Love comes softly
12 Johan
Notas iniciais
“One in a million
My lucky strike”
–Lucky Strike (Maroon 5)
“Um em um milhão
Meu golpe de sorte”
A sorte o odiava. Isso deveria ser anotado como regra e lei.
“Com licença pessoal, eu preciso conversar com o professor de biologia teórica. Coloquem as luvas e máscaras. Garotas prendam os cabelos. Eu já volto.” Johan ligou um dos ventiladores antes de sair do laboratório e fechar a porta atrás de si.
O silêncio no corredor só era quebrado pelo cantar de pássaros, do lado de fora, e o farfalhar das cortinas quando balançadas pelo vento.
“O que você está fazendo aqui?” A pergunta saíra em um tom de irritação quase palpável.
“Eu trabalho aqui.” Rafael de um passo para o lado e se encostou à parede.
“Trabalha aqui por coincidência ou por que quer estragar a minha vida mais um pouco?” Johan viu a expressão de Rafael mudar para ofensa e algo mais. Dor, talvez?
“Pura coincidência.” O homem loiro suspirou e estendeu uma parta para Johan. “São os formulários dos alunos e anotações das próximas aulas, para mantermos o mesmo ritmo.”
“Obrigado.” O rapaz de cabelos castanhos puxou a pasta, percebendo o quanto estava pesada.
“Johan, nós precisamos conversar.” Rafael coçou os cabeços e cruzou os braços logo em seguida. “Mas precisamos conversar como adultos.”
“Eu não sei como você tem conversado até agora, mas eu tenho o encarado e agido como adulto em todas as vezes que nos encontramos.” Johan olhou para o relógio de pulso, colocando a mão sobre a maçaneta da porta. “Se me dá licença, tenho alunos para ensinar.”
“Eu vou vir te encontrar no final da aula. Por favor, me espere para conversar.” Rafael deu um passo para trás e acenou, antes de caminhar às pressas para sua próxima aula.
Soltando um suspiro extremamente alto, Johan passou a mão nos cabelos antes de voltar para o laboratório.
Todos os seus alunos estavam sentados, em silêncio, com os equipamentos de segurança, rabiscando algumas coisas nas apostilas e olhando para os tanques de glicerina. Será que eles são comportados assim ou será que é por conta do primeiro dia de aula?
“Sinto muito pela interrupção. Meu nome é Johan e eu vou trabalhar a parte prática com vocês.” Seus olhos verdes analisavam cada um de seus alunos. “Se alguém estiver passando mal por conta do cheiro de glicerina, ou do formol, por favor, me avisem. Não quero ninguém desmaiando. Posso ser um homem, mas sou tão fraco quanto uma borboleta.”
A risada de seus alunos indicou que Johan havia começado bem. Agora eu preciso me concentrar.
X
O dia se passou extremamente calmo e Johan não teve maiores problemas. Seu receio de andar pela universidade, e encontrar Rafael, sumira com o fim do intervalo. Ele não estava nem nasala dos professores, talvez tenha ido embora.
As duas últimas aulas foram mais dinâmicas e Johan até precisou segurar uma risada quando uma das ‘patricinhas’ da turma deixou que seus cabelos relassem no formol. Isso que eu mandei prender o cabelo.
“Obrigado pela atenção de vocês. Até amanhã e, meninas, não esqueçam de prender os cabelos.”
Os alunos se despediram e saíram da sala com velocidade, visivelmente cansados pelo dia de estudo.
Johan terminou de arrumar os materiais usados no laboratório e se retirou da sala, fechando a porta atrás de si. O cansaço dominava todo o seu corpo e isso só piorou quando seus olhos captaram a silhueta de Rafael, vindo em sua direção. Não... Eu achei que ele tinha ido embora!
“Bom trabalho hoje.” Rafael parou à sua frente e segurou alguns papéis na mão esquerda. “Cansado?”
“Eu estaria bem menos cansado se não precisasse te ver.”
“Uma pena que eu realmente preciso falar com você.” O loiro se encostou à parede novamente e cruzou os braços. “Não precisa dizer nada, apenas escute.”
Um pesado suspiro escapou de seus lábios e Johan permaneceu onde estava e concordou com a cabeça. O mínimo que eu posso fazer é ouvi-lo. Ele não vai tentar nada.
“Sabe Johan... Eu gosto de você.” Aquelas palavras fizeram Johan retesar os ombros e dar um passo para trás. “Eu gosto de você. Sempre gostei e provavelmente sempre vou gostar.”
“Rafael...”
“Por isso-”
O toque de um celular interrompeu a fala de Rafael, fazendo o homem soltar um resmungo e puxar o telefone do bolso, olhando para o nome na tela. Os olhos claros se arregalaram e uma breve coloração rosa tomou conta de suas bochechas. O Rafael está corando?!
“Maldito Príncipe, isso é hora de ligar?” Rafael desencostou da parede e começou a caminhar, com velocidade, para o outro lado do corredor. “Eu preciso atender. Amanhã terminamos de conversar.”
Logo, o loiro já estava no fim do corredor, com o celular na orelha, falando com alguém que havia ganhado o apelido de ‘Príncipe’. Mas... Ele estava corado, não é?
X
Durante o percurso para voltar para casa, Johan sentia seu sangue ferver. Ele não sabia muito bem porque estava tão irritado, mas tinha uma noção do que era. Ele me diz aquelas coisas e depois vai embora sem terminar de falar? Qual o problema desse idiota?
Quando chegou em casa, Johan nem trocara de roupa. Seus papeis e materiais foram jogados no sofá e o homem foi direto para a cozinha.
Cozinhar sempre o deixara mais calmo e, naquele momento, isso era o que ele mais precisava. Eu estou irritado só porque ele não terminou de falar comigo! Acho que o idiota sou eu.
Quando Davi chegou, Johan sentiu que as batidas de seu coração se acalmaram um pouco. No entanto, a raiva ainda estava lá.
O policial conversara sobre Rafael e pedira para Johan se acalmar, mas a frustração só diminuiu quando Davi o puxou para um forte abraço. Aah... O cheiro da colônia dele...
O que aconteceu depois fora um impulso básico de seu corpo, misturado com seus próprios desejos.
Ouvir que Davi passaria um dia inteiro ao lado de Rodrigo levou uma pontada de ciúme para o coração de Johan, que ele nunca sentira antes. Era algo completamente novo. Algo inexplicável e surpreendentemente satisfatório. Eu senti como se tivesse encontrado um lugar no mundo.
X
Próximo das dez horas da noite, do mesmo dia, seu interfone tocou.
“Sim?”
“Ah, sinto muito por atrapalhar a essa hora, senhor Johan, mas o policial de hoje a tarde está aqui para vê-lo.” A voz conhecida do porteiro entrou por seus ouvidos como um sussurro. O Davi está aqui?
“Pode mandar subir.”
A chamada foi desligada e Johan arrumou a sala e desligou a televisão, caminhando até a cozinha e colocando o pote de cookies sobre a mesa. Eu cozinhei demais.
As batidas em sua porta fizeram seu coração disparar e a única coisa que ele conseguiu fazer foi avisar que estava aberto.
“Você não deveria deixar a porta aberta assim. Alguém poderia entrar.” Davi fechou a porta atrás de si e sorriu, colocando o capacete sobre o sofá.
“Eu moro em um prédio. Seria um pouco difícil alguém entrar aqui.” Johan passou a mão nos cabelos e encostou-se ao balcão da cozinha, cruzando os braços. “Aliás, você não tinha que trabalhar até amanhã de tarde?”
“Eu ainda preciso, mas estava fazendo ronda aqui por perto e não resisti. Está tudo calmo agora à noite, então fugir por um tempinho não vai mudar muita coisa.” O policial se aproximou um pouco mais e envolveu sua cintura com um dos braços. “Está mais calmo?”
“Eu já estava calmo.” Suas bochechas coraram e Johan respirou fundo. O cheiro da colônia dele ainda está aqui. Nem parece que ele estava trabalhando!
“É claro que estava.” O fim do comentário veio acompanhado de um beijo em sua testa, fazendo o homem de cabelos castanhos se encolher um pouco. “Já descansou? Preparou a aula de amanhã?”
“Odeio essa história de preparar aula e seguir um roteiro, mas, sim. Já fiz isso.” Quando os braços de Davi o soltaram, Johan não conseguiu encontrar palavras para descrever a solidão que sentiu. “Que horas você precisa voltar para a sua ronda?”
“Dentro de alguns minutos. O Rodrigo provavelmente vai ficar me esperando.” Davi deu de ombros e olhou para o relógio na parede. “Johan, aconteceu alguma coisa?”
“Hoje? Não. Só aquela conversa com o Rafael. Por quê?”
“Não é isso. Parece que algo está te incomodando. O Rafael tentou alguma gracinha e você não quis me contar?” Os olhos azuis pareciam realmente preocupados e isso fez Johan morder o lábio inferior.
Seus corpos ainda estavam próximos e o cheiro de Davi parecia ter grudado em suas próprias roupas. O olhar do policial sempre causava um turbilhão de sensações diferentes em Johan e não havia um dia em que Davi não aparecia em seus pensamentos. Eu passei a tarde toda pensando nisso. Eu nunca senti essas coisas com ninguém e acho que nunca vou sentir. Até hoje eu fico excitado quando me lembro do nosso primeiro beijo.
Seu corpo se moveu sozinho e seus dedos tocaram a mão de Davi, apertando-a e causando certo espanto no homem. Quando o Rafael disse que sempre vai gostar de mim, eu não senti nada além de raiva. Mas com o Davi é diferente. Sempre que ele diz que gosta de mim, sempre que ele me toca, até um simples olhar causam milhares de sensações em mim e eu não consigo me concentrar em mais nada.
“Johan?”
Seus pés o levantaram para mais perto do rosto de Davi e seus olhos finalmente se focaram nos do policial. Seus lábios pareciam secos e suas mãos tremiam levemente com o prospecto do que estava prestes a fazer. Eu posso não ser a melhor pessoa do mundo, assim como eu sei que ainda vou dar muito trabalho para ele, mas... Eu não consigo imaginar meu futuro sem ele. Isso é impossível agora.
“Davi...”
“Sim?” Havia um meio sorriso naqueles lábios e Johan percebeu que o policial já sabia. Na verdade, ele sempre soube, huh?
“Eu gosto de você. É impossível imaginar alguém que não seja você.” O sorriso de Davi aumentara e Johan continuou. “Isso provavelmente é o que chamam de amor, então... Obrigado por não desistir de mim.”
“Eu poderia ter feito qualquer coisa, menos desistir de você. Eu consigo reconhecer a felicidade quando ela está em na minha frente.”
O final da frase foi acompanhado por um sorriso sincero de ambas as partes. Eu não sei se fiz uma boa escolha em me declarar, mas sei que se chegar o dia em que eu me arrepender, as memórias do que passamos juntos vai compensar qualquer coisa.
Os lábios se uniram em um beijo calmo e singelo. Como se eles estivessem se encontrando pela primeira vez. As mãos de Davi seguravam a cintura de Johan com força enquanto a carícia começava a se aprofundar.
A falta de ar, o entrelaçar das línguas, os ofegos e as mãos afundadas nos cabelos deixavam tudo muito mais viciante e Johan se encontrava à beira da insanidade. É só um beijo e meu coração parece prestes a explodir. É assim que nos sentimos quando somos amados?
“Oficial Hensler, precisamos de reforços no bairro oeste. Assalto a mão armada e reféns. Repetindo...” A voz feminina que saiu do walk-talk fez com que ambos os homens se separassem em um pulo.
A risada de Davi veio logo em seguida e ele se desculpou enquanto atendia o chamado e informava que estava a caminho.
“Amanhã é meu dia de folga, então vamos pensar em algo para fazer.” O policial pegou o capacete que havia sido colocado sobre o sofá. “Converse com Rafael e veremos o que ele realmente quer.”
“Entendido oficial!” Johan bateu continência e sorriu, estendendo a mão e puxando-o pela gola do uniforme, fazendo os lábios se encontrarem. “Eu estarei esperando, então vá com cuidado e volte inteiro.”
“Como quiser.” Davi depositou um novo beijo nos lábios de Johan e abriu a porta do apartamento. “Até amanhã cidadão. Fique bem.”
A sala afundou em silêncio enquanto o policial se dirigia para o elevador e Johan trancava a porta. Seus lábios formigavam e todos os lugares que haviam sido tocados por Davi pareciam queimar. As forças de suas pernas pareciam ter sumido e por este motivo Johan deixou seu corpo deslizar pela porta até atingir o chão. Se isso que fiz foi um erro, então provavelmente é o melhor erro de minha vida.
O gosto de hortelã e pasta de dente parecia ter impregnado em sua boca e o homem de cabelos castanhos corou violentamente ao se lembrar do beijo afoito e necessitado. Seu corpo latejava e sua cabeça rodava. Droga... Eu queria mais.
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