Love comes softly
15 Davi
Notas iniciais
“Right from the start
You were a thief, you stole my heart”
–Just Give me a Reason (P!nk)
“Desde o começo
Você era um ladrão, roubou meu coração”
“Agora já chega, ok?”
O tom de voz autoritário não combinava com a pessoa. Os olhos escuros nunca fariam par com as sobrancelhas unidas. Acho que eu o irritei.
“Sinto muito, Rodrigo.” O sorriso saíra automaticamente. “Foi a última vez que eu saí do trabalho para fazer algo pessoal.”
“Não foi. Logo, logo o senhor sairá de novo.” O jovem rapaz se encolheu ao ter seus cabelos acariciados.
“Não vou. Já está tarde, não posso sair de nodo. Mas se eu sair e alguém descobrir, pode ter certeza de que farei com que a culpa caia totalmente sobre mim.” Davi parou de afagar os cabelos do rapaz e voltou sua atenção para os monitores de vigia. “A cidade está tranquila hoje, por isso me dei à liberdade de sair algumas vezes de tarde. Tem algo na minha vida pessoal que precisa de muito da minha atenção.”
“Acidade precisa de mais atenção do que um único homem.” Rodrigo murmurou.
“Se não fizesse pouco tempo que estamos trabalhando juntos, eu diria que você está com ciúme, Rodrigo.” Davi ajeitou o próprio quepe e voltou a observar as câmeras de segurança da cidade.
“Eu não estou com ciúme.” O jovem oficial revirou os olhos e corou logo em seguida. “E-eu também tenho n-namorado.”
“Ele não é meu namorado ainda.” Davi deixou que um sorriso bobo escapasse de seus lábios. “Mas é a única coisa que fica em minha mente.”
“P-por que não o pede em n-namoro então?” Rodrigo corou e cobriu os lábios com uma das mãos, virando o rosto para o lado oposto, parecendo ter ficado ainda menor do que já era.
“Para uma pessoa tão envergonhada, eu me pergunto como você e seu namorado se relacionam.” A gargalhada saiu sem permissão enquanto a imagem de Rodrigo, de mãos dadas com um homem duas vezes maior, inundava sua mente. Sem chance de o Rodrigo ser o ativo!
“E-eu sou normal!” A voz do rapaz saíra um tom mais alto e levemente esganiçada.
“Era brincadeira rapaz, não precisa ficar envergonhado. Em questão de namoro eu sou bem mais experiente, então não se preocupe.”
O silêncio que tomou conta da sala não era incômodo. Era agradável e levemente convidadito. Ele só me disse que tinha um namorado quando descobriu sobre a minha sexualidade. Desde então, nosso relacionamento tem melhorado cada vez mais.
“Davi... Eu o vejo como um irmão mais velho. Você é alguém que recebe toda a minha admiração. Até hoje eu escondo que gosto de h-homens, por medo da reação das pessoas. No entanto, a primeira coisa que você diz, quando conhece alguém, é que você é gay. Eu gostaria de ser assim algum dia.” Rodrigo apertava uma mão contra a outra, parecendo fazer grande esforço para dizer aquelas coisas.
“Não diga isso. Você tem uma personalidade própria e não deve mudá-la para agradar aos outros. Se você se sente bem guardando esse segredo, então continue guardando-o. Eu digo para as pessoas sobre a minha sexualidade porque sou assim. Se a pessoa não gostar, quero que fique claro desde o início.” Davi afagou os cabelos do rapaz novamente. “E você realmente parece um irmão mais novo.”
O assunto foi mudando aos poucos, dando lugar ao trabalho e quesitos de segurança pública. No entanto, as palavras de Rodrigo permaneceram em sua mente. Ele era admirado, mas ainda não havia pedido Johan em namoro. Como posso ser admirado se ainda não fiz o que eu deveria fazer? Eu nem contei para ele que me encontrei com Liam hoje à tarde e saí do apartamento correndo por conta do chamado da policia. Não fiz uma proposta decente para a declaração dele. Onde eu estou com a cabeça?
X
A madrugada havia se passado surpreendentemente agradável, fora dois acidentes de trânsito.
Rodrigo estava mais falante que nunca e, antes que percebesse, a manhã chegou, trazendo raios de sol e uma temperatura agradável. Vou voltar para casa, tomar um banho e dormir. Johan precisa dar aula até meio dia, então eu passarei no apartamento dele mais tarde.
Quando a dupla que assumiria a vigilância chegou, Davi e Rodrigo se retiraram em silêncio, caminhando para o estacionamento do departamento de polícia.
Assim que ambos pisaram para fora, uma buzina os tirou do torpor de ficar a madrugada toda acordados. Quem será?
Um pequeno carro preto estava estacionado do outro lado da rua. A janela do motorista estava aberta, revelando um rapaz poucos anos mais novo que Davi, ruivo, mas com um ar extremamente superior. É como se ele fosse super experiente na vida. Que medo.
Rodrigo deu um passo para a frente e corou enquanto um enorme sorriso tomava conta de seus lábios.
“Ele veio me buscar?! Davi, obrigado pelo trabalho, nos vemos amanhã.” O rapaz correu na direção do carro, parecendo uma criança novamente e Davi pode ver quando o ruivo abriu o sorriso mais sincero e apaixonado de todos. Namorados, huh?
Subindo na moto do departamento, Davi colocou o capacete e se retirou, andando no limite de velocidade permitido. Eu quero ir para casa. Quero ver o Johan. Quero ficar ao seu lado sempre, para olhá-lo com os mesmos olhos que o namorado de Rodrigo. Um sorriso divertido cruzou seus lábios. Se bem que eu o olho com muito mais amor.
X
Assim que chegou em casa, Davi tomou um banho e colocou roupas de ficar em casa, jogando-se sobre a cama de casal. Seu corpo implorava por descanso, mas sua barriga roncava de fome. Eu vou esperar. Vou tentar almoçar com o Johan.
Seu celular – que estava sobre a cabeceira da cama – foi alcançado e o aplicativo de mensagens foi selecionado.
Seus dedos se moveram com velocidade, digitando uma mensagem curta: ‘Quer ir almoçar hoje?’
A resposta positiva chegou alguns minutos depois, com o aviso de que Johan estava em aula e não poderia conversar mais. O sorriso se abriu automaticamente, como sempre acontecia quando o assunto era Johan. Será que ele tem alguma ideia do que faz comigo?
O sono chegou com força e Davi só teve tempo de programar o despertador antes de se entregar para os sonhos.
X
Seu corpo deu um salto na cama e sua arma foi alcançada do chão.
Davi olhou para todos os cantos do quarto, com a arma em mãos, antes de perceber que seu susto havia sido sem fundamento. O barulho que o colocara em alerta era de seu despertador e o policial não conseguiu evitar uma risada irônica. Quando eu durmo pesado demais, qualquer barulho faz com que eu acorde assustado e pronto para atirar.
A arma foi depositada no criado mudo que ficava ao lado de sua cama e Davi se levantou, caminhando até o armário e escolhendo uma roupa para o almoço. Seus ombros estavam levemente doloridos e sua cabeça latejava de dor, mas ele não desmarcaria o encontro por nada. Eu preciso conversar com o Johan. Preciso dizer para ele que ouvir aquela declaração foi como ver um sonho virando realidade.
O toque de seu celular o tirou da monotonia de colocar as calças jeans e o policial se apressou para atender a chamada quando enxergou o nome de Johan no visor.
“Sim?” Davi percebeu que sua voz estava arranhada. Será que estou ficando gripado?
“Você poderia evitar me mandar mensagens de manhã? Eu estou trabalhando.” Johan não parecia irritado. Havia algo a mais.
“Não precisava ter me respondido na hora, eu só mandei para deixar você saber que eu queria almoçar com você.” A risada saiu sem permissão e o policial apoiou o celular no ombro enquanto terminava de colocar a calça.
“Você não entende não é? Quando eu vejo seu nome na tela eu... Sinto a urgência de responder ou atender. Tenha isso em mente!”
Davi tinha certeza que Johan estava extremamente corado ao final da frase. Ele sabia que havia sido necessário um grande esforço para dizer aquelas coisas e isso só o deixava mais feliz. Ele está sendo mais sincero.
“É o mesmo comigo, Johan. Na verdade, só de pensar em você eu sinto a urgência de vê-lo. Quero fugir de onde estou e encontrá-lo, abraçá-lo e tê-lo só para mim.” Davi fez uma breve pausa antes de finalizar. “Tenha isso em mente também.”
“Só... Diga onde vamos almoçar, ok?”
O policial precisou segurar para não soltar uma gargalhada. Eu tenho certeza que ele está parecendo um tomate!
“Gosta de comida italiana? Conheço um restaurante ótimo e barato.” Foi sua resposta contida.
“Se for barato eu como em qualquer lugar. Salário de professor só serve para pagar contas de casa, ficar endividado e comer pão todos os dias.” A risada de Johan entrou como música em seus ouvidos e Davi se pegou pensando como seria viver com aquela pessoa. Eu adoraria fazer isso. Viver com o Johan. Aposto que haveria uma novidade a cada dia.
“Ótimo. Então nos encontramos no restaurante Mafia di Pasta em meia hora. Combinado?”
“Combinado. Talvez eu me atrase um pouco porque... O Rafael pediu para conversar comigo. Eu estou esperando-o neste momento. Mas vou fazer com que não demore muito.”
“Johan, leve o tempo que você precisar. Essas conversas precisam ser muito bem elaboradas e observadas. Eu não irei a lugar algum, então conversem direito e depois será a nossa vez.” O sorriso em seus lábios era sincero. Davi jamais faria algo para prejudicar a vida de Johan, então ele sabia que aquela conversa com Rafael era necessária. “Além do mais... Eu conversei com o Liam ontem.”
“O que? Quando?”
“De tarde. Bem antes de ir até a sua casa à noite.” O suspiro saiu sem permissão e Davi se perguntou se aquele tom de ciúmes havia sido apenas a sua imaginação.
“Por que não me contou?” Não. Não era sua imaginação.
“Porque eu e você estávamos tendo uma conversa importante. Eu recebi um chamado logo em seguida e, acredite ou não, eu não consigo pensar em mais nada quando estou com você. Você é minha perdição.” Poderia parecer uma frase clichê para tentar controlar o ciúme da pessoa amada, mas não era. Davi estava sendo sincero com cada uma daquelas palavras e seu coração insistia em bater mais rápido, apenas para deixar aquilo claro.
“N-nos encontramos no restaurante. Até logo.”
A chamada foi desligada e o policial colocou o celular no bolso da calça. Ele não está mais irritado. É extremamente adorável arrancar essas reações dele.
A camisa social escolhida foi colocada e Davi pegou as chaves do carro enquanto dava carinho na cabeça de Duquesa. A cadela latiu e abanou o rabo, acompanhando o policial até a porta.
“Cuide da casa, Duquesa. Eu voltarei logo e talvez traga companhia.”
X
De fato, Johan se atrasara.
O combinado havia sido de se encontrarem em meia hora, mas o rapaz chegou uma hora depois. Seu rosto estava corado e ele ofegava.
“O que foi Johan? Aconteceu algo?” Davi se levantou da cadeira e caminhou até o homem de cabelos castanhos, segurando-o pelos ombros.
“E-eu... Eu vim correndo. Desculpe, me atrasei demais. Eu queria ter chegado mais cedo, não sei quando você vai ter que voltar para o trabalho e fiquei preocupado achando que não poderíamos mais nos ver...” A frase toda escapou em um fôlego só e Johan precisou respirar ainda mais fundo quando terminou de falar.
“Eu te avisei ontem que hoje era meu dia de folga.” A risada veio acompanhada do barulho de arrastar de cadeira. “Sente-se e descanse. Eu avisei que não precisava se apressar. Eu sempre vou esperar por você Johan.”
O vermelho da falta de ar aumentou significativamente e Davi se sentou logo em seguida, sustentando o olhar daquele que ele tanto amava.
“E então? Como foi a conversa com Rafael?” O policial fez sinal para que o garçom se aproximasse.
“Resumidamente? Ele me pediu desculpas de novo. Nós conversamos bastante e... Você sabia que ele e seu ex estão juntos?!” O final da frase saiu com um tom indignado e Davi sorriu novamente. Então foi por isso...
“Não. Então deve ter sido por isso que o Liam veio conversar comigo ontem. Ele quis deixar claro que eu estava sendo esquecido.” O policial agradeceu pelo cardápio e o abriu em uma página qualquer enquanto continuava a falar. “Parece que o Rafael está deixando ele de cabeça para baixo.”
“É. O Rafael tem esse dom. Ele consegue fazer muitas pessoas ficarem de cabeça para baixo.” Johan pegou o cardápio também e fez uma escolha rápida, optando por algo simples e comum. “De qualquer forma. Nós dois conversamos como pessoas civilizadas pela primeira vez. Sem alfinetadas e coisas do gênero. Arrisco dizer que as coisas estão resolvidas agora.”
Davi o acompanhou no pedido, acrescentando uma jarra de suco de abacaxi com hortelã e o garçom se afastou, fazendo uma cara de confuso. Se ele fizer cara de nojo e cochichar com alguém, eu farei questão de chamá-lo aqui e perguntar se ele tem algo contra gays. Mas não foi o que aconteceu. O garçom deu de ombros e continuou com seu trabalho normalmente.
“Eu também arrisco dizer isso. A minha conversa com Liam foi igualmente tranquila. Ele me disse que há tempos o sentimento dele não era amor, mas ele confundia isso porque sempre esteve preso à mim. Sempre quis me monopolizar, não aceitava me perder da forma como perdeu.” Davi deu de ombros e cruzou os braços. Na verdade, não foi bem isso o que ele disse, mas era o que ele quis dizer. Conheço o Liam a tempo demais para ficar confuso em relação às suas palavras.
“Então é isso.” Johan abriu um sorriso e corou levemente, abaixando o rosto. “Estamos todos livres das correntes do passado. Devíamos agradecer por isso.”
“Eu já sou grato.” Davi se levantou e puxou a cadeira para o lado de Johan, sentando-se excessivamente próximo.
“Davi, espero que você saiba que estamos em um local público.” O homem de cabelos castanhos corou ainda mais.
“Eu sei. Mas tem algo que eu preciso te contar e não posso esperar mais.” O policial se aproximou um pouco mais. “Sinto muito por não ter dito antes. Vou começar a tentar ignorar meus chamados da policia.”
“Não faça isso. É o seu trabalho. O que você precisa me dizer?” Johan apoiou o rosto na mão esquerda, ficando mais próximo do rosto de Davi.
O moreno usou a oportunidade para ficar mais próximo, deixando que seus lábios quase se encostassem ao ouvido de Johan.
“Eu te amo e tenho certeza que meu coração quase explodiu quando você disse aquelas coisas para mim ontem. Por favor, Johan, permita que eu seja a pessoa que vai estar sempre ao seu lado. Quero ser seu melhor amigo, seu apoio, seu ponto de equilíbrio, seu irmão e, acima de tudo, seu amante. Será que você gostaria de ser meu namorado?” Todas as palavras saíram sussurradas e em um tom de provocação extremamente agradável e Davi sorriu ao ver que até mesmo as orelhas de Johan estavam coradas.
No entanto, a reação do homem de cabelos castanhos não era esperada.
Johan se virou, ficando com os lábios à centímetros de distância dos de Davi. Seus olhares se encontraram e ele sorriu.
“Achei que nunca fosse perguntar.”
O beijo foi inevitável e Davi se perguntou se Johan tinha alguma consciência de que ambos estavam em um restaurante público. Ele provavelmente esqueceu e vai ter um ataque de vergonha depois.
Seus lábios se repuxaram em um sorriso entre o beijo e o policial retribuiu rapidamente, afastando ambos, mas se aproximando do ouvido de Johan novamente.
“Se alguém do seu trabalho o vir, será um grande problema pra você, até eu confesso isso. Espere até terminarmos o almoço e iremos direto para casa. Continuaremos com isso depois.” Davi passou a mão pelos cabelos e afastou a cadeira um pouco, segurando uma gargalhada enquanto via as pessoas os encarando com incredulidade.
Johan corou extremamente e escondeu o rosto com a mão direita, sussurrando para que só Davi pudesse ouvir:
“Acho que quero pular o almoço.”
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