Love, Rock and Girls
6 Chapter Six
Notas iniciais
XI – Lovers
Ela me olha. E depois sorri.
Isso meio que acaba comigo.
“Olá”, Rachel fala, a voz sussurrada e rouca. “Bom dia”, eu sussurro também.
Ela me olha um pouco mais, os olhos um pouco turvos, o rosto sereno. “Então? O que vamos fazer hoje?”, Rachel pergunta. Há um quê esquisito em sua voz, agora. Percebo o que é: uma nuance de separação, um adeus de despedida. Ela sabe que hoje é domingo e que este é nosso último dia louco, juntas. “O que você quiser”, respondo, depois que meus pensamentos se acalmam.
“Estou com fome”, eu ri e cobre parcialmente com uma mão o rosto. São quase nove da manhã. Percebo o quanto realmente dormimos melhor, quase nove horas seguidas. E dessa vez nenhuma de nós está reclamando de ressaca. Lembro-me das torradas com pasta de amendoim e meu estômago se embrulha; estou comendo isso há quase uma semana, não suporto mais. Não há mais nada nos armários, além de alguns cereais. “Vamos ter de enfrentar o mercado”, digo. Não é meu passatempo favorito. Compras nunca foi o meu forte. Mesmo que seja para entrar num brechó, ou numa livraria. Odeio as milhões de opções à minha frente. “Percebi. Não queria te falar nada, mas... Você morre de fome até o último segundo?”, Rachel comenta, rindo mais um pouco. “Mais ou menos”, respondo, sufocando o riso. “Podemos tomar nosso café da manhã no Sírius e depois ir às compras”, completo. É uma boa ideia. De repente estou morrendo pelo cheeseburger perfeito que Robert sabe preparar.
“Um tive uma ideia louca ontem, já que você está falando nele”, Rachel diz, rolando pela cama de modo que possa mirar o teto. “Quem, Robert?”, pergunto. Ela assente, sem me olhar. Está com as sobrancelhas franzidas, pensativa. “Quero fazer uma tatuagem”.
Eu quase começo a rir neste instante. É meio que forte demais para eu me aguentar. É insano. Rachel Berry, a garota Robbit... Com uma tatuagem? Isso é sério? Será que ela ainda está bêbada?
“Você o quê?! Está de brincadeira?!”, eu bato no ombro dela com a minha mão, é um gesto que nos faz rir. “Não, estou falando sério. Preciso de uma. E você precisa me ajudar a escolher”, Rachel me responde, depois que nossas gargalhadas diminuem. "Nada de caveiras. Algo a ver comigo”, ela diz. Fico observando o perfil dela. Ela tem um nariz grande, mas é tão bonita! Mesmo que tenha dormido pela segunda noite completamente bêbada e que, agora, seus cabelos estejam precisando de um banho... Mesmo assim, ela consegue ser radiante. “Não sei se te conheço o suficiente. Conheço?”, pergunto enquanto ela maneia o pescoço para me lançar um olhar que diz está-brincando-com-a-minha-cara? “Você sabe muita coisa a meu respeito”.
“Tipo?”. Estou brincando de gato e rato com ela, mas ela gosta. Sei disso. Estou provocando ela, porque isso é engraçado.
“Tipo... Sou meio virgem. Só tive um namorado na vida. Só beijei uma pessoa na vida. Tenho amigos como você. Gosto de você do jeito que é...”, Rachel para e tenta se lembrar de mais informações, mas isso é o suficiente para mim. “Gosta de mim vadia, tipo isso?”, estou novamente brincando com ela e tento sufocar o meu riso. Seu rosto escorrega de novo, e ela me olha. Agora é um olhar penetrante, sério. “Você não é inteiramente assim e sabe disso. Se não sabe, te digo agora: você tem partes tão fofas que é capaz de... de...”, Rachel se perde. Acho que não encontra as palavras certas, mas então percebo o que está de fato ocorrendo quando noto seu rosto ganhando uma coloração meio rosada. Ergo uma sobrancelha e a fito com todo meu interesse e com toda a minha provocação. “De quê, Rachel?”, sussurro. Toco seu cabelo um tanto emaranhado em cima do travesseiro. Ela fica avermelhada, agora. Abre a boca, querendo emitir algum som, mas então a fecha. “De te fazer ficar assim, completamente perdida?”, pergunto. Aspiro o perfume do meu sabonete ainda na pele dela, a alguns centímetros de distância de seu rosto. Não sei se ela se recorda do que fez antes de adormecermos, na noite passada.
Ela me beijou. Não uma, mas duas vezes.
Graças a Deus ela saiu de cima de mim antes que eu dissesse para não parar. Porque não sabia se, por vontade própria, conseguiria parar. Não sei quem é esse tal de Jesse, mas ele a ensinou tão bem a beijar! Havia tanto sentimento, como se ela estivesse dizendo muita coisa num simples beijo. Houve um pouco de perdição também, mas também foi tão tranquilo. Queria sentir mais uma vez a sensação dos lábios dela por cima dos meus, o ritmo tão embalado e sintonizado que encontramos em apenas alguns segundos, o gosto do licor na língua dela.
Ela se afasta de mim, sentando-se no colchão. Sua expressão está meio cínica e aborrecida. “Não sei de que está falando”, ela declara num tom rude. Permaneço deitada, olhando para ela. Aos poucos, sou invadida por um sentimento pouco conhecido: é, há um pouquinho de vergonha agora. Fico meio sem jeito. Ela está me mirando como se eu fosse uma terrorista e merecesse implorar por clemência.
“Eu te ajudo a escolher”, finalmente digo num fiado de voz.
Estou sendo ridícula. Mas ela está sendo ainda mais.
Começo a pensar que ela não se recorda de nada, que apagou na minha cama com amnésia. Ela não sabe que me beijou? Isso é meio frustrante. Porque, agora, como posso pedir outro beijo? Não posso. Ela, com essa reação tão retraída e um pouco fria, nunca mais cederá. A menos que estejamos bêbadas. Mas... não sei se quero estar bêbada se a beijar de novo. Quero conseguir guardar com mais nitidez tudo.
Certo. Isso é ridículo. Como posso querer beijar uma pessoa que apenas conheço há menos de dois dias? E ela não é uma garota qualquer, pelo amor de Deus. Rachel é uma especialista em música, sabe onde quer chegar, é doce e é hétero. Não que eu nunca tenha me apaixonado por garotas héteros antes, já aconteceu. Mas Rachel... Essa garota não sabe o efeito que produz nas pessoas. E não me restrinjo apenas à sua magnífica voz. Ela inteira é capaz de avassalar um coração. Mesmo quando está assim, toda desarrumada, com o rosto marcado e com esse semblante expressando frieza.
Pensando assim, pensando na Rachel por inteira, de repente, percebo que nada disso é mesmo ridículo. Quero beijá-la de novo. Porque, sim, eu a conheço. Conheço essa menina que parece estar com medo de se libertar. De ser quem é. De aceitar a garota que escolheu ser. Ela me falou tanto sobre aceitação ontem, enquanto conversávamos sobre a minha ‘condição’, mas não consegue se dar os mesmos conselhos. Ela está à deriva. É uma garota perdida.
Preciso ajudá-la em sua busca pela liberdade. É meu dever. É o destino nos unindo: foi por isso que nos encontramos.
É. Rachel Berry, você precisa de um par de asas.
“Pássaros”, digo de repente. Ela não está mais me olhando, e estamos numa espécie de silêncio. Mas quando digo isso, Rachel me olha e inclina a cabeça. Ela olha para a minha parede pichada e fica impassível. “Pássaros”, ela assente com a cabeça lentamente, em concordância, pesando a sentença.
Aos poucos, saímos da cama. Penso no quanto ela já perdeu aquela timidez inicial, o quanto consegue fazer tudo sem pensar que posso a estar julgando. Ela tira a roupa na minha frente, sem olhar para mim. “Aqui”, passo um vestido menos indecente para ela. “Gostei do de ontem, cadê ele?”, ela me pergunta. A peça está num canto do loft, meio amassada. Ainda assim, ela o veste e o fica alisando para arrumá-lo. Penteia o cabelo e o prende, pois está já meio oleoso.
Saímos dali.
“Não é meio longe? Como vamos até lá?”, Rachel me pergunta, em dúvida. “Metrô. Depois caminhamos algumas quadras”, digo. Ela assente, obediente. Ela averigua o interior de sua bolsinha. “Droga, não sei onde está meu celular”, ela diz. “Precisa de dinheiro?”, inquiro. “Não, quero meu celular”, ela retruca, ainda vasculhando a bolsa. “Sinto muito. Talvez tenha deixado no bar da sua festa?”, tento oferecer uma opção, em vão: ela está negando com a cabeça. “Sinto muito”, lhe digo logo depois. “Alguém precisa me buscar depois do mercado e da tatuagem”, ela fala. “Os meninos te levam. Não é problema algum para eles”, digo. “Certo”, Rachel volta a assentir. Ela se acalma um pouco enquanto caminhamos até a estação.
O trem está lotado, por isso e ela temos de nos espremer por entre aqueles que já estão lá dentro. Seguramo-nos numa das barras de segurança, muito perto uma da outra. Um certo frisson se espalha por mim. Tento lutar quanto a vontade que tento de me inclinar e beijá-la. Mesmo que estejamos rodeadas de estranhos, isso se faz urgente com tamanha força. Aquele beijo não me sai da mente. Será que sóbria ela me beijaria daquele mesmo modo?
Caminhamos pelas ruas lado a lado, depois de sair na parada correta. Estamos em silêncio, há uma espécie de barreira. É o que sinto: que a linha tênue que construímos a favor da nossa amizade arrebentou depois das minhas provocações. Sinto Rachel ofendida. Ela não me diz nada, mas sei que está ofendida. Distante. Fria. Ela quer me deixar, quer ir embora, voltar para seu mundo, para seus sentimentos seguros.
“Hey, Quinn!”, Robert me saúda quando nos adentramos pelo seu estabelecimento. Ainda está um pouco vazio, por isso ele está no bar cuidando do caixa. Os atendentes estão dispersos pelo local, vendo TV. Não há nada de interessante passando, mas eles fingem que há. “Hey! Precisamos encher nossas barrigas”, é o que revolvo. É a verdade. Quer dizer, estou com tanta fome! “Vê dois cheeseburgers pra nós”, comando. Rachel me intervém: “Eu não como carne”.
“A garota não come carne. Ela me fez tirar as salsichas do cachorro-quente que comeu na madrugada de sexta, não lembra?”, Robert me dirige a pergunta. Não lembro disso, estava bêbada. “Você é vegetariana?”, questiono à Rachel, genuinamente surpresa. “É, desde os cinco anos. Nunca gostei muito do gosto dessas coisas. Então, posso pedir algo que não tenha carne? Não sei, um x-salada?”, Rachel pergunta a Robert. “Um x-salada e um cheeseburger saindo!”, ele grita para o interior da cozinha, e depois sorri para Rachel. Ela retribui o gesto, mas logo procura uma mesa e se acomoda. Fico perto de Robert, no caixa. “Tem certeza de que ela não é uma nova garota? Ela parece realmente gostar de você”, Robert diz, depois de um tempo. “O fato de eu andar com uma amiga não significa que eu esteja a fim dela”, isso sai meio à contra gosto. Acho que... Ai, meu Deus! Acho que estou mentindo! É, eu estou mentindo! Aquele beijo me retorna à mente e, de repente, pareço cambalear. Minhas pernas estão meio enfraquecidas. Olho para Rachel: ela está aguardando que eu me junte à ela, observando a TV, distraída. “Vejo que é complicado”, Robert analisa. Ele olha para Rachel também, mas então foca seus olhos de modo intenso no meu rosto. “Você parece estar morrendo para não gritar o quanto gosta dessa menina”, ele me acusa. Droga, droga, droga. Sinto ficar vermelha e desconfortável. Estou sentindo calor, por causa da vergonha. Por que estou sendo atacada tanto pela vergonha ultimamente? Nunca tive problemas com esse tipo de coisa!
“Não importa. Ela não gosta de mim do mesmo jeito”, respondo.
“Você ainda não sabe disso”, ele retruca.
XII – Love Hurts
Ela está agitada sentada na cadeira. Está respirando fundo, tentando controlar toda a excitação pelo que vai acontecer.
“Quer uma cerveja?”, Robert oferece à ela. Rachel nega. “Estou bem”, ela afirma. Tenho minhas duvidas. “Tem certeza? Você parece nervosa”, ressalto. “Isso é esterilizado, certo? Não vou pegar uma infecção, nem nada assim?”, Rachel me ignora e pergunta à Robert. “Querida, você tem que relaxar. Tem certeza de que não quer uma cerveja?”, ele tenta novamente. Ela balança furiosamente a cabeça, dizendo que sim, que tem certeza. Ainda assim, Robert ajeita tudo nos mínimos detalhes sem pressa alguma. “Pode segurar a mão da Quinn, se quiser. Apenas não se mova, ok?”, Robert diz. Estreito os olhos para ele, que está atrás da cadeira na qual Rachel está sentada. Ele apenas dá de ombros. O barulho da máquina assusta Rachel e ela parece apavorada. Ofereço minha mão a ela. Ela me olha nos olhos, intensa, mas arredia. “Está tudo bem. É a sua liberdade se concretizando”, eu apenas digo. Seus olhos ainda estão nos meus, agora muito cientes de tudo. Parece que ela consegue ver o que há por detrás deles, a alma deles. Isso me deixa desconfortável e os desvio para seu ombro, local onde os pássaros serão desenhados. Serão três, de asas abertas. Mal posso esperar para conferi-los de perto.
Quando a sessão definitivamente começa, Rachel aperta minha mão. É mais forte que ela, sei que não ser ceder ao gesto, mas não tem controle sobre ele. Sei a dor que está sentindo, senti-a quando fiz as notas musicais. Ela permanece em silêncio durante todo o procedimento, apertando meus dedos. Não olha muito para mim, mas eu a olho a cada instante.
Quando enfim termina, acho que ela vai chorar. Escuta as recomendações de Robert assentindo a cabeça: “Troque a película quatro vezes ao dia e a use por mais alguns dias, quatro ou cinco. Aplique isso nas trocas e continue o fazendo até atingir o período de dez dias depois de hoje”, ele dá um tipo de amostra grátis de uma pomada cicatrizante à Rachel. “Evite ou tomar banho, ou molhar e ensaboar o seu ombro por uns dois. Durante o próximo mês todo, evite o sol e roupas apertadas. Durante a cicatrização é comum aparecer uma crosta sobre a tatuagem e dar comichão, mas não coce, ela desaparecerá sozinha. É isso, garota Hobbit. Seja feliz com seus pássaros”.
Ela assente de novo. E então lhe sorri. “Muito obrigada”, ela agradece.
Rachel parece feliz. Seu ombro está coberto pela película transparente que Robert aplicou e sua pele está meio vermelha no local. “Está ardendo?”, sussurro, quando saímos. “Como o inferno!”, ela exclama. Não consigo evitar rir. É de mais para mim. Ela está adorável.
“Está bem com a sua decisão?”.
“Não posso me dar ao luxo de me arrepender agora”, ela diz.
“Está muito bonito”, eu acabo lhe dizendo. Ela olha para seu ombro e faz uma careta. “Está horrível”, ela se refere à carne avermelhada. “Vai ficar melhor daqui uns dias”, garanto. “Assim espero, não quero contrair uma infecção e ter de ser amputada”, Rachel fala com muito calor. Acabo rindo de novo.
“Então, cadê a sua lista?”, ela me pergunta, olhando para mim. Não sei de que está falando. “Que lista?”, quero saber. Seu olhar se modifica e parece que ela está rindo da minha cara. “Do mercado! Você não pode se alimentar apenas de torrada com pasta de amendoim!”, ela exclama. Ah. É verdade. Que engraçado, não me importo com isso mais, mas sei que essa é a nossa última tarefa juntas e quero aproveitá-la, preciso prolongar o nosso tempo. Ela já fez uma tatuagem, certo. Mercado. O que mais? Outro vídeo? Será o suficiente para que ela fique um pouco mais comigo? Não sei, não sei mesmo.
Chegamos à estação de trem, que nos levará de volta ao meu mini-loft. Há um mercado pequeno lá perto. Explico isso para Rachel antes de lhe responder sobre a lista, que não está comigo. Aliás, nunca fiz listas de mercado. Apenas pego tudo o que está na minha frente. Macarrão instantâneo, queijo, cereal, pão e pasta de amendoim. Dá para viver razoavelmente assim, é sério. Sou a prova viva. Não tenho muita frescura, desde que tenha a pasta de amendoim no armário. É, sou dessas. “Não precisamos pegar muita coisa”, digo. “Bem, o suficiente para que você não precise sair de casa até o final do mês, certo? Aliás, que negócio é esse da pasta de amendoim?”, Rachel me questiona, contendo um riso baixo. Rio também: não porque quero mesmo rir, mas porque ela o está. O riso dela é meio contagiante. Ai, meu Deus, o que está havendo comigo?! Tudo bem, já me apaixonei por sorriso, por rostos, por mãos... Mas por risos? Estranho. Isso nunca aconteceu. Mas o que posso fazer? O riso dela é tão encantador...
Acabo explicando a ela o negócio da pasta de amendoim, porque quero ouvi-la rindo um pouco mais. Preciso ouvi-la rir de novo para registrar o som na minha memória. Quando tudo estiver um saco, vou poder me recordar disso e conseguir seguir em frente. Seguir em frente... Eu deveria fazer isso, tipo, AGORA. Mas não consigo, é mais forte que eu. É como o Natal: você vai ser contagiado pelas músicas chicletes da época mais cedo ou mais tarde, acontece com todo mundo. De repente, você está cantando aos pulinhos Here Comes Sta. Claus e desejando um ‘Feliz Natal’ ao seu vizinho insuportável. Porque, afinal, é Natal. Quem não ama o Natal?
Eu nunca gostei muito do Natal.
Nem dessas coisas de amor.
Nem de dar as mãos para as pessoas.
Nem de fazer compras.
Mas aqui estou eu, agora. Dentro de um mercado. Não está lotado, mas há pessoas agressivas por aqui. Parece que há uma promoção de frangos, ou algo assim. É impressionante o quanto as pessoas se transformam por conta de uma promoção. Uau. Você tem que concordar comigo: não há muito que fazer aqui dentro, a menos que você esteja esfomeado e queira acatar todas as gôndolas de chocolates. E daí, se a dor de cabeça não o atingir em menos de quinze minutos (que é o tempo máximo que muitas pessoas, incluindo eu, suportam ficar dentro de um lugar desses), você pode começar a brincar de Jedi com os sabres de luz de plástico que estão disponíveis na seção infantil.
Rachel me puxa para o próximo corredor.
“Você tem que parar de fazer isso”, ela me censura. “Acho que preciso de um sabre de luz”, digo. “Não”, ela afirma com muita severidade. “Você precisa de comida. Vamos”. Ela me puxa de novo.
Nos autofalantes começa You’re All I Have. Snow Patrol.
Diria que Rachel pediu para tocarem justamente esta música. Bem, ela o faria se se importasse tanto assim com o significado da canção e se gostasse de mim mais do que uma simples conhecida – acho que nem amigas somos mais; eu ferrei com tudo, logo pela manhã. Bom trabalho, velha Quinn! Você conseguiu fazer com que a única pessoa especial que já apareceu na sua vida não queira nem mesmo manter uma amizade à distância com você! Sou mesmo muito idiota...
Cantarolo a música enquanto empurro o carrinho pelos corredores. Rachel joga em seu interior lasanhas prontas de diversos sabores. Fico feliz por constatar que ela não se esqueceu de sabores como carne seca e frango. E fico ainda mais feliz quando descubro que ela está fazendo tudo por mim: ou seja, ela deve gostar um pouquinho de mim, ao menos como amiga. Ela se preocupa comigo, não quer que eu morra de fome.
“O que mais?”, ela me indaga, me olhando. Examino meu carrinho. Está meio cheio, há bastante coisa. Espere aí, ela sabe que não tenho muito dinheiro? Porque não tenho mesmo: geralmente não consigo apanhar mais de dez itens! Mal consigo contar quanto há agora, porque tem muita coisa embaixo dessas caixinhas de comida pronta! Ai, meu Deus! O pânico recomeça. Odeio fazer compras. Preciso dar o fora daqui agora mesmo! “Rachel...”, chamo-a. “Quanto potes de pasta de amendoim ainda tem estocado?”, ela quer saber. “Rachel”, meu tom está mais desesperado. “Nenhum? Precisa de mais?”, ela me olha, sem entender. “Rachel, a gente precisa ir”, eu digo. “Já estamos acabando, você apenas tem de...”.
“Vamos, agora”, meu tom se torna pesado e rude.
Não suporto mais isso.
A música parece não ter fim.
It's so clear now that you are all that I have
I have no fear cause you are all that I have
“Qual é o problema?”.
“Não gosto dessas coisas, tenho pânico de fazer compras. Satisfeita?”, respondo.
“Certo, eu já peguei coisas que não tem a ver com sabres de luz”, Rachel diz. Está meio que rindo. “Podemos voltar para pegá-lo?”, olho-a esperançosa. “Negativo. Nem tem espaço naquele seu ovo. E você precisa crescer”.
Fico meio ofendida.
“Obrigada pelo gelo”, digo. Estou ainda mais irritada.
“Eu preciso ir embora, Quinn”, Rachel me assegura. “Então vá. O que está esperando? Não preciso de você”.
É a maior mentira do mundo. Acho que nunca menti tanto na minha vida quanto hoje. Para Robert, para mim, para Rachel. Que coisa horrível! Estou sendo muito ridícula!
“Quer saber? Ok. Eu me arrependi de ter dito que você tem partes legais. Porque você não tem. Você fica fingindo tê-las. Sua tática é apenas conquistar as pessoas, porque acha que todas vão parar na sua cama. E, é, eu parei na sua cama, mas eu já disse que não sou desse tipo. Você não vai me ganhar, porque é mimada, acha que pode ter tudo o que quer, apenas porque sua visão de mundo é diferente e ela é a única certa. Mas, veja só, ela não é. E você tem mesmo que crescer”.
Rachel sai andando e me deixa sozinha no meio do mercado. Fico piscando para as pessoas que se tornam, gradativamente, apenas borrões diante de meus olhos. Meus olhos queimam. Estou sustentando lágrimas neles.
Aos poucos, saio do lugar. Estou devagar, meio empacada. Estou, também, completamente abalada. A garota Hobbit, aquela menina tão doce, que se perdeu em palavras mais cedo e que me fez ultrapassar os limites entre amizade e assédio sexual, de repente, não se parece mais com aquele pandinha que eu achei que fosse. Ela está agressiva. E me deixou! Deixou-me no meio desse caos! Como posso processar tudo isso?!
Give me a chance to hold on
Give me a chance to hold on
Give me a chance to hold on
Just give me something to hold onto
Procuro um caixa disponível. Vejo, então, Rachel. Ela está sentada após eles, numa banco. Está com as pernas e os braços cruzados. Sua perna está se balançando. Isso indica que ou está nervosa, ou está impaciente. Por que ainda está aqui? Não tinha ido embora? Achei que tivesse.
Não sei se ela me vê, mas finjo que não a vi. Passo as compras mecanicamente. O total deu 64 doláres. Não me importo, pago com o cartão. Recolho tudo nas suas devidas sacolas. Não agradeço, me esqueço disso. Vou em direção à Rachel.
“Achei que tivesse ido embora”.
“Preciso de um telefone público”.
“Os meninos podem...”, tento dizer. Ela me corta: “Não preciso”. Assinto. Não sinto raiva; o que sinto é tão profundo, tão mais pessoal que raiva que não sei explicar muito bem. Está me matando por dentro. De dentro pra fora. “Me dê aqui”, ela diz, já apanhando algumas sacolas da minha mão. O ‘não precisa’ que eu gostaria de dizer fica reprimido na minha garganta. Ela está indiferente e fria. Não há calor algum emanando dela. Rachel está aborrecida tanto quanto eu estou aos pedaços.
“Você não precisa...”, depois de um tempo consigo dizer.
“Vou chamar um táxi da sua casa”, ela me avisa quase sem modos. “Eu tenho um celular, você pode...”, minha frase é cortada mais uma vez: “Não preciso, pego um táxi na sua rua”.
“Mas e seus amigos?”.
“Eles ficarão sabendo quando eu chegar”.
Assinto. Não tenho mais nada para dizer, estou quebrada. Rachel Berry me quebrou. Chegamos em frente do aglomerado de mini-lofts; ao contrário do que pensei que ela faria, Rachel não para na calçada, me segue até as escadinhas e me espera abri a porta. “Eu me viro a partir daqui”, eu digo com convicção. Estou tão machucada. “Não seja imatura, Quinn”, ela me retruca. Sou imatura, preciso crescer. Lembro-me disso. E é por isso que digo o que digo a seguir: “Não faça assim”. Ela me ignora. Toma as chaves das minhas mãos e abre a porta. Estou estática, sem comandos, inoperante.
Subimos o lance de escada. Abro a porta do meu mini-loft e jogo as sacolas que estão na minha mão em cima da cama. Rachel me copia.
É agora, ela vai embora. Vai virar as costas e me deixar para sempre.
Mas então percebo que ainda está com meu vestido. Poderia dá-lo a ela sem problemas. Quero que ela fique com ele, para que ele seja a minha lembrança em sua vida. Podemos nunca mais nos encontrar, mas meu vestido estará com ela. “Importa-se se eu tomar um banho rápido?”, ela me pergunta. Faço que não com a cabeça. Quero que ela fique aqui. Com ou sem banho. Com ou sem meu vestido. Mas fique. Que fique, por favor.
Ela vai em direção ao meu minúsculo banheiro e deixa a porta recostada. Ouço o chuveiro ser acionado. Começo a distribuir as compras em seus devidos lugares. Embolo as sacolas num canto. A tarefa é chata. Não gosto disso também, sem a Rachel aqui comigo me ajudando. Quando termino, me deito na cama. Fico mirando o teto por alguns minutos, então fecho meus olhos. Há estrelas brilhando por trás deles. Percebo, tarde demais, que são lágrimas. Estou chorando. Ai, meu Deus. Sou ridícula. Pisco de olhos abertos, preciso tirar essas lágrimas deles agora mesmo. Seco-as com os dedos. Volto a mirar o teto. Luto para não ceder de novo. Não posso ceder, não posso me dar ao luxo. Um tempo demais, Rachel aparece. Ela está vestida como na noite de seu aniversário. Seu cabelo está úmido, mas ela parece não se importar com isso. Ergo-me do colchão e a olho por inteira. Ela parece meio afobada. Quer ir embora logo.
“Obrigada por tudo”, as palavras resvalam por sua boca. Saio da cama e vou para perto dela. Posso sentir, daqui, o cheiro do meu xampu e do meu sabonete. Ela está encantadora assim, de cara lavada, com a pele fresca, com os cabelos meio arrepiados. Não consigo resistir à tentação. Quando percebo, é tarde demais.
Estou meio que prensando-a na parede. Um pouco. Não a estou apertando, ou algo assim. Suas costas repousam na parede fria, enquanto meu corpo está contra o dela.
Just give me something to hold onto
Estou com a minha boca na dela, mais uma vez. Não estou impaciente, mas eufórica e desesperada. Preciso dela, preciso de Rachel. Do beijo dela, do toque dela, do corpo dela. Isso está me matando. Nossas bocas não estão em sintonia, logo sinto isso: eu estou exercendo pressão demais por sobre seus lábios, enquanto os dela parecem tímidos. Minhas mãos estão coladas em sua cintura, também desesperadas. Meus dedos puxam o tecido fino do vestido dela. Quero mais, preciso de mais. Ela não está entendendo a minha urgência. Faço com que ela abra um pouco mais os lábios para que minha língua possa se esgueirar por ali. Quando ela o faz e minha língua toca a dela, acontece uma mágica. Estou vendo estrelas, literalmente. Tento puxar um pouco de ar e, logo em seguida, gemo baixo. “Não. Quinn. Pare”, ela se afasta repentinamente de mim e ofega. Então me empurra, e eu caio de volta na cama, sentada. Aconteceu muito rápido, estou desorientada.
“Desculpe”, dizemos isso juntas. Estou arfando, enquanto Rachel parece surpresa demais. “Eu preciso ir”, ela diz. Está apressada. Sua bolsa está em cima do balcão, e ela atravessa o pequeno espaço e a apanha. “Não vá”, sussurro. Meus olhos estão ardendo de novo. Não quero chorar na frente dela. Não quero parecer fraca. Ela não me ouve, porque está ocupada demais em vasculhar o interior de sua bolsa. “Até mais, Quinn”, ela está com a mão na maçaneta. “Rachel?”, minha voz ainda está sussurrada.
Não importa mais.
Ela se foi.
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