Loucura coletiva
1 Fim de expediente
Notas iniciais
(Rafael Silveira)
No que você pensa quando tá de bobeira no serviço? Alguns pensam nas escapadas no fim de semana, na bunda da secretária e se seu pênis tem tamanho suficiente para a bunda da secretária. Já outros pensam em nada. Considerando a quantidade de besteiras que tenho que corrigir, acho que tem gente que pensa em nada o dia inteiro. Antes, durante e depois do serviço.
Enfim, no momento estou pensando sobre loucura. Algo totalmente plausível visto que sou psicólogo por formação e estaria ganhando dinheiro às custas das loucuras e neuroses dos meus pacientes. Isso se o destino e acaso não tivessem se mostrado tremendos filhos da puta. Minha faculdade, por irregularidades com métodos de ensino e afins, teve vários cursos cancelados pelo MEC. Sendo assim, meu diploma vale no momento menos que um rolo de papel higiênico e o serviço que deveria ser apenas temporário se transformou em permanente e por mais que eu diga que na semana que vem vou me mandar daqui, sei que é impossível fazer algo a respeito a curto prazo.
Esse serviço no escritório de patentes e registros foi arranjado por um conhecido (no momento, eu o odeio) e deveria servir apenas para garantir o dinheiro das cervejas e saídas nos fins de semana. Mas o dinheiro da cerveja acabou virando o dinheiro do pão. Objetivamente, não é um emprego tão ruim, isso claro, se você não se importar em trabalhar num ambiente desestimulante, sem perspectivas de crescimento profissional e atender pessoas que acham que podem ficar ricas com idéias idiotas.
Meu serviço é basicamente verificar a veracidade e a viabilidade dos projetos apresentados. A única recomendação dada pelo meu suposto chefe sociopata foi: aja como se todo inventor esteja errado. Acreditem, isso não é nem um pouco difícil. Todos os dias atendo inventores com idéias revolucionárias e impossíveis de serem concretizadas, sem o menor teor científico. Ouço elogios pouco favoráveis para minha mãe todos os dias, isso sem contar lamentos como "Galileu também era incompreendido por mentes inferiores". Posso até ter uma mente inferior, mas até Galileu perceberia que um lápis com detector de mentiras imbutido é uma idéia idiota e impossível.
Enfim, voltando ao assunto que me levou a rascunhar esse texto no verso de uma requisição de patente para um brilhante e revolucionário jeans auto ajustável. Idéia interessante, mas sem nenhum fundamento. Loucura não é uma coisa exata. Se fosse, não se chamaria assim. Uma pessoa normal pode ter um dia ruim e depois sair atirando em deus e o mundo, do mesmo modo que o pior dos psicopatas pode passar a vida sem nem ao menos matar uma mosca. A loucura não tem nome tampouco sobrenome, mas as vezes pode ter um apelido. A quem diga que simplesmente cogitar falar sobre loucura acabe causando a loucura propriamente dita. Besteira. O fato de você se recusar a cheirar a merda não faz ela ter um cheiro melhor.
O que eu faria se estivesse louco? Francamente não sei. Loucura não é necessariamente fazer coisas loucas. Aparentar ser louco virou cult nessa sociedade cada vez mais presa à padrões comportamentais e falsas revoluções sociais. Mas ser louco de verdade são outros quinhentos. Passar a falar com paredes, ao contrário do que dizem, não é atestado de insanidade. Pelo menos não mais. Alguns blogueiros encaram isso como "expressão artística avançada" seja lá o que isso signifique.
Se isolar totalmente do mundo? Passar a catalogar todos os tipos de doenças que podem causar minha morte? Ficar imovel e olhar pela janela até meus olhos cansarem? Louco ou excêntrico? Sociopata ou incompreendido?
E tem alguma diferença?
Elaborar complexas teorias da conspiração sobre tudo? Ou...ou...passar todos os dias numa rotina enfadonha, com pessoas detestáveis e ainda sorrir no fim do dia, mesmo sabendo que amanhã tudo se repetirá? Aceitar de bom grado uma rotina que te consome e castra diariamente? Mas é claro, como não percebi isso antes? Talvez minha faculdade não seja tão boa mesmo. Conheço pessoalmente esse estúpido sorriso de canto quando os últimos iludidos vão embora. Esta lá, mas nos negamos a aceitar. É perfeitamente aceitável considerar que existe loucura na normalidade diária.
O que eu faria se estivesse louco? Deixe-me reformular a perguntar. Como posso provar que não estou louco nesse exato momento?
Fale com o autor