Love comes softly
2 Johan
Notas iniciais
Os olhos verdes se abriram e, com a luz do sol, uma forte dor de cabeça o atingiu, fazendo com que Johan grunhisse baixinho e virasse de costas para a janela, escondendo o rosto no travesseiro.
Seu corpo estava gelado por conta da falta de cobertores e sua garganta estava levemente dolorida. Será que eu vou ficar com gripe por ter dormido de cueca e cabelo molhado em pleno inverno?
Uma risada irônica lhe subiu a garganta, mas ele se obrigou a parar. Sua cabeça latejava verdadeiramente e Johan se sentia a beira da explosão. Mas eu achei que estaria pior. Provavelmente estou melhor por ter seguido as instruções daquele policial.
Mesmo sem sua autorização, sua mente começou a trabalhar em alta velocidade, recordando de coisas nada agradáveis. Sua ex-namorada. Seu melhor amigo a beijando em um canto qualquer. O mal estar pós-vômito na praça. Uma ajuda amiga.
Provavelmente, se não fosse por Davi, Johan ainda estaria jogado naquele banco, com uma das piores ressacas de sua vida e com dor no corpo todo. Se bem que eu ainda estou com dor.
O rapaz sorriu ao lembrar de sua audácia ao perguntar se Davi era gay. Realmente, acho que eu vou dar um tempo na bebida.
Resmungando e se espreguiçando o mais devagar possível para evitar a dor, Johan se levantou da cama, caminhando em direção ao guarda roupa. Com uma calça jeans, camiseta de manga comprida e roupa intima limpa, o rapaz decidiu que era hora de tomar um novo banho, para tentar começar o dia bem. Só tentar...
X
Após o banho, Johan se sentia uma nova pessoa. Sua cabeça já não doía tanto e as dores em seu corpo começavam a sumir aos poucos.
Seu café da manhã/almoço foi um suco de caixinha e um sanduíche natural que ele comprara no mercado, no dia anterior. O relógio da cozinha marcava meio dia e quarenta e Johan suspirou. Eu dormiria por mais tempo se não precisasse ir ao banco.
Pegando a chave do carro, que estava sobre a bancada, e saindo do apartamento o mais desanimadamente possível, Johan se pegou relembrando a noite passada novamente. Ainda bem que eu não fui de carro para a festa. Aquele filho da égua que eu chamava de melhor amigo me ofereceu carona para ir e eu nem pensei duas vezes. No fim das contas, tive que voltar a pé para casa. A metade do caminho, pelo menos...
O som do elevador anunciou que ele estava na parte de estacionamento do prédio e esse foi o empurrão final para que Johan destravasse o carro e colocasse a chave na ignição.
Após cinco minutos de ruas conhecidas e semáforos demorados, o rapaz encontrou um lugar para estacionar a duas quadras de distância do banco.
O centro estava cheio e muito movimentado e isso fez com que Johan se lembrasse que era sábado. Está frio. Essas pessoas deveriam ficar em casa.
Retirando a carteira do bolso de trás, o rapaz de cabelos castanhos procurou pelo seu cartão de crédito em meio a todos aqueles papeis de extrato. Onde eu coloquei?
Um empurrão o despertou de seus devaneios e, antes que pudesse dizer algo, Johan teve a carteira tomada de suas mãos.
Um homem de capuz começou a correr entre a multidão e só então Johan percebeu que havia sido roubado. Suas pernas agiram por impulso e logo ele estava correndo atrás do ladrão.
“Volte aqui seu imprestável!” Sua garganta ainda estava dolorida desde que acordara, mas isso não o impedira de gritar. “Alguém segure esse homem! Ele é um assaltante!”
Entretanto, ninguém se atreveria a entrar no caminho de um ladrão.
Tomando um pouco mais de fôlego, Johan deixou que toda a força de seu corpo se concentrasse em suas pernas.
Aos poucos, a distância entre ele e o assaltante diminuía, até que o rapaz conseguiu segurar o pulso do ladrão.
“Devolva a minha carteira e eu-” Uma dor lacerante atingiu seu braço esquerdo, fazendo-o soltar o pulso do assaltante, que não demorou a voltar a correr.
Algo quente escorria por seu braço e Johan precisou de pouco tempo para perceber que havia sido esfaqueado. Não poderia ser melhor.
O assaltante não estava tão longe quando o rapaz decidiu voltar a correr, mas seu braço não permitia. A dor começava a se tornar pior conforme ele se dava conta de quão fundo a faca havia entrado.
“Esses assaltantes estão ficando cada vez mais abusados!” Uma voz grossa chamou sua atenção, seguido pelo barulho de alguém caindo no chão. “Onde você pensa que vai meu rapaz? Não acha melhor devolver a carteira para aquele homem?”
A multidão que atrapalhava o caminho agora havia parado de andar. O local estaria em silêncio se não fosse o barulho interno das lojas ou dos carros que passavam a toda pela rua.
Johan desviou a atenção do corte em seu braço, erguendo o rosto para aquela voz recentemente conhecida. Não pode ser...
“Você está bem, cidadão?” Davi estava parado há alguns metros de distância, segurando o assaltante que se debatia com todas as forças que tinha. “Essa carteira é sua?”
“Sim...” A resposta saiu como um sussurro pelos seus lábios e Johan sentiu vontade de sorrir, no entanto, ele se comprometeu a apertar o corte em seu braço.
“Gostaria de prestar queixa contra este homem?” Davi fez um sinal com a cabeça na direção do assaltante.
“Prestar queixa? Você acabou de pegá-lo em flagrante.” Finalmente sua voz voltara ao normal e Johan conseguia ignorar a dor em seu braço.
“Se você der queixa, a sentença deste homem pode aumentar por algum tempo.” O policial deu de ombros enquanto algemava o assaltante.
“Não vou prestar queixa. Estou ocupado demais para perder meu tempo com quem não merece.” Johan estendeu a mão para pegar a carteira de volta, mas se deteve ao perceber que ela estava suja de sangue.
“Você se machucou, cidadão?” Davi arqueou uma sobrancelha, encarando a mão ensanguentada do rapaz de cabelos castanhos.
“Esse idiota me acertou com uma faca, mas eu estou bem. Só quero minha carteira de volta para eu poder ir ao hospital.”
“Rodrigo!” O policial berrou mais alto do que o necessário, já que outro rapaz se aproximava correndo.
Vinte centímetros mais baixo que Davi, Rodrigo – que parecia estar em fase de treinamento policial, se é que isso existe – ofegava por conta da corrida. Ele era menor do que muitos homens por aí e não parecia ser muito forte.
“S-sim?” Sua voz também não era muito grossa e isso lhe dava um ar de certa fragilidade.
“Leve este homem para o departamento policial. Diga que ele foi preso em flagrante por assalto a mão armada. Diga que ele machucou um civil.” Davi empurrou o assaltante na direção de Rodrigo, que deu um passo para trás enquanto segurava o braço do homem. “Se você deixar esse homem escapar, eu espero que se prepare para a pior punição de sua vida, entendeu, Rodrigo?”
“Sim senhor!” A voz do rapaz adotou um tom mais sério e Rodrigo adquiriu uma expressão mais confiante, segurando o assaltante com mais força e puxando-o para o lado oposto.
Johan permaneceu em silêncio, apertando o próprio braço, enquanto observava Rodrigo se afastar com o assaltante e Davi se aproximar um olhar levemente preocupado no rosto.
“Você veio ao centro de carro?” Foi a primeira pergunta que ele fez ao chegar perto o suficiente de Johan.
“Sim.”
“Então me dê as chaves, eu vou levá-lo até o hospital.”
X
Antes que percebesse, Johan estava de volta ao seu carro, sentado no banco do passageiro enquanto Davi dirigia calmamente pelas ruas da cidade.
Seu corte havia sido firmemente amarrado com um lenço que lhe fora cedido pelo policial e, neste exato momento, ele descansava a cabeça no encosto do banco do carona.
“Não achei que o encontraria tão cedo.” A voz de Davi lhe acordou de seus devaneios e Johan virou o rosto a tempo de ver o policial retirar o quepe e jogá-lo no banco de trás. “Você não é um homem de muita sorte, é Johan?”
“A sorte me odeia.” Ele riu ao dizer aquela frase em voz alta. “O que você estava fazendo no centro? Como parou aquele ladrão?”
“Ossos do oficio. Eu e meu novo parceiro tínhamos acabado de sair de uma loja que fez uma denuncia sobre um assalto. Eu percebi uma agitação na rua de cima e corri em direção ao tumulto.” Davi deu de ombros e trocou de marcha. “Vi você parado, apertando o braço e um homem de capuz correndo em minha direção. O que aconteceu em seguida era a coisa óbvia a se fazer.”
“Quer dizer que você me encontrou por pura coincidência?” Johan abriu um pouco a janela do carro, procurando ar fresco.
“Pode-se dizer que sim. Ou pode ser o destino. Se a sorte te odeia, o destino pode querer te dar uma chance de vingança.” Davi sorriu. “Nunca se sabe.”
“É claro que sim. Até porque o destino adoraria que meu melhor amigo ficasse com a minha namorada.” Johan respirou fundo. “Ex-namorada.”
“Eu não sou o destino para saber.”
Os dois homens ficaram em silêncio durante algum tempo até que o carro parou em um semáforo. O rapaz de cabelos castanhos uniu as sobrancelhas e se lembrou de algo que Davi lhe dissera na noite anterior.
“Você disse, ontem, que se seu parceiro me encontrasse no banco da praça, eu provavelmente seria preso na hora. Aquele cara não me parece o tipo de pessoa que faz isso.”
“Ele é meu novo parceiro. O antigo, sim, lhe prenderia.” Davi ligou a seta e virou em uma esquina, acelerando o carro.
“Você e aquele tal de Rodrigo pareciam bem próximos, por isso achei que eram parceiros há um tempo.”
“O Rodrigo precisa de pulso firme, ou ele jamais se dará bem na profissão de policial. Por isso jogaram o coitado para mim. Dizem que eu tenho cara de bravo.” A frase foi finalizada com uma risada baixa.
“Vocês pareciam um casal.” Johan olhou pela janela, dando de ombros e se controlando para não apoiar o rosto na mão suja de sangue.
“Casal?”
“Você disse que ele deviria se preparar para a pior punição da vida. Para mim, pareceu um casal.”
“Só pareceu porque você sabe que sou gay.”
“Talvez sim.”
Os dois homens ficaram em silêncio novamente, até Davi soltar uma gargalhada alta.
“Eu diria que você está com ciúmes, se eu não soubesse que você é hetero.” Uma lágrima de riso adornava seus olhos azuis e o policial parecia estar realmente se divertindo. “Mas tudo bem, eu sei como isso é desconfortável.”
“Você disse ontem que não daria em cima de mim, então não é tão desconfortável quanto deveria ser.” Johan suspirou ao ver a fachada do hospital.
“É verdade, eu disse mesmo.”
“Por que você não flertaria comigo?”
A pergunta saiu mais rápida do que Johan poderia controlar e ele se arrependeu logo em seguida por isso. É como se eu estivesse pedindo para ele dar em cima de mim. Será que eu ainda estou sob o efeito do álcool?
Davi piscou algumas vezes após desligar o carro e colocar a mão na porta, se preparando para abri-la.
“Porque você é hetero, Johan. Eu respeito isso.”
“Só por isso?”
“Sim.”
“Se eu fosse gay, você daria em cima de mim?”
“Se você fosse gay, já estaria em cima da minha cama, completamente sem roupas.”
Deixando a frase no ar, o policial saiu do carro, dando a volta no veículo e abrindo a porta do carona, para que Johan não precisasse mover o braço.
“Isso foi uma cantada muito explicita. Você disse não que flertaria comigo. Agora eu estou realmente desconfortável.” Johan desceu do carro e deu dois passos para o lado, ficando a uma distância razoável de Davi.
“Não foi uma cantada. Você fez uma pergunta, eu respondi.” O policial sorriu e fez sinal para que o rapaz começasse a andar. “Pare de fazer esse tipo de pergunta e eu pararei de respondê-las.”
“Tudo bem.”
“Tudo bem.”
X
Após ser atendido, e levado quatro pontos no corte, Johan obteve ordens do médico para não mover o braço durante três dias. Nada de dirigir carros, nada de abrir armários que estivessem no alto, nada de esforços.
“O corte foi feito em um lugar muito perigoso. Um pouco mais para dentro e você estaria em sérios apuros, jovenzinho.” Foi o aviso do médico.
Johan e Davi agradeceram e saíram do hospital pouco mais de duas horas depois.
“Parece que eu vou ter que levá-lo para casa.” Davi abriu a porta do carro para o rapaz, esperando ele entrar para poder fechá-la.
“E você vai voltar para o departamento de policia como?”
“Eu peço para o Rodrigo ir me buscar.”
O policial deu de ombros e fechou a porta, caminhando para o lado do motorista e entrando no carro.
“Aquele Rodrigo parece gostar de você.” Johan comentou por fim.
“Achei que tínhamos combinado que você pararia de fazer perguntas.” Davi sorriu e ligou o rádio, procurando alguma música boa. “Estou quase dizendo que você está curioso sobre a vida de um gay.”
“Talvez eu esteja.” Johan riu e finalmente apoiou o rosto na mão, que agora estava limpa. “Não consigo ter sorte com as mulheres. Talvez o mundo dos gays seja uma opção agora.”
“Você está pedindo para eu dar em cima de você.” Davi suspirou.
“Você quer dar em cima de mim?”
“Prefiro não responder a essa pergunta.” O policial sorriu e parou em um semáforo, virando-se para o banco de trás e voltando a pegar o quepe.
“O que você vai fazer?”
“Colocar o quepe para você fechar a sua boca e parar de me colocar em situações desconfortáveis.”
“Desconfortável? Eu que estou desconfortável aqui.” Johan arqueou uma sobrancelha.
“Não estaria se parasse de fazer perguntas bobas. Você já sabe a resposta, não sei por que continua perguntando.” Davi encarou o rapaz ao seu lado. Seu olhar denunciava uma leve irritação. “Eu estou tentando ser seu amigo e evitar o assunto de que sou gay, já que você mesmo disse que eu não pareço ser um.”
“Mas eu não me importo com você ser gay. Você já me ajudou mais do que muita gente por aí.” Johan deu de ombros e parou de falar por um tempo.
Ele estava sendo sincero. Gay ou não, Davi estava sendo mais amigo do que um certo ‘melhor amigo’ que provavelmente ainda estava se pegando com sua ex-namorada. Eu devo estar na beira do desespero. Eu tenho certeza que, lá no fundo, eu estou pedindo para o Davi dar em cima de mim. Credo!
“Tudo bem, vou parar.” Johan ergueu o braço direito, fingindo estar rendido. “Você tem razão, estou sendo babaca demais. Sejamos amigos então. Tenho certeza de que podemos nos dar muito bem.”
“Já achei que éramos amigos.” Davi sorriu. “Depois da ajuda de ontem, era óbvio que conversaríamos mais se tivéssemos mais contato.”
“Então vamos ter mais contato.” O rapaz tirou o celular do bolso e o estendeu para Davi. “Me dê seu telefone. Se seremos amigos, temos que fazer isso direito. Sempre que você tiver uma folga, me ligue. Vamos fazer algo.”
O policial sorriu e arqueou uma sobrancelha, pegando o celular e colocando-o sobre seu colo. O semáforo finalmente abrira, retirando sua oportunidade de digitar seu número de telefone.
“O que você está fazendo Johan?” Foi sua pergunta final.
“Tentando abraçar o destino.”
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