Peregrina levou Alicia até Karina, a rainha das sílfides.

—Deixe-nos a sós.

—Sim, majestade.

Assim que Peregrina saiu do enorme salão, a rainha começou.

—Por quem você foi mandada para o reino das salamandras?

—Por ninguém.

Alicia respondeu.

—Ah vamos, não tenha medo, eu sei que alguém a mandou até lá mesmo que indiretamente. Quem foi?

Karina perguntou novamente.

—Por que quer saber?

—Porque se você não me contar, a punição será para você.

Karina falou já sem paciência.

—Eu estava no jardim quando uma salamandra veio até mim, ela disse que as salamandras que restaram tinham mudado e que tinha um jeito de recuperar minhas asas.

Alicia fez uma pausa para respirar e continuou.

—Ela disse que se eu fizesse um pedido a ametista eu teria minhas asas de volta.

A rainha a olhou ainda um pouco incrédula.

—Eu juro que não foi por mal, eu não sabia que se eu fizesse o pedido isso iria acontecer.

—Está bem, você pode ir, mas diga aos jardineiros que nós não vamos poupá-los se ajudarem as salamandras de qualquer forma.

Sílfides e salamandras sentiam-se mais superiores ao chamar as "fadas da terra" de jardineiros. Alicia ficou aliviada em saber que não seria punida e foi embora sem contestar, lembrou-se do caminho e voltou para o reino.

Ela pela enorme janela e aterrissou de mau jeito, caindo.

—Alicia, você está bem?

Alecsander surgiu a amparando.

—Sim, a sílfide...

—Que sílfide?

Alecsander falou a levantando.

—A rainha delas, elas vão começar a guerra, Alecsander.

Juntos eles foram avisar Delfim, que nada podia fazer a não ser evitar tudo e proteger seu reino dos ataques.

No reino das salamandras tudo já estava pronto, Paradis falava com suas fadas recém surgidas do fogo e as preparava para a vingança.

—Hoje nós iremos derrubá-las, a batalha de anos atrás foi apenas um treinamento, encarem desse jeito!

Paradis gritava da entrada da árvore.

—Elas irão cair uma por uma! E nós, que somos dignas de poder, iremos reinar sobre a floresta e além!

As fadas gritavam e concordavam com sua rainha. As salamandras gostavam de carnificina, estavam ansiosas pela guerra. Então Paradis fez a estátua de Fabrício em pedaços iniciando a guerra logo antes de um relâmpago descer do céu.

Estava na hora, os céus ainda estavam avermelhados, como se fosse chover sangue. Os trovões festejavam ainda mais no céu e um relâmpago deu início a segunda guerra naquela floresta.

Gnomos se refugiaram em suas casas, náiades no fundo do rio e ninfas assumiram a forma de animais para entrarem em tocas e cavernas. As salamandras, apesar de pequenas, eram poderosas, pois tinham magia além de crueldade. As sílfides também eram cruéis, apesar de ser o melhor lado naquela luta, pois não eram elas que iriam destruir tudo e todos se vencessem.

Todos na árvore do reino de Delfim escutaram o relâmpago.

—O que foi isso?

Alicia perguntou com medo.

—Isso, minha querida, foi o aviso. É agora que devemos nos preocupar.

A rainha falou pensativa.

—Fiquem aqui!

Ela saiu do salão e foi até os guardas; pretendia aumentar a proteção, pois a ametista estava ali e ninguém sabia se ela ainda serviria naquele momento.

Tudo parecia ter voltado no tempo. Sílfides e salamandras se enfrentavam nos céus e por entre as árvores da floresta. Peregrina aniquilava as mais fortes com seu cajado prateado enquanto Irina usava sua nova estratégia contra as guerreiras a quem Paradis concedia mais confiança.

Fadas perdiam o brilho e caiam dos céus, era algo tragicamente lindo de se ver. Eram melhores do que qualquer criatura ali em batalha e também eram umas das mais poderosas. Por isso não podiam definir um vencedor antes da hora, eram imprevisíveis e não iriam ceder tão cedo, aquilo iria continuar por muito tempo.

O barulho era perturbador, havia árvores pegando fogo na floresta e pequenos tornados derrubando fadas. Fabrício estava morto, Alecsander ajudava sua mãe a organizar os guardas e Alicia ponderava. Tudo passava por sua cabeça, queria de alguma forma ajudar, mas não podia ir para a guerra, não seria útil lá. Apenas conseguia pensar em fazer algo, mas o que? Foi aí que Alicia percorreu o que havia feito desde o início ao final da sua jornada e entendeu o que teria que fazer.

No céu, pela primeira vez, Karina e Paradis se enfrentavam. Tudo porque Paradis havia sido esperta desta vez e mandado uma de suas melhores guerreiras, Assiral, para enfrentar Peregrina, que protegia Karina. As duas lançavam magia uma contra a outra no ar, enquanto Paradis achava que finalmente tomaria o poder.

— O que foi, Karina? Está com medo?

— Por que eu estaria?

— Porque desta vez não será eu que irei cair.

Paradis falou se preparando para atacar.

— Veremos, Paradis.

Alicia correu até a sala do trono onde a ametista estava jogada no chão perto de uma coluna. Ela se ajoelhou perto da pedra e pensou mais uma vez; não podia errar, pois se errasse talvez não pudesse consertar..

Então no mesmo momento em que sílfides e salamandras se matavam, as rainhas batalhavam pelo poder e algumas fadas penetravam a barreira do reino de Delfim, Alicia o fez, colocando as duas mãos sobre a pedra.

—Eu desejo nunca ter tido as asas tomadas.

Esse era um desejo mais forte do que ter suas asas de volta, com certeza. A pedra novamente brilhou, assim como no majestoso salão das salamandras, mas desta vez o pedido era diferente. Alicia havia mudado o presente e o passado.

A tempestade piorava a cada minuto e Alicia tinha sido atingida por um pingo de chuva. Eles parecem ser inofensivos, mas para quem tem dez centímetros de altura pode não ser algo bom.

Alicia estava caída no chão, havia rolado pra debaixo de uma planta o que a ajudou um pouco contra a chuva. Assim que recuperou a consciência viu algo grande olhando para ela, bom digamos que noventa centímetros eram algo grande comparado a altura dela. Era um gnomo gordinho, ele a pegou com cuidado e a encarou de perto.

— Ballidag o que você está fazendo?! Está perigoso aqui, temos que ir!

Gobe gritou por conta do barulho.

— Eu achei uma fada caída na terra!

Disse se aproximando do outro gnomo.

— Que seja! Temos que sair daqui! Levaremos ela pro refúgio, tem fadas abrigadas lá também.

Gobe retrucou puxando Ballidag para dentro da floresta.

Assim que entraram na floresta avistaram luzes alaranjadas que caíam como estrelas cadentes. Eram pontinhos pequenos que iam se apagando conforme caíam entre as árvores. Os gnomos continuavam a correr e a tempestade ia diminuindo por algum motivo. Ballidag estava tão assustado com a situação que tropeçou, deixou a pequena fada cair e ela ficou ali, caída no chão frio entre as folhas.

O gnomo estava distraído demais para lembrar que estava com a fada e a deixou escapar da mão; Alicia mais uma vez estava na terra. Ela tentou se levantar, no entanto foi uma tentativa em vão. De repente uma luz alaranjada começou a se aproximar enquanto as outras luzes estavam caindo e se apagando, mas essa luz não era como as outras, ainda estava acessa e tinha uma forma familiar.

— Você está bem?!

Era uma fada também, Alicia ficou aliviada.

— Si... Sim... Quem é você?

Sua voz saiu fraca, ela estava machucada, não estava raciocinando bem, pois sabia que era uma salamandra só pelo seu brilho; elas estavam em guerra com as sílfides. Ela não sabia ao certo o porquê disso tudo e nem quem era o "lado ruim".

— Meu nome é Paradis, eu caí e segui seu brilho.

Ela olhou para Alicia analisando seus arranhões.

— Você está machucada, venha! Eu vou te ajudar.

Falou segurando Alicia e pondo sua mão no pescoço. Andou com ela até um buraco de uma árvore que parecia seguro e a deitou no chão.

— O que está acontecendo lá em cima?

Alicia disse com a voz ainda fraca.

— Estamos perdendo a guerra...

Falou triste.

— Sabe, nós não somos más, nós só queremos conviver junto com as outras fadas em harmonia, estamos cansadas do cheiro de enxofre, da lava quente que pode nos matar a qualquer hora...

— Mas as sílfides sempre conviveram em paz conosco.

Alicia falou se recuperando.

— Elas têm medo de nós, porque somos fortes, elas têm medo de perder o título de "superiores".

Paradis explicou.

Alicia percebeu um ferimento no ombro da fada que brilhava um pouco menos agora.

— Você também está ferida.

Alicia comentou olhando fixamente para o ferimento e Paradis acompanhou o olhar de Alicia para o mesmo.

— Não é nada, salamandras são fortes.

Retirou um vidrinho de algum lugar da roupa que usava e esticou a mão para entregar a Alicia.

— Tome, você vai ficar melhor, vai dar um jeito nos seus arranhões.

— Não obrigada, você deve estar precisando mais.

Disse Alicia apontando para o corte.

— Eu vou beber também. Tem o suficiente para duas, beba primeiro, como sinal da minha bondade e preocupação.

Paradis sorriu convencendo Alicia a tomar o que tinha no vidrinho.

Alicia desmaiou, não tinha nada que curasse naquele vidrinho, havia apenas um líquido que fazia qualquer um que tomasse adormecer. Paradis precisava das asas e iria pegá-las. Ela se aproximou de Alicia, porém ouviu uma voz e sentiu algo em seu pescoço.

—Nem pense nisso.

Alecsander estava pronto para usar aquela espada mais do que nunca, se tratava da rainha das salamandras e ele não a deixaria fazer aquilo.

—E quem você pensa que é para me dizer o que devo fazer jardineiro?

Paradis falou com desdém.

—Eu sou o filho de Delfim, o príncipe que irá levar sua cabeça para a rainha sílfide em troca de paz.

Paradis o olhou, agora com medo e tentou fugir, mas estava fraca demais e não conseguiu ir muito longe até que Alecsander a alcançasse.

Alicia acordou no reino de Delfim, seu lar, e ainda tinha suas asas. Fabrício estava com sua avó, comendo uma deliciosa torta, nunca chegou a conhecer nenhuma fada. As sílfides nunca mais chamaram as "fadas da terra" de jardineiras depois da oferta de paz que receberam de Alecsander, que se tornou rei logo depois de sua mãe resolver tirar férias da coroa. Lavin se vingou de suas irmãs e conseguiu afastar as náiades de lugares populosos. E os gnomos fizeram o que sabiam fazer de melhor: festejar. Alicia reinou ao lado de Alecsander por anos e nunca teve lembrança alguma do que supostamente teria acontecido se Alecsander não estivesse lá naquele momento.

Como eu sei disso? Bom, este foi o meu sonho, talvez um dia eu o compartilhe com meu primo, Fabrício. Nunca desistam dos seus sonhos mesmo que pra isso precisem fazer sacrifícios.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.