Incrível a quantidade de vezes que viemos a essa lanchonete quando não estávamos bem. Eu particularmente nunca gostei dessas paredes descascadas em tons de azul e violeta, indicando que várias camadas de tinta foram aplicadas sobre a cor original, que é atualmente impossível de ser identificada. É um lugar velho e não possui os melhores aperitivos, mas foi palco de alguns de nossos melhores momentos juntos. Sentamos no mesmo lugar de sempre, um pequeno estofado de couro alaranjado que tem como companhia uma mesa de vidro, quadrada com bordas arredondadas. Um garçom novo nos atendeu, devia ter uns dezessete anos, cabelos ondulados e bagunçados, olhos verdes e covinhas, não entendo porque alguém assim perderia seu tempo trabalhando aqui, mas que seja. Fizemos nossos pedidos de sempre, (milk shake com bastante chantilly para mim e café com creme para ele, e nós sempre dividimos um com o outro, essa é a melhor parte) tive a leve impressão de que esse garçom estava me encarando um pouco excessivamente, porque senti uma pontinha de ciúmes no Tho, que não deixava de encará-lo por um segundo, com um olhar meio deixa-a-minha-melhor-amiga-em-paz. Segurei a risada até que o garoto se virou para buscar nossas bebidas e eu balancei a cabeça negativamente com um sorriso irônico para Thomas e então começamos a rir. Risos tristes, evidentemente, mas ainda eram risos. Depois ficamos sérios novamente, ele segurou minhas mãos e tocou em um assunto pelo qual eu não esperava:
— E se o mundo acabasse hoje? — Seus olhos pareciam ansiar por uma resposta.
— Estaríamos juntos, como sempre. — O que mais eu poderia falar? Dei um meio sorriso.
— Você iria embora, ficaria bem, não é?
— E você iria comigo.
— Eu não poderia… — Ele encarou o chão, estava acabado, e começando a realmente deixar que isso transparecesse. Eu sabia de cada uma das razões que o deixaram assim.
— Você e Kelly vão comigo, já está decidido. Não tente me fazer mudar de opinião porque não vai adiantar.
— Mas seu pai… Não quero causar problemas para você Liz, em hipótese alguma.
— Não vai causar, você é meu melhor amigo, te deixar não é uma opção, você vai comigo.
Falei essas últimas palavras como um argumento final, e não tocamos mais no assunto. Na verdade, ficamos em silêncio.
Voltamos calados, no caminho senti que ele tentava se aproximar e estava com o braço em uma posição estranha, então entrelacei minha mão na dele, e senti ele relaxando depois disso. Tive uma sensação boa também, meio inexplicável. Mordi minha boca — hábito antigo — e sorri. Com um olhar de relance percebi que ele sorria também. Após me despedir com um abraço, entrei em casa e Thomas foi embora, minha alegria se esvaiu da mesma forma que chegou: em fração de segundos.
Quem me aguardava na poltrona reclinável da sala de estar não era exatamente quem eu gostaria de ver.
— Ellie, precisamos conversar. — meu pai me olhava com uma expressão séria, o que indica que algo estava errado. Eu não disse nada então ele resolveu continuar — Aquele fim que levaria anos está mais perto do que imaginamos, em uma semana está previsto que um meteoro atingirá a Terra, então… Chegou a hora.
A hora de… Ir? Não. É cedo demais. Então acaba aqui? Nenhuma palavra sai por meus lábios e nenhuma pergunta concreta se forma em minha mente. Só consigo fazer uma afirmação, porque é minha única certeza:
— Thomas e Kelly vão com a gente.
— Filha, não temos como…
— Já discutimos sobre isso e o senhor já sabe minhas condições. Vou sem questionar, contanto que eles nos acompanhem, caso contrário eles ficam, e eu também.
Ele saiu da sala com raiva evidente em seus olhos. Eu não queria ser rude, mas me pareceu o único jeito de fazê-lo entender o que até o momento ignorava.
Fui para meu quarto (onde mais poderia ir?), mas parei na porta, com certeza estariam me bisbilhotando, então qual o sentido de me trancar? Deu meia volta e desci novamente as escadas, indo decidida em direção ao jardim. A melhor opção, eu acho. Me sentei à beira da pequena cascata de pedras, cotovelos sobre joelhos e cabeça enterrada entre os braços. Thomas. Kelly. Estou indiscutivelmente disposta a colocar minha vida em jogo por eles, ficarei e morrerei com eles se preciso for. Que seja. Depois de sabe lá quanto tempo imóvel ali, subi, tomei um banho fresco e me deitei.
Meu melhor amigo e sua mãe. O mundo acabando. Meus pais me esquecendo. Solidão.
Esses foram meus sonhos, e eu definitivamente não queria saber o que me aguardaria no dia seguinte.

Acordei com meu celular tocando. Odeio esse despertador, sempre me assusto. Depois de enrolar alguns minutos na cama, coloquei um moletom preto e desci para perguntar à figura de robe que se encontrava na mesa da cozinha:
— Pai, é para eu ir na escola hoje? — O bocejo que saiu da minha boca em seguida deixou claro que essa era a última coisa que eu gostaria de fazer.
— Não. Por que não vai ver seu amigo? O Dr. Felix ligou dizendo que está na casa dele e que é melhor você aparecer por lá.
— Tudo bem… — Eu sabia o que havia acontecido, sabia que aconteceria. Só estava tentando negar na tentativa de me sentir melhor.
— Se precisar de algo é só ligar… — Ele falou isso em tom de consolo, engoli as lágrimas e disparei porta afora.

A porta estava aberta. Nada de Kelly. Nada de Thomas. O médico era quem me aguardava:
— Ellie… Eu sinto muito — Ele não conseguia encontrar palavras mais amenas para dizer — Ela não aguentou.
Suspeitas confirmadas. Tontura. Lágrimas. Medo. Tristeza. Dor. Tudo preso em minha garganta. Não vou deixá-lo me ver assim. Não vou enfraquecê-lo ainda mais. Onde está? Entrei no quarto devagar e encontrei-o de joelhos ao lado do corpo morto que pertenceu a pessoa que ele mais ama. Engula as lágrimas, Elize. Engula. A mão dele sobre a dela. O que eu poderia fazer? Me ajoelhei ao seu lado. Ele nem precisou olhar para saber que era eu, e então com a mão que estava livre, segurou a minha. Assim ficamos por algum tempo e então nos abraçamos. Não havia mais nada para ser feito. Essa foi a nossa manhã.
De alguma forma consegui ser forte. Chegou uma hora na qual meu corpo já estava dormente, tudo embaçado, então antes que eu desmaiasse tive de quebrar o silêncio:
— Quer que eu deixe você…
Ele não me deixou terminar:
— Quero que fiquei — sua voz estava trêmula, quase não saía — Acho que vou deitar… Fica comigo?
— Sim, claro. — Não estava em condições de negar nenhum pedido dele.
Nos deitamos no sofá-cama do quarto ao lado. De frente um para o outro, observei meu melhor amigo dormir por algum tempo, até que, lentamente, eu adormeci também.

Notei que olhos mel me fitavam receosos, assim que dei um meio sorriso ele pareceu se acalmar, um pouco. Sua mão com cuidado tocou meu rosto e nesse momento eu soube que essa era uma tentativa de me agradecer por ter ficado. Cheguei um pouco mais perto e entrelacei meus dedos em algumas mechas do seu cabelo. Seu sabia que mil coisas estavam passando por sua cabeça, mas esse seria um dos poucos momentos nos quais não haveria nada além de nós. ele ficou em cima de mim e jogou todo o seu peso. Tudo bem que ele não é muito pesado, mas foi o suficiente pra eu reclamar e darmos algumas risadas. Depois nos viramos de um jeito que eu fiquei em cima dele:
— Você se acha pesada? — Ele riu baixinho.
— Pesada o suficiente para esmagar você — Agora estávamos rindo, um pouco — Só que não.
Cheguei bem perto, a ponto do meu nariz encostar no dele:
— Tenho meus jeitos de te irritar. — Eu disse sorrindo um pouco.
Ele tentou se aproximar mais, não tive certeza se era uma brincadeira, fiquei imóvel e então ele me beijou.

Acordei. Foi a primeira vez que tive esse tipo de sonho com Thomas e não foi exatamente desagradável. Pelo pequeno sorriso que surgiu instantaneamente em meus lábios eu diria que foi até bom, mas essa não era a hora para pensar nisso. Devo ter me mexido um pouco excessivamente porque Tho acordou em seguida, nos encaramos por alguns segundos, ele parecia hesitante em dizer algo, mas logo nos levantamos e fomos encarar a realidade.
Meus pais deviam ter sido informados do que aconteceu, porque na sala encontramos um caixão preto que sem dúvidas continha o corpo sem vida de Kelly em seu interior. Segurei a mão do Tho e ele parecia instável, ao mesmo tempo vazio. Meu pai e mais dois homens nos encaravam com um olhar triste. Mesmo brigando comigo inúmeras vezes e não gostando nem um pouco da ideia, as palavras pareceram sinceras:
— Sinto muito Thomas, esse é o mínimo que posso fazer por você… Se me permitir, é claro.
— Sim, é… Obrigada. — Tho também foi sincero, eles quase pareceram amigáveis nesse momento.
A caminhada até o cemitério foi silenciosa, minha mãe nos encontrou no caminho, abraçou a mim e Thomas e nos acompanhou. Nossas mãos nunca se separavam.
Quando a madeira preta ocupada por um corpo já se encontrava fora de nossos campos de visão, fizemos nossas orações, todos se foram e restou apenas ele, eu e o túmulo. Me afastei alguns passos para deixá-lo se despedir, mas poucos minutos depois já estávamos a nos abraçar novamente.
— Tho, vamos lá pegar suas coisas, você vai ficar lá em casa — eu disse no meio de um abraço, enquanto mexia em seu cabelo.
Em outra situação ele diria que nunca ficaria debaixo do mesmo teto que meu pai, que sabe que não é bem vindo e que estou ficando louca, mas ambos sabíamos que ele estava sozinho demais para recusar qualquer companhia, e se o conheço bem, ele odeia ficar só.