Lua Negra
1 Capítulo 1 - Bosque
Notas iniciais
— Senhorita Kagari, atrasada de novo pelo que vejo. – Repreendeu Finneran olhando-a com desdém – Quantas vezes foram só essa semana? Estou ciente que você sabe que isso é uma universidade e não uma escola de colegial, por isso as regras em relação aos horários são menos brandas, mas eu aprecio o comprimento do horário em minhas aulas!
— Mas eu....
— Nada de “mas” ao final da aula vamos discutir sobre atividades de horas complementares para você repor esse tempo perdido ao longo do semestre, talvez assim lhe de alguma disciplina em relação a pontualidade. Agora se você não se importa ache um lugar para sentar, pois devo retomar a aula.
Suspirou e se retirou do local sabendo o quanto era inútil tentar discutir com a superior. Sentou-se em uma carteira livre no meio da sala algumas fileiras próximas ao final da parede, puxou um caderno e uma caneta azul e começou a tomar notas.
— Voltando de onde paramos; A estrutura básica para a criação de um ambiente em realidade virtual, usando como base o sistema programação de óculos VR que vimos na aula anterior, começa co-
Discretamente levou a mão a boca tentando ao máximo disfarçar um bocejo, seus olhos pareciam pesados e a voz da professora, aos poucos, ficando mais distantes.
Talvez não fosse uma boa ideia ficar até tarde brincando no bosque com os espíritos, pelo menos não quando havia aula da professora Finneran no primeiro horário.
Bocejou novamente, concentrou-se nas notas bagunçadas do caderno e na voz da professora tentando prestar atenção na aula.
*
Bateu a bandeja de comida na mesa, com força. Os alimentos nela saltavam brevemente. Com um bufo irritado sentou-se.
— Parece que alguém pegou horas complementares novamente~ – Cantarolou a ruiva.
— Calada Amanda! Eu nem estava muito atrasada, Finneran que vive pegando no meu pé. Eu não sou mais criança.
— Mas age como uma. – Outra voz, monótona, respondeu.
— Sucy! – Repreendeu Lotte e depois virou-se para a amiga problemática – Foi a terceira vez só essa semana Akko. Tem certeza de que está tudo bem?
— Insônia novamente? Se quiser eu tenho alguns chás e comidas que dizem ajudar. Você pode sempre vir ao nosso quarto quando isso acontecer. – Ofereceu Jasminka.
A jovem morena negou com a cabeça – Apenas um pouco de insônia.... Deve melhorar em alguns dias.
— Diga isso para Finneran – Comentou Amanda com desdém, colocando os pés sobre a mesa – Ela provavelmente adoraria saber disso – Riu.
— Jasminka está certa, Akko. Porque não tenta? Isso me ajuda a dormir sempre que fico animada com alguma parte de Nightfall e já passou do horário...
Abriu a boca para responder quando sentiu uma leve, e familiar, fragrância no ar. Virou o rosto para a entrada do refeitório, encarando o trio que passava pela porta.
Os cabelos louros claros com mexas verdes, a pele branca e olhos azuis. A seguida de si estavam duas garotas. Uma de cabelos marrons claros em um rabo de cavalo e outra garota de cabelos preto soltos.
— Akko? – Chamou Lotte seguindo junto dos seus amigos a linha de visão da morena – Akko...?
— Hãm, desculpe. – Riu nervosamente.
— Uou, você foi longe lá em! – Zombou Amanda ganhando uma língua de fora. – Diana Cavendish, em?
— Você a conhece?
— Quem não a conhece? – Respondeu ironicamente. – A menos que você viva em outro planeta. É a miss estrela da Universidade.
— Estamos falando da Akko. Ela mal deveria saber quais são os horários dela de amanhã se não fosse pela Constante.
— Bem, me desculpe por isso! Eu sei meus horários! E obrigado Constante. – Virou encarando novamente o trio.
Constante levantou um polegar afirmativo.
— Mas eu nunca vi ela pelos campos, ao menos não na parte dos dormitórios.
— Diana Cavendish, – Repetiu Lotte – ela cursa medicina. Está no primeiro ano assim como nós, dizem ser a melhor da turma se não a melhor aluna que vai se formar no curso. Sobre os dormitórios; ela fica em outra ala diferente da nossa, se não me engano é a ala sul...
— A ala dos quartos mais “nobres”. Dizem que ela tem um quarto enorme separado das companheiras delas... é muito bla bla bla para uma pessoa só. – Amanda girou os olhos – Olhe para ela, é como se ela estivesse vindo de uma família nobre de 1400. Agindo sempre perfeita e pontual.
— Eu não duvidaria, ela é herdeira de uma família prestigiada de médicos, conhecida mundialmente na medicina e que vem de séculos e séculos como carreira de família. Dizem que eram contratados por imperadores, reis e nobres para curar doenças. Falam, além, que muitas das descobertas na história da medicina vieram dessa família.
Apoiou o queixo na mão observando a jovem que passava, sua mente vagando em pensamentos da noite anterior.
—–
Ria enquanto corria e brincava no bosque com os espíritos da floresta. O frio ar da noite balançava as folhas das arvores trazendo uma corrente de ar gelada que não a incomodava. Escondia-se atrás e no alto de arvores, abaixava entre arbustos, quando não era sua vez de procurar. A certo ponto, aproximando-se do campo da Universidade, parou de correr ofegando alguns segundos pelo ar perdido, ocasionalmente balançava suas caudas animadamente ao seu redor fazendo algum carinho em algum espirito próximo. Olhou para cima verificando a posição da lua e meditou por alguns instantes, por fim decidiu que era tarde, mais tarde do que o planejado, e suas pequenas aventuras e brincadeiras deveriam continuar outro dia.
Ainda havia aula para frequentar na manhã.
— Eu tenho que ir agora – Anuncio –, mas voltarei em breve para brincarmos mais.
Deu um aceno rápido para as criaturas e caminhou lentamente em direção ao campo aberto pretendendo usar o pouco espaço que ainda havia sobrado do bosque para assumir uma forma humana, quando suas orelhas animais capitaram um som diferente. Uma respiração calma, lenta, em ritmo constante.
Assustada saltou para um galho alto e firme da arvore mais próxima, escondeu-se. Observou a alguns metros à frente um caminho de terra iluminado por pequenas e sutis lâmpadas presas ao chão.
A pessoa estava em uma caminhada.
Angustiada mexia suas caudas em diversas direções, encarando atentamente o caminho. O tempo parecia não passar enquanto, devido a sua audição aguçada, escutava os passos se aproximarem lentamente.
Até que perdeu o folego.
Se não fosse pela falta de algo em sua presença juraria que quem estava passando a sua frente não era humana, pois atraia não somente a sua atenção como a dos espíritos a sua volta. Tão distraída para nota-los admirando-a.
E não que não houvessem motivos.
Tinha uma pele branca, clara. Cabelos claros com mexas em um sutil verde — Seriam pintadas? Duvidava, algo dentro de si dizia que eram naturais, o que não era estranho considerando que tinha amigas humanas, uma de cabelos roxos claros e outra com uma mistura de amarelo e rosa -, olhos de um azul que nunca tinha visto.
Andava distraidamente pelo caminho. Seu olhar perdido no horizonte, perdida em pensamentos.
Uma brisa passou por ambas levando com ela a fragrância da humana. Um cheiro doce. Não usava perfume e considerando suas roupas — não tão formais para um passeio, mas não tão casuais — provavelmente era uma caminhada noturna.
Curiosa inclinou-se mais em direção a garota desconhecida tentando observa-la melhor. Inclinou mais e mais e mais.
Até que caiu da arvore.
Suas costas bateram no chão e o ar deixou seus pulmões.
Muito bem Akko.
— Quem está ai?!
Se não estivesse tão apreensiva com a situação talvez tivesse se admirado com o timbre da voz que dirigia a si. Alarmada e sem tempo para se disfarçar em uma forma humana — e mesmo que tivesse, que desculpa daria? Suas desculpas, de acordo com Sucy e Amanda... E talvez Lotte... eram horríveis -, olhou em volta por algum caminho, alguma solução, que a salvaria.
— Olá? – A voz aproximou-se, apenas algumas arvores antes de si. Podia ver uma luz que iluminava o caminho. – Tem alguém aqui? – Os passos eram cautelosos, diferente de antes, e a respiração assim como o tom de voz mudaram.
Deu uma rápida olhada no local e já sabia que facilmente não sairia dessa. Na queda acertou alguns galhos menores da arvore e os arbustos na qual caiu estavam agora destruídos. Era em uma base obvia de uma evidencia de que algo havia acontecido. Se ao menos que houvesse uma forma de escapar tinha quase certeza de que a jovem não a seguiria.
Humanos em sua maioria tendem a ser medrosos com o desconhecido. Era por isso que a lhe preocupava a falta de medo que não detectava na jovem. Não sentia o cheiro de medo, mas claramente estava em guarda.
Talvez para correr ou atacar.
Esperava que fosse a primeira opção.
A luz que iluminava o chão estava mais clara e a distância entre si e a garota era uma grande arvore que ficava em seu caminho, olhou desesperadamente para os lados em busca de uma solução... não vendo outra alternativa e sabendo que o tempo para se transformar em humano era menor do que de ser descoberta — além de ser inviável — invocou um selo na palma da mão. Concentrando-se uma chama azulada e preta apareceu no centro do papel e o selo replicou-se diversas vezes, brilhando levemente, cercando-a
Era o jeito mais rápido, e seguro, e mesmo que não pudesse explicar o que aconteceu ao menos era mais discreto do que uma pessoa com um par de orelhas e noves caudas.
Quando a jovem chegou ao local deparou-se com uma raposa marrom, normal, sentada no meio dos arbustos. O celular em sua mão servia de lanterna. Olhou para o local por algum tempo até voltar sua atenção para o animal a sua frente.
Ótimo, pensou, consegui me disfarçar a tempo, e quase suspirou, mas se conteve. Raposas não suspiram, certo?
Agora acho que ela vai embora. Perfeito. Eu sou tão esperta!
Fechou os olhos enquanto vangloriava-se mentalmente, tão distraída que mal percebeu os passos em sua direção. A garota abaixou-se do lado dela e tocou em seu corpo.
Kyaah!
Assustada raposa recuou institivamente, seus olhos se estreitaram tanto pelo susto como pela luz em seu rosto. Isso bastou como um sinal para que a jovem não tentasse se aproximar mais. Demonstrando uma calma controlada ela colocou o celular de lado no chão e ergueu um braço na direção do animal, gesticulando para se aproximar.
Me chamando como se chama um cachorro, o que ela pensa que eu sou? Como se eu fosse cair nessa e ir em direção a ela... humanos...
— Eu não vou fazer mal. – Para provar seu ponto ergueu a outra mão, deixando-a a vista. – Venha aqui. – Chamou novamente.
A voz calma a fez mudar de ideia.
Hesitante e lentamente, aproximou-se. Cheirou os dedos da mão com uma desculpa de agir como animal.
Ela tem um cheiro bom. Cheira a algum tipo de erva... chá? Algum tipo de chá?
Isso me lembra....
Deu mais um passo.
A jovem sorriu levemente e lentamente com a mão erguida fez um carinho na cabeça da raposa, perto das orelhas e as vezes descendo para as bochechas. Era sutil e leve, mas lembrava de anos atrás quando sua mãe acariciava sua cabeça em momentos de carinho. Aproximou-se mais, degustando do contato. Fechou os olhos em apreço ao ato.
— Parece que você fez uma bagunça aqui... – Comentou em tom divertido.
Ganhou apenas uma abanada de cauda em resposta. A jovem riu levemente. Abrindo um dos olhos pode observar melhor o rosto da garota, principalmente as leves olheiras.
A caricia continuou por mais alguns minutos antes da jovem pegar o celular e levantar assumindo uma pose reta e profissional que era traída pela expressão suave que carregava, olhou para o animal. – Esta tarde, devo me retirar agora, deveria fazer o mesmo jovem raposa.
Acenou uma última vez e mesmo jeito que veio virou-se e se retirou, sem olhar para trás.
Que humana curiosa.
—–
E de repente uma ideia se formou em sua mente.
— Então como eu encontraria esse quarto? – Perguntou.
— Para que você quer o quarto dela? – Questionou Lotte.
— Bem... eu... digamos que...
— Conhecendo Akko, provavelmente para se meter em algum tipo de encrenca – Riu Sucy de forma que levou um pequeno arrepio a espinha.
— Hey!
— Todos os quartos são indicados pelos nomes dos integrantes, então você não teria dificuldade.
— Obrigado Lotte.
— Oh, parece que a Cavendish já roubou um coração aqui. Não sabia que você tinha esse tipo de preferência, Akko.
— Fique quieta Amanda, eu estava apenas perguntando! – Rebateu – Do jeito que vocês falam parece até que tem que ter cartão com acesso para entrar.
— Eu não duvidaria.... Ela não leva o título de Miss Universidade por nada.... Só falta erguerem um tapete vermelho por onde ela passa. – Gemeu Amanda – E a dupla que anda com ela é pior.
— Hmmm.... – As observou por um tempo e então voltou seu olhar para seus amigos – Pensando bem... achou que vou aceitar os chás então. Passarei por lá depois da janta para pegar uma caixa deles, tudo bem? – Virou para a Jasminka, sorrindo levemente.
— Vou deixar separado para você, então.
— Obrigado Jasminka! – Agradeceu animadamente.
*
— Se eu não em engano essa deve ser a ala sul.... – Olhou brevemente o mapa da faculdade no aplicativo de celular. Suspirou e desligou a tela antes de guardar no bolso. – Agora só falta achar o quarto....
Passou lentamente pelos corredores lendo as placas de cada quarto. A essa hora da noite já não teria ninguém acordado, logicamente.
A não ser pela garota de leves olheiras.
Apertou a caixa de chá na mão como se para garantir que ainda estivesse lá. Tudo isso ainda era estranho para si e não fazia o menor sentido que estivesse fazendo isso por uma pessoa desconhecida que simplesmente fez um pouco de carinho em sua cabeça.
Não eram pelo seu cheiro que a lembrava dos campos onde cresceu. Não era pelo seu carinho que a lembrava de casa, a quilômetros e quilômetros de distância. Não é por seus olhos e sua presença serem algo que se duvide humano, apesar de ter certeza disso.
Não, ela não estava curiosa, ou fascinada, ou admirada, por uma estranha somente por que ela sabia fazer um bom carinho. Nada disso.
Ela estava apenas devolvendo um favor.
—–
Três batidas constantes foram ouvidas na porta. A jovem herdeira ergueu o olhar dos livros didáticos aos quais estudava.
Quem seria a essa hora da noite?
Após alguns segundos outro conjunto de batidas. Eram sutis.
Suspirou e retirou os óculos de leitura colocando-os delicadamente em cima da mesa antes de esfregar levemente a ponta do nariz. Caminhou em direção a porta, abrindo-a.
— Olá, boa noite em que poss-
Não havia ninguém.
Abriu totalmente a porta dando um passo em direção ao corredor quando seu pé encostou em algo. No chão havia uma pequena caixa de chá. Abaixou e a pegou. Era um chá calmante, geralmente usado para ajudar a relaxar e a dormir. Recomendando para pessoas com insônia.
Olhou mais uma vez para o corredor vazio e escuro onde apenas uma janela aberta permitia que uma rajada de vento frio passasse por si fazendo-a se arrepiar. Tremeu levemente antes de se virar e fechar a porta do quarto.
Isso foi estranho.
Depositou a caixa em cima da mesa ao lado dos livros e voltou a estudar.
—–
Mais tarde naquela noite uma jovem herdeira preparava uma deliciosa xicara de chá deixada misteriosamente em sua porta, enquanto ao longe em um bosque uma criatura das fabulas, guardiã da floresta, corria e brincava com os espíritos que ali ficavam.
No dia seguinte Diana acordou se sentindo muito melhor e Akko se atrasou para a aula. Novamente.
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