Lost Stars

13 Capítulo 12 - Azav


Notas iniciais
Para Iza

Eu preferiria ter sentido o perfume do cabelo dela, um beijo de sua boca, um toque de sua mão, do que a eternidade sem isso.

— Cidade dos Anjos (1998)

Havia fogo.

Não o fogo destrutivo que ela vira no espetáculo, mas um calor mais singelo, que nascera em seu coração e se espalhava por cada nervo, cada veia, consumindo-a por dentro. Era ansioso, vivo, desesperado para queimar cada uma das muralhas que ela havia cuidadosamente erguido ao longo de uma vida — e de milênios antes dela.

O fogo era a liga necessária para soldar as partes divididas de Ariel.

Sua mente, apagada pelo ritual, reagiu. Para cada barreira derrubada pelo toque de Rafael, novos escudos eram forjados instintivamente nas sombras de seu subconsciente, tentando conter o incêndio.

Ela arfou contra a boca de Rafael, sentindo o mundo girar e sair de eixo. A tontura veio rápida, não por falta de ar, mas por excesso de tudo.

Não queria se afastar. Queria se queimar naquele calor. Queria virar cinzas se isso significasse permanecer ali, nos braços dele.

Era ele.

Sempre fora ele.

A compreensão não veio como uma memória visual, mas como uma certeza emocional. De alguma forma, era ele quem a estava fazendo lutar contra o vazio que a atormentara no banho, no parque, na vida. Ele era a cola que faltava para sentir-se inteira novamente.

Rafael afastou o rosto milímetros do dela, apenas o suficiente para respirar, mas suas mãos permaneceram ali, segurando o rosto dela com cálida adoração.

Mãos frias. O contraste com a pele febril dela, fez Ariel se inclinar contra o toque fresco, buscando alívio e conexão.

Seus olhos encontraram os dele.

Estavam cheios de amor. Um amor puro. Por tanto tempo reprimido pela certeza de não ser recíproco.

E, naquele instante, olhando na imensidão verde de seus olhos, a última muralha cedeu.

Ela sempre amara a forma como ele a olhava. Desde antes de ser humana, desde antes de o tempo ser contado. Sempre fora tão difícil não corresponder, manter a postura de líder, de amiga, enquanto seu coração sangrava por ele. O segredo mais bem guardado do anjo que um dia ela fora, não era a localização de uma arma ou um plano de guerra.

Era isso.

O amor aparentemente não correspondido de Rafael sempre fora recíproco. Ela apenas o escondera melhor. Escondera para protegê-lo, para focar na missão, por medo... os motivos já não importavam.

Aquele desejo reprimido no fundo mais escuro da sua alma finalmente foi liberto.

Mas o corpo humano, frágil e limitado, não foi forjado para suportar a magnitude daquele amor. Era como tentar conter uma supernova dentro de um frasco de vidro.

— Ariel? — A voz de Rafael chegou aos ouvidos dela como se viesse debaixo d'água. A expressão de êxtase no rosto dele se desfez, dando lugar ao pânico. — Você está bem? Você... está queimando.

As mãos dele percorreram o rosto e o pescoço dela, e Ariel sentiu o estremecimento dele ao notar a temperatura quente de sua pele. O olhar de amor manchou-se de genuína preocupação.

Ariel tentou falar. Queria dizer que tudo estava bem. Mas a língua estava pesada. O calor tornou-se insuportável, drenando suas forças. A imagem de Rafael, com o céu estrelado de Paradiso ao fundo tornou-se borrada, as cores se misturando em um borrão cinzento.

Seus joelhos cederam.

Enquanto mergulhava na escuridão, acolhida pelos braços fortes que prometeram sempre ampará-la, Ariel não se lembrou de sua vida como um anjo. Não se lembrou das asas, da queda, ou do que roubara do Céu.

Lembrou-se apenas de um dos segredos mais sombrios daquela alma imortal que fazia morada no frágil corpo humano.

Lembrou-se apenas do amor.

E então, apagou.

✶✶✶

Rafael foi do mais puro êxtase à mais excruciante agonia no intervalo de um único batimento cardíaco.

Nem mesmo o inferno seria tão cruel, conceder seu mais íntimo desejo, apenas para arrancá-lo violentamente no segundo seguinte. Em outros tempos ele apenas se atrevera a imaginar aquele momento, guardando-o no canto mais isolado de seu coração. Fantasiara uma existência onde o dever de ser um anjo não fosse o norte da sua bússola moral. Uma vida onde poderia ser livre. Uma vida onde amar não fosse considerado um pecado.

Ele deixara de ser um anjo. Era livre. Mas amar? Esse desejo foi enterrado há vinte e um anos quando Ariel o deixara. Tê-la agora em seus braços, se permitir sentir o sentimento que por milênios lhe foi negado, era avassalador.

A boca dela tinha gosto de maçã. O sabor do pecado original, doce e proibido, pelo qual valeria a pena perder o paraíso uma segunda vez. Mas a doçura se tornou ocre em sua boca no instante seguinte. Ao vê-la desfalecer, o gosto da maçã apodreceu.

Ele amparou sua queda, sentindo seu corpo quente arder contra o dele, como uma estrela em colapso.

— Ariel? — chamou, a voz falhando, carregada de um pânico que ele não sentia desde a sua queda.

Ele caiu de joelhos na areia fria, deitando-a com deliberado cuidado.

— Não se preocupe, eu irei curar você. — a promessa saiu trêmula, uma tentativa de encontrar ordem em meio ao caos.

Apoiou as mãos sobre seu coração, que batia frenético e descompassado. Fechou os olhos buscando por seu dom, resquícios da sua glória que se mantiveram depois de cair. Ele a canalizou, empurrando-a para dentro de Ariel, buscando o vírus, a doença ou dano físico que a fizera colapsar.

Mas nada aconteceu.

Houve um choque, uma repulsão violenta que fez as mãos de Rafael serem jogadas para trás.

Ele olhou para as próprias palmas, atordoado. Não era possível que estivesse falhando. Ele usara seu poder para salvar a amiga de Ariel. Estava lá, ele o sentia correndo em suas veias. Por que não funcionava? Por que se recusava a obedecer?

A compreensão caiu sobre ele com o peso de uma sentença de morte.

Seu corpo não estava doente ou ferido, mas a sua alma estava.

Essa ferida ele não poderia curar.

Uma alma fragmentada por escolhas não podia ser remendada por ele.

Lembrou-se das palavras de Gabe, que agora deixavam de ser um aviso fraterno e se tornaram uma maldição cruel: "a alma dela te reconhece e as lembranças voltarão cada vez mais fortes e indubitavelmente em algum ponto ela se recordará de tudo.”

— Eu deveria ter me mantido longe. — Lamentou, o corpo curvando-se contra a garota imóvel — Deveria ter aceitado que você merece o direito de não lembrar. Essa foi a sua escolha.

Ele fora egoísta, fraco. Permitira-se, por um único mísero instante de felicidade, esquecer as regras, esquecer o perigo, esquecer que ela era humana e ele não.

E, naquele momento, Rafael foi apresentado ao mais humano e aterrorizante dos sentimentos: a impotência.

A incapacidade absoluta de alterar o curso de um desastre que ele mesmo causou. Entendeu, com uma clareza amarga, por que os humanos passavam a vida de joelhos, orando.

Desejou poder fazer isso.

Apenas desejou, porque sabia de que de nada adiantaria quando não havia ninguém para ouvir as preces.

Ariel gemeu, um som de pura agonia, e se encolheu em posição fetal na areia. Tocou-lhe a testa, assustado com como ela parecia ainda mais febril. Balbuciava palavras sem sentido em uma língua há muito esquecida.

Rafael sabia que não podia levá-la para um hospital. A medicina humana veria a febre, os delírios, talvez a diagnosticassem com um surto psicótico ou uma infecção viral desconhecida, mas não poderiam curá-la.

Só havia um lugar. Um lugar onde ele poderia vigiá-la e tentar conter os danos.

Ele a ergueu nos braços, ignorando o calor febril que ela irradiava contra seu peito. Ariel parecia leve demais, frágil demais.

— Eu sinto muito... — murmurou contra os cabelos dela, que cheiravam a mar e a jasmim.

Rafael caminhou a passos largos até o estacionamento deserto perto da entrada da praia. Destravou seu carro, um sedan preto discreto, e a acomodou no banco do passageiro, reclinando o assento para que ela ficasse confortável.

Dirigiu pelas ruas vazias de Paradiso ultrapassando todos os limites de velocidade, suas mãos apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Seus olhos alternavam entre a estrada escura e o rosto contorcido de Ariel ao seu lado.

Ele deveria ir embora.

Antes dele chegar a Paradiso, ela tinha uma vida normal. Se fosse para o outro lado do mundo talvez ainda pudesse... Balançou a cabeça em negação. Já era tarde. Miguel estava na cidade e Uriel seguia cada passo dele. Demônios rondavam o lugar. Anjos caídos estavam sendo atraídos como um imã à cidade. Lembrou-se novamente de Gabe dizendo que ele é o melhor protetor que ela poderia ter.

Exceto que ela só precisava de proteção por culpa dele.

Era um paradoxo cruel. Para salvá-la dos inimigos, precisava estar perto. Para salvá-la de si mesmo, precisava estar longe.

Chegou ao prédio antigo onde morava em tempo recorde. Estacionou de qualquer jeito na frente, desligou o motor e correu para pegar Ariel. Subiu as escadas com ela nos braços, chutou a porta do apartamento para entrar e a fechou com o pé.

O lugar estava escuro e silencioso, cheirando a livros velhos e solidão.

Ele a depositou com reverência no sofá de couro gasto. Ariel tremia violentamente agora, o choque térmico tomando conta. Rafael correu para o quarto, arrancou as cobertas da cama e voltou, cobrindo-a.

Foi até a cozinha, encheu uma bacia com água fria e pegou toalhas limpas. Ajoelhou-se ao lado do sofá e começou a limpar o suor do rosto dela, cada toque uma tortura, cada respiração falha dela uma acusação.

— Apenas aguente firme — pediu, a voz embargada, passando a toalha úmida pela testa dela.

As horas se arrastaram, dolorosamente lentas. Rafael trocava as toalhas, vigiava a respiração, mas a febre não cedia.

E quando a reação finalmente veio, ainda de madrugada, não foi um despertar suave.

Foi um grito, agudo, doloroso, rasgando o silêncio do apartamento.

Seus olhos abriram desnorteados, vidrados de terror. Ela se sentou num impulso violento, agarrando o braço esquerdo contra o corpo

— Está queimando! — Ariel gritou.

Rafael sentiu o cheiro antes de ver. O odor inconfundível e nauseante de pele sendo queimada.

Ele segurou o pulso dela, puxando o braço para a luz.

Ali, na pele pálida do antebraço, uma luz vermelha pulsava de dentro para fora, queimando a carne de dentro para fora e formando cicatrizes instantâneas. Não era um ferimento aleatório. Eram letras.

Rafael reconheceu a palavra em hebraico antigo, tatuada a ferro e fogo na pele dela: עָזַב (azav)

Abandonar.

A marca de sua abdicação à vida angelical. Um lembrete de tudo aquilo que ela não poderia mais ter.

✶✶✶

Ariel puxou o braço com violência, escondendo a marca contra o peito. Um gesto puramente instintivo, como se ao esconder a ferida dos olhos de Rafael, pudesse também reprimir aquele estranho sentimento que subitamente a consumia ao estar perto dele. Sempre gostara da forma como Rafael a olhava, um misto de curiosidade cálida com uma leve melancolia, pensava que essa era uma das razões para se sentir tão atraída pelo professor além dos sonhos que costumava ter com ele.

Mas agora havia mais.

Muito mais.

Algo que Ariel não era capaz de compreender, ainda.

O olhar transbordava preocupação real e tristeza profunda. Mas era aquela estranha adoração que a incomodava. Ela não merecia isso. Ela não o merecia. Só não sabia explicar o porquê. Concentrou-se na dor. Era mais fácil focar na enxaqueca que borrava a sua visão, do que nos mistérios de como um simples olhar podia afetar tanto seu coração.

A mente humana funciona de maneira peculiar.

Era capaz de reter a letra de uma música de um comercial ouvida há dez anos, de recordar-se do cheiro de alguém que há muito se foi, mas ainda assim deixava escapar aquilo que mais precisava saber. A sensação permanecia lá, com um lembrete constante daquilo que precisava recordar, mas não era capaz.

Por um segundo — um mísero e devastador segundo durante aquele beijo — Ariel tivera tudo. Todas as partes fragmentadas se juntaram. Milênios de lembranças retornaram de uma única vez, sobrecarregando-a.

Ela se sentira completa.

E então, tal qual um sonho bom que se desfaz ao abrir dos olhos, tudo se escorregara para um canto sombrio e trancado a sete chaves.

Só ficando um sentimento.

Aquele estranho e sufocante sentimento.

Ariel fechou os olhos com força, na esperança de no completo escuro encontrar alguma lembrança que ficara e puxá-la de volta para a claridade, mas eram todas como um vendaval. Intangíveis e instáveis. Deixando para trás apenas a sensação de perda.

— Ariel... — A voz de Rafael a alcançou perfurando seus pensamentos e trazendo-a de volta para o mundo real. Ele estendeu a mão, ansioso por ajudá-la de alguma forma.

Ariel recuou, encolhendo-se contra o encosto do sofá, fugindo do seu toque.

Quando seus olhos finalmente encontraram os dele, verdes cálidos e cheios daquela devoção que ela não sabia explicar, aquele sentimento estranho que ela não se atrevia a nomear, gritou dentro dela.

Tudo havia ido embora. Exceto ele.

Sentiu dor.

Não apenas naquela parte vazia do seu coração, mas uma dor física. Uma pontada aguda direto para o braço marcado. Olhar para Rafael doía. Como olhar diretamente para o sol em um dia de verão, ela queria fazê-lo, mas seus olhos estavam desacostumados com a luz. E além da dor, veio a culpa. Uma culpa antiga, pesada, sem nome e sem motivo aparente. Estar na presença dele parecia errado, como estar na cena de um crime que ela mesma cometera, mas do qual não se recordava dos detalhes.

Azav. Abandonar.

A marca queimou em seu braço, agindo como um aviso silencioso, mas doloroso daquele mal que sua alma sabia que ela tinha causado, mas que sua mente humana desconhecia.

— Onde eu estou? — ela perguntou, a voz saindo fraca, um fiapo de som no silêncio do apartamento.

— Está no meu apartamento.

Ela desviou o olhar para o chão, para a estante repleta de livros que em outro momento despertaria sua atenção, adoraria saber o que Rafael gostava de ler. Mas precisava se concentrar em olhar para qualquer lugar que não fosse o rosto dele, que não lembrasse dele.

Rafael parou, a mão ainda suspensa no ar ansiosa para confortá-la de alguma forma. A dor da rejeição cruzando seu rosto por um instante antes de ser mascarada pela preocupação.

— Você teve uma reação forte — ele disse, escolhendo as palavras com o cuidado. — Uma crise, acho. Não estou muito certo.

— Foi a vidente no parque. — Ariel lançou a acusação rápido demais, agarrando-se àquela explicação lógica com a força do desespero. Era preciso haver um culpado, algo externo, algo tangível. Algo racional. — Saiph. Ela... ela usou algum incenso. Havia um cheiro doce lá dentro. Ou talvez tenha me hipnotizado com sua voz. Ou tive um ataque de pânico. Foi isso. — Me desculpe.

Ela sabia que era mentira.

Rafael sabia que era mentira.

No fundo Ariel sabia bem que o que sentira na praia — a completude, o reconhecimento, o amor — fora a coisa mais real que já experimentara em toda a sua vida. Naquele pequeno instante em que durou o beijo todo seu ser se tornou inteiro outra vez, mas também era assustador.

— Eu preciso ir embora — decretou, tentando se levantar. As pernas tremeram, o mundo oscilou, mas ela forçou-se a ficar de pé, apoiando-se no braço do sofá. — Preciso ir para casa.

— Você mal consegue ficar em pé, Ariel. — Rafael tentou argumentar, dando um passo à frente.

— Não! — O grito saiu mais alto do que ela pretendia. Ela ergueu a mão para detê-lo. — Não chegue perto. Por favor.

Rafael congelou, recebendo a rejeição quase como um golpe físico.

Mas apesar do que compartilharam ter mudado algo essencial e para sempre naquele anjo caído, apesar de por um breve momento ele ter deixado seu coração se inflar com a traidora esperança de que o universo não estava abandonado. De que talvez, apenas talvez, houvesse redenção para um anjo que caíra por amor.

Mas não. Isso não aconteceria, porque se havia algo que Rafael aprendera em milênios escondendo seus próprios sonhos para cumprir o propósito de sua existência é que os desejos do seu coração jamais seriam ouvidos.

E então ele assumiu novamente seu papel, o de amigo. Nobre o suficiente para respeitar a decisão dela, assim como fizeram duas décadas atrás.

Afinal, não era essa a origem de toda a sua tragédia? As escolhas de Ariel?

Quando ela decidiu trair os Céus, ele não tentara impedi-la, mesmo desconhecendo seus motivos. Ele não a segurara. Ele apenas a seguira, com o único intuito de garantir que ela jamais estivesse sozinha.

Irônico, considerando que no final, ele foi o único a ser abandonado.

— Me leve para casa — ela suplicou, a voz quebrando, as lágrimas de confusão e dor ameaçando transbordar. — Eu só quero ir para casa.

✶✶✶

A curta viagem até a casa da mãe de Ariel foi feita em um silêncio pesado, casando perfeitamente com a madrugada nublada e as ruas vazias da cidade da Paradiso. Uma névoa fina, trazida pela maresia, embaçava o painel do carro e transformava os postes de luz em pequenas estrelas difusas e amareladas.

Ariel manteve o rosto virado para a janela observando as casas e prédios semiescondidos pelo nevoeiro, o braço esquerdo apertado contra o estômago como se tentasse proteger o que estava ali. Perto o suficiente para sentir o calor que emanava de Rafael, mas com a mente vagando a anos luz de distância do seu coração ansioso.

Ele não a questionara quando pedira para levá-la para a casa da mãe, ao invés do apartamento que dividia com a amiga. Não interrompera o silêncio ao qual ela tão insistentemente se abraçara, ainda que tivesse um mundo de perguntas a fazer.

Em um outro momento, talvez.

No tempo dela.

Quando Rafael estacionou em frente à casa de tijolos brancos e jardim bem cuidado, Ariel não esperou. Abriu a porta, a urgência em seus movimentos denunciando o quanto ela queria se afastar.

— Obrigada — ela disse, sem olhá-lo. — Por... me ajudar, Rafe... —o apelido afetuoso deslizou pelos seus lábios, antes que Ariel pudesse contê-lo. O mero resquício de uma lembrança.

— Sempre — ele respondeu, com o coração pesado.

A palavra ficou suspensa no ar úmido da noite. Não era uma simples resposta educada. Era um juramento. Uma promessa antiga, forjada em eras passadas, que Ariel ainda não conseguia compreender a extensão.

Ela bateu à porta e correu para a entrada, a imagem de uma fugitiva escapando da cena do crime. Rafael esperou até ver a luz da sala acender, garantindo que ela estava segura, antes de sair com o carro.

Seus olhos estavam embaçados, a atenção longe da estrada, focada no abismo que se abrira entre eles. Focada nos problemas que teria que resolver, e não tivera tempo porque estava concentrado em Ariel.

Tinha certeza que Uriel o estava seguindo, e provavelmente havia visto o beijo e toda a cena na praia... Quanto tempo teria antes de Miguel descobri-la? Precisava de um plano de contenção de dano, mas não conseguia se forçar a pensar em nada.

Mal virara a esquina da rua de Ariel chegando em uma encruzilhada quando uma sombra pequena atravessou a rua correndo, saindo de trás de uma árvore.

Rafael pisou no freio com violência. Os pneus cantaram, o carro derrapou e parou a centímetros do pequeno corpo. O coração dele disparou. Ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto, tremendo. Quase acertara o pequeno animal.

Mas quando olhou pelo para-brisa, o animal não havia fugido.

O gato preto estava sentado no meio da rua, iluminado pela luz quente dos faróis, encarando-o com olhos amarelos e uma calma inabalável.

Voldy.

Rafael franziu o cenho. O gato de Ariel deveria estar no apartamento dela na região central de Paradiso. Como chegara no subúrbio tão rápido?

O gato inclinou a cabeça. E então, sorriu. Um sorriso humano, repulsivo em um rosto felino.

A sombra do animal no asfalto se distorceu, crescendo e se contorcendo, ganhando curvas femininas, chifres curtos e asas que pareciam esqueletos quebrados.

Rafael saiu do carro, batendo a porta, a fúria substituindo o medo. Ele caminhou até a frente do veículo, apenas para ver o gato tombar para o lado, desfalecido, como uma marionete que teve as cordas cortadas.

— Lilith. — O nome saiu como um gosto ruim na boca, um reconhecimento amargo.

Era estranho vê-la assim, em sua forma verdadeira, sem uma "casca" humana escondendo o que ela se tornara. O corpo enegrecido, parecendo ter sido chamuscado por chamas intensas, o lugar onde ficavam as majestosas asas, agora havia apenas ossos retorcidos com pontas afiadas e algumas poucas penas cinzentas e apodrecidas.

Era o que acontecia com anjos que se juntavam ao inferno.

— Cuidado, Rafael — a voz feminina e debochada reverberou pela rua deserta — Quase estragou minha casca favorita. Seria uma pena se você matasse o bichinho de estimação da nossa estimada Ariel, não?!