Lost Wings

9 O inicio de mais uma guerra


No céu os trovões ainda festejavam e as nuvens ainda estavam em tons escuros. Alicia andava de um lado para o outro não dando mais importância para as asas que havia recuperado. Ela sabia. Ela sentia que algo ruim estava prestes a acontecer e seria naquela noite, naquela floresta. Ela sentia uma sensação que já havia provado antes.

Alecsander estava perto da saída do salão, pensando no que poderia estar acontecendo naquele momento, nos céus e nos reinos. Fabrício ainda estava ali, imóvel, a magia das sílfides era poderosa, ultrapassava os poderes que Alecsander e sua mãe tinham. As "fadas da terra" — como os humanos os classificavam em histórias — não eram tão fortes quanto às sílfides e as salamandras, elas eram peritas em ajudar animais, plantas e até humanos. Claro que Alecsander tentou desfazer o feitiço a pedido de Alicia, mas não deu certo, ele sabia que não daria, para dar certo o desejo teria de ser forte.

Os dois foram interrompidos de seus pensamentos por um trompete, Alecsander logo soube de quem era. Fadas ainda procuravam por ele e dessa vez ele não poderia escapar, pois precisava de ajuda.

— Veja majestade! Tem fadas ali! Permissão para atacar?!

Um superior falou em voz alta.

— Majestade?

Alecsander falou para si.

Ele chegou mais perto da beirada e observou melhor o grupo de fadas. Lá estava sua mãe, Delfim. Usava um longo e majestoso vestido brilhante esverdeado e uma coroa decorada com pedras coloridas achadas pelas pequenas fadas que brincavam perto do lago.

O grupo se aproximou e Alecsander recuou, voltou ao salão para onde Alicia estava.

— Ali...

— Alecsander?!

Não era a voz de Alicia, era sua mãe surpresa ao vê-lo naquele lugar durante aquela situação. Alecsander virou-se devagar para cumprimentar sua mãe.

— Oi mãe, estou muito feliz em te ver.

Ele disse forjando uma animação e Alicia ficou confusa observando aquilo.

— E eu estou furiosa! Como você pôde Alecsander?! Fugir do reino e das responsabilidades para ficar pela floresta?

Ela estava brava, mas ainda estava feliz por ver seu filho bem, ainda mais naquele lugar perigoso.

— Desculpa, eu...

— Na na na na na, você se explica depois, eu vim resolver um assunto sério e acho que você pode me dizer o que aconteceu aqui.

Delfim falou séria.

— Resumidamente?

Alecsander perguntou tentando adiar.

— Sim, tanto faz, conta logo garoto!

— Alicia queria as asas de volta.

Falou apontando para a mesma.

— Eu a ajudei a chegar até aqui, então nós encontramos uma sílfide, ela pirou e nós brigamos, Alicia fez um desejo e é isso.

— O que? Espera, deixe-me ver se eu entendi... Esta garota.

Falou apontando para Alicia.

— Fez um desejo à ametista que guardava um desejo muito importante? É isso?

Ela perguntou, mas já sabia a resposta.

— Sim, bom...

Alecsander ia falar e sua mãe fez um gesto com a mão para ele parar.

— Vamos apenas tentar resolver isso, está bem? Depois nós conversamos sobre tudo, não temos tempo. A essa hora as salamandras já estão ressurgindo do fogo, precisamos ir agora.

A rainha falou e foi em direção à saída.

Delfim tinha razão, as salamandras realmente estavam ressurgindo de dezenas em dezenas. Saíam do magma que fervia no centro da terra, e carregavam a raiva que sentiram por anos das sílfides e dos outros seres. Estavam prontas para a vingança.

Na superfície da floresta, a rainha levava Alecsander e Alicia até o reino das fadas, mas não pelo mesmo caminho que eles chegaram lá, afinal demoraria muito e eles tinham pouco tempo. Passaram por uma passagem secreta, um portal que só alguns sabiam onde ficava e como passar. Levaram a ametista consigo, porque era óbvio que o primeiro lugar para onde as salamandras iriam se dirigir era seu reino, precisavam de um refúgio seguro. Fabrício ficou para trás já que nenhum dos fadas ali conseguiria levar consigo uma enorme e pesada pedra, isso a deixou com um sentimento de culpa enorme por ter o levado até lá consigo.

Já nos céus, por onde as nuvens passavam, o reino das sílfides estava em preocupação desde que Peregrina havia contado para a rainha o que havia acontecido. As fadas mais importantes do reino das sílfides se reuniram com a rainha para conversar sobre o que viria a seguir. Entre elas estavam guerreiras que lutaram na última guerra.

— O que iremos fazer? Usar a mesma estratégia de antes?

Irina perguntou.

Irina foi a comandante do grupo de sílfides que derrubou as salamandras que protegiam Paradis na última guerra.

— Claro que não! Elas sabem como nós agimos, isso seria estupidez.

Peregrina respondeu na vez da rainha.

— Nós podemos usar algo.

Karina, a rainha das sílfides, respondeu serena.

— As salamandras vão esperar isso de nós, mudança de tática, porque sabem como somos espertas. Todavia, algumas podem esperar que continuemos do mesmo modo, mas não o iremos fazer, mudaremos metade.

— Tem certeza rainha?

Peregrina perguntou.

— Absoluta.

Respondeu e logo se dirigiu a Irina.

— Vá, faça novas táticas e depois me traga o que conseguir pensar com suas guerreiras.

— Sim, majestade.

— Devo fazer algo rainha?

Perguntou Peregrina que seria de grande utilidade na guerra.

— Sim, eu preciso que faça algo antes da guerra. Traga-me a fada cujo você me disse que fez um desejo à ametista.

Outro "Sim, majestade" foi dito e Peregrina voou para as nuvens enquanto rastreava Alicia, logo estaria no reino das fadas.

A rainha Delfim, por sua vez, planejava proteger seu reino, não queria entrar naquela guerra, afinal não tinha nenhum interesse com ela. Todos os guardas foram avisados para que ficassem mais atentos do que de costume e alguns gnomos vinham trazer recados da rainha deles. Recados pacíficos, que tinham o intuito de oferecer abrigo e refúgio caso eles viessem a precisar durante a guerra.

Enquanto a rainha resolvia os problemas que vieram a surgir com aquilo tudo, Alecsander e Alicia esperavam em um salão da enorme árvore que havia na clareira mais iluminada da floresta. Ao contrário da árvore das salamandras, essa árvore era um pouco maior e também majestosa. Era viva e cheia de cores, assim como tudo no reino.

— O que você acha que vai acontecer?

Alicia perguntou preocupada.

— Vai acontecer a quem ou o que?

Alecsander rebateu.

— A tudo, você sabe.

— Eu não faço ideia.

Alecsander respondeu e fez uma pausa.

— Mas eu espero que as salamandras sejam expulsas novamente e que você continue com suas asas.

— Eu também.

Alicia falou e se atreveu a sorrir levemente.

— Então sua mãe é mesmo uma rainha?

— Achei que tinha ficado meio óbvio pelos guardas.

Alecsander riu.

— É...

— Eu não teria dito, eu não queria voltar pra isso e quem iria me garantir de que você não tinha sido mandada pra me trazer de volta?

Alecsander perguntou brincando. Mas Alicia apenas sorriu levemente mais uma vez e ficou em silêncio.

— Sabe...

Alecsander ia falar algo, no entanto alguém o chamou.

— Sim?! Espere um pouco.

Falou e foi em direção a um corredor.

Assim que ele deu seu terceiro passo, Peregrina entrou pela enorme janela do salão parando em frente à Alicia.

— Olá, encrenqueira.

Peregrina falou a puxando para cima e voando para fora do salão. Alecsander percebeu e correu atrás delas, mas Peregrina lançou sua magia o fazendo desmaiar e cair no chão. Alicia tentou voar para longe dela, porém Peregrina foi esperta em amarrar suas asas com um feitiço antes que ela conseguisse.

A poucos metros do reino das sílfides, todos da floresta ouviram uma parte do chão se abrir, ouviram gritos perturbados de fadas que buscavam pela vingança.

Era o começo de uma nova guerra.