Love comes softly
13 Liam
Quando o almoço acabou, Liam havia conseguido arrancar milhares de informações importantes de Rafael.
Coisas como: idade, onde trabalhava, onde morava, comida preferida, doce preferido, nome completo, o que gostava de ler, coisas que não gostava... Era um mar de informações que – aos olhos de outros – poderiam parecer inúteis, mas haviam sido gravadas com muito carinho em sua mente.
“Eu não sei, Príncipe, mas tenho a impressão de só conversamos sobre a minha pessoa.” Rafael olhou para o relógio de pulso e puxou o copo de água para perto.
“Não foi impressão sua.” Liam riu e cruzou os braços, sentando-se corretamente na cadeira. “Eu queria saber mais sobre você. Usei o almoço como desculpa e parece que você mordeu a isca.”
A risada do homem loiro foi inesperada e entrou como música pelos ouvidos de Liam. Ele me encanta cada vez mais...
“Mordi a isca?” O gole de água desceu por sua garganta silenciosamente. “Príncipe, eu já sabia o que você estava fazendo. Apenas segui a onda.”
“Isso é ótimo!” O sorriso que se apossou de seus lábios foi o mais verdadeiro de toda a semana.
“Ótimo?”
“Significa que todas as suas respostas foram sinceras, já que você sabia o que eu estava fazendo. Isso me deixa feliz.”
Rafael virou o rosto para o lado oposto e apertou os lábios. Seus olhos estavam fixos no chão e Liam tinha certeza de que estava enxergando uma leve coloração avermelhada nas pontas das orelhas do homem.
“Então significa que você está trabalhando com seu ex?” O assunto foi trazido à tona pelo próprio Liam. Parece que esse é o único jeito de saber mais sobre o relacionamento passado dele.
“Que tipo de pergunta indelicada é essa? Não te ensinaram boas maneiras no palácio?” Rafael retomou a postura rude, com um sorriso malicioso nos lábios.
“Eu saí muito cedo do palácio e precisei aprender a me comportar sozinho.” O sorriso foi retribuído enquanto Liam se inclinava um pouco mais sobre a mesa. “Mas então... Seu ex? Que sorte, huh?”
“Ele não é meu ex. Nem chegamos a ter um relacionamento.”
“Você me disse que ele era seu ex.”
“Eu me equivoquei.” O homem de cabelos loiros suspirou e cruzou os braços. “De qualquer maneira... Eu e o Johan nunca tivemos um relacionamento. Eu só me interessei por ele e ele me deu um pé na bunda.”
Um estalo ecoou por sua cabeça e Liam deixou que suas mãos caíssem, sem vida, ao seu lado. Seus olhos pararam de piscar e seus lábios pareceram secar. O que...?
“O que você disse?” A pergunta saiu sussurrada, parecendo ter sido forçada a fazer seu caminho para fora.
“Ele me deu um pé na bunda.” Rafael arqueou a sobrancelha.
“Não... O nome do rapaz. Qual é o nome dele?”
“Johan? Conhece ele?”
Sua mente retornou para alguns dias atrás, quando ele e Davi se encontraram no restaurante familiar. Johan... Um homem se aproximara da mesa e Davi os apresentou. Cabelos castanhos claros, olhos verdes, magro. Johan.
“Eu... Conheço.” Seu peito parecia ter recebido uma carga de duas toneladas, mas algo estava errado. Eu não estou incomodado pelo fato deste homem ter levado o Davi embora. Eu estou incomodado pelo fato de ele também ter feito o Rafael se apaixonar.
“Mesmo? De onde você o conhece? Que mundo pequeno...” Rafael colocou a mão esquerda sobre a boca, adotando uma expressão pensativa.
“Ele... Está com o meu ex agora.”
“Uau! É bem a cara do Johan fazer isso.” Rafael soltou uma risada adorável de se ouvir e isso quase fez Liam esquecer os problemas que o atormentaram. “Mas ele é uma boa pessoa, ele vai cuidar do seu ex.”
“Meu ex é um policial, então acho que ele vai acabar se cuidando sozinho.” Liam deu de ombros e respirou fundo, tentando encontrar uma solução para todo aquele mal entendido.
“Espera... Seu ex é um policial?!” Rafael se inclinou sobre a mesa, ficando a centímetros de distância do rosto de Liam. “Um policial, daqueles que carregam distintivos e armas na cintura?!”
“Sim...? Na verdade, acho que todo policial tem essas coisas. Algo errado?”
O homem de cabelos loiros voltou a se sentar em sua cadeira, mantendo os olhos fixos sobre a mesa. Sua sobrancelha estava franzida e ele parecia imerso em lembranças. Será que...
“Rafael, você conhece o Davi?” A pergunta saíra sem segurança, baixinha, quase silenciosa.
Rafael sorriu. Um sorriso irônico. Eu quase consigo sentir o gosto amargo vindo dele.
“Então o nome dele é Davi? E ele é seu ex? Que mundo pequeno.” Os lábios do loiro estavam apertados em uma fina linha. “Eu o conheci no mercado. Ele estava acompanhando o Johan em umas compras.”
Liam cruzou os braços novamente e respirou fundo. Sua mente trabalhava em alta velocidade. Seus olhos estavam fixos nos lábios de Rafael e algo dentro de si apertava seu coração. Então estamos todos interligados? O que é isso? Que brincadeira de mau gosto é essa?
“Rafael, você estava naquele bar porque queria esquecer o Johan? Ele ainda te afeta tanto assim?”
“Eu devo dizer o mesmo de você, não é Príncipe? Você se embebedou e fez sexo comigo porque queria se esquecer daquele policial. Ou devo dizer que você se imaginou fazendo sexo com ele, não é?” As palavras o atingiram como adagas e Liam não fez nada quando Rafael se levantou da cadeira, batendo ambas as mãos sobre a mesa. “Com sua licença, realeza, mas eu não sirvo para ser bobo da corte.”
Rafael se retirou do restaurante, batendo os pés com força.
Liam quis se levantar e correr atrás dele. Quis puxá-lo pelo pulso e dizer que ele jamais havia feito sexo com ele pensando em Davi. Quis beijá-lo ali, na frente de todas as pessoas que estavam no restaurante. No entanto, ele não fez nada disso. Ele tem razão. A princípio eu aceitei fazer sexo com ele com a intenção de pensar em Davi, mas não foi o que eu fiz.
Apoiando os cotovelos sobre a mesa e afundando ambas as mãos nos cabelos, Liam respirou fundo e mordeu o lábio inferior. Por quanto tempo eu ainda vou ser atormentado pelos fantasmas do passado?
X
Voltar para casa foi a pior parte.
Seu corpo estava pesado, seus lábios estavam secos – assim como sua garganta. Suas mãos tremiam e Liam não sabia se era por culpa de raiva ou remorso. Raiva, por Davi e Johan estarem juntos. Remorso, por ele não ter corrido atrás de Rafael quando teve a chance.
Deixando que seu corpo caísse sobre o sofá, Liam pegou o celular e foi direto para a agenda telefônica. O número de Rafael estava lá. Ele poderia ligar para o homem com apenas dois toques na tela do celular. Mas não foi isso o que ele fez. O Rafael não vai me atender. Se eu for até a casa dele, nós só vamos brigar mais.
Tocando algumas vezes na tela do celular, Liam encontrou outro nome. Eu preciso fazer isso, huh?
A chamada foi atendida em três toques.
“Liam? Algo errado?” Ouvir aquela voz trouxe um turbilhão de memórias para Liam.
“Ahn... Davi? Eu preciso conversar com você.” A frase saíra rouca. Na verdade, eu não quero falar com você.
“Liam... Nós já conversamos.” O barulho de sirenes fez Liam perceber que Davi estava no trabalho. “Olha, eu preciso ir-”
“Eu não quero saber se você já conversou comigo ou não. Eu não conversei com você ainda, então você vai ouvir o que eu tenho para dizer. Diga quando estará livre.” Sua voz saíra em um tom autoritário, quase irreconhecível e foi nesse momento que Liam percebeu como havia mudado. Em um dia, Rafael fez isso comigo. Apenas um dia. O que ele faria se nós ficássemos juntos de verdade?
“Eu tenho um compromisso amanhã.” Foi a resposta de Davi. “Mas posso conversar com você agora. Estou no trabalho, mas meu parceiro consegue dar conta do recado.”
“Vou ficar esperando no parque em frente à minha casa.”
A chamada foi desligada sem despedidas e Liam se levantou, pegando um casaco e saindo de casa.
X
Davi demorou dez minutos para chegar ao parque.
Seu uniforme azul estava levemente amassado. Sua mão direita repousava sobre a arma em sua cintura e ele andava de uma forma quase engraçada, por conta do coldre atado à sua coxa e ele estava sem o quepe. Até parece um policial sério.
“Boa tarde, Liam. Como tem passado?” O cumprimento pareceu levemente vago e Liam percebeu como o policial estava cansado.
“Provavelmente vou ficar melhor depois que conversarmos.” Liam fez um sinal para que Davi se sentasse ao seu lado. O cheiro da colônia cítrica do policial invadiu seus pulmões. Eu não sinto nada. Meu coração não dispara mais. Eu não sinto a urgência de tocá-lo. Davi... Você não significa mais nada para mim.
“Então vamos conversar.” O policial sorriu e se sentou, cruzando os braços. “Sabe, acho que o meu parceiro vai acabar se irritando. Eu acabei de entrar no trabalho e já estou saindo.”
“Você se atrasou?”
“Mais ou menos. Eu estava conversando com o Johan, uma hora atrás.”
Liam olhou para o relógio de pulso, constatando que faltavam poucos minutos para as três horas da tarde. Eu não vi o tempo passar enquanto conversava com o Rafael.
“O Johan, huh?” Foi sua resposta, enquanto deslizava e encostava a cabeça no alto do banco de madeira. “Davi, obrigado por ter falado comigo. Obrigado por ter me apresentado o Johan e por ter colocado as cartas sobre a mesa.”
A expressão de surpresa do policial deixou a cena quase cômica e Liam se pegou segurando para não sorrir. Nem eu estou acreditando no que estou dizendo.
“Sabe, quando você me disse sobre o Johan, eu achei que a minha vida estava acabada. Eu tinha certeza de que ainda tinha alguma chance com você, de poder segurá-lo em meus braços novamente.” As palavras saíam com facilidade e Liam ignorava o fato de que estava conversando com Davi. Em sua mente, ele dizia aquelas coisas para si mesmo. “No entanto, eu percebi que eu não me importava. Foi difícil aceitar, mas depois que a minha ficha caiu, eu percebi que o que eu sentia por você não era mais amor.”
A cada instante, o peso em seu coração diminuía e Liam se sentia mais confiante para falar.
“A primeira vez que nós terminamos, eu fiquei realmente abalado. Eu não aceitei. Achei que você deveria ser meu, para sempre. Mas o tempo passou e eu fiquei preso a essa ideia. Eu mesmo não percebi que meus sentimentos haviam mudado. Eu não percebi que não te amava mais, Davi.” O nome do policial deixara seus lábios com um gosto doce. Eu não vou deixá-lo saber que eu chorei no carro, depois que ele me apresentou o Johan.
“Liam...”
“Obrigado por ter sido sincero comigo, do começo ao fim. É a minha vez de ser sincero com você. Eu já o esqueci. Eu o esqueci há muito tempo e não pretendo relembrar como as coisas eram. Eu quero seguir em frente.” Seu coração começou a bater mais rápido quando nome de Rafael apareceu em sua mente. Seguir em frente com ele...?
“Você é capaz de fazer isso, Liam. Você sempre consegue o que quer.” Davi sorriu e se levantou, dando algumas batidinhas no quepe que estava em sua mão. “É quase como um Príncipe.”
Liam se levantou e retirou o quepe das mãos de Davi, desamassando-o e colocando-o corretamente sobre a cabeça do homem. Seus rostos estavam mais próximos do que o necessário e isso pareceu deixar Davi levemente desconfortável.
“Sinto muito, senhor oficial, mas só uma pessoa pode me chamar de Príncipe. Para você, eu sou o Liam. A pessoa que, daqui pra frente, você verá casualmente nas ruas.” O quepe foi arrumado e Liam deu uma leve batidinha na aba preta.
Davi não respondeu, sorrindo com o gesto e fazendo uma breve reverência, com se estivesse na presença de algum ícone da realeza.
“Se me dá licença...” Liam ergueu a mão, fazendo um aceno e se retirou, cruzando a rua para chegar até sua casa.
O portão da garagem foi aberto, mas não foi fechado. O homem de cabelos negros entrou no carro e pegou o celular, clicando no número que ele mais queria. Ele não vai me atender, então eu vou deixar um recado na secretária eletrônica.
“Rafael, sou eu, Liam. Eu vou ir para a sua casa nesse instante e espero que você abra a porta, ou eu precisarei agir com força. Até logo.” A chamada foi desligada e Liam deu partida no carro, saindo da garagem e acelerando quando ganhou as ruas.
Seu coração e corpo estavam tão leves que era quase como se ele estivesse flutuando. Algo dentro de si brilhava com a sensação de dever cumprido e o homem de cabelos negros quase se parabenizou por deixar de ser tão cego. Eu precisei de anos para perceber que não estava mais apaixonado. É muito fácil confundir uma amizade profunda com algo mais. Principalmente quando esse 'amigo' foi seu ex.
O carro parou em um semáforo, no mesmo instante que seu celular começou a tocar.
“Sim?”
“Eu não conheço nenhum Liam, mas conheço um Príncipe e eu não estou a fim de recebê-lo em minha casa. Não venha!” A voz de Rafael levou um sorriso para os lábios de Liam. Ele ouviu o recado. Ele me ligou de volta!
“Eu vou chegar em poucos minutos, então me atenda.” Foi sua resposta.
“Eu não vou atendê-lo! Não venha!”
“É uma ordem do seu Príncipe. Atenda à porta.” Uma risada escapou com o fim da frase.
“Você não é meu Príncipe!”
“Ainda não, mas vou ser.”
“Não vai!”
“O semáforo abriu. Por favor, abra a porta quando eu chegar.”
A chamada foi desligada e Liam acelerou, saindo do semáforo. Havia um sorriso insistente em seus lábios e ele se sentia realizado. ‘Se você quer algo, tem que ir atrás disso’, é o que eu sempre digo. Então eu vou ir atrás do que realmente quero.
Vou ir atrás do Rafael.
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