – meu queixo estava caído, enquanto minha amiga sonhadora olhava para nós por mais alguns instantes antes de se concentrar em algum reflexo de luz e o seguir, sem nos dar atenção. Katriane me ignorou e a Lenard, seguindo minha amiga por entre as pessoas, e eu fiquei ali, de repente sozinha.

Virei minha cabeça procurando as duas coisas que me fariam voltar a aproveitar a festa: bebida e Aloys. Acabei achando o segundo primeiro e não precisei olhar duas vezes para perceber que havia algo errado. Seus olhos estavam cinzas demais, seus ombros tensos demais, seus caninos aparecendo demais. Estava ao lado de Aimeé e da avó, mas elas se afastaram quando eu me aproximei.

Meu marido estava de costas para mim e calei o medo de o encostar. Meu toque em seu ombro foi o bastante para fazê-lo olhar para mim e me senti derreter quando seus olhos brilharam um pouco, o violeta ganhando um pouco mais de cor. Suas mãos foram para minha cintura e ele me abraçou de uma forma que não tinha me abraçado antes. Senti meu colar queimar e as batidas de seu coração. Queria perguntar o que tinha acontecido para o deixar assim, mas ele não me deu chance. Se afastou com um beijo em minha testa e me abriu seu sorriso, me exibindo todos seus dentes.

Então me puxou para dançar.

Se eram por volta das nove quando Rowena me puxou para cima e tivemos nossa conversa, eu não fazia mais ideia de quantas horas eram nesse momento. Eu tinha consciência de poucas coisas nesse momento e a maioria delas envolvia Aloys.

As mãos de Aloys, a respiração de Aloys, a proximidade de Aloys, os braços de Aloys, os olhos de Aloys. Aloys era tudo que existia no mundo além de mim, seu calor irradiando até mim, me aquecendo a pele e me fazendo fechar os olhos para a música. Eu queria me deitar nesse calor e nunca mais sair, e quando o querer era maior do que o recomendável, ele me puxava e me rodava, colando nossos corpos, me dando pouco do que eu queria antes de me soltar.

Ele não tinha coração.

Infelizmente, meu corpo se cansou em certo tempo e meu gentil marido me tirou na pista e me pôs sentada. Observei seu belo rosto e procurei qualquer sinal de cansaço. Não encontrei nenhum. Ao contrário de mim, que tinha cabelos grudados na nuca e na testa, um rosto quente e respiração descompassada, Aloys não apresentava qualquer indicio de esforço além da camisa um pouco suada.

— Cansada, Belle? – Aloys perguntou à minha frente, os lábios abertos em um sorriso. Passei a mão em meu cabelo, já desfeito a bastante tempo e devolvi o sorriso.

— Porque? Você está? – Isso o fez rir, os olhos brilhando, violeta-cinza de igual para igual.

— Já são uma da manhã e quase todos já foram embora, acho que é a nossa vez também. – Meu rosto caiu um pouco e ele deve ter percebido, pois se inclinou para mim e prendeu minha orelha entre os dentes, me fazendo agradecer por estar sentada. – Melhore essa cara, bambina, e guarde esse entusiasmo. Nossa noite não acaba aqui.

Mesmo depois que Aloys se afastou – dizendo algo sobre carruagem e procurar Aimeé -, ainda permaneci no mesmo modo em que me deixou, com sua voz rouca e baixa fazendo um caminho até minha coluna, me fazendo tremer. Disse a mim mesma que não era necessário tudo isso. Graças à Therese eu já tinha ideia de alguma coisa.

Aloys não havia mentido quando disse que quase todos já haviam embora. Os Foucher e Giraud já haviam ido embora. Imaginei que tia Deuphine foi a primeira a querer ir para casa, já que tinha uma bebê de três anos nos braços, e os Giraud também possuíam crianças pequenas. Katriane não deve ter ficado feliz, mas não perdeu nada, pois também não via os Pottier. Lenard deve ter puxado todos para ir embora logo quando Kat também foi.

Etienne também já devia ter subido, morto de sono, e colocado na cama por alguma empregada. Papai ainda estava aqui, junto a algumas pessoas de famílias menos abastadas e os Guillot. Observei minha pobre amiga Therese em um canto, de olhos fechados e ressoando baixinho, e torci para que seu irmão cuidasse bem dela.

Quando Aimeé apareceu do ao meu lado, não poderia dizer com certeza de onde ela saiu. Só tive alguns momentos para ver seu cabelo bagunçado de dançar e seu sorriso afiado antes que me pegasse pelo braço e me levantasse. Olhei em seus olhos esperando ver alguma maldade, mas só havia graça.

— Hora de ir embora, Bebelle.

E eu queria dizer que chorei quando abracei meu pai na hora de despedir, e que meu coração sangrava enquanto entrava na carruagem dos Blanchard (que, aliás, eu nem sabia que tinham uma), queria dizer, de verdade, que sentia muito. Mas tudo que pensava enquanto me acomodava ao lado de Aloys e de frente a Aimeé e Rowena era no que aconteceria quando chegasse na minha nova casa.

Casa.

Eu não me lembrava de alguém já ter ido ou conhecido a residência dos Blanchard. Não fazia ideia do que esperar, e se já não bastasse o resto da noite me fazendo respirar fundo, ainda tinha isso para fazer com que esticasse o pescoço, tentando ver algo através da escuridão profunda da floresta.

— Não devia ter um cocheiro? – Perguntei, olhando para Rowena, que balançou a cabeça.

— Não, querida. Os cavalos conhecem o caminho. – E aparentemente conheciam bem, pois faziam a carruagem atravessar a floresta com quase nenhum solavanco ou turbulência. Olhando pela janela e tentando distinguir alguma coisa, senti a mão de Aloys na minha coxa e isso me fez virar o rosto para ele. Encontrei seus olhos, violeta-cinza, e tive de respirar fundo para acalmar meu coração.

Esse homem era meu marido. Estava ao meu lado, segurando em mim, e me olhava como se não eu fosse sumir a qualquer instante, abrir a porta e me jogar na floresta. Queria dizer que não faria isso. Que não iria a lugar nenhum. Mas não encontrei palavras com sua avó e sua irmã à nossa frente, então segurei em sua mão.

Esperava que ele entendesse que eu nunca iria embora.

Não por ser sua mulher e nem por qualquer sentimento de posse. Não. Eu ficaria.

Ficaria porque o amava.

Notas finais
Então amores :3 Gostaram? Espero que sim :3 Bjs da tia!