Love Stories
3 C
Três batidas na porta da sala interromperam meus mais profundos pensamentos sobre a velocidade de propagação das ondas eletromagnéticas no vácuo. Ou algo assim. A porta se abriu.
– Srta. Christi? – a voz fina da monitora chamou. Engoli em seco, sentindo todos os olhos se voltarem em minha direção. Levantei a mão, fazendo a minha melhor cara de inocente. Lilian me olhou da classe ao lado. Ah, Meu Deus, será que eles descobriram que eu escondo doces na geladeira da escola? Ou será que eles irão me convocar para um clube honorário de alunos superinteligentes? Melhor ainda, vão me aconselhar a deixar a escola, pois eu não tenho mais nada a aprender. Ou...
– Pode acompanhar a monitora, Srta. Christi? – Prof. Gitz disse, chamando minha atenção. Assenti e me levantei rapidamente, pensando o que poderia me esperar. Começamos a andar pelo corredor. A mulher vestia, como sempre, um uniforme todo azul e branco e um coque prendia seus cabelos pretos pra cima.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntei preocupada. O nervosismo me tomava gradativamente a cada passo sem resposta que aquela maldita monitora dava.
– Somente me acompanhe. – ela sentenciou. Revirei os olhos. Não dava pra ser direta e apenas falar o que tinha acontecido? Dobramos a direita do corredor indo em direção à enfermaria e me perguntei por que estávamos indo naquela direção. Era o lugar mais propenso a receber más notícias a não ser que me quisessem fazendo parte da área médica da escola.
Mas, quando passei pela porta, de certa forma, minhas preocupações se dissolveram. Ali, sentado no sofá branco da sala da enfermeira estava Christian Cale, com um enorme roxo perto da bochecha direita e um curativo na mão esquerda. Limitei-me a suspirar e apertar meus lábios, me perguntando com quem ele poderia ter conseguido as cicatrizes. Parabéns, Christian, você fez um inimigo nas primeiras semanas na América.
Porém, ele parecia somente... Perdido. Quando me olhou, não pude deixar de notar que eu mesma estava aliviada, pois já estava preocupada com seu paradeiro. Após a educação física ele havia simplesmente sumido.
– Mas o que... – comecei, mas fui bruscamente interrompida pela Sra. Brown, a enfermeira com cerca de duzentos anos que costumava não cuidar somente dos ferimentos, mas da vida inteira dos alunos que passavam por ali.
– Fiquei sabendo que o Sr. Cale está hospedado em sua casa por tempo limitado – ela disse rispidamente, passando uma mão em seus cabelos completamente brancos que pareciam frágeis demais. – Portanto fiquei relutante em chamar seus pais, já que o sistema da escola normalmente acarretaria em uma advertência ao aluno primeiro... – ela continuou olhando para Christian de modo reprovador.
– Ah, Sra. Brown, você acha mesmo necessário? Meu pai não estaria em casa no momento e ele trabalha tanto – eu falei, abusando de uma voz triste, sofrida e ausente – Bom, eu não sei... Conheço Christian há muito tempo, mesmo antes de ele vir para cá... Ele não é de fazer essas coisas, ele não vai fazer com que isso se repita, eu acho – falei, fazendo pouco caso e olhando para ele, como numa mensagem silenciosa: hora de se desculpar, amigão.
– Sim, claro. Quer dizer, claramente isso foi um mal entendido, não aconteceu nada demais, afinal. Eu peço desculpas pelo comportamento e garanto que não acontecerá novamente. – Christian disse, tratando tão sério do assunto que eu quase caí na gargalhada, mas apenas assenti.
–Sr. Cale, não creio que você seja o problema. Vou liberá-los justamente para evitar mais confusão e porque o senhor desferiu menos golpes durante a briga com seu colega... Já que resolveu amarrar suas mãos dele com uma corda – ela disse. E então começou a fazer um som estranho. Por um momento achei que ela fosse morrer ali na nossa frente, mas percebi que ela estava apenas rindo. Eu nunca a tinha visto rir, mas agora posso dizer, com certeza, não é uma cena que eu gostaria de repetir. – E também, é claro, pois você faz parte do programa de intercâmbio. Vou deixá-los aqui por um tempinho e logo trago autorizações para que vocês saiam. Esse menino precisa ir para casa... Sua mãe está?
– Se minha mãe em casa? – repeti, e a mulher continuou me olhando com uma expressão do tipo ‘’onde mais ela estaria?’’ – Sim, está – menti. Christian me observava, mas não retribui o olhar. Assim que a simpática saiu, eu finalmente consegui olhar para ele.
– Você não sabe o que aconteceu. – ele disse, corando.
– Que história é esse de amarrar as mãos dele com uma corda? Com quem você brigou? Eu não posso acreditar, você tem que me contar tudo – eu disse rindo. Se eu tivesse que citar algo que pudesse acontecer, com certeza não seria nada relacionado à briga com cordas na educação física.
– Tudo bem, engraçadinha, pode rir – ele começou, esfregando o machucado do rosto – Mas fique sabendo que eu não provoquei nada disso. Eu não fiquei na equipe de basquete desse tal de Nico, até porque presença dele não faz diferença nenhuma na minha vida já que eu não falo com ele, mas por algum motivo ele ficou irritadíssimo. Não sei qual é o problema dele, ele me atacou! Ele chegou me dando um soco na cara, me chamou de idiota e, bom, eu não ia fazer nada, mas foi em minha própria defesa, eu tive que revidar. – ele falou, balançando a cabeça. Deu uma pausa, e perguntou – Você o conhece?
Não entendi a necessidade da pergunta, mas preferia não responder. Qual o problema de Nico? Já não basta tudo que já passamos, ele ainda precisa se meter com Christian.
– Você pode pular à parte em que o amarrou?
– Ah, você quer ouvir isso da minha boca? Provavelmente todo mundo saberá a história amanhã. O cara estava tentando me matar, eu acho. – ele falou levemente irritado.
– Olhe, não fique irritado por causa disso. Nico é assim, ele pode ser um grande idiota às vezes e se meter em brigas com ele não é nada bom.
– É, eu sei. – ele disse, olhando para baixo. Ficamos em silêncio por um tempo, mas quando eu estava prestes a perguntar porque ele estava daquele jeito, ele começou – Você... Você poderia ter me falado que estão namorando – ele soltou, ainda de cabeça baixa. Tentei ler suas expressões, mas ele não me olhava, somente parecia irritado.
Eu poderia ter pensado em falar inúmeras coisas, mas no momento em que ele falou engasguei como se tivesse tentando engolir um litro de água de uma só vez. E ele continuou falando, convicto:
– Teria sido muito melhor se tivesse me contado. Eu poderia até ter feito amizade com ele! Eu sei que você não precisa me contar nada, mas... – a voz dele foi sumindo gradativamente.
Minha perplexidade, por sua vez, só aumentava. Fiquei encarando ele por um longo minuto, mas ele nem me olhava. Quando consegui falar algo, saiu mais estúpido do que eu pretendia.
– Ahn... Eu...O quê? Eu... Não, eu... – eu procurava palavras para explicar alguma coisa, mas ao mesmo tempo só me colocava numa situação pior. Eu só queria mentir, dizer que nunca tive nada haver com ele, mas não podia. Não era justo.
Seja o que for, eu não precisava admitir a Christian tudo o que tinha acontecido. A versão que todos já conheciam, isso já bastava. Porém, tudo o que eu pude pensar depois de um tempo foi:
– O que Nico falou pra você? – falei de forma idiota.
– Bom, não exatamente. Ele disse... Algo como “deixe a Lauren em paz, cara, você está atrapalhando tudo entre nós” e então ele riu. E tentou me atacar.
Eu precisava dizer alguma coisa. Mas esse assunto, me deixava tão aborrecida que eu não conseguia pensar em nada que não fosse isolado e idiota.
– Eu e Nico não estamos namorando. – eu disse. Christian deve ter percebido a minha cara, pois desviou o olhar instantaneamente e não falou mais nada, até a Sra. Brown aparecer.
Quando fomos liberados, seguimos silenciosamente até em casa. Entramos e ele deu um longo suspiro, mas não me olhou ou mostrou qualquer interesse. Fui até o freezer e peguei todas as coisas geladas que tinham ali.
– Calma aí, desse jeito você vai me congelar – ele disse, finalmente se dirigindo a mim.
– Cale a boca e coloque o maldito gelo na cara – eu disse, entregando uma pedra de gelo enrolada num pano. Eu estava mais calma de certa forma. – Não precisamos ter que explicar isso para o meu pai.
– Você tem o dom para enfermaria – Christian ironizou.
– Precisamos de mais umas coisas. – peguei uma maquiagem corretiva, pó mineral e tudo que tivesse a cor da pele dele – Maquiagem. Muita maquiagem.
Ele riu. Mal sabia ele que eu não estava brincando.
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