Notas iniciais
Se possível, leiam o capítulo ouvindo a música do começo. Obrigada x)

“Love can’t be open if past cannot be erased”
–Staring at it (SafetySuit)

”O amor não pode se abrir se o passado não puder ser apagado”

Quando saiu do restaurante, batendo os pés com toda a força, Rafael não se importou com o que as pessoas poderiam pensar.

Sua raiva passava dos limites saudáveis, fazendo-o apertar as mãos em forma de punho e morder o lábio inferior com força, deixando o gosto de sangue invadir sua boca. Idiota!

A porta do carro foi fechada com violência, assim que ele entrou, e sua próxima ação foi bater no volante. Idiota, idiota! Eu posso ser um cara fácil, mas não precisa me tratar como uma prostituta!

Seu coração estava acelerado pela raiva e sua garganta parecia se fechar. Se queria me conhecer direito, por que não veio atrás de mim ainda? Merda!

X

A atenção que deveria ser focada no trânsito simplesmente não funcionava e Rafael quase bateu o carro duas vezes, recebendo buzinadas e xingamentos nada agradáveis das pessoas.

Quando o veículo foi estacionado na garagem, Rafael simplesmente desceu e entrou em casa, retirando os sapatos e se jogando no sofá. Seu corpo implorava por descanso, mas sua mente não parava de repassar os últimos acontecimentos. O Johan está mesmo com aquele policial? Não tinha ninguém melhora? E outra, ele não era hetero?

Mordendo o lábio inferior e cobrindo os olhos com o braço esquerdo, o homem loiro respirou fundo e deixou que a pergunta mais insistente finalmente aparecesse. Se o Príncipe namorava com o policial, então qual a minha utilidade?

Juntamente com o pensamento, a raiva anterior voltara, fazendo Rafael fechar a mão com força e socar o alto do sofá, imaginando que aquele era o rosto de Liam. Eu adoraria socá-lo agora, mas...

Um suspiro pesado cruzou seus lábios e ele voltou a se deitar no sofá. Pela primeira vez eu me encontro incapaz de machucar alguém. Será por culpa da aparência de príncipe que ele tem?

Apertando a ponte do nariz, o homem decidiu que um banho era a melhor opção. A água quente o acalmaria e isso era o que ele mais precisava no momento.

Rafael se levantou do sofá e caminhou para o quarto com passos lentos. Seu dia havia começado irônico e havia chegado ao meio como uma piada sem graça. Quanta sorte é preciso ter para estar em um relacionamento com o ex do namorado do seu ex?

Seu corpo parou no meio do caminho e suas bochechas esquentaram. Relacionamento? Eu não estou em um relacionamento com o Príncipe!

A palavra havia surgido sem querer em sua mente, deixando-o extremamente desconfortável. Havia anos que ele não estava em um relacionamento e a simples ideia lhe trouxe calafrios. A última vez que eu estive em um relacionamento, o idiota do cara me espancou quando eu disse que queria terminar com ele. Precisei ir para o hospital por culpa de uma costela quebrada e um corte fundo na testa. Passei uma semana internado por culpa de uma hemorragia interna.

Respirando fundo, Rafael balançou a cabeça de um lado para o outro, afastando aquelas lembranças desagradáveis. Esse fato havia ficado no passado e o homem fazia o possível para mantê-lo esquecido. Foi nessa época que eu me comprometi a não amar mais ninguém. Sou muito autossuficiente para deixar que outros me machuquem.

A luz do sol batia diretamente em sua cama. Sua toalha estava devidamente dobrada sobre uma larga poltrona azul marinho. De repente, a imagem de Liam voltou à sua mente. Ele não me parece ser do tipo que bateria em alguém.

O toque de seu celular o tirou do transe e Rafael voltou para a sala para pegá-lo.

O visor brilhava com a palavra ‘Príncipe’, fazendo o homem de cabelos loiros bufar e guardar o aparelho no bolso, ignorando a chamada.

Seus pés o levaram de volta para o quarto assim que o celular parou de tocar, mas a curiosidade o afetara. Sua mão esquerda retirou o aparelho do bolso, desbloqueando a tela e vendo que havia uma mensagem em seu correio eletrônico. Só ouvir não vai fazer mal... Ele não vai saber mesmo.

A discagem para o correio eletrônico foi realizada e Rafael prendeu a respiração ao ouvir a voz de Liam.

‘Rafael, sou eu, Liam. Eu vou ir para a sua casa nesse instante e espero que você abra a porta ou eu precisarei agir com força. Até logo.’

O toque indicou que a mensagem havia chegado ao fim.

Seu coração deu um salto e a próxima coisa que Rafael fez foi ligar para Liam. Não demorou muito para que a chamada fosse atendida e o homem de cabelos loiros pudesse ouvir aquela conhecida voz novamente.

“Sim?”

“Eu não conheço nenhum Liam, mas conheço um Príncipe e eu não estou a fim de recebê-lo em minha casa. Não venha!” Sua voz saiu um tom mais alto do que o necessário, quase parecendo desesperado.

“Eu vou chegar em poucos minutos, então me atenda.” Liam parecia estar sorrindo e isso o deixou mais irritado.

“Eu não vou atendê-lo! Não venha!”

“É uma ordem do seu Príncipe. Atenda à porta.” A risada de Liam fez a frase ficar ainda pior.

“Você não é meu Príncipe!”

“Ainda não, mas vou ser.”

“Não vai!”

“O semáforo abriu. Por favor, abra a porta quando eu chegar.”

A chamada foi desligada e Rafael jogou o celular sobre o sofá. Seu coração estava acelerado e ele não sabia se era por culpa da raiva ou algo mais. Eu sou muito idiota. Não devia ter contado onde eu moro. Qual o meu problema?!

Passando a mão esquerda pelos cabelos, o loiro caminhou para o quarto quase correndo. Eu não vou abrir aquela porta. Ele pode tentar o que for!

Sua roupa de ficar em casa estava sobre a cama e Rafael se ocupou em colocá-las para afastar aqueles pensamentos de sua mente. Algo dentro de si parecia incentivá-lo a mostrar quem ele realmente era. Mostrar como poderia acabar com a alegria de alguém, de como podia ser um ótimo cavalo. No entanto, havia outra coisa. Havia algo que o impedia de agir como o Rafael em constante modo de defesa. E isso só piorava quando o rosto de Liam aparecia em sua mente.

Sua cama estralou quando ele se sentou. Eu estou cansado. Eu preciso me acalmar. Ficar remoendo o que aconteceu anos atrás não vai me levar a lugar algum. Eu estava errado quando falei aquelas coisas para o Johan e admito isso. Pelo menos agora. Eu preciso fazer algo. Eu não quero encontrar o Príncipe antes de resolver meus assuntos com o Johan. Se naquele tempo eu o amava e fui embora por não ter aceitado o chute, então o quê? O que eu sinto agora?

O toque de sua campainha o assustou. Seus lábios se fecharam com força e ele correu para a porta, abrindo-a.

“Vá embora.” As duas palavras saíram em um tom contido.

“Rafael, abra o portão e me deixe entrar.” Liam estava parado do lado de fora do portão, com os braços cruzados.

“Não. Entre no seu carro e vá embora. A vadiazinha aqui precisa se arrumar para ir rodar bolsinha na esquina.” A cada instante, suas palavras saíam mais ácidas e Rafael se lembrou do que disse para Johan no mercado. Faça como o Johan e me deixe em paz, Príncipe. Eu não posso...

“Você não é uma vadia. Abra o portão Rafael.”

“Ou o quê?” Suas mãos se apertaram em punhos, mas seus olhos adquiriram um ar cínico. Eu não posso...

“Eu vou começar a gritar para os vizinhos ouvirem tudo o que eu tenho para dizer. Depois você lida com as consequências.” O olhar de Liam o atravessava.

“Você não o faria...” Seu pé direito agiu por impulso e Rafael deu um passo para frente. Eu não posso e não quero...

“Eu acredito que existe uma grande chance de eu estar me apaixonando por você, Rafael! E eu sou homem!” Os gritos de Liam ecoaram pela rua e Rafael viu quando o vizinho da frente saiu pela porta, para ver o que estava acontecendo. Não...

“Fique quieto!”

“Então abra o portão.” Liam sorriu e segurou a grade. “Nós precisamos conversar, não acha?”

Abaixando o olhar para o chão e sentindo suas bochechas coraram levemente, Rafael levou a mão para o interfone, apertando o botão e ouvindo quando o portão destravou.

Os passos de Liam ficavam cada vez mais próximos e Rafael se sentiu diminuir.

“Olá Rafael.” A voz do homem de cabelos negros chegou aos seus ouvidos causando arrepios em seu corpo.

Rafael fechou os olhos e se inclinou, apoiando a testa no ombro de Liam. Eu não posso e não quero me apaixonar novamente.

X

Liam estava sentado no sofá quando Rafael voltou para a sala.

O homem de cabelos loiros havia ido para a cozinha pegar suco, ignorando o pedido de Liam para que ele permanecesse na sala. Eu não queria que ele viesse, mas agora que ele está aqui, tenho que evitar essa conversa ao máximo.

“Até quando você vai agir assim?” Liam perguntou assim que Rafael se sentou no sofá à sua frente.

“Agir como? Eu estou normal.” Rafael levou o copo de suco para os lábios.

“Não. Você está agindo como um pássaro machucado.” O homem de cabelos negros adotou uma expressão séria. “Quando eu o conheci, você era como uma cerca de arame farpado, cheio de defesas. Um quebra-cabeça em branco, sem imagem.”

“É a primeira vez que alguém me define assim.” Rafael abriu um sorriso irônico. “Sinto muito por ser tão sem graça.”

“Você não é sem graça, Rafael.”

“Então o que eu sou?” Seus olhares se encontraram em uma troca constante de sentimentos, enquanto Rafael depositava o copo sobre a mesa de centro.

“Você é mesquinho. Mal educado, egocêntrico, irônico, sem princípios, orgulhoso demais, ofensivo e ignorante-”

“Não entre em minha casa para falar mal-”

“Mas isso é algo seu e eu jamais vou mudá-lo. Sua maneira de se defender é machucando outros e isso explica muito bem o que você fez com Johan anos atrás. Todos nós temos nossos defeitos. Isso só prova que você é humano.” Liam sorriu e se levantou, caminhando até parar de frente para Rafael e se ajoelhar. “Quando eu disse que você era um quebra-cabeça em branco, eu quis dizer que você é complexo. Quando montamos um quebra-cabeças assim, é extremamente difícil de entender e dizer se as peças estão nos lugares certos.”

“Mas, mesmo que você termine, não vale a pena. Será uma tela em branco. Não há uma imagem que compense todo o trabalho. É inútil.” Rafael murmurou.

“Ai é que você se engana. Terminar é a melhor parte.” Liam encostou a cabeça nos joelhos de Rafael e abraçou sua cintura. “Porque você olhar para o quebra-cabeça e pensa ‘ah, eu o completei’ e todos os dias você pode imaginar uma imagem nova. Não é cansativo, nem chato. É satisfatório.”

Suas mãos agiram por impulso e Rafael deixou que seus dedos se perdessem nos fios de cabelo de Liam.

“O que eu quero dizer é: não importa como você era. Se você teve o coração partido e precisou aprender outros meios de se defender, isso é algo seu e você devia se orgulhar de ter seguido em frente. Nós podemos ter tido um caso de uma noite, mas foi algo que eu nunca senti na minha vida e posso dizer com segurança que estou disposto a apostar tudo o que tenho para ver onde isso vai acabar.” O homem de cabelos negros permaneceu com a cabeça nos joelhos de Rafael o tempo todo. “Por favor, me deixe tentar completar o seu quebra-cabeça.”

“A imagem final pode não ser agradável.” Rafael se inclinou um pouco, sussurrando a frase. Esse não é um momento para falar alto. Eu sinto como se as palavras fossem fugir se eu aumentasse o tom de voz.

“O quebra-cabeça está em branco. Quem decide a imagem sou eu.” Liam apertou o abraço.

“Mesmo assim... Não jogue fora se não gostar.”

“Eu jamais faria isso com algo que demorei para completar. Eu cuido do que é meu.” Rafael sentiu um beijo em seu joelho direito.

“Sabe, príncipes não deveriam se ajoelhar perante outros.” O homem de cabelos loiros ergueu o rosto de Liam. “Principalmente quando a resposta é incerta.”

“Como assim?” Liam adotou uma expressão de confusão.

“Eu ainda posso gostar do Johan.”

A risada de Liam o pegou desprevenido, deixando-o surpreso.

“Você não estaria tão corado se ainda gostasse dele.” A resposta do moreno foi tão singela que o fez sorrir.

“Estou começando a achar que você está mais para Bobo da Corte do que para Príncipe.” Rafael cruzou os braços e virou o rosto para o outro lado, tentando não corar quando sentiu um beijo demorado em sua bochecha. Uma tela em branco, huh?