Love You, Miss You, Mean It
21 S2E21: Tennessee Orange
O estádio surgia à frente como um templo moderno, iluminado por holofotes que cortavam o céu alaranjado do fim de tarde. O táxi parou a poucos metros da entrada principal, e Hannah desceu com calma, sentindo os primeiros passos ecoarem mais fundo que o normal. A camiseta alaranjada vibrava como se soubesse exatamente onde estava — e por quê.
Caminhou entre os torcedores vestidos de preto e prata, alguns já com copos de cerveja na mão, outros discutindo escalações, apostas, expectativas. Um garoto a olhou com curiosidade ao passar, provavelmente estranhando o laranja entre tanto preto. Ela apenas sorriu.
Ao entregar o ingresso e passar pela catraca, sentiu um arrepio percorrer a espinha. O som do estádio — música alta, gritos, passos apressados — envolveu tudo. A arquibancada se abriu diante dela como um mar em euforia. A primeira fileira parecia um palco. E ela, uma personagem que voltou à cena decisiva da própria história.
(...)
O ônibus do time chegou pelos fundos do estádio com a escolta habitual. Ethan estava sentado do lado da janela, encostado no vidro, fones de ouvido no máximo. Não ouvia a música — só o coração. O reflexo no vidro mostrava um rosto mais sério do que ele lembrava ser seu.
Quando desceu, o ar seco da cidade pareceu menos sufocante. Talvez fosse o costume, ou o fato de saber que dessa vez ela realmente estaria ali. Não exatamente onde, mas o suficiente pra sentir, diferente de todas as vezes que só podia imaginar que ela estava acompanhando. E se ela viesse mesmo com aquela camiseta? Um leve sorriso se esboçou no rosto de Ethan, que logo passou pelo corredor interno, cumprimentou os seguranças e entrou no vestiário. A movimentação era a mesma de sempre — massagistas, técnicos, vozes motivacionais. Mas ele estava em outro lugar, em sua mente.
Sentou-se no banco, tirou a camiseta de treino e começou a vestir o uniforme devagar. O número 84 nas costas já fazia parte dele — mas naquela noite, parecia dizer mais. Parecia responder algo que ele ainda nem tinha perguntado.
(...)
Hannah percorreu a lateral do campo guiada por um dos assistentes de setor. O lugar era ainda melhor do que imaginava: quase encostado na grade, com visão completa do campo. Podia ver até parte do túnel de onde os jogadores sairiam.
Sentou-se com cuidado, cruzou as pernas e apoiou os braços no joelho. Tirou o celular da bolsa, mas não fez nada com ele. Só queria estar ali. Só precisava.
O estádio ainda se enchia. As luzes ganhavam força. Os alto-falantes anunciavam a entrada dos times para o aquecimento. Um grupo de torcedores gritou. E então ela o viu.
(...)
Ethan pisou no gramado com o resto do time. O calor do fim de tarde ainda pairava no ar, misturado ao cheiro da grama, da eletricidade no ar, da expectativa coletiva. Ele fez o alongamento, correu até a lateral do campo. Olhou em volta sem saber exatamente onde procurar.
Até que viu. Um ponto de cor, isolado no meio do preto e prata.
A camiseta laranja.
Ela.
(...)
Hannah manteve os olhos fixos no campo assim que Ethan e os outros jogadores começaram o aquecimento. No meio do mar preto e prateado dos torcedores dos Raiders, sua camiseta laranja queimado da Tennessee se destacava como uma fogueira acesa — viva, inconfundível. Ela sabia disso. E, por um momento, teve certeza de que ele a vira.
Ou quis acreditar que sim.
Porque lá estava ele, em meio aos outros jogadores, passando por sua linha de visão. E embora estivesse longe demais para que visse detalhes — os olhos, a expressão — algo na postura dele pareceu hesitar, como se algo o puxasse naquela direção. Mas, antes que qualquer certeza surgisse, Ethan já olhava pra outro lado. E ela ficou ali, com o coração batendo mais rápido, se perguntando se ele também sentia.
Hannah respirou fundo e desviou os olhos, sorrindo com a própria expectativa. Não queria se prender àquilo agora. Estava ali por ele, sim — mas também por ela. Pelo amor que nasceu nas arquibancadas, pelo orgulho que sentia, pela emoção de ver o número 84 entrando em campo mais uma vez, como quando o conheceu.
Uma onda de gritos percorreu o estádio, e ela se virou para o lado, rindo com um grupo de torcedores que tentavam ensinar a ela um canto. Eram dois irmãos e uma prima que já haviam trocado algumas palavras com ela na fila do ingresso, a atenção roubada pela camiseta laranja que destoava do ambiente. O mais velho começou a bater palmas num ritmo específico, e ela tentou acompanhar, errando a marcação e rindo de si mesma.
— É "Raiders clap-Raiders clap-clap" — explicou a garota, fazendo os gestos com exagero.
— Entendi! Acho que peguei — respondeu Hannah, já entrando no embalo, errando de novo e gargalhando. Era bom. Leve. Quase como voltar no tempo.
Comprou uma cerveja em um dos vendedores ambulantes que circulavam entre as fileiras, pegou também um pacote de pipoca amanteigada e voltou pro seu lugar na primeira fileira, equilibrando tudo com uma habilidade adquirida em anos de festivais e jogos universitários. Um dos irmãos ao lado dela fez um comentário brincalhão sobre a cor da camiseta, com um pouco de curiosidade.
— Você tá corajosa, hein?
— Só um pouco fora do padrão — respondeu, piscando — Mas essa aqui... é minha favorita. E talvez se torne uma colecionável daqui uns anos, peça exclusiva — Acrescentou rindo.
Sentou-se, bebeu um gole da cerveja e soltou um suspiro comprido, sentindo a tensão se dissolver aos poucos. A música no estádio aumentava, os telões mostravam lances anteriores, closes de torcedores vibrando, e a contagem regressiva piscava em vermelho no canto da tela.
De repente, as luzes diminuíram — quase como se o estádio respirasse fundo antes do grito. O céu, agora completamente negro, contrastava com as luzes brancas que banhavam o gramado. Os jogadores desapareciam de volta aos vestiários, enquanto o narrador anunciava, com voz solene e teatral:
— Senhores e senhoras... está quase na hora.
Hannah se levantou junto com os outros, batendo palmas, pulando um pouco sem perceber. Por um instante, olhou novamente para o campo vazio. Será que ele tinha mesmo a visto? Será que pensava nela agora, como ela pensava nele?
(...)
As luzes vibravam lá fora. A multidão pulsava como um coração coletivo, batendo no ritmo da expectativa. Ethan respirava fundo, com as mãos nos quadris e a cabeça levemente baixa, como se tentasse guardar o foco numa caixa dentro de si mesmo.
O capacete pendurado no braço, as luvas presas no cós da calça. Os companheiros falavam, gritavam, se encorajavam. Mas tudo soava abafado aos ouvidos dele. Como se o mundo lá fora estivesse em slow motion.
“Foco. Só isso agora. Jogo. Um passe de cada vez.”
Malik deu um tapa nas costas dele. Outro gritou o nome do time. A vibração se espalhava como eletricidade. E então veio o sinal — os portões do túnel se abriram, e a luz do campo invadiu o espaço com força. O narrador explodiu no alto-falante:
— Aí vem ele... o número 84!
Ethan ergueu o capacete, correu junto aos companheiros pelo túnel e entrou no campo como quem atravessa um limiar invisível. O barulho da torcida bateu como uma onda, vibrando por cada osso, cada músculo.
Lá em cima, no meio da arquibancada, Hannah saltava no lugar, torcendo como se ainda estivessem no velho campo da faculdade.
Ela não conseguia vê-lo com clareza ainda — eram muitos, todos uniformizados, correndo e se espalhando — mas sabia exatamente como ele corria. Sabia identificar o ritmo, o jeito como segurava o capacete ao lado do corpo. E quando o número 84 se virou na direção da arquibancada, mesmo que brevemente, ela prendeu a respiração.
“Talvez agora...”
Ela não acenou. Não gritou. Não fez nada que quebrasse o momento. Apenas ficou ali, com os olhos fixos, as mãos agarradas no corrimão e o coração batendo como se também fizesse parte daquele jogo.
Do campo, Ethan olhou de relance para as arquibancadas. Havia tantas pessoas. Tantos rostos. Mas um ponto laranja no meio do preto prendeu sua atenção por um segundo longo demais. O tipo de segundo que pode conter uma vida inteira.
Talvez fosse ela, sem sua mente pregando peças dessa vez.
Mas o jogo ia começar, e o foco precisava voltar. Ele respirou fundo, bateu o capacete contra a coxa e correu até a linha lateral, onde o treinador falava com o coordenador ofensivo.
Do alto da arquibancada, Hannah ainda o acompanhava com os olhos. Ela não sabia se ele a vira, mas naquele momento não importava. O campo estava aceso, os jogadores em posição, e o narrador anunciava os últimos detalhes da escalação.
As luzes se ajustaram para a cerimônia do hino. A bandeira foi projetada no telão. Silêncio. E então, o som solene do hino nacional começou, ecoando por cada canto do estádio.
Ethan fechou os olhos por um momento. Deixou o capacete encostar no peito, como quem segura o peso da história. Hannah colocou a mão sobre o coração, como fazia desde pequena. As vozes se uniram, as palmas vieram depois. Quando o último acorde do hino se dissipou no céu, o apito soou.
Era hora do jogo.
O estádio explodiu em aplausos e gritos, um rugido coletivo que parecia estremecer as arquibancadas. Hannah se ajeitou na cadeira como quem se prepara para uma montanha-russa, os olhos fixos no campo, o coração acelerado. A mão inconscientemente buscando a pequena câmera que levara na bolsa.
Lá embaixo, Ethan correu para a linha de scrimmage, o capacete ajustado com firmeza, os dedos marcando o couro da bola como se desenhasse um mapa invisível. A primeira jogada veio rápida: um passe curto para a lateral. Seguro, eficiente. A multidão reagiu com um coro de incentivo. Era só o começo.
Hannah sorriu, levando os dedos aos lábios sem perceber. Ao seu lado, um grupo de torcedores fazia piadas, um deles segurando um cartaz escrito com tinta preta e um desenho tosco:
"ETHAN, SE FIZER TOUCHDOWN, TE DOU MINHA IRMÃ!"
Ela riu alto, sem conseguir evitar, e bateu palmas junto com os outros. A espontaneidade do momento a contagiava. Levantou-se, pediu outra cerveja pro vendedor que passava equilibrando o isopor nas costas, e deu um gole enquanto aprendia o refrão de uma música que os torcedores da fileira de trás cantavam com empolgação. Balançava os ombros no ritmo, o cabelo meio preso, meio solto, balançando com cada batida do bumbo que vinha de algum lugar do fundo das arquibancadas.
Em outro ponto do país, na casa dos Lawson, o jogo estava na tela grande da sala. O pai de Hannah ajeitava os óculos no nariz, enquanto a mãe mordia a ponta do controle remoto como se aquilo pudesse aliviar a tensão. Apesar de terem perdido contato, nunca deixaram de acompanhar o ex-candidato à genro.
— Olha só esse garoto, — disse o narrador, empolgado. — Ethan Carter parece afiado hoje. O braço tá calibrado.
— Hmmm... Isso aí, vamos ver até quando. O garoto tem que ficar focado — murmurou o pai.
Na tela, a câmera fez um travelling rápido pelas arquibancadas. O narrador continuou:
— Dá uma olhada ali… Tá vendo aquele ponto laranja no meio da avalanche preta? Isso aí, meus amigos, é nostalgia. É a camisa dos Volunteers! Número 84! Isso é história! Carter parece ter uma torcida especial hoje!
A imagem congelou brevemente em Hannah, rindo com a cerveja na mão, a camiseta laranja vibrando sob as luzes do estádio.
A mãe soltou um grito, dando tapinhas no braço do marido:
— É a nossa Han! É ela!
O pai arregalou os olhos, o controle caindo no sofá.
— Que diabos… Assistir pela TV uma ova! E nem me convidou!
Ainda no Tennessee, na casa dos Carter, a reação não foi muito diferente. A mãe de Ethan colocou a mão no peito, emocionada, enquanto o pai apenas deu um sorriso orgulhoso.
— Eu sabia que ela ia aparecer, — disse a mãe — Aquela menina é firme. Sempre soube que eles iam se reencontrar!
O irmão de Ethan deu uma risada.
— Ah, o velho Ethan vai perder o foco agora. Aposto dez pratas que ele olha pra arquibancada no próximo snap.
Do lado de Lauren e Maddison, o jogo era acompanhado entre taças de vinho e gritos no grupo do WhatsApp, diretamente de algum bar:
LAUREN: É ELA!!! GENTE A HANNAH TÁ NA TV
MADDISON: EU FALEI! ELA FOI PRA CAUSAR. ESSA CAMISA 84 É UM ATAQUE DIRETO
De volta ao estádio, Ethan alinhava a equipe para a terceira jogada. Mas, antes do snap, seu olhar correu pelas arquibancadas. Por um breve instante, algo laranja cintilou no canto da visão. Um pontinho vibrante no mar negro.
Ele não sabia se era real — ou se queria tanto ver que imaginou.
Mas o coração bateu diferente.
Hannah não viu o olhar direto, mas sentiu. Como se o corpo reconhecesse algo que os olhos não podiam confirmar. Levantou-se, pulou junto com os torcedores quando veio uma corrida explosiva do time, e gritou tão alto quanto qualquer um ali.
Ela estava ali por ele. Mas também por ela mesma. E também se divertia como jogo.
O céu começava a escurecer, num degradê de laranja para azul profundo até chegar ao preto, como uma cortina prestes a se fechar para a próxima cena.
Os times recuaram para os vestiários rapidamente para o intervalo. Era o último respiro antes do verdadeiro embate começar.
E Hannah sentia: as emoções daquele jogo estavam só no primeiro quarto.
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