Love You, Miss You, Mean It
20 S2E20: Dream Walking
Ela corria por uma estrada de terra, o vestido esvoaçando contra o vento morno do interior, os pés descalços afundando na poeira quente. Havia risos ao fundo — risos que ela conhecia — e luz dourada vazando por entre as árvores. Alguém a chamava. Ela não respondia, mas corria na direção da voz. A estrada parecia infinita, mas não era desconfortável correr por ela.
Então, o barulho do celular vibrando sobre o criado cortou o sonho ao meio.
Hannah abriu os olhos devagar, como se ainda quisesse se agarrar àquele instante que escapava. A luz do quarto era suave, um dourado filtrado pelas cortinas finas. O mundo real chegava sem pressa, mas com força. Sentiu o peito pesar antes mesmo de se sentar — não de medo, mas da consciência de que o dia tinha finalmente chegado. O dia do jogo. O dia deles.
A cama estava bagunçada, quente em um lado, fria no outro. O perfume de Ethan ainda estava preso ao travesseiro, e por um segundo ela fechou os olhos outra vez, tentando ouvir o som da voz dele como no sonho.
Ao se sentar, o quarto parecia mais silencioso do que nunca. Pegou o celular ainda vibrando — notificação boba, só um lembrete automático do horário do jogo. Mas bastou para fazer o coração acelerar um pouco mais.
Ela respirou fundo. O ar parecia mais denso, como se cada movimento exigisse mais dela. Mas havia algo no ar também que a empurrava pra frente — o tipo de nervosismo que só aparece quando a vida inteira parece prestes a mudar.
Ao tomar coragem, desceu da cama e, ainda descalça adentrou a cozinha, ampla e iluminada, parecia saída de um catálogo. Mas mesmo ali, Hannah tateava como uma visitante tentando decifrar um mapa antigo. Demorou a encontrar o café. A cafeteira era de cápsulas — claro. Prática demais para ela, que sempre preferiu os rituais do filtro, do cheiro de pó fresco se espalhando. Acabou improvisando com o que tinha, rindo sozinha da própria teimosia.
Com a caneca na mão, sentou-se no sofá e ligou o notebook. O HD externo já esperava ao lado, como se soubesse que seria necessário. Abriu pastas antigas, revisitando materiais salvos com pressa entre uma cidade e outra. Foi então que achou uma sequência esquecida: Ethan, no banco de uma caminhonete, com a camisa 84, um sorriso calmo demais pra tempestade que caía lá fora. Ela, do lado, tirando as fotos entre risos e beijos roubados.
Suspirou. Aquilo não devia mais doer. Mas também não precisava doer bonito assim.
O celular tocou. "Mãe". Ela pensou em ignorar, mas atendeu.
— Oi, mãe.
— Finalmente! Achei que tinha esquecido que tem uma família! — veio a voz animada, seguida por outra mais grave ao fundo: — Hannah, fala pra ela que os Titans precisam ganhar essa semana, senão a temporada afunda!
— Pai?
— Tô aqui! Passando o café da manhã enquanto tua mãe me atormenta. Escuta, vai ver o jogo hoje à noite?
Hannah quase derrubou a caneca. Hesitou por meio segundo.
— Vou, sim… talvez pela TV. — disse, tentando soar casual. — Não tenho nada certo ainda.
— Vai torcer pros Raiders ou pros Titans? — ele provocou, rindo.
— Vou torcer pra ninguém se machucar — respondeu rápido, como se aquilo encerrasse o assunto.
— Ela sempre escapa! — comentou a mãe, rindo também. — A gente vai fazer pizza aqui, se quiser ligar mais tarde...
— Claro, claro. Eu falo com vocês, tá? Beijo!
Desligou antes que inventassem uma chamada de vídeo. O coração ainda batia rápido, mas ela riu sozinha do desespero. Quase se entregou.
Minutos depois, chegou uma chuva de notificações no grupo das amigas:
Lauren: “TÁ COM ELE, NÃO TÁ?” Maddison: “EU SABIAAAA! OLHA A CARA DA CULPADA!” Lauren: “Quantos pontos damos pro comeback dessa ficção da vida real?” Maddison: “Um filme. Eu pago pra ver. Eu faço a trilha sonora.”
Hannah tentou responder, mas tudo o que saiu foi um emoji de mãos cobrindo o rosto.
Maddison: “Sério, só quero saber uma coisa… ele ainda usa a colônia de baunilha amadeirada??”
Ela sorriu, digitou:
“Sim. E a voz ainda fica rouca quando ele sussurra.”
Foi assim que Hannah recebeu outra chamada — dessa vez, um vídeo de grupo com as amigas, ambas aos berros, mal deixando Hannah atualizá-las da situação. Foi rápida, caótica, cheia de risadas e comentários bobos sobre o grande jogo. Uma delas dizia que já estava com a camiseta de Ethan separada, a outra perguntava se Hannah tinha certeza que não queria transmitir a reação ao vivo, só pela zoeira.
— Vocês não prestam — disse ela, rindo.
— Mas a gente torce direitinho — garantiu uma delas, antes da chamada cair.
Ali, entre o cheiro do café forte demais, a lembrança de fotos antigas, a quase gafe com os pais e o caos carinhoso das amigas, Hannah sentiu que aquele dia ia ser longo. E importante.
Ela respirou fundo, fechou o notebook, e pegou um bloco de anotações.
Compras:
VinhoPãoVelas (se tiver coragem)Queijo (talvez aquele que ele sempre gostou e nunca lembra o nome)Alguma sobremesa fácil (ele ainda ama cheesecake?)Se a noite trouxesse vitória, queria que tudo estivesse pronto.
E se não trouxesse, pelo menos haveria vinho e risadas — e talvez o começo de um novo recomeço.
(...)
A cidade fervia sob o sol do deserto, e mesmo assim Hannah vestiu o casaco leve antes de sair. Era mais por costume do que por necessidade — um escudo simbólico contra tudo que sentia por dentro. Ao fechar a porta do apartamento, o silêncio ficou do lado de dentro, junto com a saudade adormecida.
O supermercado mais próximo parecia parte de uma realidade paralela — carrinhos cheios, famílias discutindo marcas de cereal, uma trilha sonora genérica ecoando pelos corredores. Hannah empurrava o carrinho devagar, como quem caminha dentro da própria cabeça. Pegou o vinho sem pensar duas vezes. Passou um tempo indecisa entre dois queijos, até lembrar da expressão que Ethan fazia quando provava aquele defumado específico, como se estivesse redescobrindo um sabor de infância.
As velas foram mais difíceis. Ficou parada diante da prateleira por um bom tempo, rindo sozinha da própria hesitação. Acabou pegando duas — discretas, com cheiro de lavanda e cedro.
No caixa, enquanto esperava, viu no celular uma notificação: Contagem regressiva: 4h para o jogo. Engoliu em seco. A fila parecia não andar. O tempo, sim.
De volta ao apartamento, a rotina virou ritual: guardou tudo com cuidado, deixou o vinho na geladeira, colocou a playlist preferida no fundo — e então, sentou-se no sofá com o celular nas mãos. Olhou para a tela como se ela pudesse dar uma resposta.
Abriu a conversa com Ethan.
"Vai com tudo hoje. Mas, por favor, não se machuca.
Te amo. Sinto sua falta. É sério."
Leu três vezes antes de apertar "enviar". Logo depois, travou a tela e a largou no sofá, como se aquilo pudesse explodir.
Sentia-se nervosa demais pra comer, mas ocupada demais pra ficar parada. Acendeu uma das velas. Ajustou as almofadas do sofá, abriu a cheesecake e ajeitou os talheres. Passou um pano no balcão que já estava limpo. Riu da própria ansiedade.
Agora, tudo parecia perto de mudar. Ou de recomeçar.
E a noite ainda nem tinha começado.
O alarme soou suave, mas certeiro — como um lembrete de que o tempo não esperaria por ninguém. Hannah suspirou, pegou o celular e silenciou o toque com um leve deslizar de dedo. Já tinha feito tudo o que podia. Agora era hora de se preparar.
Entrou no banheiro e ligou o chuveiro, deixando a água correr até o vapor começar a subir. Tirou a roupa devagar, como se despisse também o peso da ansiedade, e entrou sob a queda d’água quente. Fechou os olhos. O vapor a envolveu como um abraço.
A água corria pelo corpo, e com ela pareciam escorrer também as dúvidas, os medos, os fragmentos soltos do passado. Lavou o cabelo devagar, os movimentos quase coreografados, como se cada gesto ajudasse a alinhar o que estava fora do lugar.
Passou as mãos pelos ombros, sentindo a tensão nos músculos. Fez uma massagem leve, depois inclinou o rosto e deixou a água cair direto no peito. Respirou fundo. Era como se tentasse guardar um pouco daquela calma antes da tempestade — a do estádio, dos olhares, da memória, da esperança.
Quando saiu do banho, envolta na toalha macia e com o rosto ainda corado do calor, seguiu até o quarto com passos lentos. Ligou a pequena caixa de som na cômoda e escolheu uma música instrumental suave. Precisava de um pouco de silêncio com trilha sonora.
Vestiu uma calça jeans escura que abraçava bem o corpo, confortável o suficiente para uma longa noite, mas ainda assim marcando presença. Escolheu uma jaqueta de couro leve por cima — funcional, mas cheia de atitude. E, por fim, pegou a velha camiseta da universidade.
As cores da Tennessee Volunteers ainda vibravam, mesmo depois de tantos anos. O número 84 nas costas, um pouco desbotado, fazia o coração bater mais rápido. Aquela camisa tinha história — jogos, beijos escondidos na arquibancada, corridas em noites frias, e a certeza, naquele tempo, de que tudo seria para sempre.
Ela hesitou por um instante, segurando a peça nas mãos. Aquilo não era só uma camiseta — era uma mensagem. E, mesmo ele estivesse a metros de distância, ela sabia que Ethan a veria. No meio do mar preto dos torcedores dos Raiders, ela seria o ponto de cor que ninguém esperava.
Vestiu a camisa devagar, como se cada movimento fosse parte de um antigo ritual. Sentiu o tecido se ajustar ao corpo, grande demais para a numeração dela, mas ainda macio apesar do tempo. Sorriu sozinha. Era uma provocação gentil, uma memória viva. E uma forma silenciosa de dizer: eu estou aqui, como antes, como sempre.
Na frente do espelho, passou um toque sutil de maquiagem — só o suficiente pra destacar os olhos, esconder o nervosismo que ela sabia que estaria ali de qualquer jeito. Um perfume leve no pescoço. Brinco discreto. O colar com a pequena câmera pendurada, que quase sempre usava em dias importantes.
Olhou para si mesma por um momento. Era ela — a mesma de antes, mas diferente. A mesma que correu pela estrada no sonho, que riu com as amigas, que disse “te amo” por mensagem como se ainda não tivesse certeza de que ele acreditava.
Pegou a bolsa com os documentos, o ingresso, um batom extra. E o coração, que tentava convencer a mente de que aquela noite seria só mais um jogo.
Fechou a porta do apartamento, ouviu o clique da fechadura atrás de si, e desceu para o táxi que a esperava.
O estádio a aguardava, assim como ele — lá embaixo, no campo, com a camisa 84 pronta pra escrever mais uma história.
E ela estaria na primeira fileira, com os olhos no campo e o passado inteiro batendo dentro do peito.
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