Notas iniciais
Acho que esse capítulo ficou bem grandinho, mas por um bom motivo! Nesse capítulo Any fala um pouco sobre sua famili e um pouco de como era tudo antes de Fredd ir embora. Espero que gostem!

As árvores enormes ao meu redor cobriam o céu impossibilitando que eu visse além delas, elas passavam por mim em borrões. A floresta estava em um silencio assustador, e o único som que ouvia era as fortes galopadas das patas de Espartano no chão de cascalho. Dentro da floresta eu tinha a impressão de que estava de noite, mas eu podia ver pequenos feixes de luz que as árvores não conseguiam cobrir. O ar estava abafado.

Não sei por quanto tempo galopei, talvez por uma hora mais ou menos. Eu só queria ir pra bem longe. E acho que consegui.

Cheguei um uma clareira onde a grama era alta, iam até nos meus joelhos, e bem verde. A clareira era bem extensa e as árvores formavam um grande circulo ao seu redor, como se elas estivessem de mãos dadas. Não havia muitas flores, mas junto às arvores tinha apenas algumas margaridas, tulipas, Lírios, e algumas poucas Íris, elas acompanhavam as arvores em volta da clareira dando uma margem muito bonita. E bem no meio do circulo da clareira, exatamente no meio, estava apenas uma rosa branca. Apenas uma única rosa.

Desci do Espartano e amarrei suas rédeas em uma arvore ao meu lado. Caminhei lentamente até o meio do da clareira aproveitando a sensação gostosa do ar fresco. É como se eu tivesse saído de um lugar com um ar totalmente diferente e assim que pisei dentro da clareira o ar mudara do nada. O ar estava um pouco frio, mas suportável. A clareira tinha um cheiro com as misturas das flores que havia em volta. Andei um pouco mais para dentro da clareira.

A rosa tinha um caule extenso e grosso. Ajoelhei-me próximo a rosa e a observei por alguns segundos. Como uma flor podia ser tão grande assim? Nunca vi nenhuma flor que tivesse um caule tão longo e grosso como essa. Nunca fui uma especialista em flores, mas algo nessa rosa me transmitia um sentimento de abandono, como se ela estivesse abandonada, sozinha. Suas folhas estavam um pouco murchas com manchas amareladas e cheias de buracos. As pétalas de baixo também estavam um pouco murchas e a rosa estava meio tombada pra frente como se estivesse de cabeça baixa, triste. Ela estava morrendo. Apesar disso seu cheira ainda era muito bom, era um cheiro diferente de todas as rosas que já vi, era um aroma de... Baunilha. Jamais vi uma rosa que tivesse esse cheiro, nem mesmo as rosas brancas que já vi na vida, mas era um cheiro bom. Diferente, mas bom.

Continuei observando à rosa como se ela fosse a coisa mais fascinante do mundo.

Quando me dei conta estava deitada no gramado fitando o céu. Era disso que eu precisava. Paz absoluta. Fechei os olhos e aproveitei o cheiro delicioso que a rosa transmitia e o ar fresco bater em meu rosto.

Havia bastante tempo que eu não me sentia tão bem assim. Tão... livre. Todos os dias eu tinha tarefas de casa para fazer: Cuidar do rancho, do feno, dos cavalos, alimentarem eles, treinar eles... Heartland está crescendo, e parece que a cada dia entrava cavalos novos para serem curados ou treinados normalmente pela Jeniffer que era a especialista nisso. Eu tava cansada, não tinha um dia de folga nem nos feriados. Deixo de nadar com minhas amigas (uma coisa que eu sempre amei fazer e faço desde pequena com elas) por causa dos serviços de casa. Em casa eu me sentia, muitas das vezes, presa.

Todos diziam que eu puxei o talento milagroso da Jeniffer com os cavalos, até minhas amigas, e meus irmãos (até mesmo os clientes que costumam ir todos os dias a Heartland para ver como estão seus cavalos, acabam me vendo tentar fazer algo com o cavalo) falavam isso. Eu nunca me empolgue com o que diziam. Amo cavalos, mas jamais vou ser tão boa quanto ela é com os cavalos. Às vezes sinto a vontade de ser tão boa quanto ela, mas depois percebo que isso jamais irá acontecer porque comparada a ela eu sou um fracasso em curar ou treinar cavalos. Eu apenas atrapalho.

É incrível o que ela pode fazer, normalmente quando algum cavalo traumatizado, ou com medo de algo, é enviado pra Heartland, em três dias (dependendo da situação do cavalo até menos) Jeniffer consegue resolver o problema. A calma, o cuidado, a agilidade, a gentileza e a paciência que ela tinha com os cavalos eu herdei dela. Mas o talento eu não tenho tanta certeza. Por isso gosto de apenas cuidar deles, garantir que seus baldes estejam sempre cheios de água e feno, dar banho neles (amo essa parte), passear com eles porque cavalos não devem ficar sempre presos, eles precisam “esticar as patas” às vezes.

Heartland era o rancho onde eu morava e que cuidavam dos cavalos problemáticos. Quando um cavalo tem medo de algo, nós (a Jeniffer pra ser mais exata) tentamos fazer o possível pra que ele supere o medo. Uma vez quando eu ainda tinha nove anos, a situação em Heartland estava péssima pois estávamos competindo com um outro rancho que tinham acabado de abrir a três quilômetros antes de Heartland. Mas um senhor que aparentava ter uns 50 anos apareceu em Heartland com um Trailer que carregava o cavalo presa na parte de trás de sua caminhonete marrom toda enferrujada, era o primeiro cliente durante dois meses sem nenhum.

Lembro-me de ele dizer que seu cavalo não gostava que colocassem a sela e as rédeas, e todos os outros equipamentos de montaria, nele. De início o dono do cavalo achava que era apenas frescura do cavalo ou coisa do tipo, mas depois de um ano ele chegou à conclusão que o cavalo deveria ter medo de que colocasse o equipamento nele. O senhor havia nos dito que o cavalo foi lhe dado de presente de um amigo que achou ele dentro da floresta que cercava sua casa. Um cavalo perdido e abandonado. Logo que ganhou o cavalo, o senhor já sabia que por ele ter vivido sabe-se lá quanto tempo na floresta, o cavalo seria perigoso, selvagem. Jeniffer e eu chegamos a conclusão de que isso poderia ser um motivo por ele não gostar dos equipamentos em cima dele. O cavalo estava acostumado a viver sem nada em cima, sem ninguém montando ele.

Logo Jeniffer começou a trabalhar com o cavalo. A cada dia ela tentava uma tática diferente para ajudá-lo, mas muitas acabam sendo um fracasso. Ela teve a idéia de ganhar a confiança do cavalo, lentamente ela ia se aproximando dele e o fazia correr em círculos dentro do cercado que tínhamos para treinar os cavalos. Um dia depois Jeniffer conquistou a confiança do cavalo, e bem devagar ela pegava peça por peça para colocar no cavalo. Primeiro foi o manto, e o cavalo não fez menção de correr como costumava fazer sempre, depois as selas, depois a cabeçada e embocadas. Quando ela finalmente acabou de colocar todos os equipamentos necessários, ela tentou montar nele e de inicio ele se afastou. Jeniffer caminhou lentamente até o cavalo e acariciou suas orelhas, depois tentou outra vez. E quando olhei, ela já estava em cima do cavalo dando a volta dentro do cercado. No dia seguinte o homem veio buscá-lo satisfeito com o trabalho.

Esse foi um dos vários dias que me lembro do talento incrível que Jeniffer tem. Logo depois o Senhor espalhou a noticia pra vários conhecidos que tinham cavalos, e Heartland voltou a seu ritmo de trabalho.

Tivera muitas outras vezes que Jeniffer me surpreendia com seu talento com os cavalos. Eu já consegui curar dois cavalos... Mas sempre com a ajuda de Jeniffer. Hoje em dia, como não agüento ficar por muito tempo perto dela, então acabo por só ficar cuidando dos cavalos mesmo. Deixo o resto pra ela que sabe fazer melhor que eu, e sem precisar de ajuda.

Meus irmãos nunca ligaram muito pra cavalos, fico sempre brincando com eles dizendo que eles são “gente da cidade e frescos” por isso não curtem muito cavalos. Mas eu sei que eles não são, só mesmo Loh e Rikki que tem certas frescurinhas... Jackson anda de cavalo, mas não tem um porque prefere andar sempre na sua moto totalmente preta, ou no carro. Justin tem um cavalo chamado Linius (ele disse que leu esse nome na internet e gostou muito), marrom e a crina preta. Mas é raro ele montar porque vive trancado em seu quarto estudando e também com seu amigo nerd, Jake, na biblioteca da cidade. Shofy também tem um cavalo, uma Égua, e o nome dela é Estrela, branca com apenas um mancha preta bem na cara, ela monta nela apenas dentro do rancho ou quando agente faça alguns passeios em dias de sábados fora de Heartland. Sozinha ela tem medo de cavalgar com o cavalo pra fora do rancho. Bridgit ainda é muito pequenininha pra ter um cavalo, mas ela vive pedindo um pônei ou unicórneo rosa pra Jeniffer. Rikki nem chega perto do estábulo quem dirá de um cavalo, ela detesta isso, prefere ficar no shopping do centro com as amigas e paquerando qualquer gato que ela vê pela frente. Ela sabe domar um homem melhor do que tenta domar um cavalo. Minha mãe tem o Pegasos, um cavalo que ela ganhou quando tinha onze anos. Totalmente branco e a crina preta, ele é muito lindo e muito quietinho também. O cavalo do vovô morreu tem um ano, mas ele ganhou outro cavalo dias antes de Olárcio, seu cavalo que morreu, partir. O nome do seu cavalo atual é Octávius, ele é meio cinza e cheio de manchas um pouco escuras, quase pretas.

Meu cavalo é o Espartano, totalmente preto. O Espartano não é exatamente meu.

“Ele, na verdade, pertence a um homem de mais ou menos quarenta e poucos anos que mora bem longe do Heartland. Seu rancho fica depois do nosso, e se chama Monteicortt. O homem morava sozinho, vivia bebendo no bar da mãe de Emma “Coff’s Net Werney”, e tinha apenas um cavalo no seu rancho: Espartano, que na verdade tinha outro nome, Alex. Ele não trabalhava com cavalos em seu rancho como eu e minha família trabalhamos no nosso, ele gosta de jogar nas corridas de cavalos ganhando e perdendo dinheiro. Mas na maioria de suas apostas ele perdia muito dinheiro. E depois que perdia tudo ia sempre pro Coff’s Net Werney bebe até desmaiar. Eu e Jeniffer sabíamos que ele maltratava o cavalo toda vez que voltava pra Monteicortt bêbado, ele nunca teve um pingo de paciência com o cavalo. Jeniffer e eu passeávamos com os cavalos perto de Monteicortt naquela época, quando ainda nos falávamos normalmente e ninguém sabia sobre a mentira dela. Uma vez quando estávamos, novamente, passeando com um dos cavalos que estava no estábulo, ouvimos o homem gritar sem parar e pedir por ajuda. Eu logo disparei em direção ao rancho e Jeniffer logo atrás, quando cheguei o homem estava de joelhos com uma ferida do lado esquerdo da cabeça e no braço esquerdo também e segurava uma garrafa de vidro quebrada na outra mão, o cavalo estava deitado fungando a poucos centímetros de onde o homem estava ajoelhado. Jeniffer foi socorrer o homem e eu o cavalo. Assim que cheguei perto pude per que ele estava com um grande corte próximo ao seu pescoço e estava com vários pedaços de vidro dentro do ferimento. O cavalo respirava com dificuldade. Andei pisando firme até onde o homem e Jeniffer estavam, ela estava tentando ajudá-lo a se levantar. Mas assim que cheguei perto eu o empurrei para o chão novamente com toda minha força fazendo ele cair bem em cima de seus ferimentos. Ouvia Jeniffer protestar e o homem, desorientado por estar bêbado, gemer de dor. Contei pra Jeniffer que o cavalo estava com um corte terrível e que estava cheio de pedaços de vidro quebrado. Perguntei ao homem se ele tinha feito aquilo, ele apenas riu e eu o chutei na barriga. Ele disse coisas horríveis sobre o cavalo, disse que tinha se cansado dele e que só trás problemas desde que o encontrará andando pelo seu rancho, ele achou que poderia dar conta de ter um cavalo... Mas não deu. Ele não tinha paciência e vivia dando chicotadas no cavalo (percebi isso pelas marcas que Espartano tinha). Dessa vez ele tentou matar, mas o cavalo acabou lhe acertando com um coice na sua cabeça e em seu braço, mas não antes do homem tentar se defender, então ele acabou cortando o pobre do cavalo que desabou no chão sofrendo. Eu e Jeniffer deixamos o homem no chão gemendo e implorando por ajuda, suas palavras saiam de sua boca totalmente desorientadas. Pegamos o cavalo, tentando fazer com que ele ficasse em pé (o que demorou muito, mas com muito esforço e quase meia hora depois nós conseguimos), andamos bem devagar por causa do cavalo até Heartland que dali ficava a uma distância de mais ou menos seis quilômetros. Quando conseguimos sair com o cavalo de Monteicortt, o homem já estava desmaiado no chão roncando vencido pela bebida. Quando chegamos a Heartland já estava bem tarde, tivemos que implorar para Scott (nosso veterinário de Heartland e amigo da família desde que ele era bebê) vir até Heartland para cuidar do cavalo. Eu fiquei a noite toda do lado de fora do estábulo, pois Scott estava cuidando do cavalo lá dentro e não deixava ninguém ficar lá a não ser Jeniffer que ajudava ele como assistente naquele momento. Scott só deu noticias do cavalo no dia seguinte bem cedo, ou seja, eu havia dormido do lado de fora do estábulo encostada nas imensas portas, mesmo meus irmãos, meu pai e meu avô me pedindo para entrar e dormi, eu não fui. Quando Scott e Jeniffer saíram do estábulo um pouco sujos de sangue, disseram que o cavalo estava bem e que ficaria bem. Eu ficava indo ao estábulo todas as horas para cuidar dele com a ajuda de Scott que ia lá de duas em duas horas para trocar o curativo do cavalo, foi ai que eu me apeguei a ele. Não queria que o cavalo votasse pras mãos daquele bêbado irracional, e Jeniffer concordava com isso, ela, assim como eu, era defensora dos cavalos que são maltratados e sempre que possível salvava e cuidava deles, no final quando ficavam bons ela dava de presente pra algum amigo que ela sabia que cuidaria como se fosse seu filho. Mas como eu havia me apegado ao cavalo eu não queria que ele fosse embora. Decidi ficar com ele e chamá-lo de Espartano. O dono nunca apareceu pra pega-lo e tira-lo de mim, na verdade nunca mais vi o homem nem mesmo no centro ou no Coff’s Net Werney, ele simplesmente deve ter desistido, afinal de contas ele conseguiu o que queria: se livrar do cavalo. Sempre cuidei muito bem de Espartano, passeava, dava banho, alimentava, me divertia com ele, tentava treinar, e não deixava ninguém montar nele além de mim... Desde então sou muito unida a Espartano, que é o meu primeiro cavalo.”

Sorri para as nuvens ao lembrar o dia em que Jeniffer autorizou que o cavalo fosse meu. Olhei para o lugar onde amarrei Espartano, ele estava comendo o capim que estava perto dele.

Havia tempos que eu não tinha um tempo só pra mim. Havia tempo que eu não pensava tanto assim em diversas coisas, lembrando do passado, lembrando das coisas boas e esquecendo completamente as coisas ruins mesmo que só por um minuto. Havia tempo que eu não ficava em paz com minha mente.

Levantei-me, olhei para a rosa do meu lado que agora parecia com uma aparência melhor. Suas pétalas deixaram de ter as manchas amarelas que antes estavam bem ai, a mesma coisa com as folhas. A rosa não estava mais caída, agora ela estava bem em pé e isso faz com que ela parece maior ainda do que antes aparentava.

Ela estava feliz.

E pela primeira vez em muito tempo, eu me senti feliz também.

Notas finais
É isso ai... desculpe se ficou grande demais esse capítulo. Mas espero que vocês tenham entendido um pouco o que Any sente... Por favor comentem suas opiniões, criticas ou sugestões. Bjs e muito obrigada!