Lost Stars

11 Capítulo 10 - Constelações


Notas iniciais
Música que me inspirou a voltar a escrever: https://youtu.be/dzNvk80XY9s

Eu vou explicar o infinito

Quão raro e bonito é realmente existirmos.

Saturn — Sleeping at last


As noites em Paradiso sempre foram de tirar o fôlego.

Havia algo de inspirador naquela cidade, ninguém sabia explicar o porquê. O céu limpo de nuvens parecia mais negro e profundo e as estrelas brilhavam ali com maior intensidade do que em qualquer outro lugar, até mesmo a lua parecia mais próxima da terra. O lugar era um verdadeiro paraíso para amantes da astronomia, ou para casais apaixonados em busca de um refúgio romântico. Era curioso que apesar de tantos atrativos, a cidade não fosse um destino turístico muito procurado, era apenas vista como mais uma pequena cidade praiana, entre tantas outras ao longo daquela costa.

Tampouco importante que sequer estava no mapa.

Naquela noite em especial o céu parecia ainda mais belo, atraindo como gravidade os olhos de Rafael. Mas diferente dos amantes do céu, não era beleza que seus olhos astutos buscavam. Como em todas as noites anteriores, Rafael sentava-se no parapeito da janela recém consertada em seu apartamento e observava o céu a procura de algo.

Ele sabia que havia gente de Miguel em seu encalço.

Ainda se culpava pelo pequeno lapso de algumas semanas atrás, onde se permitiu caminhar ao lado de Ariel pela praia e conversar despreocupadamente. Esquecera-se dos problemas. Sempre fora assim quando estava com ela.

Natural.

Fácil.

No dia seguinte notou Uriel na universidade.

Obrigou-se a afastar da garota até que fosse seguro.

Sem mais longos olhares.

Sem mais orbitar sua presença sem motivos, apenas se alimentando da falsa sensação de ter voltado no tempo, ao mesmo tempo em que se regozijava com cada nova descoberta sobre esta Ariel.

Por isso observava austero as estrelas, ansioso para que acabassem a vigília e fossem embora. Mas para sua consternação, mais uma delas cruzou o céu caindo na baía de Paradiso. Suspirou, jogando o livro que tinha nas mãos ao chão, pegou seu casaco, mesmo que a noite não estivesse fria, e partiu para seguir o rastro da estrela.

Em um outro lugar, não tão distante dali, Ariel encarava as mesmas estrelas. Seus pensamentos, entretanto, não estavam voltados para alguma preocupação relevante e temerária, a garota sim, apenas apreciava a beleza daquele céu límpido, completamente inconsciente de que as estrelas a olhavam de volta.

— É incrível, não? — sentiu um leve empurrão em seu ombro — Quando Damian me falou do emprego no circo Órion eu não imaginaria que seria assim. — Os olhos de Ariel se moveram do céu estrelado para a imponente construção que estava a sua frente encobrindo a visão da praia. Apesar de ser deslumbrante a sua própria maneira, nem de longe lhe despertava a mesma fascinação.

— Como ergueram isso tão rápido? — Questionou, sem esconder o assombro. As barracas e a estrutura de sustentação da tenda central eram feitas de metal e um tecido luxuoso e impermeável com cores fortes. Mas os brinquedos? A estrutura robusta da roda gigante se estendia muito mais alto do que era comum, e suas luzes multicoloridas pareciam destoar no céu calmo de Paradiso, por outro lado a visão da praia e da pequena cidade quando atingisse o ápice deveria ser a oitava maravilha do mundo. O carrossel era elaborado e não havia cavalos ali, por sua vez animais fantasiosos faziam a corrida. Que criança não amaria cavalgar em um unicórnio ou domar um dragão? Se tornar amiga de uma sereia? Voar em um cavalo alado?

Ariel tentava entender a inspiração, mas era difícil. Havia retalhos de culturas diferentes em todas as partes. Os dragões lembravam as alegorias chinesas, as tendas todas tinham um estilo árabe requintado com toques em dourado, o trem fantasma mais parecia ter saído da Belle Époque europeia com seus ferros escuros e retorcidos, e um elegante – porém assustador – condutor em seu fraque e cartola.

Tudo parecia novo demais e brilhante demais para um circo itinerante.

Aliás, sequer parecia um circo, não como os da memória de Ariel.

— Dinheiro faz milagres. — Lilah respondeu simplória.

— Então a família de Damian é rica. — Ariel retorceu ligeiramente os lábios, parcialmente compreendendo o porquê não era fã do garoto, logo em seguida se recriminou, a arrogância dele não necessariamente tinha a ver com dinheiro. Sua animosidade para com ele tinha relação com seu desafio ridículo na primeira vez em que se encontraram, e que colocou em risco a vida de Lilah, mas pelo menos Rafael... Cortou o pensamento, afastando o nome, bem como aquela insistente pontada de mágoa. Enquanto estivesse acordada e com sua mente sob controle, não pensaria nele e em seus sinais ambíguos.

Em seus sonhos, porém a história era diferente...

— Isso o torna ainda mais atrativo, não? — Lilah pressionou num tom que beirava a zombaria, mas não escondia a esperança de uma resposta positiva. Mesmo não gostando da atitude, Ariel agradeceu internamente por mais essa distração.

— Se você queria me trazer aqui na intenção de me juntar a ele, já adianto que está perdendo seu tempo. — rechaçou a ideia com veemência, fazendo Lilah segurar o riso.

— Fere meus sentimentos que pense isto de mim! — fez uso de toda a sua veia dramática, sem esconder a satisfação em irritar a amiga. — Eu só tinha em mente nos divertimos um pouco, finalmente tive um dia de folga em um final de semana em que você não está com a cara nos livros ou com sua mãe, e queria dividi-lo com minha melhor amiga. — Apertou os lábios num leve beicinho completando a imagem inofensiva, apenas o suficiente para que Ariel baixasse a guarda.

Embora houvesse planos maiores que Lilah não ousou dividir com Ariel, apenas para não vê-la frustrá-los antecipadamente, a afirmação não era de todo falsa. Lilah preocupava-se com ela. Já havia se acostumado com a tendência ao ostracismo de Ariel, ela nunca foi de deixar alguém se aproximar demais. Demorava a confiar, mas quando confiava sua lealdade era total e completa. Mas ultimamente perdia-se em pensamentos, mais do que o normal para sua personalidade.

Não dividia sentimentos, nunca foi dada a isto, embora sempre fosse fácil demais lê-los em seu rosto.

E tudo o que Lilah lia era frustração e um pouco de mágoa reprimida.

Não tinha certeza do que desencadeara isso, mas suas apostas estavam todas em um certo professor de história da religião que evitava contato visual a todo custo com Ariel. Queria mais daquela história. Algo que rompesse as defesas da amiga e sacudisse seu mundo cuidadosamente controlado.

A escutara chamar seu nome em quase todas as noites, mas nunca dividira seus sonhos no dia seguinte.

E dado ao seu estado atual reconhecia que isto não lhe fazia bem. E não seria uma boa amiga se não fizesse o melhor para curá-la daquela tola paixão platônica.

— O espetáculo começa em uma hora, que tal arriscarmos a vida em algum desses brinquedos? Eu estou morrendo para ir no Skyfall, são os ingressos que mais vendo e todo mundo está sempre falando sobre como é quase morrer, e ...— Lilah atrelou seus braços no da amiga e seguia tagarelando animada enquanto a puxava, cortando passagem entre os brinquedos e tendas fazendo o caminho até o seu favorito.

Por quase uma hora Ariel foi apenas uma garota normal e se divertiu com sua melhor amiga.

Foi assustadoramente fácil empurrar os pensamentos inquietos que teimavam em lhe cutucar o cantinho do cérebro e distrair-se. Fácil demais deixar a alegria momentânea encobrir emoções maiores que não se julgava apta ainda para tentar compreender. E talvez sequer devesse. Certas coisas permaneciam mais seguras quando escondidas nos recantos mais escuro da nossa alma.

✶✶✶

— Eu nunca estive em um carrossel que rodopiou tão rápido! — Exclamou excitada. Jogou a cabeça para trás para ajeitar os cabelos que se emaranharam desordenadamente após a última aventura, os olhos se abriram e faiscaram ao ver a grandiosa roda-gigante, já não mais achava que seu brilho extravagante destoava no céu de Paradiso, ao contrário, achava bela a forma imponente como tomava o lugar firmamento escuro e exigia fazer parte dele. — Será que dá tempo de ir na roda gigante?

— Está do outro lado do parque e a fila é enorme. — Ariel tentou não ficar desapontada, mas foi difícil. Já se imaginava lá, exigindo também o seu lugar junto às estrelas. — Acho que só temos tempo para comprar a pipoca e o refrigerante antes do espetáculo começar. — Deu um sorriso de quem se desculpa — Mas podemos voltar na semana que vem, talvez se eu flertar um pouco com o Rigel ele me dê ingressos vips, mesmo que carecas não façam meu estilo...

— Você é impossível! — riu.

— Tudo pela minha melhor amiga! — Ariel fez uma nota mental para recompensar Lilah no futuro, sabia que andava imersa demais em seus próprios pensamentos para lhe dar atenção que merecia. — Agora precisamos de muita pipoca no estômago e açúcar no sangue, não sei se estou tonta por causa dos brinquedos ou pela hipoglicemia.

— De todo modo foi uma ótima ideia não comer nada, eu não queria ser o pobre coitado que vomitou as tripas no último brinquedo.

— Eu pude dizer o que ele tomou no café da manhã só pelo cheiro! Eca!

Ambas riram, apreciando um pouco da preciosidade que era partilhar pequenos momentos como este. Poderia parecer algo fútil num primeiro olhar, mas fazia parte de uma construção muito maior. Afinal, o que é a vida além de uma sequência de acontecimentos monótonos marcada por instantes de exultação? Como um passeio em uma roda gigante quebrada que nunca atinge o ápice? Às vezes é necessário abaixar as expectativas, ser capaz de valorizar até mesmo os momentos mais simples, preenchendo-o com risos e pessoas importantes, ou estará fadado a ser mais uma pessoa frustrada cuja a roda gigante da vida nunca atingirá o topo.

De braços dados caminharam pelo parque e enfrentaram a fila para conseguir algumas guloseimas, conversavam frivolidades sobre seus empregos, sobre o Voldy, o gato que dividiam a tutela e que ficara sozinho no apartamento porque a mãe de Ariel se recusara a bancar a babá do pequeno demônio – palavras dela. Mas convenientemente, ambas, talvez inconscientes, talvez nem tanto assim, não falaram em nenhum momento sobre as aulas, ou sobre um certo professor que permeava os sonhos da ruiva.

— Acha que peguei amendoins doces o suficiente? — A garota arremessou um deles para cima e abriu a boca para tentar pegá-lo, mas o doce apenas bateu em seu nariz e fez o caminho direto para o chão. Já tinha feito isso com metade do pacote. Ariel tinha uma resposta na ponta da língua sobre desperdício e estava pronta para o discurso assim que Lilah arremessou mais um, mas todos seus pensamentos desapareceram quando seus olhos acompanharam o amendoim, porém se fixaram em algo além.

A pequena tenda parecia errada ali.

Vazia em meio a tantas outras abarrotadas de gente, todos passavam direto sem dar um segundo olhar, era como se fosse invisível aos demais. Não havia placa de identificação, não havia brinquedos pendurados então não se tratava de um jogo para ganhar brindes. Pequena demais para ser uma daquelas casas de sustos. Era apenas uma tenda parcialmente aberta, mas não o suficiente para ver o que se escondia lá dentro.

— Espere... — Ariel puxou Lilah antes que ela desse mais passos — O que é isto?

Diferente das cores extravagantes nas outras tendas, o tecido desta era preto e denso como uma noite sem estrelas e não parecia nenhum pouco convidativo. Havia um voal delicado de organza da mesma cor que se sobrepunha ao tecido pesado e que balançava levemente com a brisa da maresia. Era adornado por delicados arabescos dourados que pareciam ter sido bordados a mão.

Ao primeiro olhar parecia mórbido, mas ao se analisar um pouco mais de perto, notava-se o padrão elaborado, as pequenas estrelas incrustradas no tecido e que refletiam a luz do luar.

A noite escura ganhava estrelas.

E de repente, a morbidez passava a ser convidativa.

Ariel não resistiu e elevou a mão para tocar as estrelas.

— Oh, isto é Saiph. — Lilah falou baixo e puxou a mão da amiga forçando-a a dar um passo para trás e a impedindo de tocar na tenda — Tecnicamente eu nunca a vi, ela é bem reservada. Dizem que é uma bruxa capaz de ler sua alma. E se você chegar muito perto, se ela erguer o véu e olhar no fundo de seus olhos, ela é capaz de sugá-la. Também dizem que ela foi amaldiçoada pelo diabo e por isso cobre seu rosto para que ninguém veja o que ele fez com ela, eu não faço ideia de qual dos dois é real. — Encarou Lilah, esperando pela pegadinha que não veio, seu rosto estava sério, o que não combinava nenhum pouco com a garota.

— Afinal, isso é um circo ou um show de horrores?

— Um pouco dos dois. — Damian surgiu das sombras da tenda, a voz modulada e excessivamente calma. — Olá, Ariel. É curioso ver como sua expressão muda quando você encara o que não consegue explicar.

— Damian. — não disfarçou o tom consternado, tampouco o leve revirar de olhos.

— Olá para você também, Damian. — Ele apenas deu um sorriso polido e um leve aceno de cabeça, mas o suficiente para mostrar adoráveis covinhas e fazer um dos cachos cair sobre a testa. — Gostei do seu cabelo assim, realça seu maxilar — Lilah raramente elogiava alguém, a não ser que houvesse algum interesse escuso por trás, isso foi o suficiente para deixar a ruiva cautelosa. — Não realça, Ariel?

Damian era bonito, isto era um fato, mas se amiga esperava algum elogio à Damian subestimava e muito a capacidade de Ariel de deixar uma primeira impressão passar. Por isso apenas sorriu ignorando seu comentário.

— Acho melhor entrarmos, você disse que o espetáculo já vai começar e queremos pegar bons lugares, Lilah. — adiantou-se com passos rápidos, ansiosa para se livrar do garoto. Talvez estivesse sendo grosseira, mas havia algo ali, por debaixo daquele sorriso solicito com todos os dentes perfeitamente alinhados que a incomodava, não sabia o que era, mas não estava disposta a manter-se por perto tempo o suficiente para descobrir.

— Eu tenho cadeiras na primeira fila. — Damian parou bem a sua frente, impedindo-a de continuar. Como ele havia chegado tão rápido?

— Lilah e eu já temos lugares — mostrou os tickets na intenção de dissuadi-lo, mas ele sequer moveu os olhos dos seus, permaneceram ambos se encarando num silencioso, porém quase mortal, cabo de guerra.

— Tratamento VIP, com direito a todos os amendoins doces que poder comer. — Ariel ergueu uma das sobrancelhas, seu suborno era fraco.

Mas sua amiga era mais.

— Aceitamos! — Lilah concordou efusivamente. — Quero os meus extras crocantes!

— Não aceitamos, Dalilah! — Ariel tentou voltar atrás, mas Damian exibia mais do que um sorriso vencedor desta vez, exibia os tickets de entrada que havia surrupiado sem que ela percebesse.

Seu olhar zangado caiu sobre amiga, culpando-a.

— O quê? É a primeira fila! E amendoins! Eu já acabei com o nosso pacote... — Lilah se defendeu.

— Do que tem tanto medo, Ariel? Não é como se eu fosse desafiá-la novamente... — Dessa vez ele não sorriu como um garoto provocador, mas como alguém que analisa um gráfico — Não pretendo repetir o experimento do mar. A resposta que obtive naquela noite foi suficiente. Considere os assentos VIP uma cortesia pela sua... performance..

✶✶✶

Obviamente os lugares de Damian eram os melhores.

De frente para o palco, assentos acolchoados e reclináveis. Ariel precisou dar o braço a torcer e amenizar o mau humor para cima de Damian e tentar ser grata. Talvez só esteja tentando ser gentil.

O bom humor só durou por trinta segundos, até ele tomar o lugar ao seu lado e iniciar uma briga territorial com o encosto de braço da poltrona.

Ela teria feito algo se não estivesse tão escuro.

Por que tão escuro?

Havia uma inquietante áurea de mistério no ar. Névoa baixa, pouca iluminação, apenas com luzes guias no chão conduzindo as pessoas para seus lugares, como um cinema antes do filme começar. Já tinha ido ao circo algumas vezes quando criança, mas nada assim. Em suas memórias havia cor, muitas luzes, cheiro de pipoca, crianças rindo e pais perdendo a paciência.

Agora, até mesmo as luzes guias se foram.

O breu se estendeu sobre todos, deixando-os cegos.

— Por que está tão escuro? — Sussurrou, mas sua pergunta se perdeu tragada pela profunda escuridão.

— Bem-vindos ao Orion’s Nebula — Procurou pela voz do homem, mas não sabia precisar de que direção vinha, sentia apenas que rasgava o véu negro trazendo calor. — Onde a mágica não está em apenas uma palavra, mas em todos os lugares! — Pequenas faíscas iluminaram o centro do palco, como vagalumes dançando ao redor do homem que falava e que parecia flutuar junto deles. — Meu nome é Órion e serei o mestre de cerimônia de vocês esta noite, irei mostrar o caminho e abrir seus olhos para a mágica que acontece todos os dias, a cada instante, mas que tão intencionalmente ignoramos. Eu sei que muitos de vocês são céticos, o mundo lá fora se certificou de torna-los assim, esmagou cada pequeno sonho, cada pedacinho que ainda acreditava no impossível e os fez esquecer. Esquecer a magia que cada um de nós carrega dentro de si. Mas eu lhes digo, ainda há uma chance de recuperar o que está perdido, de relembrar... Só precisam encontrar aquela pequena parte de vocês que ainda acredita e deixarem-na brilhar.

Pontualmente uma pequena luz se acendeu no topo do teto escuro e abobadado.

E então mais uma.

E outra.

Formando uma linha reta e perfeita.

A melodia começou ao longe, se aproximando aos poucos e preenchendo o vazio da noite com as notas graves e melancólicas de um violino. Cresciam gradativamente ganhando mais e mais força, a dor encontrando apoio em outros violinos tão tristes e solitários quanto aquele primeiro, alguns até mesmo mais ferozes em seu lamento. E então veio o piano, com suas notas mais doces e sensíveis pedindo por calma e compreensão e todos os violinos pararam por um momento para escutá-lo e aprender com ele.

Enquanto isto, ao fundo algo indescritível acontecia.

Batidas de tambores.

Fortes. Ritmadas. Como um coração vivo e pulsante no início de sua jornada, ávido por todas as descobertas que o esperavam.

A voz veio tímida, apenas um murmuro cantarolado fazendo coro num primeiro momento acompanhando os acordes na mais perfeita harmonia. Ao ganhar confiança se tornou mais encorpada, preenchendo com esperança os espaços vazios que a melodia deixava.

E de repente a melodia já não era mais triste.

Sim, ainda havia dor nos violinos.

Doçura no piano.

Uma força vital nos tambores.

Esperança na voz.

Mas quando tudo era colocado junto, quando todos os sentimentos de cada um daqueles instrumentos tão distintos se uniam, uma nova melodia era criada.

Algo novo renascia, expandindo-se em todas as direções.

E era uma dádiva ver isto acontecer.

Várias outras pequenas luzes se iluminaram, de intensidade, tamanhos e até mesmo cores diferentes. Algumas formavam desenhos e formas conhecidas, se os espectadores despendessem um minuto de atenção entenderiam, outras simplesmente não seguiam qualquer regra.

Não para olhos leigos, pelo menos.

Vozes de admiração e assombro preencheram a tenda quando tudo se iluminou. O tecido negro que antes abraçava a todos como o cair de uma noite escura, agora tingia-se de um belo azul petróleo e resplandecia.

Trapezistas balançavam no alto, como estrelas cadentes rasgando o céu.

No chão, sopradores de fogo criavam sua própria super nova.

Trapezista, contorcionistas e bailarinos desafiavam a gravidade imitando o movimento dos planetas, construindo sua própria versão da via láctea.

Ariel já não se sentia presa dentro de uma tenda de lona escura e fria.

Sentia-se livre.

Como um corpo celeste que vaga pela imensidão infinita do universo sem destino certo, apenas apreciando a beleza que era estar entre as estrelas.

— É como estar... No céu. — A voz estava embargada de emoção, não conseguia explicar o porquê, apenas a sentia. — Dentro dele, não apenas observando. — Ergueu uma das mãos, e riu admirando o brilho prateado com pequenas luzinhas que agora dançavam em sua pele.

— Na constelação de Orion mais precisamente, se você olhar para cima bem ali, verá — Damian apontou o dedo para o alto. Ariel nunca estudou astronomia, sabia um pouco mais do que a maioria dada à sua curiosidade. Mas era o suficiente para identificar perfeitamente o desenho do mitológico caçador e seu arco. — Meu tio é um pouco egocêntrico.

— Deve ser um traço de família. — provocou, apenas para não perder o hábito. Sentia-se plena demais para permitir qualquer sentimento negativo emergisse.

— Eu vou deixar essa passar, por enquanto. — Damian beliscou o dorso da mão de Ariel, mas nem mesmo assim a garota se irritou. — Sei que sua opinião irá mudar até o final do espetáculo.

— É um desafio? — A sobrancelha marcada se ergueu em expectativa. Tinha todos os motivos para odiar os desafios de Damian, mas sentia-se viva, com vontade de provar do mundo.

— Apenas uma constatação. — Deu de ombros, mas o meio sorriso não deixou seu rosto. Se Ariel despendesse algum tempo para analisar aquele sorriso, perceberia o quanto era traiçoeiro e escondia coisas.

— Vocês dois podem parar com os joguetes? — Lilah os interrompeu bruscamente — O espetáculo já vai começar, deixem essa coisa entre vocês para depois, pode ser?

Era óbvio que estava irritada, mas novamente, não era a única ali que disfarçava uma emoção com outra.

Ariel recostou-se na poltrona, sem discutir e encarou o palco. O mestre de cerimônias falava algo sobre a primeira atração da noite e parecia levantar os ânimos da plateia, mas não conseguia prestar atenção nas suas palavras. Algo parecia chamá-la para o céu, para Orion e seu arco, e mesmo sabendo que tudo era apenas uma ilusão de luzes em um tecido escuro, e não o céu de verdade, ainda assim sentia o impulso irracional de alcançá-las e se perder entre aquelas estrelas falsas.

Notas finais
No próximo irei apresentar um pouco mais desse circo. Espero que tenham gostado!