Lost Stars

12 Capítulo 11 - Supernova


Mas será que somos todos estrelas perdidas tentando iluminar a escuridão?

- Adam Levine


Havia oitenta e uma estrelas na constelação de Órion.

Umas são mais brilhantes e maiores como Rigel, Saiph ou Bellatrix, e podem ser admiradas aqui mesmo da terra, a olho nu. Outras há muito perderam seu brilho extravagante e se tornaram pequenas anãs brancas, sombras singelas das majestosas estrelas que um dia trouxeram luz ao universo.

No Orion’s Nebula não havia oitenta e uma estrelas.

Ainda.

Havia Rigel, sua grande atração principal. O ilusionista que brincava com a mente humana, que abria os olhos da plateia para a mágica que tão teimosamente nos negávamos a enxergar.

E Bellatrix, a trapezista com seu cabelo escuro indomável e sorriso feroz que desafiava sem medo a gravidade. Como se soubesse que era feita da mais leve poeira estelar, feita para planar no cosmo.

E claro, havia Saiph. Mas há muito tempo que Orion já não era capaz de fazê-la voltar a brilhar. Deixara-a, parecia menos infeliz quando ficava imersa em seus próprios e sombrios pensamentos.

Todos eram como seus filhos.

As estrelas de sua constelação.

Havia outras, perdidas pelo mundo, inconscientes do brilho próprio que emitiam.

Por isso o Orion’s Nebula estava em constante movimento, indo de cidade em cidade, sempre que sentia um resquício de mágica. O peculiar circo costumava aparecer e desaparecer nos lugares mais improváveis e sem aviso prévio, envolto de uma névoa de mistério e misticismo.

Orion ainda buscava por suas estrelas perdidas.

Por trás das cortinas observava com um orgulho quase paternal, seu mágico encerrar o espetáculo. Rigel, apesar da sua brilhante capa azul celeste, do característico chapéu que cobria a careca e do bigode levemente retorcido para cima, não era capaz de simples truques com cartas ou tirar coelhos da cartola. Tampouco enganava as pessoas como muito charlatões por aí.

Ele via a mágica.

Desde criança os humanos simplórios tentaram convencê-lo de que ele sofria de uma condição chamada sinestesia, por isso o pobre garoto nunca ficou muito tempo em um lar adotivo, nenhuma família entendia o que ele via. Crescera ouvindo as pessoas chamando-o de louco, zombando de suas visões ou apenas tendo pena. Ninguém nunca tentara entendê-lo, sequer pararam um minuto para ouvi-lo. Foram muitas visitas a médicos e psiquiatras, e por fim o relegaram a uma clínica duvidosa. Se não fosse por Orion que o reconheceu pelo o que era e o resgatou, sua maior estrela ainda estaria lá, tendo seu brilho apagado aos poucos, de dose em dose.

Ah, pobres dos humanos, com suas mentes fechadas e sempre buscando soluções lógicas para uma verdade tão simples! E quando nem mesmo a lógica faz sentido, escondem o inexplicável longe de suas vistas, até se esquecerem de que ele existe.

Mágica.

Orion a sentia agora, não apenas em Rigel, mas além dele também.

Estava sentada a primeira fileira na plateia.

Não era como suas estrelas.

Mas ainda assim, brilhava tanto que era impossível não olhá-la, impossível não querê-la em sua pequena constelação.

✶✶✶

Ariel se remexeu na cadeira.

Era a primeira vez em quase duas horas que seu olhar se desviava do palco, inexplicavelmente indo para além das pesadas cortinas.

Tinha sido cativada pelo espetáculo tão único logo no começo. Todas as apresentações contavam uma história, havia se encantado pelo conto da astronauta que era apaixonada pelo sol e para chegar até seu amado, a trapezista saltava de um planeta ao outro sem medo, desviando de chuvas de asteroides com suas piruetas, enfrentando corajosamente buracos negros que a transportavam para o outro lado da galáxia, e quando finalmente chegou ao sol, seu brilho a cegara e seu calor a fizera simplesmente desaparecer em uma explosão cósmica.

Oh, a história era triste.

Quase todas eram assim no circo Orion. Talvez por isso Ariel se encantara tanto pelo amor impossível entre a astronauta e o sol. Não era sobre viver o amor, mas sobre encontrá-lo, lutar por ele até o fim, por mais trágico que este pudesse ser.

E toda apresentação trazia uma lição sobre a vida, sobre amor. E ao mesmo sobre o universo.

Um conhecido e trágico romancefoi representado de forma teatral pelos domadores de fogo. Contando a história de dois dos maiores guerreiros de tribos rivais que, contra todas as probabilidades, se apaixonaram. O amor proibido os levou a uma guerra brutal, sopros de fogos azuis e vermelhos eram lançadas de um lado para o outro numa elaborada coreografia que misturava elementos de luta à dança, seguindo o ritmo furioso de tambores.

O dom tão precioso que as tribos receberam, fora usado como arma letal.

E no fim, o mesmo dom foi responsável pela morte do casal, que tão teimosamente as tribos tentaram separar. Como punição por seu orgulho dos céus caíram bolas de fogos e todos os domadores de fogo desapareceram em meio as cinzas.

Era impossível não se apaixonar por cada detalhe.

Por cada música.

Sempre tão pontual e trazendo ainda mais emoção.

Ariel vez ou outra se viu secando uma lágrima emocionada em seu rosto. Havia uma beleza triste em cada espetáculo que apertava seu coração. Pensou que ao chegar no último seria diferente. Afinal, um mágico pode arrancar exclamações de surpresa e até mesmo algumas gargalhadas, lágrimas não cabiam ali.

Mas Orion era tudo, menos ditado pelas regras de um circo comum.

E mesmo que o riso tenha vindo quando Rigel jurou que tiraria um elefante da cartola, e surpresa tenha estampado o rosto de todos quando o mágico se teletransportou para o meio da plateia usando um buraco de minhoca que ele mesmo criara, ainda havia mais. Muito mais do que Ariel imaginava, mas talvez pressentisse, uma vez que seu corpo todo se retesou, mesmo sem saber explicar o porquê.

— Ei, você está bem? — uma leve cotovelada de Lilah a despertou, dissipando parte daquela impressão.

— Sim. — Sorriu, convencendo-se que era só uma sensação estranhamente ruim, e que logo passaria. Lilah, por sua vez, não parecera convencida, mas como o mágico anunciava o gran finale, preferiu não incomodar a amiga na esperança que o show a distraísse do que a incomodava.

— Agora, para nosso último ato, precisei da ajuda de alguém corajoso. — As luzes ficaram mais baixas e tremeluzentes, a música de fundo era apenas um coro choroso criando uma aura ainda mais misteriosa e tensa — Alguém disposto a se sacrificar e deixar este mundo por alguns instantes para fazer parte de algo muito maior? — De repente não havia mais música, apenas um incômodo silêncio enquanto o mágico falava pausadamente — Não? Ninguém corajoso o suficiente para deixar de ser apenas poeira do cosmo e integrar o universo em um de seus eventos mais brilhantes?

Nenhuma palavra foi dita, nem mesmo um sussurro. Como se todos ali sentissem que havia mais naquele estranho espetáculo, e não estivessem dispostos a arriscar.

— Eu irei! — Dalilah se ergueu quebrando o silêncio, oferecendo-se.

— O que está fazendo? — Ariel cochichou, puxando a barra da blusa da amiga, mas a esta altura os holofotes já estavam nela.

— Relaxa Ariel, é apenas um truque. — Deu de ombros.

— Truque? É magia, minha querida. — Rigel estava a sua frente, a mão estendida e um sorriso convidativo — Eu irei transformar você em uma brilhante estrela.

— Eu topo. — aceitou a mão do mágico — Minha mãe sempre disse que eu nasci para o estrelato.

— Lilah! — Ariel protestou sem sucesso.

Observou a amiga se afastar balançando a cabeça em julgamento. Não sabia bem o porquê, e talvez este fosse até mesmo tolo, mas não gostava de ver Lilah se jogando no desconhecido tão levianamente. Ainda que fosse um inofensivo truque de mágica.

— Não se preocupe, Lilah está em boas mãos. — Damian comentou — Rigel nunca machucou ninguém intencionalmente. — O olhar mordaz de Ariel voltou-se para o garoto ao seu lado, percebendo-o muito mais perto do que gostaria. Antes que pudesse revidar com uma resposta insolente ele mostrou um sorriso fácil, desarmando-a. — Você é tão fácil de irritar, relaxe um pouco, Ariel. Respire e permita-se. Você não precisa se preocupar sobre tudo a todo momento, e Dalilah é grandinha o suficiente para tomar suas próprias decisões.

Ariel cruzou os braços e moveu os olhos para o centro do palco. Sabia que Damian estava certo e que ela estava exagerando, mas não daria a ele a satisfação de dizer que estava com a razão. Concentrou-se em observar como a amiga parecia natural no centro dos holofotes, e na suave música instrumental de fundo que aos poucos bania qualquer resquício da sua preocupação tola.

— Todos sabem como nasce uma estrela? E eu não estou falando do filme com a Lady Gaga. Embora eu também tenha ficado emocionado com aquela música. — A plateia gargalhou. Era curioso a forma como Rigel capturava a atenção de todos, fazendo-os o seguirem com o olhar, quase hipnotizados por sua presença ou apenas vendo o óbvio: ele era especial. — Eu nunca fui muito bom em ciências, mas eu descobri que para uma estrela real ser criada, ela precisa de três elementos básicos. O primeiro deles é poeira estelar. — Ariel estremeceu e esfregou os braços tentando dissipar o estranho frio, olhou para os lados percebendo que não era a única a reagir assim, e só então notou a névoa gélida que se arrastava pelo chão.

Não era uma névoa normal, feita de gelo seco tão comum aos espetáculos, embora também fosse igualmente fria. Esta brincava com tons de lilás e um azul quase celestial, Ariel não resistiu e ergueu a mão tocando o exótico nevoeiro, e não conteve o sorriso ao ver que as cores haviam pintado sua pele.

— Poeira estelar espalhada, nada mais é do que uma segura nebulosa brincando no espaço. Linda — o mágico pausou dramaticamente, e caminhou ficando ao lado de Dalilah no centro do palco —, porém nada no universo se modifica se não for provocado. E nós queremos uma estrela. Para isso precisamos do elemento número dois: perturbação.

Rigel fechou os olhos e posicionou-se como se tocasse um violino invisível. Ainda que não houvesse um instrumento em suas mãos, a música era real. E não apenas as pessoas respondiam a ela, mas a névoa também. Como se fosse puxada até o mágico, a poeira estelar, como ele a chamara, dançara até ele enrolando-se ao redor de Lilah, girando mais e mais rápido como se respondesse ao ritmo da música que aos poucos tornava-se mais urgente.

— Essa é minha parte favorita. — Damian sussurrou e Ariel teve vontade de mandá-lo calar a boca, mas para isso teria que desviar a atenção do espetáculo a sua frente e não valeria a pena.

— Terceiro elemento: calor. — Rigel apenas bateu as mãos e chamas surgiram consumindo a poeira estelar e Lilah.

— Oh! — Ariel não conteve a exclamação de espanto quando o fogo cresceu, nem mesmo o instinto de se erguer e ir até a amiga que era tomada por ele. Apenas o aperto firme de Damian ao redor de seu pulso a impediu de ir até o centro do palco. — É Lilah! — Puxou o braço com mais força, mas o aperto não cedeu.

— Apenas olhe além, Ariel. — O garoto pediu calmamente. E então Ariel percebeu. A música que antes era intensa e urgente e que fazia seu coração bater mais rápido, agora era bela e excitante. O fogo que consumia Lilah deu lugar a pequenas explosões multicoloridas como fogos de artifícios, até desparecer por completo deixando tudo e todos no mais perfeito breu.

A música recomeçou mais calma e doce desta vez, trazendo uma sensação gostosa de renascimento.

— Eu me esqueci que há um quarto elemento. — A voz de Rigel se sobrepôs preenchendo a escuridão. — Gravidade.

O teto da tenda se abriu, revelando o céu estrelado de Paradiso.

Uma estrela brilhava mais do que qualquer outra no céu. E mesmo que todos soubessem que as estrelas estavam há anos luz de distância, aquela parecia se aproximar rapidamente, crescendo à medida que chegava mais e mais perto trazendo não apenas a luz que preenchia o lugar, mas também o calor que parecia ter desaparecido.

A pequena estrela pousou com naturalidade bem no centro do palco. Ariel sorriu e seu coração se tornou muito mais leve ao ver que a estrela que descia do céu era Lilah.

— É um alívio, não? Quando algo perdido finalmente retorna ao lar. — Damian sussurrou ao seu ouvido. Mesmo sem vê-lo Ariel conseguia visualizar com perfeição um sorriso pretencioso dançando em seus lábios que pareceria dizer eu avisei.

A plateia explodiu em aplausos.

Apenas quando Ariel foi replicar o gesto que percebeu que sua mão estava junto da de Damian. Não sabia ao certo quando isto aconteceu, mas para seu desespero, ficara ali muito mais tempo do que deveria.

Puxou a mão rapidamente, suas emoções que tinham flutuando durante todo o espetáculo, agora convergiam juntas para algo muito mais cru.

— Você armou isso? — Suas mãos fecharam-se em punhos e a acusação saiu em um fôlego — Para termos um tempo a sós?

— Ariel, eu não preciso de subterfúgios para ficar a sós com uma garota. — Recostou de volta em sua poltrona com tranquilidade, sua atitude em nada tinha sido abalada pela acusação dela. — Se eu quisesse, eu simplesmente teria dito com todas as palavras: Eu quero ficar a sós com você.

Guardou seus comentários. Talvez estivesse interpretado tudo errado, talvez Damian fosse um rapaz legal com o qual valia a pena passar algum tempo, e a culpa fosse dela por sempre desconfiar demais. Investigou suas emoções, sentia-se menos irritável ao seu lado, e também um grande abismo de nada.

A garota concentrou-se em aplaudir e ignorar todas as sensações estranhas. O espetáculo havia chegado ao fim, mas Ariel não conseguia parar de pressentir que ainda faltava algo mais.

✶✶✶

— Qual foi o seu favorito? — Ariel perguntou despretensiosamente a Damian, enquanto chutava uma pedrinha.

Caminhavam vagarosamente em meio à multidão que deixava a tenda. Lilah havia dito que demoraria um pouco e que deviam dar uma volta pelo parque, que logo ela os alcançaria. Ariel escondeu a relutância em ficar a sós com o garoto, estava decidida a guardar a hostilidade e tentar ter uma conversa normal.

— Eu sempre gostei da apresentação do pequeno príncipe, eu o assisto há tanto tempo que me sinto quase parte do espetáculo. — Damian respondeu sem qualquer hesitação.

— Não houve apresentação do pequeno príncipe. — Ariel rebateu, franzindo o cenho.

— Tem certeza? —ergueu uma das sobrancelhas. Em seu rosto o esboço de um sorriso zombeteiro ganhava forma. — Não prestou tanta atenção assim na história do jovem e solitário astronauta que vaga pelo universo à procura do caminho de volta para casa? Para a sua Rose...?

Lembrava-se bem da história.

O jovem laçava cometas.

Apenas não tinha observado as similaridades.

— Mas ela morre no final. — Ariel o lembrou — No livro o pequeno príncipe retorna a sua casa, para a sua rosa.

— Liberdade artística? —deu de ombros com um sorriso — Mas isto não tira a beleza do espetáculo.

— Realmente, foi um lindo espetáculo. — Damian parou abruptamente e ergueu ambas as mãos para cima.

— Senhoras e senhores, ela finalmente cedeu! — Ele exclamou alto. Ariel riu para sua encenação — E eu ganhei este desafio.

— Não foi um desafio, e ainda que fosse, o crédito por eu gostar do espetáculo nada tem a ver com você. — rebateu — Duvido que estas mãos bem cuidadas ajudaram a mover um tecido que seja.

— Assim você pensa. — seu tom diziam muito mais do que as palavras — Mas tem razão, tenho mesmo mãos bonitas. — Ariel riu.

— Não deveríamos estar esperando por Lilah? — Ariel olhou para trás franzindo o cenho. Ainda que caminhassem a passos vagarosos, a distância da tenda do circo aumentava e não havia nenhum sinal da amiga.

— Ela vai nos alcançar. —Damian retrucou despreocupado — E há um lugar que você deseja ir antes que ela volte.

— Lê mentes agora?

— Não. Mas Saiph talvez. — Deixou no ar. Seus olhos indo em direção a pequena tenda, que Ariel não tinha notado, mas em frente a qual os dois pararam.

E novamente aquela estranha sensação consumiu Ariel.

Seu eu racional dizia-lhe que aquilo era bobagem, que não existia coisas tão tolas quanto uma bruxa capaz de desvendar os mistérios da sua alma. Mas depois do espetáculo, Ariel sentia-se muito mais próxima daquela parte que simplesmente acreditava no impossível. Até mesmo impelida.

Não se atrevia a pensar muito naquilo, mas parte dela sentia-se esperançosa com a possibilidade.

— Saiph, na verdade, lê pessoas. — Damian se corrigiu — Não é fácil de explicar, mas ela percebe seus sentimentos sejam eles bons ou ruins. E através deles é capaz de enxergar quais caminhos essa pessoa pode seguir.

— Então é uma vidente? — perguntou.

— Esta é uma definição simplória demais. — Havia algo de diferente em seu tom — Às vezes ela tira as cartas, às vezes ela lê a mão. E às vezes tudo o que ela precisa é olhar em seus olhos para descobrir seus segredos mais obscuros e seus sonhos mais inocentes. — seu olhar se perdeu um pouco, antes de voltar ao de Ariel — Não é uma ciência exata.

— Tampouco é uma ciência.

— Touché. — concedeu com um sorriso que não tocou os olhos — Mas Dalilah não estava de todo errada em sua explicação.

— Quer me convencer de que ela é uma bruxa? — debochou.

— Seria tão estranho assim? — Perguntou, e o coração de Ariel bateu mais rápido. — Digamos que Saiph é mais sensível do que os humanos normais, ela vê o que nós ignoramos em nós mesmos. Lê nas entrelinhas. Mergulha no abismo mais escuro das pessoas onde escondem seus medos e as vezes ela os desperta.

— Ela já...?

— Me leu? — completou — Ela disse que minha alma é muito obscura, e teme que uma vez que tente lê-la, se perca lá dentro e nunca mais encontre a luz. — Ariel sorriu fingindo não se incomodar com a profundidade daquela conversa — Você quer, não quer?

— Estou apenas curiosa. — minimizou, evitando os olhos do rapaz.

— Não está simplesmente curiosa. — aproximou-se — Procura respostas.

— Está tentando um emprego como vidente? — o provocou, mas não obteve a resposta que esperava. Não houve um sorriso cínico. Não houve uma provocação de volta. Não estavam mais jogando aquele bate e volta de afrontas.

— Vá, Ariel. — insistiu o garoto com o ar mais sério do que ela jamais tinha visto. — Todo mundo tem direito a ter suas perguntas respondidas, mesmo que não gostem da resposta. — Ela mordeu os lábios e balançou na direção, mas seus pés permaneceram presos ao chão. — É apenas uma vidente de circo, afinal. Do que tem medo? — Damian soprou as palavras em seu ouvido, e a garota sentiu seu corpo todo arrepiar.

Permaneceu parada sem demostrar ter sentido aquele efeito. Disse a si mesma que a noite apenas tornava-se mais fria, e que seu corpo respondia à alteração na temperatura externa.

Mas no fundo sabia que era mais, por isso não recuou.

Olhou para o garoto ao seu lado uma última vez, sua postura ereta e o olhar sério não combinava com o Damian de minutos atrás que sentia tanto prazer em empurrar seus limites.

Deu-lhe as costas e começou com passos largos e decididos, mas aos poucos se tornaram pequenos e hesitantes, até que não restasse nenhuma distância entre ela e a misteriosa tenda. Se até mesmo Damian estava sério sobre Saiph, então talvez houvesse alguma verdade naquela história de bruxas...

Ainda com certa hesitação seus dedos afastaram a organza. O tecido era mais leve do que parecia, e sedoso ao toque também. Não tanto quanto a segunda camada, feita de uma pesada e convidativa seda negra que deslizava entre seus dedos e parecia engolir toda a luz ao seu redor. Havia apenas uma pequena fresta, uma fenda no tecido dando um vislumbre da luz roubada.

Era estranho. Ariel sentia-se curiosa a respeito daquela tenda e de sua dona desde o início. Mas neste momento, ia-se muito além de curiosidade. Suas mãos moviam-se com força e determinação afastando mais o tecido, e antes que percebesse seus pés movimentaram-se empurrando-a para dentro da fenda.

E atrás dela o tecido novamente se dobrou, fechando a fenda e escondendo-a do mundo lá fora.

Ariel soltou a respiração que nem percebera que prendia, seus olhos se voltaram para o seu entorno analisando o pequeno espaço.

Não sabia bem o que esperava. Mas com toda certeza não era o lugar lúgubre com duas cadeiras de ferro, uma mesa redonda e solitária no centro com a luz bruxuleante de uma vela pela metade. Talvez uma áurea mais etérea, com bolas de cristais, amuletos místicos pendurados e um pouco de fumaça de gelo seco para simular um nevoeiro e trazer um clima mais misterioso.

O circo havia se provado tão rico em detalhes e cheio de vida, que estar ali, em meio ao mais puro breu, era como estar em uma dimensão paralela.

— Eu não esperava por ninguém. — Ariel deu um pulo sem sair do lugar. Desde que entrara o lugar parecera vazio. Mas agora que seus olhos seguiram a voz arrastada e sem emoção, ela via a mulher, toda vestida em negro, fundindo-se ao fundo no tecido da tenda como um camaleão. Seu rosto estava coberto por um véu, assim como todo o seu corpo, apenas as palmas das mãos estendidas na frente do seu corpo destacavam-se brancas e envelhecidas como giz – Ainda deseja uma leitura?

Ariel apenas assentiu e sentou-se, surpresa demais para responder a mulher a sua frente.

— Você é Saiph? — Perguntou ao encará-la mais de perto. Agora que a mulher se sentava a sua frente era mais fácil perceber sua forma contra a luz amarelada.

— Esperava algo diferente, querida? — A voz era rouca e entediada, porém estranhamente jovial, não conseguia associa-la às mãos desnudas e enrugadas, com unhas compridas pintadas de roxo berrante espalmadas sobre a mesa.

— Não sabia bem o que esperava, mas há algo estranho em você. — se surpreendeu com a própria sinceridade quase rude, normalmente tendia a ter mais tato.

— Dizem que sou uma bruxa, certamente há algo de muito estranho em mim. — deu de ombros e exalou um suspiro pesado — Mas você não se importa. Embora ache o conceito de bruxaria fantasioso e até mesmo um pouco infantil, sabe reconhecer quando as coisas não são o que aparentam. Mesmo tentando ser cética, o inexplicável atrai você. Porque bem lá no fundo você sabe que é tão estranha quanto eu. Sua decisão de entrar aqui tem muito pouco a ver comigo, e muito mais com você. — tentou não se intimidar com seus acertos, se convencendo de que era apenas um discurso pronto e que se aplicaria a qualquer um que entrasse ali — Vamos acabar logo com isso, sente-se e dê-me suas mãos, Ariel.

Estremeceu ao ouvir seu nome e encarou a mulher com hesitação, pensou ter visto um pequeno sorriso crescer por detrás do véu negro.

Saiph brincava com ela.

Odiava desafios. Nunca conseguia dizer não a eles.

Ariel arrastou a cadeira de ferro sentando-se e esticou as duas mãos sobre a mesa pousando sobre as da mulher, em seu pensamento simplório ela esperava que Saiph as virasse e começasse a analisar as linhas de sua palma da mão. Não esperava que se afastasse como um cão ferido assim que a tocasse.

Sentiu o olhar da mulher quase rasgando o véu e indo até o seu, inquirindo-a.

Vagarosamente as mãos de Saiph se aproximaram das dela. Inicialmente sentiu apenas o arranhão sutil das unhas, como se testassem a segurança do toque. Depois seus dedos começaram a tatear com mais firmeza. Houve mais toques investigativos, até que a mulher prendesses suas mãos dentro das dela fechadas em concha e assim permanecera com os olhos fechados por muitos minutos.

— Você tem uma alma antiga, não sinto algo assim há muito tempo... E você não parece com ele. É... Incomum. — Não havia mais indícios de provocação, apenas seriedade e um leve toque de curiosidade. — Estou acostumada com pessoas mais rasas. — O tom de desculpas afastou a tensão em Ariel.

— Como isto funciona? Você pode... — tentou lembrar-se das exatas palavras de Damian. — Ler a minha alma? Dizer o que há de estranho nela? Em mim? — jogou as perguntas com certa afobação.

— Você não sabe quem é. — Constatou Saiph. — E lamento, mas não serei eu a lhe dizer. Não é assim que funciona, Ariel.

— E como funciona? — Insistiu novamente, decidida a ignorar o tom de pena da mulher.

— Como algumas pessoas são boas em matemática e outras mal conseguem fazer uma simples soma sem a calculadora? — levantou a questão — Cada um tem seus dons e seus martírios, e comigo não é diferente. As pessoas tendem a ser mais sinceras ao redor de mim. E embora eu possa mergulhar em seus olhos e encontrar seus segredos mais ocultos se eu me esforçar, raramente isto é necessário. — Aquilo ficou na mente da garota. Ela tinha seus segredos, como todo mundo, mas nada muito grande. Exceto... — As pessoas se abrem comigo, encaram as próprias verdades e fim. — Saiph explicou com certo tédio — Mas eu não consigo ver a verdade em você.

— Eu minto perto de você? — Não tinha sido nada além de brutalmente honesta, até mesmo estranhara.

— Não mente sobre o que está pensando, mas esconde coisas. Segredos. Eu vejo sua alma me repelindo quando eu me aproximo. Ainda que eu insista, é quase como se seus segredos fossem maiores e mortais.

— Que bobagem. — Refutou. Seu maior segredo, seus vívidos e estranhos sonhos, eram apenas isto. Sonhos. Frutos de uma mente imaginativa demais.

— Quem é você, Ariel? O que esconde de todos? — Questionou, avançando sobre a mesa, mas a garota nada disse — Complexo demais? Então me responda algo simples... Por que uma garota como você entrou em uma tenda escura em um parque com tantas coisas melhores para fazer? — Abriu a boca e tentou escavar uma resposta... Diversão. Tédio. Curiosidade.

Mas nenhuma dessas palavras chegava até a boca.

— Não sei. — constatou horrorizada que a resposta servia para todas as perguntas que Saiph lhe fizera.

Não sabia quem era.

Muitas vezes sentia-se dissociada do todo, como se não se encaixasse entre as pessoas da sua idade. Às vezes o que causava euforia em Lilah, não a fazia sentir nada. Considerava a si mesma uma pessoa pouco social e introspectiva. Exceto em seus sonhos. Por mais perturbador que pudessem ser, sentia-se quase completa.

Saiph removeu o véu deixando Ariel hipnotizada.

Estava certa em achar que sua voz não combinava com suas mãos. Seu rosto era belo. Jovem demais. Com a pele lisa e pálida feito mármore, lembrava as réplicas de estátuas de deusas gregas que havia na biblioteca. Os cabelos eram negros e lisos, fundiam-se ao véu criando uma moldura para o rosto. A sobrancelha era marcada e escura sobre olhos que deixavam Ariel desconfortável.

— Aproxime-se. — pediu Saiph ficando de pé — Eu sei que quer. Mais do que isso, precisa de respostas. — Ariel o fez e as unhas de Saiph cravaram-se ao redor do seu rosto. — Mas não posso prometer que irá gostar do que eu vou encontrar.

Quando os olhos sem vida se prenderam aos dela Ariel sentiu-se incapaz de mover-se. Como se estivesse sob algum tipo de feitiço. Sentia-se estranha, enjoada e com frio. Seu corpo tremia, parecendo-se rebelar com a intrusão.

— Eu vejo dor. Tanta dor quando você o deixou. E há culpa também. — os tremores se tornaram mais fortes, e a sensação de peso no estômago crescia — Quantas mentiras contadas. Quantas vidas perdidas. Você se pergunta se realmente valeu a pena abdicar de tudo por isso. — Nada do que Saiph falava fazia sentido para Ariel, mas ainda assim sentia a dor em cada uma das palavras e reconhecia como sua dor. — Espere! Não se vá! Não se esconda. — Saiph gritou como se falasse com outra pessoa.

— O que aconteceu? — Ariel perguntou no instante em que sentiu que a estranha conexão se enfraqueceu.

— Sua alma é uma fortaleza cercada por correntes que você mesma forjou. Por que prefere se manter presa? — Saiph perguntou com raiva — É como se apenas estivesse passando pela vida, como uma casca vazia, negando-lhe o que seu coração quer e precisa. — Ariel piscou, umidade formou-se em seus olhos. — É tão... triste escolher viver assim.

Puxou as mãos com rispidez, sentindo as unhas arranharem a pele.

Estava furiosa.

Com Damian por ter lhe falado de Saiph.

Com Saiph por sua pena.

E consigo mesma.

Porque no fundo sentia que de alguma forma o que Saiph dizia era verdade. Mesmo sem compreender suas palavras ou o que ela tinha visto dentro de si, sabia que algo primordial dentro dela estava faltando. Havia sido trancafiado. Por sua própria escolha.

Sentia isso.

Nunca soubera explicar ou talvez tenha apenas tivesse escolhido ignorar a verdade. Mas agora que tinha sido jogada tão cruelmente em sua face, não poderia mais negá-la. Havia correntes ao seu redor prendendo-a a algo. Impedindo-a de verdadeiramente viver.

Apenas correu.

Correu entre as pessoas se afastando delas e de suas vidas completas e perfeitas. Escutou alguém chamando-a, mas seguiu em sua corrida sem direção, tendo tão somente a luz das estrelas como guia. Correu até sentir o pulmão queimar e as pernas doerem. Correu, pois a dor a lembrava de que ainda estava viva, mesmo que parte dela talvez não estivesse. Correu, porque queria se afastar daquelas palavras tão duramente verdadeiras. Mas por mais que se afastasse, a voz de Saiph ainda ecoava em sua cabeça. Por que prefere se manter presa?

Suas pernas cederam e ajoelharam ao chão, areia arranhou sua pele fazendo Ariel perceber que havia chegado à praia e que as luzes e vozes animadas do parque haviam ficado para trás, mas não as palavras. Estas agora eram feitas de sua própria voz, e gritavam ainda mais alto numa clara acusação.

Por que prefere se manter presa?

Ergueu-se novamente, fechou fortemente os olhos e balançou a cabeça num esforço tolo para fazer as palavras desaparecerem. Retirou os sapatos e correu com os olhos fechados sentindo o vento cortando a face e areia arranhando os pés, a sensação era boa. Quase libertadora. Queria tanto se libertar ainda que não soubesse do quê, precisava sentir-se livre.

Não queria parar de correr nunca mais.

Quando abriu os olhos e os ergueu para as estrelas, a sensação que teve não era de correr de algo, mas sim para algo.

— Ariel?

Mãos fortes contiveram a garota e ela finalmente parou de correr, permitindo que seu corpo frio cedesse sob aquele contato quente. Vivo. Era disso o que precisava. Seus olhos se ergueram encontrando os deles, sempre tão calorosos e indagadores. Naquele momento tudo pareceu certo, todas as vozes dentro da garota se calaram e seu coração aflito desacelerou.

Não se sentia mais presa.

Sentiu-se livre e inteira.

— Rafe. — O sussurro saiu carregado de uma intimidade antiga, esquecida pela mente, mas gravada no espírito.

Não houve tempo para o anjo caído indagá-la ou procurar em seus olhos se aquele reconhecimento era real ou fruto da sua imaginação. Houve apenas tempo para sentir a surpresa, que veio seguida de algo ainda maior.

Muito maior.

Lábios cheios e quentes apertaram-se bruscamente contra os seus.

Foi um choque brusco, desesperado. Rafael sentiu o gosto salgado das lágrimas dela e seu coração pesou um pouco mais. Elevou a mão ternamente até seu rosto, encaixando os dedos entre os cabelos da garota enquanto o polegar acariciava a bochecha com suavidade secando o caminho das lágrimas. Não sabia porque estavam ali. Daria qualquer coisa para apagar aquelas lágrimas, para afastar dela toda e qualquer tristeza.

Ao seu lado a queria apenas feliz.

Tomaria isso como sua missão.

Afastou-se um pouco, seus olhos querendo embebedar-se dela. O coração, desejando ir um pouco mais devagar para que pudesse assimilar todas as emoções avassaladoras que o tomavam.

—Senti sua falta. — confessou, tornando a acariciar seu rosto.

Ariel sorriu e respirou pesadamente contra sua boca.

E quando a fúria dentro dela se acalmou os lábios tornaram a se tocar novamente. O segundo beijo foi suave, lento, uma promessa cumprida.

E dois corações se expandiram, explodindo na mais perfeita e brilhante supernova.