Acordei sentando-me rapidamente. Minha cabeça girou e minha respiração estava ofegante como seu eu tivesse estado de baixo d’água por minutos sem poder pegar fôlego. Minhas mãos tremiam, meu corpo tremia, meus olhos estavam ardendo, e eu podia sentir a dor nos meus pulsos e nos meus tornozelos. Sem perceber, deixei uma lágrima escorrer lentamente no meu rosto, depois outra, e mais outra.

Eu não sabia onde estava. Estava tudo tão escuro, nenhuma luzinha a não ser o violeta dos meus olhos iluminando fracamente o espaço a minha frente. Lençol branco era isso apenas que eu conseguia ver.

E então, uma súbita emoção de desespero e reconhecimento me atingiu.

Um gemido escapou de meus lábios trêmulos.

E eu desabei.

Não podia... Não podia ser verdade.

Isso. Não. É. Verdade.

Eu era uma aberração, filha de duas aberrações. Um pai assustador, assassino, psicopata, demoníaco. E uma mãe mentirosa, falsa, uma fada, e traíra.

Eu morri. Ele dissera que eu tinha morrido... Mas eu nasci em Meygo, o que quer dizer segundo ele, que eu voltara à vida por causa dos poderes que a ilha possui. E quem nasce na ilha se transforma... Não sei bem no que, mas no momento eu não queria saber.

Jeniffer mentiu pra mim a vida inteira. Mentiu para todo mundo! Como ela pode me esconder isso? Como ela pode não me contar, pelo menos somente a mim? Porque ela nunca contou sobre o que ela é de verdade? Porque será que ela se esconde?

Meu choro se transformou em um soluço de repente.

Olhei para meus pulsos a tempo de ver o vermelhão que as cordas causaram, e então desapareceram como sempre sem deixar nenhuma manchinha na minha pele. Joguei a cabeça para trás e fechei os olhos me deixando levar pelas lagrimas, pela angustia, pelo medo, pela raiva, pelo ódio, por tudo... Até mesmo pelas antigas memórias.

Minha vida mudara drasticamente e repentinamente. Eu não pedi por isso. Eu não queria isso. Talvez tivesse sido melhor mesmo que Jeniffer não me contara nada desde o inicio. Ela queria uma vida normal para mim... E eu ainda quero a minha vida normal, a vida que não possuo mais.

Eu queria minha vida de volta. Queria a vida feliz que eu tinha quando era pequena. Sinto falta de rir, mas rir de verdade como eu ria antigamente quando Fredd ainda estava com agente, não as risadas forçadas que eu sempre dou.

Eram dias e noites gloriosos. Cheios de risadas ecoando por toda a casa, eram dias e noites cheio de amor. Eu sempre me sentia a menininha mais sortuda de todo o mundo. Tinha o melhor pai que sempre brincava comigo, me amava, contava histórias, me colocava na cama na hora de dormi, me levava e me buscava na escola. Raramente me levava pro trabalho dele, mas quando levava era muito divertido e eu passava o dia inteirinho com ele ajudando no escritório... Na verdade eu desenhava o dia inteiro e ficava atazanado alguns enfermeiros e enfermeiras amigos, ou brincando com os instrumentos de trabalho de médico do Fredd. Fredd sempre me fazia rir tanto que minha barriga ficava dolorida e então eu começava a ficar sem ar. Ele fazia o mesmo com os outros.

Jeniffer era tranquila, ficava sempre cuidando dos cavalos, mas fazia o máximo para dar atenção a todos os filhos. Ela costumava a me ensinar a cuidar e treinar um cavalo me mostrando os defeitos e as perfeições, o que eu tinha e o que eu não tinha que fazer. De todos os meus irmãos eu era a mais interessada em cavalos, alguns dos meus irmãos gostavam também, mas não eram tão chegados como eu fui.

A maior parte do que Jeniffer sempre me dizia era: “Deixe o cavalo sentir você, deixe ele se aproxima e ver que você é um amigo, que você não irá machucá-lo. Lembre-se de que ele está com medo e nós queremos ajudá-lo a superar isso. Ele não precisa ter medo de você, e você precisa mostrar isso a ele.” Ela me mandava esticar a mão na direção do cavalo e dizia para esperar e ficar calma, eu fechava os olhos e respirava fundo para não ficar nervosa, e antes que eu pudesse perceber o cavalo estava bem próximo de mim encostando o focinho na minha mão. Eu olhava para Jeniffer e via o orgulho em seus olhos, isso me deixava feliz e orgulhosa de mim mesma.

Meus irmãos e eu brincávamos todos os dias, até mesmo quando nevava e ficava difícil de sair, ou de montar a cavalo, ou de brincar no lago. Os dias que nevava eram nossos dias prediletos, menos o da Loh, ela sempre detestou o frio e odiava neve. Costumávamos brincar de jogar bola de neve, rolar na neve, ou até mesmo enterrar uns aos outros na neve. Jeniffer não gostava nada quando brincávamos disso, sempre que via pela janela da cozinha ou da sala agente enterrando um de nós, ela sai pisando duro para fora e brigava com agente mandando todo mundo entrar. Mas era engraçado.

Quando acabávamos de brincar, ou depois de Jeniffer nos mandar entrar por causa de certas brincadeiras erradas, tomávamos chocolate quente em frente à lareira velha da casa que o vovô ligava. Fredd descia com vários cobertores e entregava cada um para seus filhos, e vovô colocava almofadas no chão, ligava a TV e voltava a se sentar, com um jornal na mão, na sua poltrona vermelha e velha.

Assistíamos a vários tipos de filme, principalmente os de comédia. Logo todos dormíamos ali mesmo com o calor do fogo na lareira nos aquecendo. Com a ajuda de Jeniffer e do vovô, Fredd leva-nos para os quartos nos acordar. Ou pelo menos sem acordar aos outros, porque sempre que ele me pegava no colo eu logo acordava e apoiava minha cabeça em seu ombro e o abraçava. Ele costumava sussurrar para mim: “Minha fadinha adormecida. Sonhe com o melhor do melhor. Pense nas estrelas mais brilhantes e atravesse nuvens fofas e molhadas para alcançá-las, flutue para bem longe e alcance o impossível. Alcance sua maior felicidade e se agarre nela. E se você, por um deslize, escorregar, eu te pegarei minha filha.” Sua doce voz, calma, bela e aveludada me fazia voltar a dormi em segundos. E nos meus sonhos eu conseguia alcançar as estrelas, e não caia. Todas as noites por vários anos, sonhos felizes e mágicos me rondavam na hora de dormi. E eu nunca caia quando alcançava as estrelas, quando alcançava a minha felicidade.

Mas então, anos depois quando tudo começou a ficar estranho... Eu cai, mas ele não estava lá para me pegar como dissera.

Eu caia para dentro de um abismo escuro, gelado e assustador que parecia não ter fim. Sem Fredd para me segurar quando finalmente chegasse o final da queda.

Nós sempre fomos unidos, o choque de sua partida causou grande estrago na família, e em meu coração. Tudo ficou turbulento, tudo ficou sem cor, parecia que não voltaria a ser mais feliz como era. Todos em casa começaram a se afastar, cada um para seu canto. Sem mais dias em frente à lareira no inverno, sem mais brincadeiras, sem mais risadas... Sem mais estrelas, pois o meu céu havia perdido o brilho e levado minha felicidada para bem longe.

Tínhamos uma vida boa, tão boa que não parecia ser real. Era tudo tão mágico, aconchegante e perfeito, que eu não poderia querer mais do que aquilo. Tudo que eu tinha estava perfeito como tinha que ser. Era uma vida boa.

Foi uma vida boa.

Agora, tudo é diferente. E só o que me resta são as boas lembranças. E as imensas saudades.

Sentia falta do passado. Sentia falta de poder chamar Fredd de pai novamente. Mas não dava... O passado é passado, e ele nos deixou... Me deixou. Ele não é, e nunca foi meu pai. Todos os momentos juntos fora ilusões. Para ele foi uma grande desilusão... Tamanha foi que ele foi embora para sempre.

As lagrimas continuaram a cair enquanto me recordava de uma época que eu sabia que não voltará, por mais que eu deseje ou peça, até mesmo implore... Nada ira ser como antes. Tudo mudou.

Minha vida mudou.

Eu mudei.