— Tem certeza que não está esquecendo nada? — Minha mãe perguntou colocando uma bolsa cheia de remédios na minha mochila.

— Tá tudo aqui — Respondi revirando a mala.

— E o casaco? — Ela perguntou vendo que só tinha roupa de verão .

— Mãe a gente vai pra praia. — Respondi meio grosseira.

— Cuidado, não vai entrar no mar não, viu menina? — Ela enrugou a testa preocupada. — E não durma dentro do ônibus vai que alguém roube suas coisas. Você precisa ficar atenta, eu não estarei lá para cuidar de você. — Eu pudi perceber que seus olhos estavam ficando marejados, não tinha tempo para os dramas da minha mãe. Precisava chegar na rodoviária as seis.

Peguei minhas coisas e fui para o carro. Nunca tinha viajado de ônibus antes, então decidi chegar o mais cedo possível para compra o bilhete e não perder o ônibus. Coloquei meus óculos escuros o fone de ouvido e deixei a playlist do Spotify no aleatório. Bon Jovi. Começamos bem. Sorri olhando o meu bairro se distanciar pela janela do carro.

Tomei o resto do toddynho amassando a caixinha de maneira nervosa. Meus pais estavam comprando o meu bilhete enquanto eu procurava Layla com os olhos em todas as partes da rodoviária.

— O ônibus das seis acabou de sair, vão ter que ir no da seis e meia. — Minha mãe explicou — Já falou com Layla?

— Não, ela não atende. Espero que chegue a tempo. — Falei nervosa.

— Vamos para a plataforma. — Sugeriu meu pai pegando minha mala.

Descemos por uma rampa. Havia várias pessoas ali. E uma enorme quantidade de lojas. Livrarias, lanchonetes e até loja com produtos locais. Por um minuto esqueci da demora de Layla. Minha mãe começou a me abraçar quando chegamos na plataforma. Havia uma pequena fila formada.

— Nem acredito que minha bebê vai fazer a primeira viagem sozinha. — Ela começou com o drama.

— Mãe para. Eu só vou se a Layla chegar, né? — Disse estressada.

— Então espero que ela não venha. — Ela falou cruzando os braços. Agora além de nervosa eu estava com raiva.

Já era seis e vinte e Layla ainda não tinha dado sinal. Não era possível que minha melhor amiga iria me deixar na mão logo agora. A fila estava enorme e a mulher começará a recolher os bilhetes. Quando vi uma loira totalmente desastrada correndo na minha direção.

— Desculpem a demora. — Ela falou colocando os cabelos alvoroçados para trás.

— Você estava na festa de formatura que teve ontem? — Minha mãe perguntou casualmente.

— Fui, mas não teve nada de mais. — Dava pra ver nitidamente que ela estava mentindo.

— Já esta chegando a nossa vez. — Interrompi a conversa antes que minha mãe perguntasse mais coisa.

— Não se preocupem eu vou cuidar da Kimberly muito bem. — Ela abraçou minha mãe.

— Que cheiro é esse? — Ela perguntou torcendo o nariz.

— Deve ser do perfume vagabundo que eu comprei no centro. Nunca mais faço isso. — Ela então abraçou meu pai.

— Vamos Kim. — Quando ela passou seu braço ao meu redor eu senti o cheiro de puro álcool invadir minhas narinas.

A mulher pegou nossos bilhetes e antes que eu pudesse passar pela catraca minha mãe me abraçou de uma forma exagerada. Começou a chorar. Fazendo eu seguir Layla que ignorou totalmente a cena.

— Amiga eu preciso de contar o que aconteceu. — Ela falou enquanto guardavam nossas malas na parte de baixo do ônibus. — Ontem eu conheci um cara na festa. A gente começou a transar. — Ela falava com maior normalidade.

— Ai que horror, Layla. — Exclamei chocada.

— Não, essa é a parte boa. A parte ruim eu ainda não contei. — Falou entrando no ônibus — A gente tava transando quando uma velha entrou dentro do quarto e ele saiu correndo pelado no meio da festa. E eu fiquei lá. Ele poderia ter pelo menos terminado. — Ela falava procurando os nossos acentos.

— Com a velha vendo? Deixa de ser doente. — Eu sabia que Layla não era mais virgem, mas aquela história estava passando dos limites.

— Eu não to nem aí pra velha. Ela estragou a minha foda. — finalmente chegamos nas poltronas. — Bom dia, como vai? — Ela perguntou a um casal que estava sentado na nossa frente. Eu fiquei boquiaberta com tudo aquilo que ela falara. Guardei minha mochila na parte de cima da poltrona e sentei.

— Droga esqueci de tomar o remédio. Agora vou ter Que ficar seis horas com dor de cabeça. — Reclamou Layla olhando pela janela. — Olha seus pais ali Kim. Acena para eles. — Meus pais estavam no primeiro andar da rodovia esperando o ônibus sair.

— Eles não estão vendo. — Peguei minha máscara de dormir e coloquei.

O ônibus começou a andar. Ele balançava de mais. Pra mim estava perfeito, pois ajudava a pegar no sono rápido. Quando eu estava quase dormindo Layla deu escândalo no meio da viagem.

— Preciso vomitar — Ela gritou passando por cima de mim. Fiquei preocupada e então fui atrás dela. Bem na hora que o ônibus deu um freio e eu me debrucei no chão. Os passageiros tentaram me ajudar.

— Eu estou preocupada com minha amiga ela está no banheiro passando mal. — Falei tentando diminuir a vergonha. — Layla, tá tudo bem? — Perguntei batendo na porta.

Ouvi um barulho de descarga e em seguida de água caindo. Então ela abriu a porta.

— Eu nunca mais viajo de ressaca. — Falou voltando pro seu lugar.

Voltei a dormir. E quando acordei o ônibus estava parado e todos os passageiros descendo.

— Layla, Layla. — Chamei — todo mundo vai embora e nós vamos ficar aqui. — Eu estava nervosa, já Layla não estava nem aí.

— Eles só pararam para almoçar. — Ela estava com a voz sonolenta. — Vamos no banheiro. Ninguém merece usar banheiro de ônibus. — Ela levantou e saiu do ônibus eu a segui. Seus cabelos estavam desgrenhados. Ela usava uma calça e uma cropped branca.

— Layla, da pra arrumar esses cabelos. — Sugeri.

— Desculpa, mas eu não sou uma Kardashian que tem sempre que andar arrumada. Eu sou uma anônima. Ninguém me conhece aqui. — Ela falou de forma exarcebada.

— Não falo mais nada — respondi chateada pela sua grosseria.

Entramos no restaurante e fomos direto para o banheiro.

— Podemos almoçar? Estou com fome — Pedi secando as mãos com um papel toalha.

— Quem sabe eu não fique melhor. — Ela falou jogando o papel no lixo.

Olhei meu reflexo no espelho meus olhos estavam um pouco inchados. E meus cabelos pretos com frizz. Passei um pouco de água para amenizar a situação.

O restaurante era a quilo, então fomos escolher o que queríamos. Não havia muitas opções, mas o cheiro estava maravilhoso.

— Espero que você não vomite mais uma vez. — Layla enfiava uma sobrecoxa de frango na boca.

— Para Kimberly, eu to comendo. — Ela fez uma careta. — estamos quase chegando. Não vejo a hora de tomar banho. — Ela ergueu a cabeça para um alto num sinal que estava cansada.

— Eu estou enjoada só com esse seu cheiro. Você está exalando álcool, seu suor é álcool. — falei fazendo ela rir.

Depois de comer voltamos para o ônibus. Com a barriga cheia só tínhamos vontade para dormir. O ônibus voltou a andar e pegamos no sono novamente.

— Kim nós chegamos. — Layla me cutucou. Abri os olhos assustada.

— Cadê? — grudei o rosto na janela pensando que iria ver algo de diferente, mas era uma cidade normal. Onde estava a praia?

— Meu tio já deve ter chegado. — Ela falava animada.

Já eu não consegui disfarçar minha decepção. Eu vim pela a praia, certo?

Notas finais
O que acharam??