Lost: O Primeiro Herdeiro
25 LIVRO 3 — CAPÍTULO 25: MARCAS INDELÉVEIS
Albuquerque, Novo México — Casa de Cassidy (2012)
James Ford acordou com o gosto metálico da culpa na boca.
Ele se levantou da cama de Cassidy, evitando olhar para o lado onde ela ainda dormia (ou fingia dormir). O quarto estava na penumbra, cheirando a perfume barato e erros caros. Ele caminhou até o banheiro, apoiando as mãos na pia de porcelana fria.
Ao levantar o rosto, o espelho lhe devolveu a imagem de um homem cansado. Havia marcas roxas em seu pescoço — vestígios de uma noite onde o desejo falou mais alto que a decência. James praguejou baixinho, passando água fria no rosto.
Ele vestiu a camisa social azul-clara, abotoando-a até o colarinho para esconder as evidências. Trocou a postura relaxada de "Sawyer" pela rigidez de um homem de negócios respeitável.
Na cozinha, ele ligou o rádio baixinho. Um blues antigo preencheu o silêncio enquanto ele colocava o café para passar. Era uma rotina doméstica perturbadoramente normal para uma situação tão errada.
Passos leves e rápidos soaram no corredor.
— Papai! Papai!
Clementine, com sete anos e cabelos desgrenhados de sono, entrou correndo na cozinha. Ela se chocou contra as pernas dele, abraçando-o com a força de quem tem medo que ele desapareça (o que, na verdade, ele sempre fazia).
— Bom dia, florzinha! — James agachou-se, o sorriso genuíno iluminando seu rosto pela primeira vez naquela manhã. Ele beijou o topo da cabeça dela. — Dormiu bem?
— Dormi! Você vai fazer panquecas? — perguntou ela, com os olhos brilhando.
Antes que James pudesse responder, Cassidy entrou na cozinha. Ela usava um robe de seda e tinha os braços cruzados, encostada no batente da porta. O olhar que ela lançou a James não tinha nada do calor da noite anterior; era frio, analítico.
— Acordou cedo — comentou ela, seca. — Já vai?
James levantou-se, evitando o contato visual direto. — Preciso ir. Tenho que pegar o voo de volta para Nova York antes do almoço. Reuniões.
Cassidy soltou uma risada curta, sem humor. — Reuniões... Ou será que a "Sardenta" está esperando você para o jantar?
James endureceu o maxilar. — Não comece, Cass.
— Por que não fala a verdade para ela, James? — Cassidy apontou para Clementine, que agora tentava pegar uma caixa de cereais no armário, alheia à tensão. — Por que você continua mentindo para todo mundo?
— É complicado.
— "Complicado"? — Cassidy avançou, baixando a voz para um sussurro furioso. — Complicado é você aparecer aqui uma vez por mês, brincar de casinha, foder comigo a noite toda e depois voltar para a sua vida perfeita. Eu não sou sua válvula de escape, James. E não vou ser sua "outra".
— Você sabia onde estava se metendo — James retrucou, defensivo.
— Você é um homem casado, James! — Cassidy sibilou. — Você se casou com a Kate Austen, a heroína da América. Lembra? Ou a aliança no seu bolso é só decoração?
James bufou, passando a mão pelo cabelo. Ele se aproximou de Cassidy, usando aquele charme que sempre foi sua melhor arma e sua pior maldição.
— Escuta... as coisas vão mudar. — Ele segurou os ombros dela. — Estive conversando com a Kate. Vamos sair de Nova York. Vamos comprar uma fazenda. Em Las Cruces.
Cassidy piscou, surpresa. — Las Cruces? Isso é... aqui perto.
— É. Nosso sonho sempre foi ter um rancho. — James sorriu, tentando vender a ideia. — E ficando no Novo México... eu estaria a poucas horas de carro. Eu poderia ver a Clementine todo fim de semana. Sem voos, sem desculpas.
Cassidy olhou para ele, incrédula. — Você não mudou nada. — Ela se desvencilhou do toque dele. — Você acha que pode simplesmente mover sua esposa para perto da sua amante e que tudo vai dar certo? Você continua sendo o mesmo vigarista de sempre, Sawyer. O mesmo homem que tentou me roubar anos atrás.
— Eu estou tentando fazer a coisa certa! — James sussurrou, irritado.
— Não. Você está tentando aplicar o golpe longo. — Cassidy balançou a cabeça, cansada. — Até quando você acha que vai conseguir enganar a Kate assim? Ela não é idiota.
James ficou em silêncio. Ele não tinha resposta, porque no fundo, sabia que Cassidy estava certa. Ele estava construindo um castelo de cartas.
Ele se virou para Clementine. — Clem, querida. O papai precisa ir.
A menina parou de comer o cereal, o rostinho caindo em tristeza instantânea. — Já? Mas você acabou de chegar...
— Eu sei. Mas eu tenho uma surpresa. — James agachou-se e segurou as mãozinhas dela. — O papai vai vir morar mais perto. Logo, logo, eu vou poder vir te ver sempre. Prometo.
— Promete de dedinho? — Ela estendeu o mindinho.
James entrelaçou o dedo grosso no dela. — Prometo de dedinho.
Ele beijou a testa dela, pegou sua maleta e caminhou para a porta.
Antes de sair, ele olhou para Cassidy uma última vez. Ela estava parada no meio da cozinha, os braços cruzados, observando-o com um misto de desejo e repulsa. James sabia que, se voltasse, a porta estaria aberta. E esse era o problema.
Ele saiu para o sol do Novo México, ajeitando o colarinho para esconder as marcas, pronto para voltar para Nova York e mentir para a mulher que ele jurara amar na saúde e na doença.
Albuquerque, Novo México — Estacionamento do Hospital (Presente)
James Ford empurrou as portas de vidro do hospital, o sol do meio-dia atingindo seu rosto. Ele caminhava rápido, ignorando a dor nas costelas ou o cansaço. Ao seu lado, Albert mancava, a perna enfaixada sob a calça, lutando para manter o ritmo.
— Qual é o plano, Ford? — indagou Albert, ofegante. — Estamos fugindo da polícia ou correndo para o abate?
— O plano é simples — James respondeu, sem diminuir o passo. — Vou até Londres. Vou encontrar o Desmond e exigir que ele me coloque nessa expedição do filho dele. Jurei que nunca mais voltaria para aquela ilha maldita, mas se a minha filha está lá, eu vou até o inferno a nado se precisar.
Albert parou, obrigando James a parar também. — Você vai perder seu tempo. Desmond não sabe de nada.
James franziu a testa. — Como é que é? Ele é o pai do garoto. Ele é o dono da porra toda.
— Não mais. — Albert balançou a cabeça. — Charlie está agindo por conta própria. Operações negras, fora dos livros contábeis da Widmore. Acredito que talvez a Penelope saiba, ou suspeite, mas o Desmond? Ele está fora do circuito. Charlie garantiu isso.
James sentiu um gosto amargo na boca. — Como assim "fora do circuito"?
— Charlie está seguindo o legado do avô — revelou Albert. — Ele não quer salvar o mundo, Ford. Ele quer controlar a Ilha. Ele é Charles Widmore 2.0.
— Aquele velho maldito... — James praguejou, chutando uma pedra no asfalto. — Até do túmulo ele continua ferrando a minha vida. Qual é o objetivo final do Charlie?
— Não tenho tantas informações quanto você gostaria, cara. Eu sou só o braço armado. Me pagaram para limpar as pontas soltas, não para desenhar o mapa.
James suspirou, passando a mão pelo cabelo. A situação era pior do que ele imaginava. Sem Desmond, ele não tinha entrada fácil.
— Ótimo. Você já foi útil. — James apontou para a rua. — Se quiser ir, está livre. A dívida está paga.
Albert endireitou a postura, apesar da dor. — Não. Você me deixou viver quando podia ter me matado na praça. Eu tenho um código. Eu vou ajudar você.
James olhou para o ex-assassino e soltou um riso curto. — Tá bom, "Sr. Gratidão". Então se prepara. Vamos pegar o primeiro voo comercial para Sydney, Austrália.
— Sydney? — Albert franziu a testa. — Por quê?
— Porque foi de lá que tudo começou. Se a Ilha está se movendo, a rota original do 815 é a melhor aposta para interceptar qualquer sinal ou transporte da Widmore que esteja operando no Pacífico.
Albert checou o relógio, cético. — Ford, escute... Charlie está num jato executivo supersônico. Se ele decidir ir direto para a Ilha, nós nunca chegaremos a tempo voando de classe econômica com escalas. Vamos chegar lá para o enterro.
James parou. A lógica era cruel, mas irrefutável. — Faz sentido... — murmurou ele, a frustração crescendo. — Precisamos de algo mais rápido.
De repente, o bolso de James vibrou.
Não foi uma vibração curta de notificação. Era uma chamada.
James sacou o celular. Quando viu o nome na tela, o mundo ao redor — o hospital, Albert, a missão — desapareceu.
KATE.
Ele gelou. Sua mão, firme para segurar uma arma, tremeu levemente ao segurar o aparelho. Ele tinha desligado na cara dela minutos atrás. Ele fugira. Mas agora ela estava ligando de volta.
Albert observava, curioso, tentando entender por que aquele homem perigoso parecia subitamente aterrorizado por um telefone.
James respirou fundo, engoliu o medo e deslizou o dedo na tela. Ele levou o aparelho ao ouvido.
— Kate? — A voz dele saiu rouca, quase um sussurro.
Houve um segundo de silêncio do outro lado, apenas o som de uma respiração que ele reconheceria em qualquer lugar.
— Oi, Sawyer.
O apelido atingiu James como um soco físico. Ninguém o chamava assim há anos. Ninguém que importasse.
— Por que está me ligando? — perguntou ele, defensivo, tentando esconder o quanto aquela voz o afetava.
— Pensei que quisesse conversar, — respondeu Kate, a voz calma, mas carregada de uma tensão antiga. — Você me ligou primeiro, lembra?
James ficou paralisado. Ele podia ouvir o trânsito de Nova York ao fundo da linha dela, e o vento do deserto ao seu redor. Anos de distância, mágoas e segredos separavam os dois, mas naquele momento, a conexão era a única coisa real.
Ele olhou para Albert, depois para o chão. Ele precisava de ajuda. E a única pessoa no mundo que entenderia o que estava em jogo... era ela.
Arredores de Alexandria — Base da Hanso (Sala de Interrogatório)
Benjamin Linus estava sentado no chão frio de concreto, os pulsos em carne viva onde as correntes haviam roçado por horas. Ele não estava mais amarrado, mas não tinha forças para levantar. A mente de Ben, sempre afiada como um bisturi, agora estava embotada pela dor e, pior, pela culpa. Ele girara a roda. Ele movera a Ilha. E, ao fazer isso, entregara tudo de bandeja ao inimigo.
A porta de metal se abriu com um rangido suave.
Alvar Hanso entrou. Ele não trouxe guardas. Não precisava. A disparidade de poder na sala era absoluta. Ele segurava um copo de cristal com água gelada, as gotas de condensação escorrendo por seus dedos bem cuidados.
— Hidrate-se, Benjamin — disse Alvar, estendendo o copo. A voz dele era calma, quase paternal.
Ben ergueu os olhos inchados. Sua garganta estava seca como lixa, mas ele não se moveu. Ele conhecia jogos mentais melhor do que ninguém; aceitar aquela água era aceitar a submissão. Ele voltou a baixar a cabeça, ignorando a oferta.
Alvar suspirou, como se estivesse lidando com uma criança petulante. — Tão orgulhoso... até o fim.
Com um movimento casual, Alvar virou o copo. A água gelada atingiu o rosto de Ben, escorrendo pelas feridas abertas em seu peito e costas, misturando-se ao sal do suor e do sangue. A ardência foi imediata.
Ben estremeceu, mas não gritou.
— Você se sentia poderoso naquela ilha, não é? — Alvar jogou o copo vazio no canto da sala, onde ele se estilhaçou. — O grande Benjamin Linus. O homem que falava com Jacob. O líder dos Outros.
Alvar agachou-se, ficando na altura dos olhos de Ben, mas mantendo uma distância segura, como quem observa um animal doente. — Deve ser doloroso perceber que, no grande esquema das coisas, você nunca foi o rei, Ben. Você foi apenas o zelador. E um zelador medíocre, devo acrescentar. Você moveu a Ilha e a entregou nas minhas coordenadas. Você facilitou meu trabalho de décadas em um único ato de desespero.
— Eu não tenho medo de você — sussurrou Ben, a voz rouca, sem levantar a cabeça.
— Medo? — Alvar riu suavemente. — Não me entenda mal, Linus. Eu não quero seu medo. O medo é uma ferramenta para controlar as massas, não para homens como você.
Alvar levantou-se e começou a caminhar pela sala pequena. — Eu na verdade sou grato à vocês. Você limpou o tabuleiro para mim, Ben. Você matou Jacob com aquela faca. E o Dr. Shephard fez a gentileza de eliminar a Fumaça, o "Menn-Ut". O trono está vazio. Não há mais guardiões, não há mais monstros. Só resta a Ilha, esperando pelo seu verdadeiro dono. Não tem mais espaços para inúteis como você.
Ben finalmente levantou a cabeça. Seu olho esquerdo estava fechado pelo inchaço, mas o direito brilhava com um resto de desafio. Ele abriu um sorriso sangrento. — Se eu sou tão inútil... por que me manter vivo? Por que gastar recursos comigo?
— Essa é a pergunta de um homem prático. — Alvar sorriu de volta, mas seus olhos eram glaciais. — A morte é um alívio, Benjamin. É o fim da dor. E eu não quero te dar alívio.
Alvar inclinou-se para frente, sussurrando como se contasse um segredo: — Eu quero que você seja um espectador. Quero que você assista, da primeira fila, enquanto eu desmonto tudo o que você jurou proteger. Quero que você veja a Ilha ser drenada, o templo ser profanado e o mundo ser refeito. Quero te ver sangrar não por cortes na pele, mas pelo desespero de saber que a culpa é sua.
Ben sustentou o olhar por um segundo, depois recostou a cabeça na parede fria. A menção à destruição da Ilha deveria doer, mas ele estava oco. — Você está perdendo seu tempo, Hanso. Tudo o que eu amava já morreu. Minha filha... a Alex... ela se foi. A Ilha já não é minha há muito tempo. Você não pode quebrar algo que já está em pedaços. Eu não ligo para o que você vai fazer.
Alvar analisou o rosto de Ben. Ele viu a verdade na apatia dele. Ben Linus realmente acreditava que não tinha mais nada a perder.
— "Não ligo mais"... — repetiu Alvar, pensativo. Ele caminhou até a porta e colocou a mão na maçaneta. — Veremos se isso é verdade, Benjamin. Todo homem tem um ponto de pressão. Nós só precisamos encontrar onde você escondeu o seu.
Alvar saiu, e a porta bateu com um estrondo final, trancando Ben novamente na escuridão, sozinho com seus fantasmas e a terrível suspeita de que Alvar Hanso estava certo: o pior ainda estava por vir.
Los Angeles — Igreja de Nossa Senhora (Estação Poste de Luz)
A igreja estava silenciosa, cheirando a incenso velho e poeira acumulada. Charlie Hume empurrou as portas duplas do altar, revelando a passagem secreta que sua avó, Eloise Hawking, guardara por décadas. Tyler Abbadon o seguiu, a mão no coldre, desconfiado das sombras.
Eles desceram a escadaria em espiral de ferro, o som de seus passos ecoando no poço profundo. À medida que desciam, um som rítmico, mecânico, começou a ficar mais alto. Clack... Clack... Clack.
Ao chegarem ao subsolo, Charlie girou a tranca pesada de uma porta de metal industrial.
A câmara se revelou.
Era um templo à ciência e à obsessão. No centro da sala circular, pendurado no teto alto e sumindo na escuridão, estava o gigantesco Pêndulo de Foucault. A ponta de metal pesado balançava em um arco hipnótico, traçando linhas invisíveis sobre um mapa-múndi complexo pintado no chão.
Mesas laterais estavam abarrotadas de computadores antigos da era Dharma — terminais de fósforo verde piscando — conectados a um notebook moderno de alta potência que parecia ter sido deixado ali recentemente. Um quadro-negro estava coberto de equações que tentavam prever o imprevisível.
Tyler assobiou, olhando para cima, tentando ver onde o cabo do pêndulo terminava. — Esse negócio é enorme... Meu tio falava desse lugar, mas ver pessoalmente... é assustador.
— É a bússola mais cara do mundo, Tyler. — Charlie caminhou até o mapa no chão, observando a ponta do pêndulo raspar sobre o Oceano Pacífico. Seus olhos brilhavam com a ambição de quem finalmente alcançara o legado da família. — A Ilha está sempre se movendo, mas este pêndulo... ele sempre sabe onde ela vai estar. E agora, nós também saberemos.
Espaço Aéreo Americano — Voo Comercial Albuquerque-LA
A milhares de pés de altitude, Richard Alpert olhava pela janela oval do avião, observando as nuvens passarem. Ele não bebia o champanhe que a aeromoça oferecera, nem lia as revistas de bordo.
Ele estava imóvel, focado.
Richard ajeitou o punho da camisa, sentindo a frieza do novo propósito que Alvar Hanso lhe dera. Charlie Hume achava que era o caçador, que estava indo atrás da Ilha. Ele não fazia ideia de que, em poucas horas, ele seria a caça. O reencontro estava próximo, e Richard sabia que, desta vez, não haveria negociações.
Albuquerque, Novo México — Estacionamento do Hospital
O sol do meio-dia castigava o asfalto. Albert estava encostado em uma pilastra de concreto, o rosto pálido de dor, a mão pressionando o curativo na perna. Ele observava James Ford, que estava parado a alguns metros, segurando o telefone como se fosse uma granada sem pino.
James respirava fundo, trêmulo.
— Kate... — A voz dele falhou. — Eu... eu não sei o que fazer.
Houve um silêncio do outro lado da linha. James podia imaginar o rosto dela: a testa franzida, a mão passando pelo cabelo.
— Eu não deveria estar falando com você, James, — respondeu Kate, a voz mansa, mas cautelosa. — Depois de tudo o que aconteceu... depois do que você disse. Mas... algo na sua voz me diz que você não está ligando para aplicar um golpe.
— Não é golpe, Sardenta. É real. — James encostou-se no capô de um carro qualquer, sentindo as pernas cederem. — Eles pegaram a Clementine. A Widmore. Eles a levaram para a Ilha.
— Para a Ilha? — O tom de Kate mudou instantaneamente de frieza para choque. — Meu Deus, James... Por que levariam uma criança para lá?
— Eu não sei. Eu não sei! — James passou a mão pelos olhos, segurando as lágrimas. — Talvez para me atingir. Talvez porque ela seja especial, sei lá. Eu só sei que... eu estou mal, Kate.
Ele olhou para o céu vazio, sentindo o peso de todas as suas perhas. — Eu não quero perdê-la também. Como eu perdi você.
Do outro lado da linha, o silêncio foi pesado. A confissão pairou no ar.
— Eu não tenho mais nada, Sardenta — sussurrou James, a voz quebrada. — Se ela morrer naquele lugar... minha vida acabou. Não sobra nada do Sawyer, nem do James. Só sobra o vazio.
Kate não respondeu imediatamente. Albert, observando de longe, viu os ombros de James tremerem. Pela primeira vez, o assassino viu o homem que derrubara dois matadores na praça parecer apenas um pai aterrorizado e um homem apaixonado, pedindo socorro à única mulher que poderia salvá-lo.
Nova York — Apartamento de James e Kate (2012)
A chuva de outono batia contra a janela do apartamento no Brooklyn, transformando as luzes da cidade em borrões distantes. Dentro, o clima era ainda mais frio.
James estava sentado na beira da cama, com um folheto imobiliário nas mãos. As fotos mostravam um rancho ensolarado, cercas de madeira e céus azuis infinitos. — É perfeito, Kate. — Ele tentou injetar entusiasmo na voz. — Las Cruces. Ar puro, espaço para cavalos... longe dessa loucura de concreto e sirenes. Uma vida tranquila, como a gente sempre falou.
Kate estava em pé perto da janela, de costas para ele. Ela girou lentamente, os braços cruzados sobre o peito, uma barreira física e emocional. — Não sei, James. — A voz dela era afiada. — Por que exatamente Las Cruces? De todos os lugares no mundo... por que o Novo México?
— É mais próximo da Clementine — respondeu James, rápido demais. — Eu poderia vê-la nos fins de semana sem ter que pegar aviões. Seria bom para ela ter o pai por perto.
— Ou seria bom para você ficar mais perto da Cassidy? — A pergunta saiu como um tiro.
James largou o folheto na cama. — O quê? Não. — Ele se levantou, indignado. — Sardenta, não comece. Não pense que...
— "Não pense" o quê, James? — Kate o interrompeu, dando um passo à frente, os olhos faiscando. — Que você anda me traindo? Que você voou para Albuquerque ontem "apenas" para ver sua filha? Você acha que eu não sinto o cheiro do perfume dela nas suas camisas quando você volta? Eu passei a vida inteira detectando mentiras, Sawyer. Não tente usar seus truques comigo.
James percebeu que estava perdendo o controle da situação. Ele apelou para a única coisa que sempre funcionou entre eles: a proximidade física. Ele se aproximou e tentou abraçá-la, envolvendo-a em seus braços relutantes.
— Kate... — Ele sussurrou contra o cabelo dela. — Você sabe que eu te amo. Eu atravessei o tempo por você. Eu pulei de um helicóptero por você. Eu nunca seria capaz de magoar você de propósito.
Kate permaneceu rígida no abraço por um segundo, depois o empurrou suavemente. — Na primeira oportunidade que teve de "seguir em frente", você se envolveu com a Juliet — disse ela, a mágoa antiga vindo à tona.
James recuou, ferido. — Ah, vamos jogar esse jogo agora? — Ele bufou. — Eu não sabia que vocês voltariam! Eu achei que vocês tinham explodido no cargueiro! Nós estávamos presos em 1974 por três anos, Kate! Eu construí uma vida porque achei que a minha vida antiga tinha acabado. Seja racional.
Ele apontou um dedo acusador para ela. — E não vamos esquecer que, enquanto eu estava lá construindo cercas na Dharma, você estava brincando de casinha com o Doutor Shephard e criando o filho da Claire!
— Não mude de assunto! — Kate gritou, a voz ecoando no quarto pequeno.
Ela respirou fundo, tentando acalmar o tremor nas mãos. Ela caminhou até ele, parando a centímetros de distância, forçando-o a encará-la.
— Então me diga — sussurrou ela, mortalmente séria. — Olhando nos meus olhos. Sem truques, sem apelidos. Você ainda ama a Cassidy?
O apartamento ficou em silêncio. James olhou para os olhos verdes de Kate, viu a vulnerabilidade e o medo lá dentro. Ele pensou na manhã em Albuquerque, na cama de Cassidy, na confusão de sentimentos.
Seus lábios tremeram imperceptivelmente. Mas o instinto de sobrevivência — o instinto do vigarista — assumiu o comando.
— Eu? — James sustentou o olhar, firme. — Não. Não mais. Você é a única mulher que eu amo.
Era a mentira perfeita. E foi a mentira que quebrou tudo.
Kate sustentou o olhar dele por mais três segundos, procurando a verdade. Quando não a encontrou, algo dentro dela se fechou. Ela respirou fundo, assentiu devagar, virou as costas e saiu do quarto.
— Sardenta, espera! — James foi atrás dela no corredor. — Por favor, você está sendo imatura! Nós podemos resolver isso!
Mas o som da porta do banheiro sendo trancada foi a única resposta que ele recebeu. James ficou parado no corredor escuro, segurando o folheto do rancho dos sonhos, percebendo tarde demais que, ao tentar manter as duas vidas, ele estava prestes a perder ambas.
Albuquerque, Novo México — Estacionamento do Hospital (Presente)
O vento quente soprava poeira no rosto de James, mas ele estava congelado no lugar. O telefone pressionado contra o ouvido era a única âncora que o impedia de desmoronar.
— Eu sinto sua falta, James.
A confissão de Kate atravessou a linha telefônica como uma bala, alojando-se direto no peito dele. Não era a voz da ex-esposa amargurada; era a voz da companheira de sobrevivência.
— Kate, eu... — James tentou falar, a garganta fechada por um nó de emoções antigas.
— Não, Sawyer. Escute. — Ela o cortou, firme, mas gentil. — Eu sinto sua falta. Eu sei sobre a Cassidy. Eu sei por que você fez o que fez. Ela me contou a verdade, James... pouco antes de morrer.
James sentiu um arrepio. A morte de Cassidy ainda era uma ferida aberta, um segredo que ele achava que Kate ignorava os detalhes.
— Ela me disse que você queria se reaproximar da Clementine, — continuou Kate. — Que vocês acabaram se envolvendo fisicamente porque era fácil, porque era familiar. Eu não quis acreditar nela na época, o ciúme me cegou. Mas ela foi sincera quando disse que você não a amava de verdade. Que o seu coração estava em outro lugar.
O silêncio de James foi a confirmação.
— Então por que você me abandonou? — A pergunta dele saiu rouca, carregada de mágoa. — Se você sabia que eu não a amava...
— Porque eu não podia continuar sendo a sua rede de segurança, James. — A voz de Kate endureceu, ganhando a dignidade que ela conquistara a duras penas. — Eu não podia ser a mulher que você procura apenas quando o mundo desaba. Eu cansei de ser usada para preencher o vazio que a Ilha deixou em você.
— Kate, não entenda errado... eu nunca quis te usar...
— Não, Sawyer. Já chega desse joguinho. — Ela suspirou, o som de quem carrega um fardo pesado demais. — Eu não te liguei para discutir o nosso divórcio ou lavar roupa suja.
Houve uma pausa longa. James podia ouvir a respiração dela acelerar.
— Penelope me ligou, James.
O nome fez James endireitar a postura. Albert, encostado na pilastra, notou a mudança na linguagem corporal dele.
— Ela me disse que a situação é insustentável, — revelou Kate, a urgência vazando em cada sílaba. — Alvar Hanso está vencendo. Ela quer a nossa ajuda, James. Ou todos que estão na Ilha vão morrer. Isso inclui o Aaron... e a sua filha.
— Por que diabos eles não falaram comigo? — James rosnou, o instinto protetor misturando-se com a raiva. — Eu sou o pai!
— Porque você é instável, Sawyer. — Kate foi brutalmente honesta. — Você é um gatilho solto. Eles sabiam que você tentaria invadir a Widmore ou fazer alguma loucura sozinho. Eles disseram que a única pessoa que você escutaria... seria eu.
— E você agora está do lado deles? — James riu, incrédulo. — Não se esqueça que foram eles que levaram as crianças! Foi a Widmore que sequestrou a Clementine!
— Sawyer... James... Me escute.
A voz de Kate baixou um tom, tornando-se solene.
— Jack sacrificou a vida dele para que pudéssemos sair daquela ilha. O que nós fizemos com essa chance? Nós mentimos. Nós fugimos. Nós nos escondemos.
— Kate...
— Eu passei anos achando que poderia ter uma vida normal. Casamentos, jantares, Nova York... Mas eu já percebi que não é possível. É tudo falso, James. A vida que levamos aqui fora é uma mentira. — A voz dela quebrou. — A Penelope me explicou... a Ilha precisa de nós. É o nosso destino. Você lembra da visita de Alvar Hanso em nosso apartamento, anos atrás? Aquele homem... ele não vai parar.
— Kate, não estou entendendo aonde você quer chegar — disse James, embora, no fundo do estômago, ele já soubesse. O terror começou a subir por sua espinha.
Kate respirou fundo. Do outro lado da linha, em seu apartamento de luxo, ela olhou para o próprio reflexo no vidro e aceitou a maldição.
— James... nós temos que voltar para a ilha.
O mundo parou.
James riu, um som nervoso, beirando a histeria. — Você está brincando, não é? Isso é alguma piada sem graça?
— Jack, no momento mais terrível da vida dele, tentou me convencer de que precisávamos retornar, — disse Kate, implacável. — Eu achei que ele estava louco. Mas agora eu vejo. O mundo está em perigo, James. E as crianças estão lá. Nós temos que voltar para a Ilha.
James olhou para o céu de Albuquerque. Ele jurara nunca mais pisar naquele lugar. Mas a voz de Kate, ecoando a profecia de Jack Shephard, era inegável.
Ele não respondeu. Ele não conseguiu dizer "sim".
Num gesto de fúria e medo, James desligou o telefone.
A tela ficou preta.
Ele estava tremendo. A raiva pulsava em suas têmporas. Kate estava certa. E ele odiava isso.
Com dedos trêmulos, ele discou um número que decorara dos arquivos que roubara.
— Atendimento das Corporações Widmore em Londres, bom dia, — atendeu uma voz polida e britânica. — Em que posso ajudar?
James fechou os olhos, invocando cada grama de autoridade que lhe restava. — Aqui é James Ford.
— Senhor Ford? Como estão as...
— Eu não tenho tempo para cortesia! — gritou James, assustando Albert, que deu um pulo. — Quero falar com a Penelope Hume. Agora! Diga a ela que é urgente. Diga a ela que eu estou pronto para o negócio.
Enquanto a música de espera tocava, James olhou para Albert. O ex-assassino estava sentado no chão, massageando a perna baleada, observando James com uma mistura de curiosidade e respeito.
Albuquerque, Novo México — Centro da Cidade (Inverno de 2014)
O vento gelado da noite cortava as ruas desertas de Albuquerque, mas James Ford não sentia frio. Ele caminhava com as mãos nos bolsos do casaco, ladeado por Cassidy e Clementine, projetando a imagem perfeita de uma família feliz saindo de uma sessão de cinema.
Era uma mentira bonita. E, como todas as mentiras de James, estava prestes a desmoronar.
— Eu amei o filme! — exclamou Clementine, pulando para evitar as rachaduras na calçada. O rosto dela estava iluminado pelos postes de luz amarelada. — Aquele robô era muito engraçado!
— É mesmo, querida? — James forçou um sorriso, checando o relógio. Ele tinha um voo para Nova York em três horas. A vida dupla exigia pontualidade.
— A gente podia fazer isso mais vezes, papai. — Clementine parou, olhando para ele com aqueles olhos grandes e esperançosos. — Você, eu e a mamãe. Como uma família de verdade.
A inocência da frase atingiu James como um soco. Ele olhou para Cassidy, esperando que ela o ajudasse a desviar do assunto, como sempre fazia. Mas Cassidy estava parada, os braços cruzados, o olhar fixo nele com uma frieza que ele não reconheceu.
— Ela tem razão, James — disse Cassidy, a voz seca. — Que tal pararmos de viver essa farsa?
James franziu a testa, baixando a voz para que Clementine não ouvisse. — Cass, não começa. Nós já conversamos sobre isso.
— Conversamos? Ou você falou e eu fingi aceitar? — Cassidy deu um passo à frente, bloqueando o caminho dele. — Diga a ela, James. Diga por que você nunca fica para o café da manhã.
— É complicado — murmurou James, desviando o olhar.
— Não. Complicado é física quântica. Isso aqui é simples covardia. — Cassidy aumentou o tom. — Se você nos ama tanto, por que não larga a Kate?
James bufou, impaciente. — Você sabe que não é assim tão simples...
— É simples sim, Sawyer.
A voz não veio de Cassidy. Veio da esquina escura atrás deles.
James congelou. Aquele apelido. Naquela voz.
Ele girou o corpo lentamente. Saindo das sombras de um beco, vestindo um casaco pesado e com os olhos vermelhos de quem chorara durante o voo inteiro, estava Kate Austen.
O mundo de James parou. O barulho do vento sumiu. Só restou o som do seu próprio coração martelando contra as costelas.
— Kate? — A voz dele falhou. — O que... o que você faz aqui?
Kate caminhou até a luz do poste. Ela não olhou para Cassidy. Seus olhos estavam fixos em James, cheios de uma dor que rapidamente se transformava em fúria. — E isso importa? — Ela jogou o cabelo para trás, trêmula. — A Cassidy me ligou, James. Ela me contou tudo. O rancho em Las Cruces... as visitas "de negócios"... tudo.
James olhou para Cassidy, chocado com a traição. Cassidy não desviou o olhar. Ela tinha armado a emboscada perfeita.
— Mamãe? — A voz de Clementine tremeu. A menina sentiu a tensão elétrica no ar. — Por que a tia Kate está brigando com o papai?
Cassidy agachou-se rapidamente e puxou a filha para um abraço protetor, virando o rosto dela para longe de James. — Não se preocupe, meu amor. — Cassidy olhou para James com desprezo. — Tudo está acabado agora.
— Kate, me deixe explicar... — James deu um passo na direção da esposa, as mãos estendidas.
— Explicar o quê? — Kate recuou, como se ele fosse contagioso. — Que você mentiu na minha cara durante dois anos? Que você usou o meu amor para consertar o que estava quebrado em você?
— Não foi assim...
— Foi exatamente assim! — gritou Kate. — Como eu fui burra... Eu acreditei que você tinha mudado. Que o homem que pulou do helicóptero era real. Mas você sempre será isso, não é? Um vigarista. Um cafajeste que usa as pessoas e as descarta quando cansa.
A acusação feriu o orgulho de James. Encurralado, com a filha assistindo e as duas mulheres contra ele, o "Sawyer" assumiu o controle. A defesa dele sempre foi o ataque. E ele sabia exatamente onde doía.
— E você, Kate? — James endireitou a postura, o rosto endurecendo em uma máscara cruel. — A quem você quer enganar com essa pose de vítima? Você não é santa, Sardenta. Você é uma assassina.
Kate parou, chocada. — O quê?
— Você matou o próprio pai, lembra? — James deu um passo à frente, agressivo. — Explodiu o cara enquanto ele dormia no sofá. E o seu namoradinho de infância? O médico? Tom Brennan?
— Cala a boca... — Kate sussurrou, as lágrimas escorrendo.
— Ele morreu porque você não conseguia parar de correr! — James gritou, despejando o veneno. — Você destrói tudo o que toca, Kate. Você matou o Tom, matou o Wayne... e agora quer me julgar por tentar ser pai?
— Seu imbecil! — gritou Cassidy, tapando os ouvidos de Clementine.
James parou, ofegante. Ele olhou para Kate e viu o que tinha feito. Ele não apenas vencera a discussão; ele a quebrara. O rosto de Kate estava pálido, os lábios trêmulos. A crueldade dele confirmara tudo o que ela temia: ele não a amava. Ele a tolerava.
— Por que você é assim? — perguntou Kate, a voz tão baixa que mal se ouvia. Não era raiva. Era decepção pura.
Com movimentos lentos, ela puxou a aliança de ouro do dedo anelar. O metal brilhou sob a luz da rua.
— Kate, espera... — O pânico substituiu a raiva de James. — Eu não queria dizer aquilo. Desculpa. Por favor.
Kate olhou para o anel, depois para ele. — Fique com o sítio em Las Cruces, James. É tudo o que você vai ter.
Ela arremessou o anel. O pequeno círculo de ouro bateu no peito de James e caiu no asfalto com um tinido metálico.
Kate virou as costas e começou a caminhar para a escuridão, soluçando, mas sem olhar para trás.
— Sardenta! Não vá embora! — James gritou, dando um passo, mas parou.
Ele olhou para o lado. Cassidy já estava se afastando na direção oposta, carregando Clementine no colo. A menina chorava, olhando para o pai por cima do ombro da mãe, confusa e assustada.
— Cass? — chamou James, fraco.
Cassidy nem diminuiu o passo. Ela dobrou a esquina e desapareceu.
James ficou sozinho no cruzamento deserto de Albuquerque. O vento uivava. Ele olhou para o chão e viu a aliança de Kate brilhando na sarjeta, ao lado de uma embalagem de lixo.
— O que eu fiz? — sussurrou James para o vazio.
Ele caiu de joelhos no asfalto frio, pegou o anel e apertou-o na mão até machucar, enquanto o eco de sua própria estupidez reverberava pelas ruas silenciosas, confirmando que o homem que sobrevivera a tudo acabara de destruir a única coisa que realmente importava.
Londres — Sede da Widmore Corporation (Presente)
O escritório de Penelope Hume estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz azulada dos monitores que mostravam gráficos de mercado em queda livre. O telefone na mesa de mogno tocou, o som agudo cortando o silêncio.
Penny respirou fundo antes de atender. Ela conhecia aquele número.
— Alô? — A voz dela soou firme, mas cansada.
— Que tipo de lavagem cerebral você fez com a Kate?
A voz de James Ford não era um cumprimento; era um ataque. Penny podia sentir a raiva dele vibrando através da linha.
— Calma, James. — Penny recostou-se na cadeira de couro. — Deixe-me explicar o que está acontecendo antes de você começar a gritar.
James riu do outro lado, um som áspero e seco, como lixa em madeira. — Você aprendeu direitinho, não é? Igualzinha ao seu pai. Aprendeu desde o berço a manipular as pessoas como peças de xadrez. Tudo "pelo bem da Ilha", não é mesmo, sua quenga elitista?
— Você está me ofendendo, James. E isso não vai ajudar sua filha.
— Eu não quero sua ajuda! Eu quero saber como está a Clementine! — O grito de James fez Penny afastar o telefone do ouvido. — E não quero negociar nada com vocês. Ou vocês me dão uma prova de vida agora, ou eu vou para a CNN, FOX, aonde for e jogo no ventilador tudo o que sei sobre a Widmore, a Dharma e aquela pedra maldita!
— Ninguém acreditaria em você — retrucou Penny, friamente. — Você seria internado como louco ou preso por fraude em 24 horas.
— Será que não? O mundo está estranho, Penny. Talvez as pessoas estejam prontas para ouvir a verdade.
O blefe era perigoso. Penny sabia que James não tinha nada a perder, e um homem sem nada a perder é capaz de incendiar o mundo.
— James, por favor. Não precisamos chegar a isso. — A voz de Penny quebrou a fachada corporativa, revelando o medo real. — A situação é crítica.
— Você tem trinta segundos.
— Nós perdemos o contato com a Ilha. — Penny soltou a bomba. — O navio de expedição foi sabotado. Houve um intruso colocado por Benjamin Linus.
— Ben Linus? — O nome saiu com um misto de ódio e incredulidade. — Aquela barata tonta ainda está vivo? E causando problemas?
— Ele está. Agora, ele está nas mãos de Alvar Hanso. E Hanso está vencendo, James. Se ele tomar a Ilha, Clementine não terá para onde voltar.
Houve um silêncio pesado na linha. Penny sabia que tinha tocado no ponto certo.
— Estou enviando passagens para você vir a Londres — continuou ela, rápida. — Preciso reunir todos os envolvidos. O "Círculo", como meu pai chamava.
— O que você está planejando, Penny?
— Você vai saber em breve. Mas prepare-se, James... o que vai acontecer é terrível. — Penny olhou para a foto de Desmond e Charlie em sua mesa. — Vou desligar agora. Espere o e-mail com as passagens. E, por favor... não faça nenhuma estupidez até chegar aqui.
Penny desligou, deixando o escritório mergulhado novamente no silêncio e nas sombras de uma guerra que ela não tinha certeza se podia vencer.
Tunísia — Arredores do Deserto do Saara
Zack caminhava pela estrada de terra batida, sentindo o calor do deserto queimar sua pele acostumada à sombra da selva. Ele chegara a uma pequena cidade de casas caiadas de branco, onde o cheiro de especiarias e poeira enchia o ar.
Ele sentou-se em um banco de madeira fora de um pequeno café, exausto, admirando a movimentação. Pessoas. Carros. Celulares. Fazia tanto tempo...
Uma mulher passou por ele, sorriu e disse algo rápido em árabe. Zack piscou, desorientado. — Desculpe... não entendo sua língua.
— Ela disse que você parece que caiu do céu — comentou uma voz masculina em inglês.
Zack virou-se. Um homem de terno escuro, destoando completamente do ambiente rústico, estava parado ao lado dele. Ele tinha traços árabes fortes e um olhar calculista.
— Então, você saiu da Ilha? — O homem falou como se comentasse sobre o clima.
Zack gelou. O instinto de sobrevivência disparou. — Como sabe sobre a Ilha?
— Imaginei que, quando Benjamin Linus saísse de lá, alguém viria logo atrás para limpar a bagunça ou consertar o erro. É o padrão da Roda.
— Quem é você? — Zack levantou-se, pronto para correr, embora suas pernas estivessem fracas.
— Meu nome é Omer Jarrah. — O homem estendeu a mão, ignorada por Zack. — Acredito que você conheceu meu irmão, Sayid. Ele estava no mesmo voo que você, Zack. Na seção da cauda, eu presumo?
— Sayid... — Zack lembrou-se do torturador iraquiano que virara herói. — Como sabe meu nome?
— O senhor Alvar Hanso conhece todos vocês. — Omer sorriu, mas não havia calor no gesto. — Cada passageiro, cada habitante, cada Candidato. Se ele pretende dominar o tabuleiro, precisa conhecer as peças.
Zack recuou um passo. — O que você quer?
— Calma. Não estamos aqui para te machucar. Estamos com o Sr. Linus agora. — Omer ajeitou o paletó. — O senhor Alvar quer apenas garantir que vocês, ex-habitantes, não causem... turbulência. Ele oferece identidades novas, dinheiro, uma vida confortável. Em troca de cooperação.
— Cooperação? — Zack franziu a testa. — Lealdade.
— Chame como quiser. Trabalhe para Alvar e será bem recompensado. Recuse... e bem, o deserto é vasto e ninguém vai procurar por um garoto que desapareceu em 2004.
Zack olhou para a cidade, para a liberdade que acabara de reconquistar. Ele percebeu que nunca fora livre. Apenas trocara a jaula da Ilha pela jaula da Hanso Foundation.
— O que devo fazer? — perguntou ele, derrotado.
— Venha comigo.
Zack seguiu Omer até um sedã preto estacionado na esquina. Omer abriu a porta traseira.
Lá dentro, no ar condicionado, estava outro homem. Asiático, vestindo um terno caro e óculos escuros, mascando chiclete com indiferença.
— E aí, Zack. — O homem acenou.
— Eu te conheço? — perguntou Zack, entrando no carro.
— Talvez. Talvez não. — Miles Straume sorriu, aquele sorriso sarcástico de sempre. — Não se preocupe com isso. Vamos trabalhar juntos de agora em diante. Eu sou o cara que fala com os mortos, você é o cara que viaja no tempo... vamos formar uma bela dupla.
Zack sentou-se, a porta fechou-se, isolando o calor. — Por que vocês estão do lado de Alvar? — perguntou Zack, olhando de Miles para Omer. — Sayid lutou contra isso.
— Eu poderia ficar horas explicando a geopolítica da coisa — disse Omer, ligando o motor. — Mas só saiba disso, garoto: é melhor estar do lado de quem vai vencer. E Alvar Hanso sempre vence.
O carro arrancou, levantando poeira, levando Zack para longe da Ilha e para dentro da barriga da besta.
Aeroporto JFK — Nova York (Área VIP)
O painel anunciava o voo para Londres Heathrow.
Kate Austen estava sentada em uma poltrona de couro no lounge da primeira classe, girando uma taça de champanhe intocada. Seu olhar estava fixo no vidro, observando os aviões decolarem, mas sua mente estava em uma estrada escura no Novo México, anos atrás, e na voz de James ao telefone.
— O que foi, meu amor? — Edward Widmore ("Ed") sentou-se ao lado dela, colocando a mão sobre a dela. O toque era possessivo, familiar.
Kate piscou, voltando à realidade. Ela olhou para o marido. Ele sabia? Ele sabia que a prima dele (Penny) a chamara para a guerra? Ele sabia que a esposa dele estava prestes a trair a família Widmore para salvar o ex-marido?
— Nada — mentiu Kate, forçando um sorriso suave. — Só... pensando na viagem. Londres está sempre chuvosa nessa época.
— Vai ser bom para nós. — Ed beijou a mão dela. — Uma mudança de ares. Família reunida.
Kate sentiu um arrepio. "Família reunida".
— É... vai ser interessante. — Ela encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos.
Enquanto o anúncio de embarque soava, Kate sabia que estava caminhando para uma armadilha. Em Londres, James estaria esperando. Penny estaria esperando. E o destino, aquele que ela tentara fugir por vinte anos, finalmente a alcançara.
Nova York — Apartamento de Kate (Inverno de 2014)
A chuva de granizo batia contra a janela do apartamento no Upper West Side, o único som em uma noite de silêncio opressivo. Kate Austen estava sentada no sofá, envolta em um robe de seda, segurando uma taça de vinho tinto que já estava na metade.
A solidão era uma companheira antiga, mas desde a noite em Albuquerque, ela tinha um gosto diferente. Gosto de fracasso.
A campainha tocou, aguda e insistente.
Kate franziu a testa. Eram quase onze da noite. Ela deixou a taça na mesa de centro e caminhou até a porta, esperando algum vizinho reclamando de vazamento ou uma entrega errada.
— Já vai! — gritou ela.
Ela destrancou a porta e a abriu. O ar frio do corredor entrou, mas o que fez Kate congelar não foi a temperatura.
Cassidy Phillips estava parada no capacho. E ela não estava sozinha. Segurava a mão de Clementine, que parecia exausta, com uma mochila pequena nas costas e um urso de pelúcia nos braços.
O choque inicial de Kate rapidamente se transformou em uma muralha de defesa. — Você tem coragem... — Kate sussurrou, a voz trêmula de raiva. — O que você quer? Já não arruinou minha vida o bastante?
— Eu sinto muito, Kate. — Cassidy parecia abatida, sem a arrogância daquela noite no Novo México. — Eu sei que não sou bem-vinda.
— "Não bem-vinda" é um eufemismo. — Kate começou a fechar a porta. — Vá embora.
— Kate, por favor! — Cassidy colocou a mão na porta, impedindo o fechamento. Clementine olhou para Kate com olhos grandes e assustados, e foi apenas por causa da menina que Kate não empurrou a porta com força. — Eu não vim pedir desculpas vazias. Eu vim te contar a verdade.
Kate soltou uma risada curta e seca, cheia de escárnio. — A verdade? Eu vi a verdade com meus próprios olhos, Cassidy. Vocês dois, brincando de casinha.
— Não era casinha. Era uma transação. — Cassidy disparou as palavras rápido, antes que perdesse a coragem. — Você precisa ouvir. James te ama. Mais do que tudo.
Kate parou. A audácia daquela afirmação a fez rir de novo, mas desta vez foi um riso de incredulidade. — Vai embora, Cassidy. Não tenho tempo para essa palhaçada. Você dorme com meu marido e vem aqui me dizer que ele me ama? Você é doente.
— Eu sei que ele te ama porque eu sentia o nojo dele! — Cassidy gritou, mas baixou a voz ao ver Clementine se encolher. — Eu sentia que nada nele era verdadeiro quando estava comigo. Kate... eu cobrei um preço. Eu disse a ele que a única condição para ele ver a Clementine era se ele voltasse para mim. Se ele fingisse que éramos uma família.
Kate ficou paralisada, a mão ainda na maçaneta. A crueldade da revelação começou a penetrar. — Você... você o chantageou para foder com ele?
— Eu queria minha filha feliz. Eu queria um pai para ela. — As lágrimas começaram a cair no rosto de Cassidy. — Ele se jogou nessa farsa porque era o único jeito de estar perto dela. Ele te ama, Kate, mas ele ama a filha com a mesma intensidade desesperada. Ele ficou dividido ao meio.
Kate sentiu o chão sumir. — Se ele me amasse, não teria se deitado com você. Não importa a chantagem.
— Ele fez tudo pela Clementine.
— Eu chamo isso de traição! — Kate explodiu, ignorando a criança por um segundo. — Não chamo de sacrifício paterno. Ele escolheu mentir para mim!
— Nós não transamos de verdade, Kate! — Cassidy confessou, desesperada para limpar a própria consciência. — Quer dizer... nós dividimos a cama, sim. Mas era mecânico. Era vazio. Ele nem me beijava direito. Ele estava lá de corpo, mas a cabeça dele... a alma dele estava com você. Era tudo um teatro para a Clementine acreditar que éramos uma família.
Kate olhou para Cassidy. Depois olhou para Clementine, a inocente peça de xadrez naquele jogo doentio de adultos quebrados.
A repulsa tomou conta de Kate. Repulsa por Cassidy, por James e por toda aquela situação suja.
— Isso não melhora as coisas, Cassidy — disse Kate, a voz fria como gelo. — Saber que ele se vendeu... que ele viveu uma mentira tão profunda... isso só me mostra que ele é mais sujo do que eu pensava.
— Mas ele não te traiu no coração...
— Chega! — Kate cortou. — O corpo conta, Cassidy. A mentira conta. O teatro conta.
— Me escuta, Kate, você precisa perdoá-lo...
— Não. — Kate olhou nos olhos da mulher que destruíra seu casamento. — Pegue sua filha e suma da minha frente. E nunca mais ouse dizer o nome dele para mim.
Kate bateu a porta com força, o som reverberando pelo corredor e pelo apartamento vazio.
Do lado de fora, Cassidy baixou a cabeça, derrotada. Ela apertou a mão de Clementine e caminhou para o elevador, incerta se sua confissão tinha salvado alguma coisa ou apenas jogado a última pá de terra sobre o túmulo do amor de James e Kate.
Do lado de dentro, Kate encostou as costas na porta e escorregou até o chão, cobrindo o rosto com as mãos, chorando não pela traição física, mas pela tragédia de um homem que tentou amar duas pessoas e acabou destruindo três.
Londres — Hangar Privado nas Docas (Noite)
A neblina úmida do Tâmisa cobria o galpão industrial abandonado, escondendo as três limusines pretas que estacionaram em formação. O local cheirava a óleo, maresia e segredos.
A porta do primeiro carro se abriu. James Ford desceu, ajeitando o paletó barato que comprara no aeroporto. Ele parecia um lobo encurralado, os olhos varrendo o perímetro, procurando armadilhas.
Do segundo carro, o motorista abriu a porta para um casal. Edward Widmore desceu primeiro, estendendo a mão para ajudar sua esposa. Kate Austen aceitou o gesto, saindo do veículo com a elegância fria de quem aprendeu a usar máscaras sociais.
Quando James viu a mão de Kate entrelaçada na de Edward — um Widmore, sangue do mesmo sangue que os caçou por anos —, ele sentiu o estômago revirar. Ele não disse nada, mas seu olhar cruzou com o de Kate. Foi um segundo de eletricidade estática: dor, acusação e uma saudade terrível.
Do terceiro carro, Claire Littleton desceu. Ela parecia mais velha, o olhar duro de quem perdeu a inocência há muito tempo. Ela viu Kate e desviou o olhar imediatamente, o ressentimento antigo ainda pulsando sob a pele.
O grupo estava reunido. O "Círculo" quebrado do voo 815.
Passos ecoaram no concreto. Penelope Hume surgiu de trás de uma coluna de aço. Ela vestia um sobretudo vermelho sangue, destacando-se na cinza de Londres. Sua postura era de comando, mas suas mãos tremiam levemente.
— Olá a todos. — A voz de Penny ecoou no galpão vazio. — É bom revê-los, embora as circunstâncias sejam terríveis.
Ninguém respondeu. O peso da história entre eles era sufocante.
— Estamos aqui porque a Ilha... — Penny começou.
— Estamos aqui porque você mentiu, Penny.
A voz veio da escuridão, atrás dela, interrompendo-a. Grave, rouca e carregada de uma fúria escocesa.
Penny congelou. O sangue drenou de seu rosto.
Desmond Hume saiu das sombras como um espectro vingativo. Ele não olhava para James, nem para Kate. Seus olhos estavam fixos apenas em sua esposa.
— Dess? — Penny sussurrou. — O que... o que você está fazendo aqui?
— Eu tomei a liberdade de seguir minha própria esposa. — Desmond caminhou até ficar cara a cara com ela. — Você disse que tinha uma reunião de caridade. Você disse que tínhamos deixado essa vida para trás.
Ele olhou para o grupo reunido — James, Kate, Claire, o primo Ed.
— O que é isso, Penny? — Desmond abriu os braços, gesticulando para os fantasmas do passado. — Você está reunindo o exército? Sem me contar?
— Eu queria te proteger, Desmond! — Penny retrucou, desesperada. — A Ilha reapareceu. Se eu te contasse, você teria ido atrás dele sozinho e morrido!
— Então você decide pelas minhas costas? — Desmond rosnou, a mágoa brilhando nos olhos. — Nós prometemos, Penny. Sem mais segredos. Você é a minha Constante. E agora... agora você está jogando o jogo do seu pai.
O silêncio no hangar era absoluto. James observava a cena com um sorriso cínico. Até o casal perfeito tinha rachaduras. A guerra da Ilha estava começando ali mesmo, destruindo casamentos antes mesmo de disparar o primeiro tiro.
Los Angeles — Exterior da Estação Poste de Luz
A rua estava deserta, exceto pelos dois SUVs blindados que aguardavam com os motores ligados. Charlie Hume e Tyler Abbadon saíram apressados da igreja, descendo os degraus de pedra dois a dois.
— Temos as coordenadas, temos a janela de tempo. Vamos! — Charlie ordenou, abrindo a porta do carro.
— Charlie.
A voz não foi alta, mas parou o mundo.
Charlie e Tyler giraram. Encostado tranquilamente na lateral de um táxi amarelo que acabara de parar, estava Richard Alpert. Ele não parecia ofegante, nem apressado. Ele parecia inevitável.
— Olá, garoto. — Richard sorriu, mas seus olhos eram poços negros e vazios.
— Como... — Charlie olhou para o relógio, fascinado e aterrorizado. — Como você chegou aqui tão rápido? Eu desliguei o telefone há duas horas!
— Quando te liguei, eu já estava a 30 mil pés de altitude. — Richard desencostou do táxi. — Chegar aqui é fácil quando se tem a motivação certa. E você, Charlie, é uma motivação muito forte.
Imediatamente, os três seguranças da Widmore sacaram suas armas, apontando para o peito de Richard.
— Parado! — gritou Tyler, colocando-se na frente de Charlie. — Mais um passo e você vira peneira, Alpert!
Richard nem piscou para as armas. — Vocês podem atirar. Mas não vão gostar do resultado.
— Você não precisa fazer isso, Richard — disse Charlie, a voz falhando levemente. — Você sabe que não pode me matar aqui. Não agora.
— Fazer o quê? Te matar? — Richard riu, um som frio. — Ah, não. Ainda não é a hora. Eu preciso de uma carona, Charlie.
Charlie franziu a testa. — Uma carona?
— O meu voo comercial não vai pousar na Ilha. O seu jato vai. — Richard ajeitou o paletó. — Eu quero ir com vocês para a expedição. Quero ver o que vocês vão desenterrar.
— Isso é loucura! — sibilou Tyler. — É exatamente o que o Alvar quer. Um agente infiltrado. Ele vai nos degolar assim que as rodas saírem do chão!
Charlie olhou para Richard. Ele viu a ameaça, sim. Mas viu também o poder. Richard Alpert era a chave para os segredos que o computador da Dharma não conseguia decifrar. E Charlie, arrogante como o avô, achava que podia controlar o monstro.
— Você vem conosco — decretou Charlie.
— O quê?! — Tyler girou, incrédulo. — Charlie, ele é um assassino zumbi controlado por um deus egípcio! Você perdeu o juízo?
— Ele não pode matar os Candidatos, Tyler. E ele não pode matar o Guardião, ou quem quer que esteja no comando. Existem Regras. — Charlie forçou um sorriso nervoso, olhando para Richard. — Mantenha seus amigos perto, e seus imortais homicidas mais perto ainda.
Charlie fez um sinal para os seguranças abaixarem as armas. — Entre no carro, Richard. Vamos para a Ilha.
Richard assentiu, caminhando em direção a eles com a calma de um predador que acabou de ser convidado para entrar no galinheiro.
— Obrigado, Charlie — sussurrou Richard ao passar por ele. — Você não vai se arrepender. Pelo menos, não imediatamente.
Enquanto os carros arrancavam em direção ao aeroporto, Tyler olhou para trás, vendo Richard Alpert sentado no banco traseiro, imóvel, olhando para o nada. Ele sabia que tinham acabado de cometer o maior erro de suas vidas.
A equipe estava montada. O destino estava traçado. E a Ilha os esperava.
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