Lost Stars
14 Capítulo 13 - O Mercado das Sombras
Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para dentro de você.
Friedrich Nietzsche
Desde os primórdios dos tempos fala-se em demônios.
São eles que sussurram atrocidades nos ouvidos humanos, que viram irmão contra irmão, que destroem lares e forçam as pessoas a cometerem os piores pecados. Mas, no fim, são os demônios que corrompem os homens, ou os humanos apenas os usam como uma desculpa conveniente para justificar a escuridão que já carregam dentro de si mesmos?
A capacidade para o bem e para o mal existe em qualquer ser, não importa qual o seu papel no mundo. Até mesmo um anjo pode ser mau, houve muitos deles que caíram por causa disso, Lúcifer mesmo foi um dos mais primorosos anjos antes de escolher um outro caminho.
Partindo dessa premissa, um demônio também pode ser bom, embora ninguém tenha visto um assim para provar, mas o poder reside na fé. E, principalmente, nas escolhas. Na crença teimosa de que uma flor sempre pode florescer no terreno mais hostil. Talvez uma flor carnívora e com espinhos, mas ainda assim, uma flor.
O estômago de Rafael se contorceu. Não era apenas a aparência de Lilith que o incomodava, mas a sensação de que o ar ao redor dela parecia errado, como se a vida se recusasse a ocupar o mesmo espaço daquilo que parecia ser um anjo em decomposição. Ele a observou caminhar ainda mais na direção da luz difusa e trêmula do poste, sua imagem mostrando-se ainda mais grotesca, os olhos amarelos e felinos o encarando com a diversão de um caçador que encontra a mais deliciosa presa.
— Minha imagem te causa repulsa? — Ela inclinou a cabeça, o estalo dos ossos de suas asas soando como galhos secos sendo pisoteados no outono.
Rafael não cedeu a provocação de imediato. No bolso, seus dedos se apertaram ao redor do cabo da adaga que sempre carregava consigo, não por medo, mas por um instinto de preservação que parecia quase ridículo diante dela.
Lilith sempre fora mestra na arte de irritá-lo. Desde a época em que ambos lutavam no mesmo exército, mas Rafael cultivara o hábito de tratá-la como um ruído de fundo, sempre presente, mas fácil de ignorar. Ele nunca soube exatamente como e porque ela caíra. Miguel tinha o péssimo hábito de manter todas as informações trancadas a sete chaves e Lilith também não lhe contou. Tudo o que sabia era que, meros meses após sua própria queda, ela o procurara com a proposta de se juntar ao Inferno. Uma oferta que vinha repetindo, incansavelmente, pelos últimos vinte e um anos.
Em todos os outros encontros Lilith se preocupara em ostentar "cascas" humanas que beiravam a perfeição angelical, mas esta era a primeira vez que exibia sua imagem real. E dessa vez Rafael via a degradação literal de um anjo que havia sucumbido às trevas. E embora a visão fosse antinatural e o cheiro pungente, não era repulsa que o mantinha paralisado no asfalto, apenas a observando.
Era cautela.
Ela usou a casca de um gato para manter-se oculta e se aproximar de Ariel durante meses e estava se revelando agora. Por que? E principalmente o quanto ela sabia?
— O que você está fazendo aqui? — A voz de Rafael era tensa, porém ele se esforçou para que soasse firme e levemente cortês. — Estou te avisando, eu não tenho tempo para seus jogos hoje, Lilith.
— Que pena. – Respondeu com deliberado desinteresse, dando passos certeiros, porém vagarosos em direção a Rafael, sua sombra crescendo à medida em que se afastava da luz, desenhando uma imagem realmente demoníaca no asfalto – Eu só queria o prazer de uma conversa com um velho... Companheiro de exílio.
— O que você realmente quer? — Ele deu um passo à frente, disposto a não permitir que Lilith fizesse um dos seus joguinhos ou que sentisse que estava no controle. O cheiro de enxofre quase o sufocou, mas seguiu em frente. Lilith poderia ter o fator surpresa, mas desconhecia o tamanho da força de Rafael.
— Conversar sobre nossa “amiga” em comum? — Lilith girou o corpo se desviando de Rafael e encostando no capô do carro, um sorriso cínico em seus lábios, olhos vazios piscando com uma inocência forçada – Aquela que desmaiou em seus braços após um simples beijo.
Cada fibra do corpo de Rafael se tensionou, os dedos ao redor da adaga se tornaram tão firmes que se arma não fosse feita de metal, teria se desfeito em poeira.
— Vá embora. Agora. – Qualquer resquício de cortesia controlada desapareceu, dando lugar à expressão austera do guerreiro feroz que ele costumava ser. – Ou me certificarei de que nunca mais você pise na terra.
Lilith apenas riu, mantendo a postura relaxada.
— Você já foi mais divertido, Rafael. — Esquivou-se verbalmente da ameaça, gesticulando com uma mão que mais tinham a aparência de garras afiadas. — Eu não posso ir embora. A nossa Ariel precisa do bichinho de apoio emocional dela, ainda mais em um momento em que as coisas estão tão confusas naquela cabecinha humana frágil.
— Lilith, eu juro que se você encostar um dedo nela....
— Relaxe, querido. — Lilith o cortou, desdenhosa. — Eu não tenho interesse em machucar a sua preciosa humana defeituosa que abriga uma alma angelical. Pelo menos, não por enquanto. Digamos que nossos interesses estão... alinhados momentaneamente.
— Como você a encontrou? — A pergunta saiu curta, perigosa.
Lilith soltou um suspiro teatral, mas o brilho em seus olhos era de puro triunfo satisfeita em finalmente ter a atenção de Rafael. Ela deu a volta no carro, arrastando uma garra sobre o metal, cortando o silêncio da rua com um rangido insuportável.
— Vou te contar uma coisa sobre o inferno. — falou com uma expressão confidente — Lúcifer é um monarca que compartilha o fardo da informação. Ele não é como Miguel que esconde todo o conhecimento para si. E como Lúcifer foi o primeiro de nós, ele se lembra da época em que as regras ainda estavam sendo escritas. Ele sabe coisas que você nem imagina, Rafael...Coisas que o próprio Criador planejou...
Rafael sentiu a armadilha que ela criara, mas não iria ceder.
— Eu não estou interessado no que Lúcifer te contou. — Seguiu os olhos do demônio enquanto ela dava a volta ao redor de seu carro, um sorriso de quem sabe algo e está louco para revelar apenas pelo prazer de atormentar.
— Bem, você deveria ainda mais quando diz respeito a você e a sua querida Ariel.
— Como você a achou? — insistiu, ignorando a isca.
— Ah Rafael... – sua voz era condescendente — Foi simples, eu só precisei ficar de olho em você por vinte e um anos. Você sempre orbitou ao redor dela, como um satélite patético e fiel. Então eu fui paciente e por duas décadas observei você vagar pela Terra, agindo como um deles, vivendo com um deles. Uma sombra apática do que um dia você já foi. Já vi cadáveres com mais brilho nos olhos do que você. Mas então, ela apareceu. E quando você a olha... — Lilith esticou um dedo esquelético, quase tocando o peito de Rafael — Bum ... A vida volta a correr nas suas veias com uma violência que o Céu nunca permitiria. Você reencontrou seu Sol.
Rafael queria rir, Lilith havia sido precisa. Mas isso o deixava com um problema a mais. Quem mais poderia perceber?
— Ninguém mais pode saber da existência dela. – O tom de comando reverberou por sua palavras, mas não atingiu seu alvo que apenas sorriu.
— Eu fico imaginando o que Miguel faria com essa informação — divagou parando com um sorriso frio bem a frente de Rafael — Acredito que não iria matá-la, mas ele certamente sabe torturar alguém, pode imaginar quanto tempo uma humana resistiria a Miguel?
Não queria imaginar.
— Chega! – Num movimento rápido, Rafael a empurrou contra o carro prensando a adaga no pescoço de Lilith, um filete negro de sangue escorreu, mas ela continuou a falar.
— Eu gosto de ser a única, além de você, a saber quem a humana realmente é. Mas depois do pequeno showzinho na praia, ficou impossível esconder. O beijo de vocês? Não foi um sinalizador, Rafael. Foi uma supernova. Você gritou o nome dela para o universo inteiro ouvir. Acha mesmo que eu seria a única a escutar? Como Uriel tem estado no seu encalço há semanas, se ele corresse e contasse a Miguel que o nobre anjo Rafael se apaixonou por uma humana... Isso certamente atrairia a atenção do nosso desquerido General para o alvo errado.
— Eu lidaria com Uriel depois. — Rafael rebateu, a mandíbula travada, sabendo que o colapso de Ariel realmente o fizera negligenciar a própria retaguarda.
— Não é mais necessário. — Lilith deu de ombros — Eu já resolvi. Considere uma demonstração adiantada da minha boa-fé. Mas isso só compra tempo. E tempo é uma moeda cara, Rafael. — inclinou-se contra a adaga sorrindo enquanto o ferimento se tornava mais profundo — E eu cobro juros altos.
Rafael não abaixou a guarda, mas permitiu-se afrouxar o aperto em seu pescoço, ponderando as palavras. Ganhar tempo era bom, mas não era algo definitivo. Ele não conseguiria esconder Ariel para sempre.
— Eu poderia simplesmente matá-la aqui e agora, problema resolvido.
— Você poderia, mas não vai.
— Você não me conhece, Lilith. – voltou a pressionar a garganta dela.
— Conheço o suficiente para saber que nada no mundo importa mais do que ter sua Ariel de volta. – a voz saiu arranhada pelo aperto — Mantê-la viva é seu objetivo principal, e você não está indo muito bem.
— O que você quer dizer com isso?
— Ah, você não sabe? — Ela perguntou com uma doçura ácida. – A alma dela reconhece a sua e está lutando para te reencontrar, mas o corpo humano é frágil demais para conter uma alma angelical.
— Você está mentindo. – Ele disse — É isso que sua espécie faz! Mentiras e manipulações.
— Você tentou curá-la e o seu dom foi rejeitado, não foi? Que humilhação para o grande curandeiro do Céu... Não conseguir salvar a única alma que importa.
Rafael cedeu, o braço com a adaga caindo ao redor de seu corpo.
— Ela está bem, foi só uma reação.
— Não foi uma simples reação, querido. — Lilith aproveitou que estava livre para segurar o queixo de Rafael, forçando-o a encará-la nos olhos. — Pense comigo: se uma alma demoníaca queima e destrói uma casca humana em menos de um mês, o que você acha que uma essência celestial faria? A lógica aqui é exatamente a mesma.
O rosto de Rafael ficou lívido. Ele tentou recuar o rosto para se livrar daquele toque sórdido, mas os dedos de Lilith se travaram em sua mandíbula, obrigando-o a sustentar o olhar dela enquanto o peso da revelação o paralisava. Lilith sorriu, sabendo que ele estava se lembrando de quantas vidas mortais foram perdidas simplesmente porque demônios gostavam de brincar com os humanos. Se a alma impura de um demônio corroía um homem por dentro como ácido, uma alma angelical tentando despertar causaria o mesmo efeito devastador, queimando com sua luz o corpo frágil de Ariel.
— Sua preciosa Ariel está tentando quebrar as barreiras de um ritual que ela mesma se impôs — continuou Lilith, sua voz descendo para um sussurro cúmplice. — Se ela pressionar um pouquinho mais, se libertar a alma angelical presa nessa casca de carne... Se ela desmaiou com um simples beijo, imagine o que um completo despertar fará com o corpo dela? Eu aposto que ela queimaria viva. E eu talvez saiba como evitar isso... Mas, bem, a morte faz parte da vida dos humanos, não é
— Vá direto ao ponto, Lilith — Rafael rugiu – Como eu evito?
— Hum, não ainda. Eu te disse, Rafael, eu sei de coisas que você nem sonha, segredos guardados antes de você e Ariel existirem. Eu os darei a você, assim como garantirei que Ariel sobreviva.
— E o seu preço? — Anjos caídos não fazem caridade. Demônios, menos ainda.
— Um acordo. — Lilith sorriu, e a sombra do demônio no asfalto pareceu envolver os pés de Rafael. Capturando-o na armadilha. — A pequena humana terá minha proteção, nenhum demônio ou anjo chegará perto dela.Exceto você claro. – piscou — Criarei distrações necessárias para manter Miguel longe daqui. Te ajudarei a ter sua amada de volta... E em troca...
Rafael sentiu a garganta secar.
— Você quer a Arca. — Rafael sentia o peso daquela palavra. Entregar a Arca era entregar a chave da criação para quem só sabia destruir.
— Eu quero deixar de sentir o cheiro da minha própria carne apodrecendo, Rafael. — A fachada de sarcasmo de Lilith caiu por um segundo, revelando a agonia nua de um ser que odiava a própria pele. — Eu quero o que o poder dela pode fazer por mim. E você... você quer que sua amada respire amanhã. Um preço justo, não acha?
Ele fechou os olhos e viu o rosto dela na praia. Ouviu novamente seu nome sendo sussurrado por ela.
Rafe.
Ele sabia que nunca seria capaz de escolher qualquer outra coisa que não fosse ela. Mas sentiu o peso da traição: sua escolha esmagava o sacrifício que Ariel fizera no passado para manter aquela relíquia escondida.
— Feito. – A palavra pesou como uma lápide, sepultando o que restava da pureza daquele anjo caído.
Lilith não esperou. Rasgou a palma da mão com uma rapidez predatória. O sangue negro e denso começou a borbulhar, exalando um odor de enxofre.
— Eu prometo proteger sua amada, Ariel e evitar sua auto destruição. — esticou sua mão na direção de Rafael — Sua vez.
Rafael sacou a adaga de prata e cortou a própria pele, o corte foi limpo, mas a dor foi além lembrando-o de que estava prestes a fazer algo muito errado.
— Prometa, Rafael. — A voz do demônio vibrava com uma urgência quase desesperada. — Prometa que, assim que tiver o que eu quero, você me dará.
Ele segurou a mão dela, sangue vermelho encontrou o viscoso negro. A ardência do pacto correu em suas veias, pulsando e lembrando-o que aquilo não era um simples acordo, era uma promessa viva capaz de envenenar o sangue de quem não a cumpria.
— Eu prometo — ele sussurrou. — Entregarei a Arca da Aliança em suas mãos, Lilith. No instante em que ela estiver em meu poder, ela será sua.
Lilith abriu um sorriso de predadora satisfeita. Aquelas eram as palavras que ela mais ansiava ouvir. Tinha bastado o incentivo certo para que Rafael, guiado pelo desespero e por aquele amor forjado há eras em sua essência, selasse o destino do mundo para salvar um único coração.
✶✶✶
Enquanto em um canto escuro de Paradiso um anjo caído e um demônio selavam um pacto de sangue nas sombras, do outro lado da cidade, no ponto mais alto do prédio antigo e imponente da prefeitura, outra rachadura se abria no que restava do Céu.
Miguel observava o céu escuro e sem estrelas. Se alguém pudesse vê-lo ali, naquela altitude, certamente pensaria que sua imagem se assemelhava à de um vigilante noturno, com sua capa preta esvoaçante, a espada pesada presa à cintura e a postura rigidamente esculpida contra o horizonte, como uma gárgula presa ao parapeito. Não estariam muito longe da verdade. O Príncipe da Milícia Celeste vigiava... Mas não a cidade humana sob seus pés. Seu olhar perdido na noite escura e sem estrelas, buscando por respostas de um lugar que, há milênios, permanecia silencioso. Embora gritasse muitas perguntas ao vácuo, o altivo General guardava em seu íntimo a única dúvida que nunca se atrevera a falar em voz alta: Deixara de ser digno?
O som de asas batendo de forma descoordenada e abrupta o despertou de seus pensamentos. Miguel censurou-se, permitir-se um momento de distração era uma falha que não tolerava em seus subordinados, muito menos em si mesmo. Sem olhar para trás, manteve a voz calmamente autoritária.
— Algo o fez retornar mais cedo de sua missão, Uriel?
Recebeu apenas uma tosse abafada e úmida como resposta.
— Uriel? — insistiu, a mandíbula se contraindo ao notar o ritmo arrastado da respiração atrás de si.
Ao virar o corpo em direção ao soldado, Miguel arfou. O choque da imagem o desestabilizando por um milésimo de segundo. Uriel estava ajoelhado, apoiado em apenas uma perna, cuspindo um sangue denso no concreto do teto. No rosto, uma linha comprida e violenta exibia uma marca de ferimento quase seco. O horror maior, porém, estava nas costas: parte de suas asas havia sido brutalmente ceifada, explicando por que o bater de asas que Miguel ouvira instantes atrás era tão descoordenado.
Uriel ergueu os olhos, a respiração ruidosa, o olhar carregado de um rancor que nunca antes tinha estampado o rosto daquele leal soldado.
— Você tem mentido — acusou o soldado, a voz arranhada pela dor.
Miguel manteve a postura de comandante, embora as palavras fizessem o chão sob seus pés parecer ceder.
— No que, especificamente?
— São tantas mentiras assim, Miguel? — Uriel soltou uma risada amarga, que terminou em mais um engasgo com o próprio sangue.
— Eu não tenho que me justificar a você. — A voz de Miguel chicoteou o ar, gélida, tentando retomar o controle absoluto da situação. — O que aconteceu? Sua missão era simplesmente seguir Rafael, não acredito que ele conseguiria deixa-lo nesse estado.
— Encontrei em meu caminho um prisioneiro conhecido... que escapou do Purgatório por portas que você jurou que nunca havia sido abertas. — Uriel tateou o próprio rosto ferido, os dedos trêmulos de exaustão. — Ganhei essa marca feita pela espada mais sagrada que há. Tive parte das minhas asas ceifadas por essa mesma lâmina... a única no universo capaz de cortar as asas de um anjo. Mas me diga, General, como isso seria possível... se você mesmo mantém a Moriá segura junto de si?
O silêncio que se seguiu no topo do prédio foi absoluto. Miguel não respondeu. Os olhos do anjo ferido cortaram em direção a espada embainhada na cintura, a qual o General segurava firmemente.
— Então encontraste o pai dos nephilins? — A voz de Miguel desceu um tom, desprovida de qualquer emoção humana.
— Ele me encontrou — Uriel corrigiu, tateando o chão, forçando-se ao impulso que precisava para ficar de pé, mas não encontrou forças. — E não estava sozinho. Estava junto dos três anjos que você expulsou dos céus por tentarem roubar a Moriá. Ao que parece uma tentativa muito bem sucedida.
A revelação fez os dedos de Miguel se apertarem envolta da empunhadura da falsa espada em sua cintura, um reflexo antigo. O passado que ele tentara soterrar estava marchando de volta.
— Rafael estava certo sobre você... — a voz de Uriel fraquejou, mas o veneno em suas palavras foi nítido. — O nobre General Miguel. O guardião das leis. É tudo uma fachada, não é? Você não se importa com o trono, não se importa com os seus soldados, e certamente não se importa com o sangue que derramamos em seu nome. Você só se importa com você mesmo. Com o seu próprio orgulho.
Miguel deu um passo à frente. O ar ao redor deles tornou-se tão pesado que o concreto sob os joelhos de Uriel pareceu estalar. A menção ao irmão caído foi um golpe direto na armadura do General.
— Meça suas palavras, Uriel. Você está falando com seu líder.
— Eu estou falando com um mentiroso! Você só é o líder porque tomou este lugar. — Uriel esbravejou, erguendo o queixo, encarando pela primeira vez com outros olhos aquele que jurou seguir. — Olhe para as minhas costas! Eu fui mutilado pela arma que você jurou que estava protegida. Quantos de nós nos colocamos na linha de frente por você, que se nega a nos dizer a verdade? Tudo para não admitir que falhou!
Miguel sustentou o olhar do subordinado, forçando a cabeça de Uriel a baixar milimetricamente sob o peso de sua autoridade. Por trás da máscara de pedra do inatingível General, a ferida do orgulho sangrava. Havia milênios de uma fúria silenciosa cultivada dentro de seu ser, mas o General limitou-se a engolir aquela humilhação. Ele precisava de controle. Precisava ser olhar a situação com frieza, mais do que que precisava punir a insolência de um soldado.
— Você está ferido e irei ignorar sua insolência, dessa vez. Apenas me diga onde eles estão?
Uriel soltou um riso fraco, e balançou a cabeça, incrédulo diante da frieza do Arcanjo.
— Eles saíram da cidade. Ouvi algo sobre irem para o norte. — Uriel desabou um pouco mais sobre o joelho, seu corpo estava fraco, desbalanceado pela asa incompleta.
Miguel olhou para o horizonte ao norte, onde as luzes de Paradiso terminavam e a escuridão das estradas começava. Não gostava de admitir, mas Uriel estava certo. Sua mentira estava cobrando seu preço, e a moeda de troca seria o sangue de seus próprios soldados, algo que ele não poderia aceitar.
— Volte para casa, Uriel. — Miguel ordenou, a capa esvoaçando com força quando ele virou as costas para o subordinado. — Esta caçada eu terminarei sozinho. Vou lembrar a todos por que o peso do comando é carregado apenas por mim.
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