Não faço ideia de quando foi a última vez que me senti viva. Voltei da escola sozinha hoje, após uma pequena discussão com o Thomas. Nossos dias juntos representaram o mais perto que cheguei de ser feliz. Eu jamais me daria ao luxo de perder uma amizade assim, mas meu orgulho permitiu que essa manhã não passasse de silêncio entre nós. Parei um quarteirão antes e me sentei na calçada, deixa falarem, precisávamos conversar e não poderia ser naquela prisão que meus pais chamam de casa. Avistei ele de longe. Chegando mais perto, e mais…

– Tho… — Ele sempre fica desconcertado quando o chamo assim, mas dessa vez não demonstrou muita emoção. Eu esperava por mil insultos seguidos de uma briga séria e dias afastados, mas ele apenas se sentou ao meu lado e encostou a cabeça no meu ombro. Nesse momento eu tive certeza de que tudo estava bem entre nós.

Meu nome é Elize, todos me chamam de Ellie. Amigos, familiares, enfim. Exceto pelo Tho, que desde que nos conhecemos se dirige a mim apenas como Liz. Eu até gosto, tornou-se um tipo de exclusividade dele. Assim como apenas eu o chamo de Tho, para a maioria é Thommy, para sua mãe, Thom. Ele não tem pai, o abandonou pelo que parece, mas eu nunca toquei diretamente no assunto, com medo de reabrir feridas de alguma forma. Ele é corajoso, mas tem alma sensível. Não me abandonou um segundo sequer nos últimos cinco anos. Tenho quinze e ele dezesseis. Nós nos completamos, um precisa do outro e sabemos, mas não admitimos e provavelmente nunca diremos isso em voz alta. Somos melhores amigos e basta. A verbalização é totalmente desnecessária.

Meu pai não gosta dele, por achar que “não pertencemos ao mesmo mundo”. O fato de morarmos em uma mansão apenas me aborrece. Antes eu fosse como Thomas, com uma vida simples e cheia de alegrias. Minha mãe não tem nada contra, até gosta de nos ver juntos e rindo, por isso acabamos nos aproximando.

Gosto da mãe do Tho, ela não se importa com quem eu sou, só quer ver seu filho feliz. Antes meu pai fosse assim.

Vivemos em uma cidade não muito grande chamada Davlin. Todos me conhecem por “garotinha mimada”, “filha do ricasso” e afins, queria que estivessem em meu lugar por um único dia. Não costumam gostar da ideia de eu e Thomas andando juntos, há um tipo de regra sobre classes diferentes não se misturarem, mas acho ridículo, obviamente.

O clima, não só aqui como no que sobrou do mundo, está bem tenso, quente, complicado. O principal assunto é que tudo virá a desmoronar em breve, e quem pode pagar está bancando um tipo de viagem sem volta para outra dimensão, como uma tentativa medíocre de recomeçar, dizem que há um planeta semelhante a Terra na atmosfera e essas coisas, mas não sei bem como isso funciona. Meu pai é um desses que está “contribuindo”, ele falou que era para ele, mamãe e eu, mas já deixei claro que sem meu melhor amigo e sua mãe podem me esquecer. Só que isso não importa agora, talvez nem aconteça.

Voltei para casa com o Tho, ignorando os olhos do meu pai que me fuzilavam de trás da grande janela de vidro, parei no hall de entrada e me despedi com um abraço. Há quanto tempo não fazíamos isso? Tão simples, raro entretanto. Me senti confortável no momento, ficamos algum tempo assim. Comecei a afrouxar meus braços para finalmente entrar, mas ele não me soltava de forma alguma, parecia que precisava mesmo de mim.

– Está tudo bem? — Perguntei em voz baixa e aparentemente tranquila.

– Sim, é que… — Ele me soltou aos poucos e, sem dizer mais nada, me deu um beijo no rosto e foi embora, cabisbaixo.

Entrei quieta e fui direto ao meu quarto. Odeio essa casa, é impossível ter privacidade. Bati a porta na certeza de que alguém estaria me espionando pela microcâmera do meu espelho cuja existência jamais deveria ter sido notada, mas tenho meus contatos. Abri o closet e e peguei a primeira coisa discreta que encontrei, — um vestido branco até os joelhos, com tule, mangas curtas e rendadas. Um dos meus favoritos por sinal, uma das poucas peças que minha mãe não escolheu, ela é a pessoa mais escandalosa que conheço, se pudesse, tenho certeza que colocaria glitter por toda a casa (já tentou uma vez, por sorte ninguém concordou), mas amo ela desse jeito, se não fosse assim, não seria minha mãe — e então saí pela porta dos fundos, evitando comentários inconvenientes.

Parei na porta da casa do Tho e pensei dez vezes antes de bater. E se ele quiser ficar sozinho? Provavelmente não. Bati de leve e esperei por alguém, olhando para baixo, por algum motivo fiquei sem graça, como se não me quisessem ali. Esse pensamento tomou conta da minha mente e me virei para ir embora, quando ouvi:

– Liz, espera… — Seus olhos mel haviam adquirido um tom acinzentado e seu rosto estava em tons de vermelho, o que indicava que estava chorando há pouco. Eu não sabia o que fazer.

– Por… Que… Me desculpa, quer que eu… — Impossível completar uma única frase. Me aproximei e ele me puxou pela mão para dentro da casa. Chegamos ao quarto da mãe dele e me deparei com a cena mais chocante que já presenciei: ela estava em um estado doentio, se contorcendo de forma horrível na cama, e Thomas nunca me disse nada, ele nunca aceitou minha ajuda de forma alguma. No mesmo segundo chamei o médico da família, que apareceu em questão de minutos. Tirei Tho do quarto porque senti seu corpo enrijecer ao meu lado. O fiz sentar no pequeno sofá da sala, e assim que o abracei, ele desabou.

Eu nunca o havia visto nesse estado, fiquei por horas apenas acariciando seu rosto, enrolando seu cabelo em meus dedos, e acabei chorando junto, porém as lágrimas eram silenciosas. Quanto mais fraqueza eu transmitisse, pior ele ficaria. eu aprendera e amar Kelly como uma segunda mãe, ela sempre me acolheu e me tratou como se fosse da família. ela me chama de “adotiva” e fico feliz por isso, Thomas tem uma mãe maravilhosa e vejo que um cuida do outro o tempo todo.

Ele dormiu no meu colo quando os soluços pararam, e então finalmente deixei a dor escorrer por meus olhos também, tentando ao máximo não emitir som algum, para que ele não acordasse e me visse tão vulnerável.

Meus olhos fitaram o teto branco até eu conseguir me conter. O Dr. Felix saiu calmo porta afora:

– Há chances de ela ficar bem, mas deixe-a descansar. Possivelmente dormirá até amanhã.

– Obrigada — sussurrei, e fiz um gesto perguntando quanto eu estava devendo.

Ele olhou com ternura para o garoto que dormia em meu colo, balançou a cabeça em negativa indicando que não cobraria nada e saiu em silêncio. Eu sabia o que aconteceria.

Fiquei ali, observando aquele rosto angelical adormecido e me perguntando se havia mesmo chances de Kelly ficar bem. Ao abrir os olhos, suas rugas de preocupação voltaram, expliquei a ele que não deveríamos incomodá-la. Ele entrou por alguns segundos para se assegurar de que ela estava melhor — e respirando — e então saímos para qualquer lugar, na inútil tentativa de esfriar a cabeça. Ele não me olhava como olharia no dia de ontem.

Algo havia mudado.