Lost: O Primeiro Herdeiro

26 LIVRO 3 — CAPÍTULO 26: VIDA APÓS MORTE



A Ilha — Acampamento da Praia (Dia Seguinte)

O sol da manhã banhava a orla, real e constante. Não havia mais clarões roxos, nem zumbidos estáticos, nem a náusea do deslocamento temporal. A Ilha havia parado de pular. Estava ancorada novamente em 2029.

O antigo acampamento dos sobreviventes do voo 815, que horas antes parecia uma ruína abandonada, agora exibia sinais estranhos de restauração. Objetos que haviam se perdido nas dobras do tempo reapareceram na areia: uma lona azul da Dharma, caixas de suprimentos da Oceanic, até mesmo a velha cadeira de praia de Bernard. Era como se a Ilha estivesse devolvendo o que roubara.

Na orla da floresta, um grupo se preparava para partir. Bernard Nadier ajustava a alça de uma mochila velha, as mãos trêmulas, mas os olhos fixos na mata fechada.

— Ela está lá fora — murmurou Bernard, mais para si mesmo do que para os outros. — Quando o clarão aconteceu, Rose estava colhendo frutas perto das cavernas. Se o tempo voltou ao normal, ela tem que estar lá.

— Nós vamos encontrá-la, Bernard — garantiu Yan, verificando o cantil de água.

Ao lado dele, Clementine, Jessy, Emma e Bianca (ainda segurando o livro Bad Twin contra o peito) assentiram. Eles não eram rastreadores, nem soldados, mas eram tudo o que Bernard tinha.

— Vamos — ordenou Bernard, entrando na trilha com uma energia que desmentia sua idade. O grupo de busca foi engolido pelas sombras das árvores, deixando a praia silenciosa.


Dentro da Cabana de Hugo

Enquanto a busca começava lá fora, uma batalha diferente acontecia dentro das quatro paredes de madeira e lona.

Aaron (Hanbal), Hugo e Walt estavam sentados em caixotes improvisados. O ar estava pesado. Walt mantinha a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas, lutando contra o zumbido constante em seus ouvidos — o chamado de Osíris.

— O que me impede... — começou Walt, a voz rouca e carregada de incerteza. Ele levantou o olhar para os dois homens. — O que me impede de seguir Alvar no momento decisivo? Vocês falam de guerra, de estratégia... mas eu sinto ele na minha cabeça. Ele promete silêncio. Ele promete paz. Se ele me mandar matar vocês... como sei que não vou obedecer?

Aaron, com sua postura de general antigo, inclinou-se para frente. Ele não via um monstro; via um garoto ferido. — Eu sei que não é fácil, Walt. As trevas que ele plantou em você não são apenas uma influência externa; elas se entrelaçam com sua dor. Mas resistir não é impossível.

— Como você sabe disso? — indagou Walt, nervoso, os olhos marejados de frustração. — Você é um guerreiro de cinco mil anos. Eu sou só o garoto que foi sequestrado.

— Acalme-se. Eu já vi isso acontecer antes. — Aaron manteve a voz firme. — A escuridão não é um comando absoluto. É uma sugestão.

— Ele tem razão, cara. — Hugo interveio, a voz suave. Ele olhou para o chão, lembrando-se do cheiro de pólvora e água salgada dentro de um submarino anos atrás. — Aconteceu com o Sayid.

Walt franziu a testa. — O iraquiano?

— Sim. — Hugo assentiu, emocionado. — Quando ele voltou à vida no Templo... ele voltou diferente. Vazio. Ele trabalhou para o "Minut", para o Homem de Preto que usava o corpo do Locke. Sayid fez coisas terríveis. Mas no último momento... quando estávamos naquele submarino com a bomba armada...

Hugo engoliu o nó na garganta. — Sayid pegou a bomba. Ele correu com ela para longe de nós. Ele se redimiu e morreu para nos salvar. Ele resistiu à vontade das trevas porque, no fundo, o amor pelos amigos era maior que a corrupção. Você tem isso também, Walt.

Walt absorveu a história, mas o medo ainda estava lá. — Minut era uma coisa... — Walt balançou a cabeça. — Mas Minut não é Osíris, Hugo. Osíris é um deus. Minut era apenas a fumaça, o cão de guarda. O poder de Osíris é maior que o de Minut e o seu, Aaron, somados. Se ele entrar na minha mente com força total...

— Ele é poderoso, sim — admitiu Aaron, levantando-se e caminhando até a janela da cabana, olhando para a luz do sol. — Sozinho, eu não posso vencê-lo. Sozinho, você sucumbiria.

Aaron virou-se para eles, e um sorriso confiante, forjado em décadas de batalha, iluminou seu rosto marcado. — Mas é por isso que ele tem medo de nós, Walt. Osíris joga sozinho. Ele usa peões. Nós? Nós temos algo que ele não entende.

Aaron estendeu a mão para Walt. — Nós vamos enfrentá-lo juntos. Minha estratégia, o coração do Hugo e o seu poder. Juntos, nós somos a tempestade que ele não pode controlar.

Walt olhou para a mão estendida. Os sussurros em sua cabeça gritaram para ele recusar, para ele fugir. Mas Walt respirou fundo, olhou para Hugo, olhou para Aaron, e segurou a mão do guerreiro.

— Juntos — repetiu Walt, aceitando o destino.

Deserto da Tunísia — Arredores de Tozeur (2017)

O calor era uma entidade física, pesada e sufocante.

Walt Lloyd despertou com o rosto na areia quente. O zumbido da Ilha — aquele som de eletricidade estática e sussurros — havia desaparecido, substituído pelo silêncio absoluto do Saara.

Ele se levantou, cambaleando. A última coisa que lembrava era a luz branca na Estação e a sensação de estar sendo despedaçado. Agora, ele estava ali. Sozinho. De novo.

Walt caminhou por horas, guiado apenas pelo instinto. Suas pernas doíam, a garganta era puro papel de lixa. Quando as construções baixas de uma cidadezinha surgiram no horizonte, ele quase chorou.

Ele chegou a um pequeno café poeirento, com mesas de plástico do lado de fora. Desabou em uma cadeira, atraindo olhares desconfiados dos locais.

— Água... — grasnou Walt para o atendente, a voz falhando. — Água, por favor.

O homem trouxe um copo sujo com água morna. Walt bebeu como se fosse néctar, sentindo a vida voltar ao corpo. Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Onde estou? Em que ano estamos?

— Olá, Walt.

A voz veio da mesa ao lado.

Walt girou a cabeça tão rápido que sentiu uma tontura. Um homem de terno cinza, impecável demais para aquele lugar, estava sentado ali, tomando um chá de hortelã com a calma de um turista.

— Quem é você? — perguntou Walt, recuando na cadeira, os músculos tensos. — Como sabe meu nome?

— Calma, rapaz. Não há necessidade de pânico. — O homem sorriu, e havia algo familiar naquele sorriso. Uma sombra de alguém que Walt conhecera muito tempo atrás. — Meu nome é Omer Jarrah. Sou irmão de Sayid Jarrah. Vocês se conheceram na Ilha, quando você era apenas uma criança.

Walt piscou, a memória distante vindo à tona. Sayid. O homem que consertava rádios. O homem que tentara protegê-lo. — Sayid?! — Walt balançou a cabeça. — Já se passaram muitos anos. Disseram que ele morreu. Na explosão do submarino.

— Sim. Eu soube da morte do meu irmão. — Omer tomou um gole de chá, impassível. — Dizem que ele se sacrificou para salvar seus amigos. Um gesto nobre... vindo de um homem treinado para torturar e extrair verdades.

Havia uma frieza na voz de Omer que perturbou Walt. — Você não sente nada? — indagou o rapaz. — É o seu irmão.

Omer colocou o copo na mesa, o vidro tilintando suavemente. — Sabe, rapaz... quando o voo 815 caiu em 2004, eu sofri. Chorei o luto do meu irmão mais novo por meses. Fiz as orações, aceitei a perda. — Omer olhou nos olhos de Walt. — Mas quando ele voltou em 2007... um dos famosos "Oceanic Six"... ele sequer me procurou. Não ligou. Não disse "estou vivo". Ele viveu a vida de celebridade e depois voltou correndo para aquela ilha maldita. Quando soube que ele morreu de verdade... eu já tinha me despedido dele há muito tempo. Sayid morreu para mim no dia em que escolheu a Ilha em vez da família.

Walt engoliu em seco. Ele entendia sobre pais e escolhas difíceis. — Como você sabe da Ilha? Como me achou aqui? Isso é muito estranho.

— Muitas pessoas sabem da Ilha, Walt. Pessoas com recursos. Monitoramos as saídas de energia. Sabíamos que, eventualmente, alguém sairia pela "porta dos fundos". — Omer levantou-se, ajeitando o paletó. — Estávamos esperando por você. O senhor Alvar Hanso ficará muito feliz em saber que o "Garoto Especial" finalmente chegou.

— Alvar Hanso? — O nome não significava nada para Walt naquela época, mas soava perigoso.

— Venha. — Omer fez um gesto convidativo. — Temos um transporte esperando. Você não quer ficar aqui. O deserto à noite é traiçoeiro.

As incertezas dançavam na mente de Walt. Ele podia correr. Podia tentar usar seus poderes. Mas ele estava exausto, sem dinheiro e sem rumo. E aqueles homens pareciam ter as respostas que ele buscava desde que fora sequestrado do barco do seu pai.

Walt levantou-se e seguiu Omer até uma área descampada atrás do café.

A poeira levantou quando um helicóptero preto pousou. Na cabine do piloto, um homem de barba grisalha e camisa havaiana acenou, com uma expressão cansada de quem já vira aquela cena antes.

Era Frank Lapidus.

Walt olhou para Frank, depois para Omer. Ele não estava sendo resgatado. Ele estava sendo coletado. E, ao subir naquele helicóptero em 2018, Walt Lloyd deu o primeiro passo para se tornar a arma que Alvar Hanso tanto desejava.

A Ilha — Cabana de Hugo

O silêncio na cabana era pesado, sufocante. Walt Lloyd olhava para o chão de terra batida, as mãos apertadas entre os joelhos para parar o tremor. As palavras de esperança de Aaron pareciam distantes, abafadas pelos sussurros constantes em sua mente.

— O que foi? — indagou Walt, sentindo os olhares dos dois homens sobre ele.

— Você não acredita em nós, não é, Walt? — questionou Aaron (Hanbal), a voz calma, mas penetrante. — Você acha que já perdemos.

Walt levantou a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço e medo. — Eu queria acreditar, Aaron. De verdade. Mas vocês estão falando de estratégia militar contra uma entidade que controla a realidade. Osíris não é um general. Ele é uma tempestade. — Walt levantou-se abruptamente, chutando o caixote onde estava sentado. — E eu sinto ele. Ele está rindo de nós agora mesmo.

— Walt, espere... — Hugo tentou intervir.

— Não. — Walt recuou para a porta. — Eu sou um perigo para vocês. Se eu ficar, vou acabar matando todo mundo.

Ele saiu para a luz do sol, deixando Aaron e Hugo sozinhos na penumbra, envoltos na dúvida que ele plantara.

A Ilha — Floresta Densa

O grupo de busca avançava devagar pela mata fechada. Yan caminhava ao lado de Bernard, observando a postura rígida do homem mais velho. Bernard varria a floresta com os olhos, desesperado, gritando o nome de Rose a cada dez metros.

— O senhor está bem? — indagou Yan, preocupado com a palidez de Bernard. — Talvez devêssemos parar para beber água.

— Eu não preciso de água, preciso da minha esposa! — retrucou Bernard, sem parar de andar. — Ela estava aqui... ela tem que estar aqui. Não se preocupe comigo, garoto. Apenas procure.

Yan assentiu, respeitando a dor dele, e continuou a busca.

Não muito longe dali, em uma trilha paralela, Marcel corria como um louco. O terno caro estava rasgado, o rosto arranhado pelos galhos. Ele perdera a noção de direção, guiado apenas pelo choque de ter visto a irmã morta viva novamente.

— Danielle! — gritou ele. — Danielle, où es-tu?!

Ele rompeu uma barreira de samambaias e quase colidiu com dois homens.

Roger sacou a arma instintivamente. Frank levantou as mãos.

— Marcel?! — exclamou Roger, baixando a arma ao reconhecer o francês.

— Roger? — Marcel parou, ofegante, os olhos arregalados. — O que... o que vocês fazem aqui?

— Estamos tentando dar o fora dessa ilha maldita — respondeu Roger, ríspido. — E você? Cadê o resto do seu grupo de fanáticos?

— Eu... eu me perdi. — Marcel agarrou os ombros de Roger, frenético. — Vocês viram uma mulher? Uma mulher com uma escopeta, cabelo desgrenhado? Ela se parece comigo!

— Como assim "se parece com você"? — indagou Frank, franzindo a testa. — Você bateu a cabeça, amigo?

— É a minha irmã! Danielle! — Marcel sacudiu Roger. — Eu a vi! Ela estava aqui!

Roger empurrou Marcel para trás. — Escuta, francês. Nessa ilha acontecem coisas que a gente não explica. Fantasmas, visões... talvez você tenha visto o que queria ver.

— Não! Era real! — insistiu Marcel, à beira de um colapso. — Eu falei com ela! Ela tentou me matar!

— Cara, você está mal — comentou Frank, olhando para Roger. — Ele está delirando. Deveríamos levá-lo.

— Não vou sair daqui sem ela! — gritou Marcel.

— E o que você veio fazer aqui, afinal? — questionou Roger, desconfiado. — Você trabalha para o Wilbert, não trabalha?

CLICK-CLACK.

O som de dezenas de travas de segurança sendo liberadas respondeu à pergunta.

— Mãos para o alto! Agora! — Uma voz militar ordenou dos arbustos.

Roger girou, a arma em punho, mas congelou. Eles estavam cercados. Pelo menos oito soldados com fuzis de assalto apontavam lasers vermelhos para seus peitos. Lutar seria suicídio.

Roger soltou a arma no chão e ergueu as mãos. Frank e Marcel fizeram o mesmo.

Wilbert DeGroot saiu das sombras, caminhando com a calma de quem possui o terreno. Ao seu lado estavam Miguel e Juan, o antigo capitão de Roger.

— Frank Lapidus e Roger Miles trabalhando juntos... — Wilbert sorriu, balançando a cabeça. — A Ilha realmente cria companheiros de cama estranhos.

— Capitão? — Roger ignorou Wilbert, fixando o olhar em Juan. A traição doeu mais do que a emboscada.

— Olá, Roger — cumprimentou Juan, sem jeito, mantendo o fuzil abaixado.

— Então é isso? — Roger cuspiu no chão. — Você está do lado deles agora? Do lado dos terroristas?

— Desculpe, Roger. — Juan endureceu o olhar. — Estou do lado de quem me deu respostas. O Desmond nos manteve no escuro, nos usou como peões. O Sr. DeGroot me deu uma perspectiva real. Estamos salvando o mundo, Roger.

— Seu traidor de merda... — rosnou Roger.

Wilbert riu, interrompendo o drama. — Como nos encontrou? — perguntou Roger, voltando-se para o líder da Dharma.

— Desconfiamos desse idiota — Wilbert apontou para Marcel com desprezo. — Seguimos o rastro dele. O rastreador dele nunca parou de funcionar. Só não esperava encontrar o pacote completo da insubordinação aqui.

— Desgraçado... — murmurou Marcel.

Wilbert ignorou o francês e olhou para Frank Lapidus. — Frank... você me decepcionou. Fugindo com o prisioneiro? Mas eu sou um homem de segundas chances.

Wilbert apontou para Roger. — Mate-o.

Frank empalideceu. — O quê?

— Conclua a missão que lhe demos em Sydney — ordenou Wilbert, frio. — Elimine Roger Miles e prove sua lealdade a Alvar Hanso. Agora.

Roger olhou para Frank. O piloto estava tremendo. — Vá em frente, Lapidus — desafiou Roger, embora seu coração batesse forte. — Eu sabia que todo aquele papo de "vamos fugir juntos" era mentira.

— Roger, cala a boca... eu não estou com eles! — defendeu-se Frank.

— Faça, Frank! — gritou Wilbert. — Lembre-se de Jean e Anne. Se você quiser ver sua filha e sua ex-esposa vivas novamente, você vai puxar esse gatilho.

A menção à família fez Frank gelar.

Juan, ao lado de Wilbert, franziu a testa. — Sequestraram a filha dele? — Juan olhou para Wilbert, chocado. — Eu pensei que nós éramos os "mocinhos", senhor. Pensei que estávamos salvando pessoas.

— Não se preocupe com os detalhes, Capitão — cortou Wilbert, sem olhar para ele. — Os fins justificam os meios.

— Eu não assinei para isso. — Juan baixou o fuzil, dando um passo para trás. — Sequestro de crianças? Eu estou fora.

— Ei, onde pensa que vai? — Wilbert fez um sinal discreto.

Um dos mercenários atrás de Juan levantou a coronha do fuzil e desferiu um golpe brutal na nuca do capitão. Juan desabou, inconsciente, antes de entender o que aconteceu.

— Que bela forma de tratar os companheiros, Wilbert — comentou Roger, sarcástico, embora estivesse suando frio.

— Frank! MATE-O! É uma ordem! — berrou Wilbert.

Frank Lapidus olhou para Roger. Depois olhou para a imagem mental de sua filha. As lágrimas encheram seus olhos. — Sinto muito, Roger — sussurrou Frank.

Ele sacou a pistola do cós da calça, apontou para o peito de Roger e puxou o gatilho.

CLICK.

O percutor bateu. A arma não disparou.

Houve um segundo de silêncio absoluto. Frank olhou para a arma, confuso. Roger continuava vivo, respirando pesado.

— Não é possível... — murmurou Wilbert, estreitando os olhos.

Desesperado e confuso, Frank engatilhou a pistola novamente. Ele apontou para o céu e puxou o gatilho.

BANG!

O tiro rompeu o ar, assustando os pássaros. A arma funcionava perfeitamente.

Frank tremeu. Ele apontou para Roger de novo. Mirou no coração. Puxou o gatilho.

CLICK.

Nada. A arma travou novamente, recusando-se a disparar contra aquele homem específico.

Frank baixou a arma, as mãos tremendo incontrolavelmente, olhando para Roger como se ele fosse um fantasma.

Um sorriso lento e perverso se formou nos lábios de Wilbert DeGroot. Ele reconhecia aquele fenômeno. Ele lera os diários da Dharma.

— Como imaginei — disse Wilbert, olhando para Roger com um novo tipo de interesse. — A Ilha não deixa você morrer, não é, Sr. Miles? Parece que temos um novo candidato entre nós. Ou será que você já não é o guardião. Vamos descobrir.

A Ilha — Cabana de Hugo

Hugo caminhava de um lado para o outro na pequena cabana, a ansiedade evidente em cada passo. Aaron (Hanbal) estava sentado calmamente, afiando uma faca de caça com uma pedra, o som rítmico marcando o tempo.

— Aaron, eu preciso entender. — Hugo parou, gesticulando. — Se o Roger é o novo Guardião... como ele pode ser tão obtuso? Ele fugiu! Ele tentou atirar no Frank! Como ele não sente o peso da responsabilidade? Eu senti no momento em que bebi a água do Jack.

Aaron parou de afiar a faca e olhou para Hugo com a paciência de quem viu séculos passarem. — Ele vai compreender, Hugo. A Ilha não aceita renúncias. Jonas tentou fugir da baleia e veja onde foi parar. Quando encontrarmos a Rose, iremos atrás dele. E acredite, quando o momento chegar, Roger será o soldado que precisamos que ele seja.

Hugo suspirou, sentando-se pesadamente em um caixote. — E os outros? Yan, Bianca, Clementine... Por que eles? Por que essas pessoas específicas? — Hugo olhou nos olhos do amigo. — Qual é a estratégia real aqui? Você está montando um exército com enfermeiros e estudantes?

Aaron sorriu. Ele largou a faca e inclinou-se para frente, baixando o tom de voz como se fosse revelar o maior segredo do universo.

— Hugo, você herdou o cargo do Jack, que herdou do Jacob. E Jacob... bem, Jacob gostava de trabalhar sozinho. Ele centralizou o poder. Mas essa não era a forma original.

— Como assim?

— Eu não te contei tudo sobre Igherm-Ater. — Aaron olhou para as próprias mãos calejadas. — Resumidamente: eu não era o único Guardião. Eu fui o primeiro, o General, mas Taweret sabia que um homem só não pode segurar o céu.

Hugo arregalou os olhos. — Havia outros?

— Sim. Havia uma hierarquia. Um Conselho. — Aaron começou a listar, e seus olhos brilhavam com a memória de seus antigos irmãos de armas. — Eu era Hanbal, o Tecelão de Destinos. Eu via as linhas e as estratégias.

Aaron levantou um dedo. — Havia Titis. Ele via o tempo não como uma linha reta, mas como um oceano. Ele podia prever as ondas do futuro antes que elas quebrassem. — Aaron olhou significativamente para Hugo. — Soa familiar?

— Desmond... — sussurrou Hugo. — As visões do Desmond.

— Exatamente. — Aaron levantou o segundo dedo. — Havia Hegnus. Ele tinha a conexão com o véu final. Ele podia ouvir os últimos pensamentos dos que partiam, ler a marca que a morte deixava na alma.

— Miles — Hugo completou, chocado. — Ele fala com os mortos.

— E havia Tevan. A voz que alcançava qualquer lugar. Ele podia se projetar, comunicar-se através de sonhos e distâncias impossíveis. — Aaron olhou para fora da cabana, onde Walt estava. — Um dom perigoso.

— E... o monstro? — perguntou Hugo, receoso.

Minut. — O rosto de Aaron escureceu. — Antes de ser corrompido, a função dele era ser o nosso Infiltrado. Ele podia assumir a forma e as memórias dos caídos em batalha para nos dar vantagem tática. Mas a escuridão de Osíris o tomou... e o dom virou maldição.

Hugo recostou-se, a mente girando. — Então... todas essas habilidades...

— Vinham da Fonte. Do poder de Taweret. — Aaron abriu os braços. — Nós éramos um Grupamento de Guerra Espiritual. Cada um com uma função específica para manter o equilíbrio. Jacob tentou fazer o trabalho de cinco pessoas sozinho por milênios, Hugo. É por isso que ele falhou. É por isso que ele precisava trazer pessoas "especiais" para a Ilha o tempo todo. Ele estava tentando, inconscientemente, remontar o Conselho.

Aaron apontou para a direção onde o grupo de Yan e Bianca estava. — Acredite, Hugo. Esse grupo que trouxemos não é aleatório. Yan, Bianca, a Clementine... eles têm a centelha. Não sabemos ainda qual função Taweret reservou para cada um deles, mas as habilidades vão despertar. Estamos remontando a Falange. E desta vez, seremos completos.

Hugo observou Aaron, totalmente admirado. As peças do quebra-cabeça de anos finalmente se encaixavam. Ele não era um substituto inadequado; ele era parte de algo que precisava ser reconstruído.

Do lado de fora, debaixo de uma palmeira, Walt observava os dois através da fresta da janela.

Ele ouvira tudo. Tevan... o comunicador.

Walt bufou, encostando a cabeça na casca áspera da árvore. Ele sentia as trevas pulsarem em suas têmporas, como óleo negro tentando sufocá-lo. Aaron falava de dons divinos, de Taweret... mas o que Walt sentia parecia vir de um lugar muito mais profundo e frio. Ele não se sentia um guardião. Sentia-se uma porta aberta para o fim do mundo.

Roma, Itália — Cobertura da Torre Hanso (2018)

O helicóptero preto tocou o heliponto no topo do arranha-céu, agitando o ar quente da tarde italiana. Abaixo deles, a Cidade Eterna se estendia em tons de ocre e terracota, mas Walt Lloyd não tinha olhos para a vista. Ele desceu da aeronave trêmulo, ainda processando a saída abrupta da Tunísia.

Frank Lapidus desligou os rotores e saltou, gesticulando para que seguissem. Omer Jarrah caminhava atrás, garantindo que não houvesse fuga.

Eles foram conduzidos por dois seguranças armados através de portas de vidro blindado até uma sala que ocupava todo o andar. O luxo era obsceno: mármore carrara, obras de arte renascentistas originais e uma parede inteira de vidro com vista para o Vaticano.

— Onde estamos? — perguntou Walt, sentindo-se pequeno naquele espaço imponente.

O som suave de um motor elétrico foi a resposta.

Uma cadeira de rodas tecnológica deslizou pelo piso de mármore. Nela, estava um homem idoso, com um cobertor sobre as pernas e tubos discretos conectados ao braço. Atrás dele, Wilbert DeGroot caminhava com a postura de um cão de guarda leal.

— É bom finalmente conhecê-lo, Walt Lloyd. — A voz do homem era fraca, mas seus olhos brilhavam com uma inteligência predadora.

— Quem é o senhor? — indagou Walt, recuando um passo.

— Meu nome é Alvar Hanso. — O velho sorriu, e o sorriso não chegou aos olhos. — Estou finalmente feliz em vê-lo, meu jovem. Ouvi dizer que você é o herdeiro do poder de Tevan, não é mesmo?

Walt franziu a testa. — Tevan? Poderes? Do que você está falando?

— Não se faça de modesto. — Alvar fez um gesto com a mão esquelética. — Você se comunicou com pessoas na Ilha sem estar lá. Projetou sua imagem através do oceano e do tempo. Acredito que uma das pessoas que viu seu "fantasma" foi Sayid Jarrah, irmão deste homem aqui.

Alvar apontou para Omer, que permaneceu impassível. — É realmente impressionante o que você consegue fazer, Walt. Manipulação de matéria, projeção astral... Tevan, o Comunicador, ficaria orgulhoso.

— Eu não sei do que você está falando! — Walt gritou, a negação sendo sua única defesa. — Eu sou só um garoto que quer ir para casa!

— Não, você não é. — Alvar cortou, a voz endurecendo. — Você é uma arma que não sabe onde fica o gatilho. E eu estou interessado em puxá-lo. Quero que trabalhe para mim.

— Não estou interessado. — Walt balançou a cabeça, decidido. — Seja lá quem o senhor for, não quero me envolver nessa loucura. Eu quero minha vida de volta.

Alvar inclinou a cabeça, analisando-o. — Sua vida? Aquela vida medíocre onde você finge que não ouve vozes? Onde você finge que não odeia o homem que destruiu sua infância?

Alvar fez uma pausa dramática. — Walt, me diga... quem você quer matar?

A pergunta pegou Walt desprevenido. — O que disse?

— Você me ouviu bem. Quantos anos você tem agora? Vinte e quatro? — Alvar sorriu cruelmente. — Independente de onde você esteve, eu sei da conversa que você teve com seu pai, Michael, antes dele morrer no cargueiro. Eu sinto o desejo de vingança pulsando dentro de você como um segundo coração. É o Benjamin Linus, não é?

O nome fez os punhos de Walt se fecharem involuntariamente. — Então vamos fazer um acordo — sugeriu Walt, tentando negociar com o diabo. — Eu quero a cabeça de Benjamin Linus. Traga ele para mim, e eu faço o que quiser.

— Você não está em posição de dar ordens, meu jovem. — Alvar riu, seco. — Você terá o que quer, mas terá que provar seu valor primeiro. E eu posso te dar o que você mais deseja além da vingança.

— Nada feito. — Walt virou as costas, caminhando em direção ao elevador. — Eu vou embora.

— Você não gostaria de ter teus pais de volta?

Walt parou. Ele se virou devagar.

— Meus pais estão mortos. — Respondeu Walt, intrigado com a ousadia de Alvar.

— Certamente. Mas o que é a morte ou a vida para um deus, Walt? — Indagou Alvar, lançando incertezas no ar.

O som do motor elétrico parou. Houve um ruído de tecido se movendo, então, Alvar se levantou.

O homem que parecia inválido segundos atrás agora estava ereto, alto e imponente. Ele chutou a cadeira de rodas para longe com um desprezo casual.

Walt recuou, batendo as costas na imensa parede de vidro que dava para a queda de trinta andares. — Como... como você fez isso?

Alvar caminhou até ele. Não havia fragilidade em seus passos. Havia uma força sobrenatural emanando dele. — Trabalhe para mim, rapaz, e terá o que quer. Recuse... e descubra o que acontece com ferramentas quebradas.

— Fique longe de mim! — Walt tentou empurrá-lo, mas Alvar segurou seu braço. O aperto foi como aço hidráulico. Walt gritou de dor, sentindo o osso estalar.

— E o que eu tenho que fazer? — Walt gritou, desesperado, as lágrimas escorrendo. — O que você quer de mim?!

Alvar aproximou o rosto do de Walt. Seus olhos não eram mais humanos; eram abismos escuros. — Eu quero que você nasça de novo, Walt. E para nascer...

Um sorriso maléfico curvou os lábios de Alvar.

— ...você precisa morrer!

Com um rugido de esforço, Alvar girou o corpo e lançou Walt violentamente contra a parede de vidro.

— O QUE ESTÁ FAZENDO?! — Frank Lapidus berrou, avançando para impedir o assassinato.

— Não interfira, Frank! — Miles Straume surgiu do nada, pressionando o cano de uma pistola na têmpora de Frank, segurando-o no lugar. — Não é da nossa conta.

Walt atingiu o vidro com um baque surdo. A estrutura reforçada rachou, mas não quebrou.

Alvar não parou. Ele agarrou Walt pelos cabelos e bateu a cabeça do rapaz contra a rachadura. Uma, duas, três vezes. O vidro tingiu-se de vermelho. Walt gritava, debatendo-se, mas era inútil contra a força daquele homem.

— Mostre-me que você é especial! — gritou Alvar. — Mostre-me que a Ilha te protege!

Com um último golpe brutal, o vidro cedeu.

O som de estilhaços explodindo encheu a sala. O vento uivante invadiu o ambiente luxuoso, levando papéis e cortinas.

Walt Lloyd desapareceu na borda.

Frank correu até a janela quebrada, ignorando a arma de Miles. O corpo do garoto estava estirado no chão.

Frank olhou para Alvar, horrorizado. O velho ajeitava as abotoaduras do terno, respirando calmamente, olhando para o horizonte com satisfação.

— O que você fez? — perguntou Frank, a voz trêmula.

Alvar Hanso sorriu. — Garantindo que o garoto será leal a mim.

A Ilha — Cabana de Hugo (Presente)

A luz da tarde entrava pelas frestas da madeira, criando faixas de poeira dourada no ar. Walt Lloyd entrou novamente na cabana, o rosto banhado em suor frio. Ele não disse uma palavra. Apenas caminhou até o centro do cômodo, onde Aaron e Hugo estavam, e começou a desabotoar a camisa.

Hugo franziu a testa. — Walt? O que você...

Walt deixou a camisa cair no chão de terra.

Hugo engasgou, levando a mão à boca. Aaron, apesar de seus séculos de guerra, estreitou os olhos com pesar.

O tronco de Walt era um mapa de agonia. Havia depressões profundas onde ossos deveriam estar alinhados. A caixa torácica estava visivelmente assimétrica, como se tivesse sido esmagada e remontada às pressas. Cicatrizes grossas e roxas serpenteavam pelas costas e pelo peito, pulsando levemente, como se houvesse algo vivo sob a pele.

— Meu Deus, cara... — sussurrou Hugo, horrorizado. — O que é isso?

— É o preço da entrada — disse Walt, a voz embargada. — Aquele desgraçado... Alvar Hanso... ele me jogou do topo de um arranha-céu em Roma. Trinta andares. Vidro, concreto e gravidade.

Walt tocou uma das costelas deformadas, estremecendo de dor. — Eu deveria ter virado uma mancha na calçada. Mas eu não morri. Eu senti cada osso quebrar, senti meus pulmões perfurados... mas eu acordei. Ele me remontou. Ou a coisa dentro de mim me remontou.

As lágrimas começaram a correr pelo rosto do rapaz. — Sinto a dor me consumindo a cada segundo, Hugo. É como se eu estivesse morto, mas minha alma tivesse sido pregada de volta neste corpo com pregos enferrujados. Eu não sou mais humano. Sou um rascunho.

Hugo desviou o olhar, incapaz de encarar tanta brutalidade.

Aaron levantou-se e caminhou até Walt. Ele não tocou nas feridas, mas olhou para elas com o entendimento de um médico de campo de batalha. — Eu entendo. Então foi assim que ele te ativou. Através do trauma.

— A forma como ele exerce o controle é surreal — continuou Walt, vestindo a camisa rapidamente, envergonhado. — Ele diz que sou especial, mas me sinto um monstro.

— Osíris não cria, Walt. Ele distorce. — Aaron voltou-se para os dois, a expressão sombria. — É isso que ele planeja para o mundo inteiro. Um exército de mortos-vivos, presos em corpos quebrados, obedecendo por medo da dor.

Aaron respirou fundo, lembrando-se de outra pessoa que sofrera algo semelhante. — Eu entendo que você quer ter sua vingança, Walt. Você quer matar Alvar, quer matar Ben. Mas esse desejo... essa fome... é apenas a coleira que Osíris colocou em você. Você morreu e ressuscitou graças ao poder dele, assim como o Sayid.

Aaron fez uma pausa, a voz falhando pela primeira vez. — E assim como aconteceu com minha mãe.

Hugo olhou para Aaron, surpreso. — A Claire?

— Minut fez o mesmo com ela — revelou Aaron. — Quando a cabana explodiu... quando ela sumiu na selva por três anos... ela não apenas "enlouqueceu". Ela foi corrompida. Por toda a minha vida, eu nunca compreendi por que ela me olhava daquele jeito estranho, por que o amor dela parecia misturado com algo frio. Mas agora, eu compreendo.

Aaron olhou para Walt com uma compaixão feroz. — Ela estava lutando contra a mesma escuridão que você está lutando agora. E do fundo do meu coração, eu quero libertá-la. E quero libertar você.

Hugo limpou uma lágrima silenciosa. — Nós vamos consertar isso, Walt — prometeu Hugo, recuperando a força de Guardião. — Nós não vamos deixar você sofrendo.

Walt assentiu, sentindo, pela primeira vez desde a queda em Roma, que talvez houvesse uma cura para a sua alma quebrada.

Londres — Hangar Privado (Noite)

A tensão no galpão era tão espessa que poderia ser cortada com uma faca. Penelope Hume encarava o marido, os olhos arregalados, pega em flagrante na maior mentira de seu casamento.

— Dess... — A voz de Penny falhou. — Eu nunca quis te envolver nisso. Eu jurei que protegeria você.

O grupo de sobreviventes — James, Kate, Edward, Claire — observava em silêncio, como plateia de uma tragédia grega.

— Me envolver em quê, Penny? — Desmond deu um passo à frente, a mágoa escocesa vibrando na voz. — Em salvar o mundo? Ou em mentir para mim?

— Eu segui o legado do meu pai, Desmond. — Penny endireitou a postura, assumindo a frieza dos Widmore. — Quando Charles morreu, ele deixou instruções. Arquivos. A Widmore Corporation não existe apenas para fazer dinheiro; ela existe para manter o mundo a salvo do que está naquela Ilha.

Desmond soltou uma risada curta, carregada de descrença. — E você acreditou nele? No homem que tentou me matar? No homem que transformou a nossa vida num inferno?

— Não tive escolha! — gritou Penny, perdendo a compostura. — Afinal de contas, ele era meu pai. E ele estava certo sobre a ameaça.

— E resolveu esconder tudo de mim? Por quê? — Desmond apontou o dedo para ela. — Porque sabia que eu jamais permitiria que você se tornasse ele.

O silêncio caiu novamente. Desmond olhou para os rostos ao redor. Viu James Ford encostado em uma caixa de carga, assistindo a tudo com um sorriso de canto de boca, como se estivesse vendo um reality show ruim.

Desmond balançou a cabeça, enojado, e virou-se para sair. — Eu não faço parte disso.

— Dess, por favor! — Penny correu atrás dele, segurando seu braço. — Não vá!

James Ford soltou um assobio baixo. — Parece que o plano genial foi por água abaixo antes mesmo de embarcarmos. — Ele riu, sarcástico. — Clássico Widmore.

Kate revirou os olhos, cruzando os braços. — Não era exatamente o que eu esperava de uma reunião de emergência.

— E o que você esperava, Sardenta? — James virou-se para ela, o charme ácido em potência máxima. — Que chegássemos aqui, déssemos as mãos, cantássemos Kumbaya e voássemos para a Ilha num tapete mágico?

— Escuta aqui... — Edward Widmore deu um passo à frente, protegendo a esposa. — Você não é o cafajeste que traiu a minha mulher? O cara do Novo México?

James olhou para Edward de cima a baixo, avaliando o terno caro e a postura de "mauricinho". O sorriso de predador aumentou. — Ah, desculpa. Onde estão meus modos? — James estendeu a mão, exageradamente educado. — Meu nome é James Ford, mas os amigos me chamam de Sawyer. E os inimigos também.

— Não espere que eu aperte sua mão ou me importe com quem você é — respondeu Edward, frio, deixando James no vácuo.

James recolheu a mão, sem se abalar. — Uau. Tá nervosinho, hein, Playboy? — Ele olhou para Kate e depois voltou para Edward. — Só estava tentando entender o que a Kate viu em você. Quer dizer... agora é "Kate Widmore", certo? Ela entrou para a turminha dos bilionários que ferraram com nossas vidas. Deve ser amor verdadeiro... ou um belo fundo fiduciário.

Aquilo foi longe demais. Edward avançou, invadindo o espaço pessoal de James. — Qual é a tua, hein, irmão? Você quer quebrar os dentes aqui mesmo?

— Quer brigar, amofadinha? — James estufou o peito, os olhos brilhando com a promessa de violência. — Eu como caras como você no café da manhã.

— Edward! Sawyer! Parem com isso agora! — gritou Kate, colocando-se entre os dois homens.

Eles se separaram, medindo forças com o olhar.

No canto, Claire Littleton observava tudo com olhos vidrados. Ela parecia distante, quase catatônica, até que sua voz cortou a briga dos machos alfa.

— O que você faz aqui, Kate?

Todos olharam. Claire deu um passo à frente. Ela não parecia mais a garota doce da praia; havia algo de selvagem nela, resquícios dos anos que passou sozinha na selva.

Kate suspirou, cansada. — Claire, estamos no mesmo barco. Temos que voltar à Ilha. Pelas crianças.

Claire soltou um bufo de escárnio. — Crianças... Você quer ele de volta, não é? — O veneno na voz dela era palpável. — Você está voltando para a Ilha por causa do Aaron. Não é? Você quer roubar meu filho de novo.

— Claire, não é nada disso... — começou Kate, levantando as mãos.

— Não minta para mim! — gritou Claire, avançando. — Você disse que iria sair das nossas vidas para sempre! Você prometeu! Não era para você estar aqui!

— O que há com você, garota? — James franziu a testa, percebendo que a "Esquilo" estava de volta.

— Você roubou três anos da vida dele! — Claire apontou o dedo no rosto de Kate, tremendo de ódio. — Você fingiu ser mãe dele!

Kate recuou, assustada com a intensidade da fúria de Claire. James e Edward ficaram imóveis, percebendo que aquela ferida nunca tinha cicatrizado.

Do lado de fora, na chuva fina de Londres, Penelope e Desmond tinham sua própria batalha.

— Eu vou te escutar, Pen — disse Desmond, a voz grave. — Mas me prometa... me prometa que vamos sair disso. Eu não quero mais essa Ilha na nossa vida. Nós temos o Charlie. Temos uma vida.

— Meu amor, você precisa entender. — Penny segurou o rosto dele, desesperada. — Você viveu lá. Você girou a chave da Escotilha. Você sabe que aquela energia é real. Se Alvar Hanso tomar o controle... não haverá "vida" para voltarmos.

— Eu entendo, Penny. Mas por que tem que ser nós? Por que sempre nós?

— Porque meu pai foi expulso de lá por Ben Linus, mas ele nunca deixou de vigiar. Ele sabia que esse dia chegaria. — Penny suspirou. — O plano é simples e terrível: enviaremos esse grupo de volta. Eles são as variáveis. Eles nunca deveriam ter saído. É a única forma de protegê-los de Alvar e de parar a Nova Dharma.

— Isso inclui a mim, não é? — Desmond fechou os olhos. — Eu nunca deveria ter saído.

— Não, Dess. — Penny negou com veemência. — A Ilha te concedeu a liberdade no momento em que você foi útil. Você é a Constante. Mas eles... James, Kate, Claire... eles saíram fugindo. Eles precisam voltar para fechar o ciclo.

— Como você os convenceu? — indagou Desmond, cético. — Sawyer prefere morrer a voltar.

— Eu usei a única moeda que importa: filhos. — Penny disse com tristeza. — Prometi a Claire e Kate que veriam Aaron. James ama a filha que foi levada. O amor move montanhas, Desmond. E move ilhas.

Desmond olhou para a esposa. Ele viu a força dela, mas também viu a sombra de Charles Widmore. Ele se sentiu traído, mas, no fundo, sabia que ela estava certa. A Ilha nunca soltava suas presas.

— Penny... isso tudo é uma loucura. — Desmond suspirou, derrotado. — Mas se é o que precisamos fazer para salvar o nosso filho e livrar o mundo disso... eu estou dentro. Aye.

Juntos, eles retornaram ao hangar.

A cena lá dentro estava à beira do colapso. Claire encarava Kate com um ódio que queimava o ar. James estava tenso, pronto para intervir.

— Claire, nós precisamos da ajuda de todos. — Penny anunciou, entrando no recinto com autoridade.

Claire não desviou o olhar de Kate. — Eu não a quero na missão. — A voz de Claire era baixa e letal. — Tira ela daqui. Ela só quer o Aaron. Ela é uma ladra.

Penelope trocou um olhar preocupado com Desmond. O grupo estava fraturado antes mesmo de começar.

— Claire, eu entendo que você está magoada... — começou Kate.

— Você não entende nada! — gritou Claire, histérica. — Você nunca foi mãe! Você só brincou de boneca com o meu filho!

Desmond deu um passo à frente, usando sua presença para acalmar os ânimos. — Claire, escute, irmã. Todos têm seus motivos. Kate está aqui pelo bem de todos. Precisamos de cada par de mãos se quisermos sobreviver ao que vem por aí.

Claire olhou para Desmond. Ela confiava nele. Ele fora o único que a tratara com dignidade naqueles últimos dias na Ilha.

— Eu não confio nela — disse Claire, tremendo. — Ela vai tentar levá-lo de mim. Eu sinto.

— Ninguém vai levar ninguém, Claire — prometeu Penny.

— Tire-a daqui. Ou eu não vou.

O ultimato pairou no ar. A tensão atingiu seu ápice.

Kate olhou para Claire, viu a dor insuportável nos olhos da outra mulher e entendeu que sua presença ali era o gatilho. Ela olhou para James, que desviou o olhar.

— Tudo bem. — Kate deu um passo para trás, levantando as mãos em rendição. — Se a minha presença atrapalha a missão... eu me afasto.

Edward tentou segurá-la, mas Kate se soltou. Ela caminhou para longe do círculo, aceitando a exclusão para que o grupo pudesse seguir em frente, mas com o coração pesado de quem sabe que a Ilha ainda não acabou com ela.

Alexandria, Egito — Estação "A Linha" (Subsolo)

O ar na cela era pesado, cheirando a mofo e desespero antigo. Benjamin Linus estava sentado no chão, encostado na parede fria de concreto. Ele estava ferido, sujo e, pela primeira vez em décadas, sem um plano.

O som de travas magnéticas sendo liberadas ecoou pelo corredor externo.

Ben levantou-se com dificuldade, ignorando a dor nas costelas. A porta de sua cela era maciça, blindada, com apenas uma pequena fresta de observação na altura dos olhos. Ele pressionou o rosto contra o metal frio, tentando ver quem se aproximava.

Três figuras caminhavam pelo corredor estéril. Omer Jarrah liderava, seguido por Miles Straume e, entre eles, um jovem com roupas empoeiradas e olhar aterrorizado.

Ben arregalou os olhos. Zack.

— O que estamos fazendo nesse lugar? — A voz de Zack tremia, ecoando nas paredes metálicas.

— Bem-vindo à Estação "A Linha" — respondeu Omer, a voz seca. — Uma antiga instalação da Dharma. Era uma prisão para quem tentava fugir da Ilha sem permissão. Ou para quem sabia demais.

— Vocês estão mesmo tentando ressuscitar a Dharma? — Zack olhou para os logotipos octogonais desbotados nas paredes.

— A Dharma foi apenas um experimento fracassado. O que o senhor Alvar planeja é evolução. — Omer parou diante de uma porta dupla no fim do corredor. — Em um mundo moderno, o controle precisa ser absoluto. O retorno triunfal da Iniciativa é apenas a fachada. Mas nada pode ser concluído enquanto o Guardião e os Candidatos respirarem. O legado de Hanbal deve ser apagado da história.

Ben, ouvindo tudo da cela, sentiu um calafrio. Eles sabiam sobre Hanbal. Sabiam sobre Aaron.

Desesperado, Ben começou a socar a porta de metal. — Zack! Não confie neles! Zack!

O som surdo das batidas fez o garoto parar. — Que barulho é esse? — Zack olhou para a porta blindada. — Quem está aí dentro?

Miles ajeitou os óculos escuros, impassível. — É o Ben. Estamos guardando ele para a sobremesa. Continue andando, garoto.

Zack olhou para a cela, sentindo um nó no estômago. Se Benjamin Linus — o homem que controlava tudo — estava preso ali, que chance ele tinha?

Eles atravessaram a porta dupla e entraram em um ambiente que parecia deslocado no tempo e no espaço.

Era um escritório amplo, decorado com o luxo excessivo dos anos 80 — madeira escura, couro, carpetes grossos. Mas as paredes... as paredes estavam cobertas de afrescos antigos, pinturas que pareciam egípcias, mas retratavam tecnologias e guerras que a história esqueceu.

No centro da sala, sentado atrás de uma mesa imponente, estava Alvar Hanso. Ele não parecia o velho doente de Roma. Ele irradiava uma energia vital, um sorriso de predador que acabou de encurralar a presa.

— Olá, Zack. — A voz de Alvar era suave, acolhedora. — Estou feliz em finalmente conhecê-lo. Você fez uma longa viagem.

— Quem é o senhor? — Zack recuou um passo, mas Miles bloqueou a saída.

— Sou Alvar Hanso. Prazer.

Zack olhou para o homem, depois para as pinturas na parede que mostravam uma figura divina sendo adorada. A peça caiu. — Osíris! — afirmou Zack, o nome saindo como uma acusação.

Alvar soltou uma risada genuína, batendo palmas lentas. — Ora, ora. Estou surpreso. Vocês, habitantes da Ilha, sempre me surpreendem com sua intuição.

— Como pode saber tanto sobre nós? — Zack perguntou, o medo dando lugar à curiosidade mórbida.

— Porque o sangue dos Aterianos corre nas suas veias, rapaz. Nas veias de todos vocês. — Alvar levantou-se e caminhou até Zack. — O destino não é aleatório. A Ilha é um ímã. Ela chama seus filhos de volta. Todos vocês que caíram lá, que foram levados para lá... vocês são descendentes, ou em alguns casos, reencarnações do meu antigo povo.

— Onde você quer chegar? — Zack sentiu o ar ficar pesado ao redor de Alvar.

— Quero dizer que é natural que vocês me sirvam. — Alvar abriu os braços. — Para mim, é muito fácil ter vocês como meus súditos novamente. Mas... os Guardiões de Taweret, aquela deusa ladra, insistem em me manter longe dos poderes que ela roubou de mim.

— Roubou?

— Taweret me prendeu nesta carne mortal. Sou imortal, sim, mas sou apenas um homem. — O rosto de Alvar contorceu-se em ódio por um segundo. — Estou formando um exército para tomar de volta o que é meu. Este mundo. E você, Zack... você será um dos meus generais.

— Eu não sou um "Ateriano". Nasci na Austrália! — gritou Zack.

Alvar riu, condescendente. — A geografia é irrelevante para a alma. Eu sinto a marca em você. Você é forte. Você sobreviveu à Roda.

— Não importa quem eu seja ou o que você diz que eu sou. — Zack endireitou a postura, encontrando uma coragem que não sabia ter. — Eu vi o que vocês fizeram. Eu vi o medo nos olhos do Ben. Eu não vou fazer suas vontades.

Alvar suspirou, decepcionado, como um pai vendo o filho quebrar um vaso caro. — Que pena. Eu esperava cooperação voluntária. Mas a morte... a morte é uma excelente professora.

Alvar olhou para Miles e fez um gesto quase imperceptível com a cabeça. — Faça.

Zack não teve tempo de processar.

Miles Straume sacou a pistola com movimento fluido, sem hesitação, sem remorso. Ele apontou para o peito de Zack.

— Desculpe, garoto — murmurou Miles. — Nada pessoal.

BANG!

O tiro à queima-roupa jogou Zack para trás. Ele caiu no tapete persa, os olhos arregalados de choque, a vida se esvaindo antes mesmo que ele sentisse a dor. O sangue manchou o tecido caro.

O estrondo do tiro ecoou pelos dutos de ventilação, chegando até a cela no corredor.

— NÃO! — gritou Ben, socando a parede. — O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!

No escritório, Alvar caminhou até o corpo de Zack. Ele olhou para o rapaz morto com satisfação.

— Não tenha medo, meu jovem — sussurrou Alvar para o cadáver. — Você irá retornar. A morte é apenas o processo de recrutamento.

Alvar olhou para Miles e Omer. — Preparem a câmara de criogenia. Temos mais um soldado para o exército. E tragam o Sr. Linus. Quero que ele veja o que acontece com quem desafia o verdadeiro dono da Ilha.

A Ilha — Floresta Profunda (Presente)

Walt Lloyd caminhou para longe da cabana de Hugo, deixando para trás as promessas de redenção e esperança. A cada passo que dava em direção à mata fechada, a expressão de dor e vulnerabilidade em seu rosto desaparecia, substituída por uma máscara fria e vazia.

Os sussurros em sua cabeça, que Aaron prometera silenciar, agora gritavam ordens claras.

Ele adentrou uma trilha antiga, quase invisível, coberta por samambaias gigantes. Caminhou até chegar a uma cabana decrépita, escondida sob as raízes de uma figueira-de-bengala. Era um lugar que nem os mapas da Dharma registravam.

Walt abriu a porta rangente e entrou na penumbra.

No centro do cômodo úmido, amarrada a uma cadeira de madeira robusta, estava Rose Nadier.

Ela parecia exausta, os olhos arregalados de terror acima da mordaça de pano. Ela não havia desaparecido no clarão; ela havia sido levada.

Walt aproximou-se calmamente e puxou a mordaça, libertando a boca dela.

Rose tossiu, puxando o ar com força. Ela olhou para o rapaz que vira crescer na praia, o menino que brincava com Vincent, e tentou encontrar algum traço dele naquele rosto endurecido.

— Por que está fazendo isso, Walt? — A voz de Rose tremeu, cheia de mágoa. — Bernard está lá fora gritando meu nome. Nós cuidamos de você...

Walt não se abalou. Ele puxou um caixote e sentou-se à frente dela, observando-a com a curiosidade clínica de um médico examinando um espécime.

— Não é pessoal, Rose. — Walt sorriu, e o sorriso não chegou aos seus olhos. Era o sorriso de outra coisa. — Essa é a vontade do Senhor Alvar.

— Alvar? — Rose balançou a cabeça. — Quem é esse? Por que eu? Eu sou apenas uma senhora doente...

— Você não é doente, Rose. Você é a prova viva. — Walt inclinou-se para frente, sussurrando. — O câncer que estava te matando... ele não sumiu por mágica. Ele foi queimado pelo poder de Taweret. A energia vital da Ilha se manifestou no seu corpo, consertou suas células.

Rose ficou em silêncio, lembrando-se de como sentira a cura no momento em que o avião caiu.

— Você carrega uma centelha dela dentro de você — continuou Walt, os olhos brilhando com uma escuridão fanática. — E o Senhor Alvar... ele quer de volta. Ele precisa dessa energia pura para completar a ascensão. Você é uma bateria, Rose. E você não sairá daqui enquanto ele não retornar para a Ilha e tomar o que é dele por direito.

O horror tomou conta de Rose. Ela não era apenas uma refém; era um ingrediente.

— Walt... olhe para mim. — Rose tentou manter a voz firme, apelando para a alma do garoto. — Eu sei que você está aí dentro. Eu sei que você está sofrendo. Você não precisa fazer a vontade dele, querido. Resista. O menino especial que eu conheci não faria isso.

Por um segundo, o rosto de Walt vacilou. Uma sombra de dúvida cruzou seus olhos. Mas então, a escuridão pulsou mais forte em suas têmporas, sufocando a consciência.

O sorriso cruel voltou, mais largo do que antes.

— Aquele menino morreu em Roma, Rose. — disse Walt, frio como o túmulo.

Sem dizer mais nada, ele recolocou a mordaça na boca dela, abafando seus protestos. Walt levantou-se, verificou as amarras uma última vez e saiu da cabana, trancando a porta e deixando Rose Nadier sozinha na escuridão, guardando o poder de uma deusa em suas veias.

A Ilha — Floresta (Horas antes do Deslocamento Temporal)

O ar estava elétrico, pesado com a umidade que precede uma tempestade sobrenatural. Walt Lloyd caminhava à frente de sua pequena tropa de mercenários, guiando-os com uma certeza assustadora.

Frank Lapidus, suando sob a camisa havaiana, apressou o passo para alcançar o rapaz. — Para onde estamos indo, garoto? — perguntou Frank, limpando a testa. — Estamos andando em círculos há meia hora.

Walt parou subitamente. Ele inclinou a cabeça, como se ouvisse um comando silencioso vindo das árvores. — Fiquem aqui. — A ordem foi seca. — Tenho algo a fazer. Sozinho.

Frank franziu a testa, olhando para a densa vegetação. — Sozinho? Nesse mato? Não precisa da nossa ajuda? Ouvi dizer que tem ursos polares e monstros de fumaça por aqui.

— Eu prefiro que não venha, Frank. — Walt virou-se, e seus olhos estavam frios. — Aguarde aqui. Em breve nos encontraremos com os fugitivos. Não saiam desta clareira.

Sem esperar resposta, Walt embrenhou-se na floresta, movendo-se com uma agilidade sobrenatural.

Ele caminhou por dez minutos, seguindo a pulsação de energia que sentia vibrar no ar. Era como um farol. Chegou a uma pequena clareira onde árvores frutíferas antigas cresciam.

Lá estava ela.

Rose Nadier estava de costas, colhendo mangas e colocando-as em uma cesta de vime improvisada. Ela cantarolava uma melodia antiga, parecendo estar em paz absoluta, alheia ao caos que se aproximava.

Walt pisou em um galho seco, anunciando sua presença.

— Rose? — chamou ele.

A mulher parou de cantar. Ela não se assustou. Virou-se devagar, limpando as mãos no avental sujo de terra, e sorriu. Um sorriso maternal, triste e sábio.

— Olá, Walt. — Disse ela, suavemente. — Eu sabia que você retornaria.

Walt paralisou. Ele esperava gritos, medo, fuga. Não aquilo. — Como poderia saber?

— Apenas sei. Eu senti. — Rose tocou o próprio peito, onde o câncer costumava devorá-la anos atrás. — O poder da Ilha emana em mim desde o dia em que o avião caiu. Desde que ela me consertou. Taweret, a Deusa da Fertilidade e da Vida... ela sussurra para mim, Walt.

Walt recuou um passo, perturbado. Alvar estava certo. A energia estava nela. — Como você sabe o nome de Taweret?

— Eu a vi em um sonho — respondeu Rose, os olhos brilhando. — Ela me disse que o equilíbrio estava quebrado. E ela me disse que você viria. Eu sei por que você está aqui, Walt.

— Se sabe... por que está parada aí? — Walt cerrou os punhos, lutando contra a hesitação. — Não tem medo de mim?

Rose deu um passo na direção dele, destemida. — Eu me lembro do menino que perdeu o cachorro na selva. Eu me lembro do menino que só queria o pai. Confio que você seguirá seu coração, Walt. Lá no fundo, você não é um mau rapaz.

Walt baixou a cabeça. Os sussurros de Alvar e de Osíris gritaram em sua mente, exigindo obediência. Ela é uma bateria. Ela é o meio.

Ele bufou, uma expiração de dor e raiva. Quando levantou o rosto, o menino havia sumido.

— Você não deveria confiar tão facilmente nas pessoas, Rose.

Antes que ela pudesse reagir, Walt avançou. Foi um movimento rápido, brutalmente eficiente. Ele desferiu um golpe preciso na têmpora dela.

Os olhos de Rose reviraram. Ela desabou nos braços dele, a cesta de frutas caindo e espalhando mangas pela terra.

Walt a segurou antes que ela atingisse o chão. Ele olhou para o rosto sereno dela, inconsciente, e sentiu uma pontada de culpa, que ele rapidamente esmagou.

Ele a arrastou para dentro da mata fechada, escondendo-a sob as raízes de uma árvore grande, camuflando o corpo com folhas de palmeira. Ela estaria segura ali até que ele pudesse voltar para levá-la à cabana isolada.

— Sinto muito Rose. Mas eu preciso que Alvar cumpra o que prometeu... — sussurrou Walt para a mulher desacordada.

Limpando a terra das mãos, Walt endireitou a postura, vestiu sua máscara de frieza novamente e correu de volta para a trilha, pronto para reencontrar Frank e continuar o teatro, enquanto o verdadeiro prêmio já estava garantido.