Lost Wings
8 A ametista
Demorou, mas finalmente eles chegaram até a árvore das salamandras. O lugar era sombrio, seco e sem vida. Agora Alicia entendia o medo que a maioria tinha das salamandras, o lugar tinha cheiro de morte.
A árvore do meio, envolvida por nada além de terra, era retorcida e acinzentada, alguns diziam que já fora de um marrom avermelhado majestoso. As folhas já não existiam mais, porém eram flamejantes. Algumas lendas diziam que se as salamandras ressurgissem do fogo a árvore voltaria à vida e o fogo vital seria difícil de apagar novamente.
Sem mais delongas eles continuaram o percurso até a árvore e Fabrício parou em frente ao tronco onde havia um grande buraco, uma abertura, uma porta. Era o local de entrada para as salamandras e só elas ou criaturas pequenas podiam entrar lá. Então Alicia e Alecsander entraram na árvore, enquanto Fabrício vigiava do lado de fora. Fabrício pensava em sua avó, como ela poderia estar?
Alecsander pensava na sua fuga de casa e o que iria acontecer agora.
E Alicia? Passavam-se várias coisas em sua cabeça, suas asas e seus amigos, sua jornada e seu destino, o que aconteceria depois que ela tivesse suas asas, pensava se ficaria feliz depois que conseguisse aquilo que queria.
Quando os dois entraram na árvore perceberam que estavam em um enorme salão, visto pelo tamanho das fadas, é claro. Aquele salão havia sido glorioso um dia, mas agora estava sujo e esquecido. Notava-se que havia um trono em uma parte alta do salão logo mais adiante, era o trono de Paradis e estava chamuscado. Em cima dele havia uma linda pedra rosada com três ou quatro centímetros de altura, tinha um tom bastante vivo e brilhava. Só pode ser a ametista, pensou Alicia.
E era a ametista, uma das pedras mais lindas que já se viu. A ametista também era uma das mais potentes pedras de poder, e ela tinha uma função bastante especial ali naquela mesma árvore.
— É a pedra da qual eu preciso Alecsander, é ela.
Alicia falou feliz e surpresa, esquecendo-se de tudo por um tempo.
— E agora?
Alecsander perguntou.
— Preciso pegá-la.
Alicia falou indo em direção ao trono.
Mas antes de chegar ao trono, Alicia foi surpreendida por uma figura de cabelos negros que vestia um longo vestido feito em tons escuros de azul que segurava um cajado prateado. Alicia se assustou, entretanto não recuou e nem hesitou, já havia passado por muitas coisas naquele tempo.
— Quem é você?
Alicia perguntou ainda surpresa.
Chegou a pensar que fosse uma salamandra, mas claro que não era, seu brilho era quase branco.
— Peregrina, a guardiã da ametista.
Seu tom de voz era poderoso, fazia Alicia se lembrar das sílfides.
— Eu preciso da pedra.
Alicia falou mais calma.
— Ninguém pode tocá-la.
— Você não entende, eu realmente preciso da pedra.
Alecsander sabia quem era aquela fada, já ouvira falar. Ele sabia que ela era uma das sílfides mais poderosas e que também era impaciente, então para ajudar Alicia, tentou distraí-la.
— Ei! Que tal um duelo?!
Alecsander perguntou com ar de superioridade.
— Não me tente, jardineiro.
Peregrina respondeu encarando Alicia.
— Sempre soube que sílfides eram abigobais, mas você supera todas.
Alecsander provocou e a fada o fitou.
— O que disse?
— Acho que você ouviu bem, ou também é surda?
Alecsander provocava, mas por dentro estava quase fugindo; sílfides eram tão poderosas quanto salamandras.
— Vou te ensinar como ficar em seu lugar, jardineiro.
Peregrina falou indo em sua direção, estavam prestes a começar uma batalha. Alecsander olhou para Alicia e ela entendeu que era uma distração, então correu o mais rápido que pôde até o trono. Peregrina já estava frente a frente com Alecsander e preparava um golpe com seu cajado prateado quando ele resolveu começar a luta. Uma luz lilás bateu na caixa torácica de Peregrina e ela apenas levemente foi empurrada; o efeito que Alecsander queria era um desmaio, porém só conseguiu deixar a fada mais irritada do que antes.
Peregrina iria erguer seu cajado novamente, mas assim que ela se preparou para atacar Alecsander com um golpe mortal, Alicia já fazia seu pedido. Sim, pedido, as ametistas funcionam desse jeito. Cada ametista só pode segurar um desejo por vez, então quando um novo desejo é feito, o outro desaparece, se desfaz, deixa de existir.
Alicia estava com suas pequenas mãos sobre a pedra enquanto Peregrina erguia seu cajado prateado e Alecsander pensava em como escapar.
— Desejo ter minhas asas de volta, desejo que elas brilhem como antes, desejo ser novamente uma fada por completo.
Alicia falou baixinho com toda a vontade que achou em si mesma.
A pedra brilhou intensamente, um brilho tão forte que saiu por todas as entradas da árvore e surpreendeu Fabrício, que ainda estava lá fora sem saber o que se passava do lado de dentro. Peregrina também ficou surpreendida, mas ficou preocupada, ela soltou seu cajado e desejou que aquilo nunca houvesse acontecido.
— Não! O que você fez?!
Ela gritou tampando o rosto com os antebraços, tentando se proteger do brilho intenso que ainda percorria o salão.
Alecsander também protegia os olhos e Fabrício tentava espiar o que estava acontecendo, no entanto não conseguia. Então o brilho cessou e todos puderam ver melhor o que havia acontecido. Alicia surgiu, mas diferente, havia conseguido suas asas de volta. Eram rosadas e brilhosas, lindas e delicadas. E ela não conseguia esconder o sorriso que estampava no rosto.
O fada de cabelos encaracolados achou ela mais bonita, talvez porque agora a visse como uma fada de verdade e não como uma polegarzinha. E Alicia só conseguia sorrir.
— Você estragou tudo!
Peregrina gritava. De repente os céus escureceram em um tom escuro de vermelho e trovões festejaram no céu. Era como as lendas diziam e era como iria acontecer. A volta das salamandras. Peregrina foi até a beira da abertura e olhou para o céu resmungando algo, voltou e apanhou seu cajado.
— Você está feliz agora?! Você nos sentenciou a uma coisa terrível! Espero que sofra com as consequências do seu egoísmo!
Peregrina falou a encarando.
Não era culpa dela, ela apenas havia sido vítima de uma mentira feita pela própria rainha salamandra.
Peregrina voou pela abertura indo em direção aos céus, mas ao perceber Fabrício, ela voltou e com seu cajado prateado o transformou em pedra. Um castigo que não era dele, um castigo não merecido, uma maldição. Fabrício ficou ali, ainda vivo dentro da rocha, de algum modo, mas fadado a ficar ali por toda a eternidade.
— O que será que eu fiz, Alecsander?
Alicia perguntou assustada.
— Eu não sei, eu realmente não sei.
Alecsander falou observando o céu.
Acontece que o último desejo feito à ametista era que todas as salamandras fossem banidas para o fogo, abaixo da terra para que nunca mais voltassem e fizessem mal aos que habitavam ali. Infelizmente, o desejo de Alicia anulou o outro e agora iria desencadear uma nova guerra, mas agora não só as sílfides e as salamandras estavam envolvidas, todos corriam perigo.
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