Lost: O Primeiro Herdeiro

27 LIVRO 3 — CAPÍTULO 27: O MELHOR AMIGO DO HOMEM



A Ilha — Cabana Oculta (Dia)

Walt abriu a porta da cabana com um chute leve, carregando uma bandeja improvisada com frutas e carne enlatada que roubara dos suprimentos do grupo. O cheiro de mofo e madeira podre encheu suas narinas, misturando-se ao medo que exalava de sua prisioneira.

Rose estava sentada no escuro, as mãos amarradas firmemente às costas da cadeira. Ela parecia pálida, desidratada.

Walt aproximou-se, o rosto inexpressivo, e puxou a mordaça de pano. — Coma — ordenou ele, pegando um pedaço de manga e levando à boca dela. — Você precisa manter a força. Alvar não quer uma bateria descarregada.

Rose virou o rosto, recusando a comida. Ela olhou profundamente nos olhos de Walt, procurando o menino que um dia ajudara a procurar um cachorro na chuva.

— Walt... — A voz dela estava rouca. — Você se lembra dos primeiros dias? Depois do acidente? Lembra de como o Michael te protegia? Você era tão dócil, tão cheio de luz. Quando os Outros te levaram... nós choramos por você.

A mão de Walt tremeu, a manga caindo no chão sujo. — Não tente me comover, Rose. — Ele pegou outro pedaço, a voz endurecendo. — Eu não tenho tempo para nostalgia.

— Não é nostalgia, querido. É a sua alma tentando respirar. — Rose insistiu, ignorando a comida. — Resista à vontade dele, Walt. O que passa pela sua cabeça quando você lembra da fogueira na praia? Do Vincent? Do seu pai?

— Eu não sinto nada — mentiu Walt, forçando a colher de carne enlatada contra os lábios dela. — Agora coma. Ou vai morrer de fome, e eu terei que explicar ao chefe por que perdi o prêmio.

Rose comeu, engolindo o choro junto com a comida fria, percebendo que a muralha ao redor do coração dele era mais espessa do que ela imaginava.

Assim que ela terminou, Walt recolocou a mordaça com eficiência brutal, evitando o olhar dela. Ele pegou a bandeja vazia e saiu da cabana como se estivesse fugindo de um incêndio.

A Ilha — Trilha da Floresta

Do lado de fora, o ar fresco da selva não foi suficiente para limpar a mente de Walt. Ele parou, apoiando as mãos nos joelhos, tentando controlar a respiração. As palavras de Rose ecoavam em sua mente, competindo com os sussurros sombrios de Osíris.

O pai... a fogueira... Vincent.

— Cale a boca... — sussurrou Walt para si mesmo, esticando os braços para o céu, tentando expulsar a memória.

CRACK.

Um arbusto se mexeu à sua direita.

Walt congelou. O instinto de soldado assumiu. Ele largou a bandeja e assumiu uma postura de combate, os olhos varrendo a vegetação.

— Quem está aí? — sibilou ele. — Apareça!

As folhas se abriram. Não saiu um soldado da Widmore, nem um monstro de fumaça.

Um focinho úmido apareceu primeiro. Depois, orelhas caídas e um pelo caramelo que brilhava sob o sol filtrado pelas árvores. O cachorro abanou o rabo, soltando um latido curto e alegre.

Walt recuou, tropeçando nas próprias botas. O sangue sumiu de seu rosto.

— Vincent?!

O nome saiu como um grito sufocado.

Era impossível. Vincent, o labrador amarelo, vivera seus últimos dias com Rose e Bernard. Ele morrera de velhice anos atrás, enterrado em algum lugar daquela mesma floresta.

Mas ali estava ele. Jovem. Saudável. Com a mesma coleira de couro desgastada que Michael comprara antes da viagem.

O cachorro inclinou a cabeça, olhando para Walt com aqueles olhos castanhos que pareciam entender tudo.

— Não... — Walt balançou a cabeça, as lágrimas brotando involuntariamente. — Você não é real. Você morreu.

Vincent latiu novamente, girou o corpo e começou a trotar para dentro da mata, parando para olhar para trás, como se chamasse Walt.

— Espera! — O grito escapou da garganta de Walt não como o de um assassino, mas como o do menino de dez anos que perdera seu melhor amigo.

Esquecendo Rose, esquecendo Alvar e a missão, Walt correu.

— Vincent! Volta aqui!

Ele disparou pela floresta, ignorando os galhos que batiam em seu rosto, perseguindo o fantasma de quatro patas que, de alguma forma, estava ali para guiá-lo — ou para perdição, ou para a salvação.

Em 2004, pouco tempo depois da queda do voo 815 na Ilha, Vicent, o cachorro, havia sumido após a queda do avião. Walt, ainda criança, e seu pai, Michael, conversavam em meio à chuva. Enquanto Michael construía sua cabana improvisada na praia, Walt brincava com algumas pedras no escorregador. Michael curioso, resolveu indagar ao seu filho:

— Quem é o homem conversando com você? — Indagou Michael, referindo-se a John Locke. Naquela época, eles não se conheciam bem, sabendo que o voo caíra na ilha há pouco.

— Que homem? — Indagou Walt.

— Aquele careca. — Disse Michael.

— Ah o senhor Locke?!

— Senhor Locke? — Indagou Michael, aproximando-se do seu filho e se sentando ao lado dele. — O senhor Locke tem filhos? — Continuou, após sentar-se.

— Ele não me disse.

— E o que ele disse?

— Sei lá.

— Como assim, sei lá? O que ele disse?

— Me contou um segredo.

— Ele disse pra você não me contar?

— Não.

— Que segredo é esse?

Walt encarou o chão, estava com medo de falar, mas comentou:

— O senhor Locke disse que aconteceu um milagre com ele.

Michael ficou desorientado ao ouvir aquilo, mas não gostou do que ouviu.

— Aconteceu um milagre com todo mundo. Todos nós sobrevivemos. Não quero mais ver você com ele.

— Por que não? Ele é meu amigo.

Michael vendo que Walt ficou meio chateado, aproximou-se dele. — Eu sou seu amigo também, né?

— Se fosse mesmo achava o Vicent.

Michael ficou constrangido. Mas comentou:

— Walt, escuta aqui. Eu não desisti do seu cachorro. Eu vou fazer de tudo para achar ele.

— Não vai nada... Você não tá nem aí para o Vicent.

— Eu vou trazer seu cachorro assim que essa chuva parar.

Walt olhou para o lado, não encarando seu pai.

— Presta atenção, eu vou trazer seu cachorro de volta.

De repente, a chuva parou, quase que instantaneamente. Michael ficou atordoado por ter feito a promessa ao seu filho, mas agora, teria que cumprir.

A Ilha — Encosta da Montanha (Crepúsculo)

Walt corria, o peito arfando, ignorando os galhos que rasgavam sua camisa. O vulto caramelo de Vincent estava sempre dez metros à frente, latindo, guiando-o para longe da lógica e para dentro da memória.

O cachorro dobrou uma curva fechada e desapareceu em uma fenda na rocha, coberta por trepadeiras.

Walt parou, ofegante. Ele conhecia aquele lugar. Era uma das cavernas onde os sobreviventes se esconderam nos primeiros dias, quando o medo dos ursos polares era maior do que o medo dos homens.

Ele afastou as plantas e entrou. O ar lá dentro era fresco e cheirava a terra molhada. Vincent não estava lá.

— Vincent? — A voz de Walt ecoou nas paredes de pedra, soando pequena e solitária.

Ele caminhou até o fundo da caverna e sentou-se em uma rocha plana. De repente, a adrenalina da corrida desapareceu, substituída por um vazio avassalador. As memórias da infância — o pai tentando protegê-lo, o jogo de gamão com Locke, a inocência perdida — caíram sobre ele como uma avalanche.

Pela primeira vez em anos, a máscara de soldado de Alvar Hanso rachou. Walt cobriu o rosto com as mãos sujas e chorou. Não um choro de dor física, mas o choro de uma criança que só queria ir para casa.

— Olá, garoto.

A voz era um sussurro, carregada de culpa e amor.

Walt levantou a cabeça rapidamente.

Parado na entrada da caverna, a silhueta recortada contra a luz fraca do entardecer, estava Michael Dawson. Ele parecia exatamente como no dia em que morreu no cargueiro: cansado, triste, mas olhando para o filho com adoração absoluta.

— Pai?! — Walt levantou-se, trêmulo. — Pai... é você mesmo?

Michael deu um passo à frente. Ele não era sólido, nem totalmente fantasma. Ele era um eco da Ilha. — Sou eu, Walt. — Michael sorriu, triste. — Eu estive esperando por você. Os sussurros disseram que você estava voltando.

— Eu sinto tanto a sua falta... — Walt deu um passo, mas parou, com medo de que o pai desaparecesse se ele se aproximasse demais. — Eu fiz coisas terríveis, pai. Eu me tornei um monstro.

— Eu sei. — Michael assentiu. — Eu também fiz, lembra? Eu matei por você. Eu traí meus amigos por você. A Ilha nos quebra, Walt. Mas ela também nos dá a chance de consertar. Não deixe que a escuridão vença, filho. Você é mais forte do que eles.


A Ilha — Acampamento da Praia

Enquanto Walt enfrentava seus fantasmas, na praia, o clima era de motim.

Hugo e Aaron tentavam reforçar o perímetro, empilhando caixas e limpando armas antigas encontradas no bunker. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um vermelho sangrento que parecia um presságio.

O grupo de busca emergiu da floresta. Yan, Jessy e Clementine vinham de cabeça baixa. Bernard vinha por último, arrastando os pés, o rosto uma máscara de devastação.

Eles não precisavam dizer nada. Rose não estava com eles.

Bernard caminhou direto até Hugo, ignorando o cansaço. — Você... — Ele apontou um dedo trêmulo. — Eu disse para não nos envolvermos nessa loucura, seu desgraçado! Eu te avisei!

— Bernard, fique calmo... — Aaron tentou intervir, colocando-se entre eles.

— Cale a boca, Aaron! — gritou Bernard, empurrando o guerreiro com uma força surpreendente. — Minha esposa sumiu! Ela foi levada! E vocês dois ficaram aqui brincando de general enquanto ela pode estar morta!

— Nós estamos fazendo o possível, Bernard! — Hugo retrucou, a voz embargada. — Walt saiu para procurar...

— Walt? — Clementine interrompeu, incrédula. — Aquele psicopata? Ele não estava aqui com vocês?

— Ele saiu... disse que precisava pensar — murmurou Hugo, percebendo tarde demais o erro.

— Vocês confiam nele assim? — Yan balançou a cabeça, chocado. — Ele tentou matar a Clementine dias atrás! Ele trabalha para o Alvar! E vocês o deixaram solto na mata?

— Não confiamos nele — disse Aaron, firme. — Mas precisamos dele. Ele é a arma.

— Arma? — Jessy Burke soltou uma risada histérica. — Olhem para nós, Aaron! Eu sou médica! A Bianca é estudante! O Bernard é dentista aposentado! Nós não somos soldados!

Ela apontou para o horizonte, onde a escuridão começava a cobrir o mar. — Você está falando de enfrentar um deus imortal. De lutar contra uma corporação que move ilhas no tempo. Se tudo o que você disse é verdade... nós não temos chance nenhuma. Nós somos apenas ovelhas esperando o abate.

— Jessy tem razão — concordou Yan, o medo transparecendo. — As histórias de heróis são lindas, Aaron. Mas na vida real, os civis morrem primeiro.

A moral do grupo estava se desintegrando. O medo de Alvar Hanso e a incerteza sobre o destino de Rose estavam criando fissuras irreparáveis.

Aaron olhou para aqueles rostos aterrorizados. Ele sabia que discursos motivacionais não funcionariam agora. — Pessoal, por favor, acalmem-se. — A voz de Aaron endureceu. — O pânico é o que Osíris quer. Ele se alimenta disso. Nós vamos descobrir o plano dele. Mas entrar em desespero agora é suicídio.

— Palavras bonitas — cuspiu Bernard, virando as costas e caminhando para a beira do mar, sozinho em sua dor. — Só palavras.

Aaron olhou para Hugo, frustrado, e saiu em direção à floresta para esfriar a cabeça e verificar o perímetro.

O grupo ficou em silêncio, atônito.

Hugo suspirou, sentindo o peso da liderança esmagá-lo novamente. — Entendam, gente... — disse ele, tentando soar convincente. — Ele sabe o que está fazendo. Ele viveu isso por vinte anos.

Mas enquanto olhava para os rostos duvidosos de seus amigos, Hugo sabia que a fé deles estava por um fio. E se Walt tivesse realmente mudado de lado... a guerra estaria perdida antes mesmo de começar.

Em 2004, John Locke, havia construído uma espécie de apito que os animais poderiam ouvir e se aproximar. Sentado de costas para a praia, John começou a apitar, esperando que Vicent pudesse ouvir o apito. John estava apitando por um tempo.

De repente, um som vindo dos arbustos chamou a atenção de Locke, então, ele apitou por mais uma vez até ouvir os latidos de Vicent, que vinha em sua direção. Naquela época, Vicent usava uma coleira com um osso azul.

Rapidamente, John levantou-se e foi até o cachorro e o amarrou na floresta. Assim que o fez, foi até Michael e o acordou no susto.

— Achei o cachorro do seu filho. — Disse John.

— O que?! — Indagou Michael, confuso.

— O Vicent. Amarrei ele na árvore bem ali.

Michael ficou assustado com aquilo, afinal, não confiava em John Locke.

— Eu sei que Walt perdeu a mãe. Achei que seria bacana você trazer o cachorro de volta para ele.

— Obrigado. — Michael agradeceu.

— Venha. — Disse Locke.

Após entregar o cachorro a Michael, John sentou-se novamente à praia enquanto Walt acordara procurando por seu pai. Triste, o menino perambulava pela areia, querendo seu cachorro de volta, até que avistou seu pai chegando com o Vicent. Correu para pegar seu cachorro enquanto sorria. Seu pai também sorria intensamente. Os dois estavam muito felizes.

A Ilha — As Cavernas (Crepúsculo)

O som de água fresca pingando nas pedras era a única música na caverna. Walt estava sentado perto de uma das antigas fogueiras, agora fria, olhando para o espectro de seu pai.

— Pai... — Walt passou a mão pelo peito deformado sob a camisa. — Eu não sou mais o mesmo. Eu quebrei.

— Eu sei, filho. — Michael Dawson olhou para ele com uma dor infinita. — Eu vi tudo.

— Por que você fez isso comigo? — A voz de Walt era de uma criança ferida. — Por que você encheu minha cabeça com vingança?

Michael suspirou, e o som parecia o vento passando por folhas secas. — Sinto muito, Walt. Eu estava preso no meu próprio purgatório. Eu queria me vingar do Ben pelo que ele me fez fazer... pelo que ele tirou de nós. Eu não deveria ter usado você como minha arma. Eu abri a porta... e o Osíris se aproveitou disso para entrar.

— Por que me trouxe aqui, pai? — Walt olhou ao redor, para as sombras dançantes na parede de pedra.

— Sinto que estamos no fim dos tempos, Walt. — Michael deu um passo à frente. — Uma guerra está vindo. Uma guerra que vai unir o mundo espiritual e o mundo físico. Antes que o céu se parta, eu queria ter a chance de falar com você. De olhar nos seus olhos e pedir perdão.

Walt riu, um som curto e sem alegria, mas que logo suavizou. — Você lembra quando chegamos aqui?

— Sim. Eu lembro. — Michael sorriu, a memória iluminando seu rosto fantasmagórico. — O Jack arrumou uma confusão imensa com o pessoal da praia. Metade queria ficar no sol, metade queria vir para cá. Mas ele não era um mau líder. Ele só queria o melhor para todos.

Michael olhou para o fundo da caverna. — Tem água potável à vontade aqui. Protege da chuva. Era um bom lugar.

— Eu lembro que o Jack e o Charlie ficaram presos ali naquele corredor. — Walt apontou para um amontoado de pedras que ainda trazia as marcas do desabamento de anos atrás. — Se não fosse o senhor cavando com as mãos... eles não teriam saído. Você foi um herói naquele dia, pai.

Michael riu, balançando a cabeça. — É verdade. Que situação... Eu só pensava em tirar eles de lá.

O silêncio confortável se instalou por um momento.

— Pai... — Walt hesitou. — Lembra quando o Vincent sumiu? Naqueles primeiros dias? Eu fiquei desesperado. E você o trouxe de volta. Eu realmente não acreditei que você seria capaz de encontrá-lo na selva.

Michael olhou para baixo, envergonhado, mas decidido a limpar sua consciência. — Então, filho... eu nunca tive coragem de te dizer isso em vida. Mas não fui eu quem encontrou seu cachorro.

Walt ergueu uma sobrancelha. — Não?

— Foi o Locke. — admitiu Michael. — Ele fez um apito. Ele encontrou o Vincent e o amarrou para que eu pudesse "achar". Ele disse que um pai precisava ser o herói para o filho.

Walt parou de sorrir por um segundo, absorvendo a informação. Mas então, uma risada genuína escapou de seus lábios. — É sério? — Walt balançou a cabeça. — Sabe de uma coisa, pai? No fundo... eu acho que eu já sabia. O Sr. Locke sempre sabia de tudo.

Michael sorriu, aliviado. — Você sempre foi esperto, garoto. Mais esperto que eu.

— Esse lugar é muito nostálgico — disse Walt, sentindo a leveza da honestidade. — Parece que foi em outra vida.

— E foi. — O rosto de Michael ficou sério novamente. — Mas este lugar não é apenas passado, Walt. Aqui é o ponto de convergência. É aqui que nos reuniremos novamente... os vivos e os mortos... para a batalha final.

— Os mortos vão lutar?

— Todos nós temos uma dívida com a Ilha. — Michael olhou para a entrada da caverna. — Mas escute: o Aaron... o Hanbal... ele precisa vir para cá de mente aberta.

— Como assim, "de mente aberta"? — perguntou Walt.

— No momento certo, você saberá. E ele também. — Michael começou a recuar para as sombras. — Eu preciso ir agora. Foi bom te ver, garoto. De verdade.

— Espera, pai! — Walt levantou-se, estendendo a mão. — Aonde você vai? Não me deixa sozinho de novo!

— Apesar de sermos parte da Ilha, não podemos ficar muito tempo ancorados aos vivos. Dói. — Michael explicou, sua forma começando a se tornar translúcida. — Mas prometo que, sempre que eu puder, virei te visitar. Até o dia em que ficaremos juntos para sempre. Sem dores. Sem culpa.

— Eu te amo, pai — disse Walt, as lágrimas correndo livremente, lavando a escuridão de sua alma.

Michael sorriu, radiante. — Eu também te amo, filho. Você não sabe por quantos anos, em quantos limbos, eu esperei ouvir isso de você.

Um latido suave ecoou na caverna.

Vincent, o cachorro fantasma, saiu das sombras e parou ao lado de Michael, abanando o rabo.

— Até o dia em que nos encontraremos — sussurrou Michael.

A imagem de Michael colocou a mão na cabeça do cachorro. Os dois começaram a se dissolver em névoa, e o som de suas presenças foi substituído pelos sussurros ininteligíveis da Ilha, que agora soavam não como ameaças, mas como uma promessa de proteção.

Walt ficou sozinho na caverna, mas pela primeira vez em muito tempo, não se sentiu solitário.

Era o ano de 2018, e Rose e Bernard estavam na sua cabana improvisada à beira da praia. Vicent, o fiel cachorro, encontrava-se visivelmente abatido, seus últimos anos de vida pesando sobre ele. Os dois se aproximaram do cão, que estava deitado diante da cabana, contemplando o mar.

— Querido, o cachorro não parece bem — comentou Rose, preocupada.

— Acredito que ele já viveu o bastante, Rose. Não sabemos a idade dele, mas ele já está velho — respondeu Bernard, olhando para o animal com uma mistura de carinho e tristeza.

Hugo chegou logo em seguida, exibindo um ar de nervosismo evidente. Estava claramente desnorteado.

— O que houve? — Indagou Rose, percebendo a agitação em Hugo.

— Preciso avisar a vocês. Walt foi embora, e Desmond foi atrás de outras pessoas para trazer à ilha — revelou Hugo, sua chegada marcada pela inquietação.

— E o que exatamente isso significa? — Questionou Bernard, perplexo.

— Significa que eu não deveria ter trazido Walt para me substituir. A partir desse momento, eu corro o risco de não ser mais o guardião — confessou Hugo, com a cabeça baixa.

— E o que vai fazer, jovem? — Perguntou Rose, demonstrando preocupação.

— Preciso que me ajude, Rose. Eu sinto algo especial em você. Algo que você recebeu assim que chegou na ilha — disse Hugo, fixando seu olhar em Rose. Bernard olhou para ela, surpreso.

— Do que se trata tudo isso, Hugo? Eu disse que não queria que vocês nos envolvessem em suas coisas. — Comentou Bernard.

— Bernard, deixa ele falar. — Comentou Rose. Bernard se calou.

— Eu sinto muito por envolver vocês nisso. Mas Rose, todos nós sabemos que não viemos nessa ilha atoa. — Comentou Hugo.

— Eu pensei que era apenas um presente, um milagre ou quaisquer coisas similares. Eu consigo sentir fluir dentro de mim algo poderoso. Eu tinha um câncer terminal antes de cair nessa ilha, depois que caí aqui, finalmente fui curada do câncer — revelou Rose, surpreendendo a todos com sua história.

— É muito mais que isso. É o poder de Taweret, a deusa da fertilidade, fluindo em sua alma. O mesmo aconteceu com Richard, John, entre muitos outros — explicou Hugo, revelando conhecimentos surpreendentes.

— Como sabe disso, Hugo? — Indagou Rose, intrigada.

— Apenas sei. Não sei explicar. Eu consigo aparecer em locais apenas pensando neles. Isso tem que ter uma razão específica. Seja qual for a razão, precisamos trabalhar juntos. Principalmente quando os novos candidatos chegarem — afirmou Hugo, lançando um olhar determinado.

Vicent observava a conversa atentamente. O cachorro então se levantou e caminhou até Hugo, começando a alisá-lo.

— Vicent?! — exclamou Hugo, surpreso.

— Ele anda estranho o dia inteiro. Curioso que finalmente ele se levantou ao ver você — observou Bernard, indicando uma conexão inexplicável entre o animal e Hugo.

Não se passaram muitos dias e Vicent veio à óbito. O cachorro era enterrado próximo ao antigo acampamento dos sobreviventes do voo 815. Hugo, Rose e Bernard estavam presentes.

— Vá em paz, nosso companheiro. — Comentou Hugo.

A Ilha — As Cavernas

Walt ainda estava sentado na rocha, secando as lágrimas do reencontro com o pai, quando o som de passos quebrou o silêncio sagrado da caverna.

Aaron e Hugo entraram, iluminando as paredes com lanternas. Eles não pareciam surpresos em encontrá-lo ali; pareciam aliviados.

— Walt?! — chamou Hugo, a voz ecoando.

Walt não se levantou. Ele olhou para os dois, e pela primeira vez, seus olhos não tinham o brilho febril da possessão de Osíris. — O que vocês fazem aqui?

— Imaginávamos que você viria para cá — disse Hugo, suavemente. — Todo mundo que precisa se esconder ou se encontrar acaba vindo para as cavernas. Nós passamos por muita coisa aqui.

Aaron deu um passo à frente, embainhando a faca. — Você não precisa mais ficar sozinho, Walt. A escuridão gosta do isolamento.

Walt riu, um som quebrado. — Vocês não entendem. Não é questão de companhia. Eu não consigo resistir aos desejos de Osíris, mesmo que eu queira. É como se ele tivesse a chave da minha mente.

— Por que você está repetindo isso como um mantra, Walt? — Aaron estreitou os olhos, percebendo a culpa emanando do rapaz. — Tem algo que você precisa nos contar? O que você fez?

Walt encarou o chão de terra batida. A imagem de Michael dizendo que o amava lhe deu a força que faltava. — Eu a peguei.

Hugo franziu a testa. — O quê?

— Rose. — Walt confessou, a voz trêmula. — Eu a sequestrei antes do clarão. Eu a mantive em cativeiro em uma cabana perto daqui, próximo aos destroços da Estação Pérola. Osíris... ele disse que ela é uma bateria. Que o poder dela é necessário para trazer meus pais de volta.

O silêncio na caverna foi pesado. Hugo levou as mãos à cabeça, chocado. — Meu Deus, Walt... O Bernard está enlouquecendo lá fora!

Aaron manteve a expressão neutra, mas seus ombros relaxaram. A confissão era o sinal. — Você a machucou?

— Não. Ainda não. — Walt levantou a cabeça. — Eu ia entregá-la. Mas então... eu vi o Vincent. Ele me trouxe até aqui. Encontrei meu pai. E pela primeira vez em anos, a voz de Osíris calou a boca. Eu sei que foi errado, mas eu precisava tentar...

Aaron e Hugo trocaram um olhar. Eles não sabiam se podiam confiar plenamente nele, mas um soldado que confessa seus crimes de guerra ainda tem uma alma.

— Vocês pretendem fazer o que comigo agora? — perguntou Walt, esperando uma execução. — Vão me prender? Me matar?

Aaron caminhou até ele e colocou a mão em seu ombro deformado. — Eu não tenho autoridade para moldar seu destino, Walt. Osíris pode trazer as pessoas de volta, mas precisa do corpo delas intacto. Seu pai se explodiu no cargueiro e sua mãe morreu já se fazem anos. O que você esperava?

— Eu me agarrei a uma esperança depois que eu pude ver do que ele é capaz... — Comentou Walt, constrangido.

— E você acha que ele iria cumprir a parte dele do acordo? — Indagou Aaron.

— Eu só... Sinto muito. — Disse Walt, com os olhos marejados.

Aaron apertou o ombro dele, firme. — O fato de você ter nos contado, nos dá uma chance de aceitar voce. Se você quiser se livrar disso, de verdade, aí sim eu terei permissão para tornar você um soldado de Taweret. Mas a escolha tem que ser sua.

Walt assentiu, engolindo em seco. — Eu quero.

— Então fique aqui — ordenou Aaron. — Recupere-se. Nós vamos buscar a Rose.

A Ilha — Trilha da Floresta (Noite)

Aaron e Hugo caminhavam apressados pela mata, guiados pela confissão de Walt. A noite caíra, transformando a floresta em um labirinto de sombras.

De repente, o som da selva parou.

Os grilos silenciaram. O vento morreu. O ar ficou estagnado e frio.

Aaron parou, levantando a mão para que Hugo fizesse o mesmo. — Olá, meu velho amigo — disse Aaron para a escuridão à frente.

Uma figura emergiu de trás de uma figueira gigante. Não era fumaça, nem Locke. Era um homem alto, de traços severos, vestindo túnicas antigas que pareciam tecidas de névoa cinzenta.

Hugo recuou, tropeçando. — O Homem de Preto? O Monstro?

— Minut — corrigiu Aaron, sem medo. — Ou o que restou dele.

O espectro sorriu, um sorriso triste e cansado. — Olá, Hanbal. É bom te ver usando seu próprio rosto depois de tantos séculos.

— Não precisa ter medo, Hugo — disse Minut, sem olhar para o homem gordo. — Eu não posso mais causar problemas. Eu estou morto. Sou apenas um eco. Um arquivo corrompido no sistema da Ilha.

— O que você quer? — indagou Aaron, a mão pairando sobre o cabo da faca, um reflexo antigo.

— Meu desejo sempre foi sair dessa maldita ilha — suspirou Minut, olhando para as estrelas. — Mas agora... agora vejo claramente a ironia. Taweret transformou Igherm-Ater nesta prisão para conter o Osíris. E eu passei milênios tentando quebrar as grades, sem saber que estava apenas tentando soltar o verdadeiro monstro.

Minut baixou o olhar para Aaron. — O mundo atual não está preparado para o que vem por aí, meu amigo.

— Onde você quer chegar com esse papo de derrotado? — perguntou Hugo, ganhando coragem.

— Eu duvido muito que vocês vençam. — Minut balançou a cabeça. — Estou apenas assistindo vocês organizarem as cadeiras no convés do Titanic. Pode ser meu último ato por aqui. Se Osíris realmente tomar o poder total da Ilha, ele vai formatar o disco. Eu deixarei de existir. E vocês também.

— Eu não pretendo perder — disse Aaron, firme.

— Como da última vez, Hanbal? — Minut riu, cruel. — Em Igherm-Ater... eu vi que seria uma batalha perdida. Por isso traí você. Por isso me uni a Osíris. Eu apostei no cavalo vencedor.

A revelação pairou no ar. A traição original não fora por maldade, mas por covardia e pragmatismo.

— Mesmo que Taweret tenha me aprisionado... — continuou Minut — ela não derrotou o Osíris. Ela apenas... adiou. Ele ainda está vivo. Ele está vindo.

— Por que está me atormentando com isso agora? — questionou Aaron.

Minut começou a perder a forma, as bordas de seu corpo desfazendo-se em volutas de fumaça negra. — Porque, apesar de tudo... eu queria que, pelo menos desta vez, você vencesse, meu velho amigo. De coração. Eu estou cansado de perder.

Com um som mecânico, como o de uma corrente sendo arrastada, Minut se desfez completamente, dissolvendo-se na noite, deixando apenas o cheiro de ozônio e enxofre.

Hugo estava pálido. — E se ele tiver razão, Aaron? — A voz de Hugo tremeu. — Ele viu o jogo por mais tempo que nós.

— Fique calmo — disse Aaron, retomando a caminhada, embora seus passos parecessem mais pesados. — Desta vez será diferente. Confie em mim.

Hugo correu para alcançá-lo. — Você disse... — Hugo hesitou, juntando as peças. — Você disse "Como da última vez". E o Minut falou como se já tivesse visto isso antes. Aaron... isso é um looping? Quantas vezes nós já tentamos isso?

Aaron não parou. Ele continuou andando, focado na trilha. — Não iremos agir da mesma forma. Não desta vez.

— Aaron! — Hugo segurou o braço dele. — Qual foi a primeira vez que você foi ao passado? Quantas vezes nós já perdemos essa guerra?

Aaron parou. Ele olhou para Hugo, e havia uma idade infinita em seus olhos, uma exaustão que ia além do tempo. — Não se preocupe com isso agora, Hugo. O passado é poeira. Temos que achar a Rose e entregá-la ao Bernard. Essa é a única missão que importa hoje.

Aaron soltou-se e continuou a andar. Hugo ficou parado por um segundo, sentindo um frio na espinha que não tinha nada a ver com a brisa da noite. Ele percebeu que Aaron não negou.

Eles podiam estar lutando uma guerra que já tinham perdido mil vezes.

Walt que estava ainda caverna, observava o chão pois era incapaz de olhar para cima com o peso que sentia na sua consciência. De certa forma, as trevas estavam sendo eliminadas aos poucos de seu coração.

A Ilha — Acampamento da Praia (Noite)

A fogueira central estava morrendo, reduzida a brasas alaranjadas, refletindo o ânimo do grupo. Bernard estava sentado na areia fria, a cabeça entre os joelhos, balançando para frente e para trás, murmurando orações desconexas.

De repente, o som de passos na areia fez todos se virarem.

Emergindo da escuridão da trilha, Hugo e Aaron caminhavam amparando uma figura frágil entre eles.

— Rose!

O grito de Bernard rasgou a noite. Ele se levantou com uma energia que seus ossos velhos não deveriam ter e correu. Ele colidiu com a esposa, envolvendo-a em um abraço desesperado, como se tentasse fundir seus corpos para que ela nunca mais fosse levada.

— Eu estou aqui, Bernie... eu estou aqui — sussurrou Rose, chorando no ombro dele, exausta, mas viva.

Yan, Jessy, Clementine e Bianca correram para perto, formando um círculo de alívio e lágrimas. Por um momento, a guerra, Alvar Hanso e o tempo deslocado desapareceram. Havia apenas o milagre do retorno.

Mas a paz durou pouco.

Rose afastou-se levemente de Bernard, segurando o rosto dele. — Foi ele, Bernie — disse ela, a voz fraca, mas audível para todos. — Foi o Walt. Ele me levou. Ele me manteve presa.

O silêncio caiu sobre o grupo como uma guilhotina.

— O Walt? — Bernard piscou, tentando processar. — O menino?

— Ele disse que eu era uma bateria... para o tal Alvar. — Rose estremeceu.

Passos arrastados soaram na areia, vindos da direção das cavernas.

Walt Lloyd entrou no círculo de luz da fogueira. Ele caminhava devagar, os ombros curvados, carregando o peso de sua deformidade física e moral. Ele não tentou se esconder. Ele sabia o que o esperava.

Bernard virou-se lentamente. A alegria em seu rosto evaporou, substituída por um ódio puro e primitivo.

Ele caminhou até Walt. Walt não recuou. Ele parou e olhou para o chão, aceitando o julgamento.

Bernard parou a centímetros do rosto do rapaz. Ele viu as cicatrizes, o peito torto, mas não viu piedade. Viu apenas o monstro que tocara em sua esposa.

CUSPE.

Bernard cuspiu no rosto de Walt. A saliva escorreu pela bochecha do rapaz, misturando-se à sujeira e ao suor.

— Não ouse... — Bernard tremeu de raiva, o dedo em riste. — Não ouse tocar em minha esposa de novo, seu desgraçado. Se você chegar perto dela, eu te mato. Eu juro por Deus que te mato.

Walt não limpou o rosto. Ele apenas assentiu, engolindo a humilhação merecida. — Eu sinto muito, Bernard.

— Sente muito?! — gritou Yan, avançando, colocando-se ao lado de Bernard. — Você a sequestrou! Você trabalha para eles!

— Nós não queremos ele aqui — disse Jessy, puxando Clementine para trás de si, protegendo a menina. — Olhem para ele! Ele não é mais um de nós. Ele é perigoso.

— Ele é uma bomba-relógio — concordou Bianca, segurando o livro com força. — Como vamos dormir sabendo que ele está na barraca ao lado?

O grupo se fechou, uma muralha de hostilidade e medo. Walt estava sozinho, cercado por rostos que um dia sorriram para ele.

Aaron deu um passo à frente, colocando-se entre a turba e o pária. — Pessoal, acalmem-se! — A voz de comando de Hanbal ecoou. — Eu entendo a raiva. Mas a justiça será feita.

— Justiça? — retrucou Bernard. — Justiça é jogá-lo no mar!

— Ele confessou — disse Hugo, tentando ajudar. — Ele nos disse onde ela estava. Ele está tentando mudar...

— Tentar não apaga o que ele fez! — gritou Yan.

— Chega! — Aaron ergueu a mão. — Ninguém vai jogar ninguém no mar. Nós precisamos de cada recurso que temos. Mas... — Aaron olhou para Walt, severo. — Ele não ficará no perímetro interno.

Aaron virou-se para Walt. — Você ouviu, Walt. Você perdeu o direito à fogueira. Fique afastado. Vigie a orla. Se provar seu valor, talvez recupere a confiança. Até lá... você é um fantasma.

Walt olhou para Rose, que desviou o olhar com tristeza. Olhou para Hugo, que baixou a cabeça.

— Eu entendo — sussurrou Walt.

Ele virou as costas e caminhou para a escuridão da praia, longe do calor do fogo, longe da companhia humana. Ele sentou-se na areia fria, a centenas de metros de distância, vigiando a escuridão que tentava consumi-lo, sabendo que, naquela noite, a solidão era a única companheira que ele merecia.