Loucuras de Verão

3 O acampamento


Entrei em casa jogando minha mochila na sofá bege claro. A casa estava toda limpa e organizada indicando que a empregada havia passado por lá. Minha mãe estava no pequeno jardim pintando. Ela não era artista nem nada, pintar era um terapia para ela. Aproximei observando a tela pendurada sob o cavalete.

—Oi — Falei assustando-a. Ela deu um pulo da cadeira que estava sentada.

— Oi Kimberly não vi você chegar. — Ela repousou o pincel na lados das tintas que estavam em cima de um banco de madeira esculpido.

— Último dia de aula — falei animada.

— Nem acredito que terminou a escola, parece que foi ontem que eu estava levando você pela primeira vez. — Ela falou em um tom meloso. Canceriana lembram?

— É mãe, já faz tempo isso. Agora sou quase uma adulta. — Estufei o peito tentando mostrar confiança. Mas ela começou a rir.

— Kim, você sempre vai ser meu bebê. — Ela apertou minha bochecha. Eu fechei a cara, mas não podia brigar com ela. Eu tinha falado a Layla que iria viajar amanhã. E eu iria.

— Mãe, amanhã Layla vai pra casa da avó dela. E você sabe. — Percebi que ela não estava gostando do rumo daquela conversa.

— De novo essa história de ir para casa da avó da Layla? Eu não vou deixar você passar o verão inteiro sozinha em um lugar desconhecido.

— Eu não estarei sozinha, e a avó de Layla? E a Layla? — Perguntei indignada. — Você deveria me deixar viver a minha vida pelo menos uma vez. É um saco não poder fazer nada. Não posso nem ir ao cinema sozinha porque alguém pode me sequestrar.

— Você não assiste aos jornais? Não vê o tanto de coisas ruins que acontece? Não vê o tanto de gente ruim que tem no mundo? Você é muito imatura Kimberly. Um dia vai me entender. — Ela voltou a pintar o quadro. Como se dissesse que a conversa estava encerrada.

— Sou imatura porque você não deixa eu ter experiências. É assim que se cresce mãe. Eu só quero que você saiba que eu vou viajar com a Layla sim, você aceitando ou não. — Esbravejei.

— Vai fugir de casa? Como uma criancinha? — Ela debochou de mim.

— Sim — Gritei furiosa por ela não me levar a serio.

E então deixei o jardim e fui para o quarto a fim de ficar sozinha. Eu precisava pensar em como iria sair sem que ninguém visse, talvez fosse burrice da minha parte ter contado meu plano de fuga para minha mãe. Eu poderia muito bem ter ficado calada. deitei na cama ainda com a cara fechada. Comecei a chorar, não sabia ao certo o porquê, era um mar de sentimentos.

Longas horas depois ouvi batidas fracas na minha porta. Minha mãe entrou sem falar nada. Sentou no pé da cama e ficou me encarando. Eu continuava deitada e com a expressão da raiva no rosto.

— Kimberly, querida — Ela apoio seu braço em minhas pernas — Eu sei que estou sempre controlando você, mas é que. Se algo de ruim acontecer eu não sei o que eu vou fazer. Você é minha única filha e a coisa mais importante que tenho. Espero que entenda isso. — Suas palavras saiam como sussurros.

— Eu entendo, mãe — respondi depois de um breve silêncio — mas você tem que entender que essa é minha vida. Eu nem fiquei de recuperação na escola diferente da maioria dos meus colegas. Eu mereço essa viagem, eu mereço essa chance, antes de ir para a faculdade que você escolher, porque sei que não vai me deixar tomar essa decisão sozinha. — Joguei tudo o que eu estava querendo falar em cima dela.

— Tem algo de errado com os cursos? Eu acho os três maravilhosos. — Afirmou ela me irritando.

— Não foge do assunto, por favor! — Pedi sentando-se de frente para ela. — Eu prometo que serei responsável. Eu quero muito ir nessa viagem. Eu nunca fiz nada de interessante na minha vida. — Senti as lágrimas voltarem.

— E aquele acampamento que você foi? — Mas uma vez ela fugia do assunto.

— Foi horrível, só tinha gente chata e exibida. As únicas coisas que tinham para fazer eram camuflagem, tirolesa e andar a cavalo. Parecia que estava no exercito. Tirando a vergonha que você me fez passar com todo aquele drama. As outras garotas ficaram rindo de mim. — Ela não falou nada. Apenas observava o quarto. — Você sabe que eu não vou ficar aqui para sempre com você né? Uma hora eu vou ter que ir morar sozinha, fazer minhas próprias compras, ir ao banco e até marca consulta no médico. Agora como eu vou fazer tudo isso? Como eu vou ser independente se você não me deixa crescer, mãe?

— Você tem razão, eu acho que não haveria problema nenhum em ir conhecer a avó de Layla não é mesmo? E Layla é uma menina tão responsável.

— Muito responsável, ela é como minha segunda mãe — Exagerei um pouco.

— Você pode ir, mas com uma condição. Quero o numero de telefone da avó de Layla e quando você voltar vai direto se matricular na faculdade. qualquer uma das três. — Ela falou firmemente.

— Claro, faço o que você quiser. — Eu levantei da cama animada e a abracei. Não tava acreditando naquilo. — Me ajuda a arrumar a mala. Precisamos chegar cedo na rodoviária.

— Tudo bem, eu vou escolher as roupas que você ira levar, não quero vê-la usando nada vulgar. —Ela pegou a mala empoeirada que estava guardada em cima do guarda-roupa.

— Eu não tenho roupas vulgares, mãe. Esqueceu que é você quem escolhe o que eu visto? — Abri as portas do guarda roupa jogando pilhas e mais pilhas de roupas em cima da cama. Eu nunca estive tão animada para uma viagem.

☀️

Acordei desnorteada. Onde eu estava e o que havia acontecido? Perguntei a mim mesma enquanto levantada da cama. Observei em volta e era um quarto, eu nunca estivera ali antes. Haviam mais duas pessoas comigo na cama. Torci para não ter participado de um ménage. Busquei pelo meu celular e o encontrei jogado no chão ao lado da cama. 10% de bateria. Seis e cinco da manhã. Merda. Falei para Kimberly não se atrasar, mas quem tava atrasada era eu. Levantei passando por cima das outras pessoas que reclamavam ainda dormindo. E corri para casa. Eu precisava pegar minhas malas e tomar um remédio, pois a ressaca estava horrível. Coloquei os óculos escuros que estavam dentro da minha bolsa e entrei no uber pedindo para ele ir na maior velocidade possível.

Quando cheguei em casa sai enfiando tudo o que faltava dentro da minha bolsa. Lavei o rosto e arrumei os cabelos. A minha dignidade estava perdida, só me restava agora não perder o ônibus também!