__ Você é especial. __ Disse ele pensativo. __ É poderosa, só não sabia disso. Até agora...

__ Isso não faz nenhum sentido. __ Minha voz saiu tão seca, tremula e sem vida que eu até me assustei. Não parecia ser minha voz.

__ Sua vida parou de fazer sentido há muito tempo. __ Devolveu ele. __ Acredite ou não Any, você é especial.

__ Porque três? __ Perguntei. Abaixei a cabeça novamente e fechei os olhos tentando puxar o ar para meus pulmões. Tava difícil de respirar, ainda mais nessa sala abafada, quente e sem nenhuma janela, apenas uma porta que estava fechada desde que Leviathan entrara. Eu queria ir embora, sair desse lugar imundo, sair de perto dele, sair desse pesadelo. __ Três tipos de sangue...

Ele riu. Um riso alto e cruel que me fez gelar e morder os lábios para não gritar.

__ Você nasceu aqui. Sou seu pai e a vadia da Jeniffer é sua mãe. __ Disse ele com a voz ficando pesada. Quando levantei a cabeça e criei coragem para encará-lo, seu rosto ficou sério e seus olhos não estavam mais com a cor de um violeta brilhante, estavam pretos agora. __ Dois tipos de sangue diferentes, e um lugar mágico...

Continuei a encará-lo com a testa franzida.

Quando mexi um pouco as mãos, senti uma dor forte nos pulsos como se a corda que me prendia estivesse rasgando mais a minha pele só com um simples movimento.

Ele suspirou.

__ Any... Você foi criada para matar!

Ele sorriu. Virei meu rosto para o outro lado do quarto onde se encontra o abajur, que emitia a luz amarelada, e tentei não ouvir.

Tentei pensar em qualquer coisa, mas era difícil. Leviathan parecia saber prender minha atenção mesmo eu não querendo.

__ Sua mãe é uma Fada do Campo __ ele pronunciou o nome com nojo, depois deu de ombros __ não são criaturas muito especiais, mas tem lá seus lados. __ Ele parou de falar e olhou para a sua faca pensativo, ficou assim por um longo tempo antes de voltar a falar: __ Eu sou um Demônio, e Meygo é um lugar especial. Qualquer um que morrer aqui, renasce. Mas renasce totalmente diferente.

__ Aonde você quer chegar? __ Minha voz entrou em pânico. Eu estava com medo de onde essa historia ia dá. Já estava mais que apavorada, meu coração, meu corpo, meus olhos, minha mente, tudo doía muito. Eu só queria ir embora, esquecer desse dia e viver uma vida normal... Sem monstros, ou pessoas psicopatas como Leviathan.

A raiva o dominou de repente. Ele chutou a mesinha com o abajur, que caiu no chão com um estrondo fazendo a única luz do quarto se apagar por um segundo, mas depois voltar rapidamente como se não tivesse caído no chão.

E então ele grunhiu.

__ Que droga Any! __ Gritou ele. __ Você morreu! Você tinha morrido! Assim que você nasceu... Você não respirava. Estava... Morta. __ Ele andava para lá e para cá no pequeno espaço a minha frente, uma das suas mãos estava na cabeça e a outra segurava a faca. __ Ela te teve aqui. Você precisa entender... Eu tinha sentido o cheiro da morte nela, então a obriguei a fica aqui onde sabia que você poderia viver. Eu não podia deixar você morrer, tenho planos grandes para você no futuro. Mas ela não queria... Ela não entendia... Não acreditava. Ela achava que eu estava mentindo. Eu tive que prende-la até o memento em que estivesse na hora. __ Ele parou por um instante e ficou de costas para mim. __ Consegui mantê-la presa por oito meses. Mas ai em uma noite, ela fugiu __ Ele abaixou a cabeça, e quando falou sua voz saiu série e distante: __ Ela se machucou quando tentou sair daqui... Quando ela quase conseguiu sair da ilha, mesmo machucada... Já era tarde demais... e ela não teve escolha a não ser te ter aqui mesmo. Mas você... __ Ele parou, se virou e fechou os olhos por um instante. Seu rosto não tinha expressão, mas eu sentia sua energia... e o que eu senti era algo forte, poderoso, ruim, horrível, cheio de ódio e maldade, era uma coisa cruel e tão obscuro que me fazia sentir-me péssima e com muito medo... mas também pude sentir a tristeza, a angustia. __ Você estava morta.

Eu não tinha reparado nas lágrimas que começaram a cair, lentas e geladas. Pelo visto eu ainda tinha mais lágrimas pra derramar do que eu pensei.”