Lost: O Primeiro Herdeiro
24 LIVRO 3 — CAPÍTULO 24: PAREDE DE VIDRO
Sydney, Austrália — Casa de Carole Littleton (2010)
A luz da tarde entrava pelas janelas grandes da sala de estar, iluminando a poeira que dançava no ar. Era uma casa segura, normal, longe de fumaças pretas e sussurros na selva.
No centro do tapete, Aaron Littleton, com seis anos de idade, estava imerso em seu próprio mundo. Ele alinhava carrinhos de brinquedo com uma precisão quase militar, murmurando histórias que só ele ouvia.
No sofá, Claire Littleton observava o filho com uma mistura de amor devoto e ansiedade dolorosa. Ela segurava uma xícara de chá que já esfriara, seus olhos fixos na nuca do menino.
— Não importa o que eu faça, mãe... — sussurrou Claire, a voz embargada. — Parece que há uma parede de vidro entre nós.
Carole Littleton, sentada ao lado dela, tocou a mão da filha. — Dê tempo ao tempo, querida. Vocês passaram por muita coisa.
— Já se passaram três anos desde que voltamos. Três anos desde que a Kate foi embora — desabafou Claire. Ela odiava sentir ciúmes da mulher que salvara seu filho, mas a sombra de Kate Austen era longa. — Às vezes, quando ele me olha... eu sinto que ele está procurando por ela.
— Eu entendo sua inquietação, Claire. — Carole suspirou, a voz carregada de experiência. — Kate foi a mãe dele por três anos cruciais. Mas Aaron era muito pequeno. Memórias dessa idade desbotam rápido.
— Como você pode ter tanta certeza?
— Porque o sangue chama, filha. Você é a mãe dele. O vínculo é biológico, espiritual. — Carole levantou-se, alisando a saia. — Confie em mim. É apenas uma fase de adaptação. Vou preparar mais chá.
Carole foi para a cozinha, deixando Claire sozinha com suas inseguranças.
Claire respirou fundo, forçando um sorriso no rosto. Ela desceu do sofá e sentou-se no tapete, ao lado de Aaron.
— Oi, homenzinho — disse ela, suavemente.
Aaron não parou de brincar imediatamente. Ele terminou de estacionar um caminhão vermelho antes de virar a cabeça loira para ela. — Oi.
O coração de Claire apertou. Aquele distanciamento sutil, aquela pausa... era o que a matava. Ela precisava de uma validação, de uma prova de que não perdera o filho para sempre na selva.
— Filho... — Claire tocou o braço dele, hesitante. — Você me ama?
Aaron piscou, os olhos azuis grandes e inocentes focando no rosto dela. Por um segundo, ele pareceu analisar a pergunta como um adulto, mas então, o sorriso de criança apareceu.
— Claro, mamãe.
A resposta foi simples, direta. Para Aaron, era um fato. Para Claire, foi como oxigênio para quem estava se afogando. O sorriso dela se abriu, radiante e aliviado, as lágrimas ameaçando cair.
— Obrigada — sussurrou ela, beijando a testa dele. — Eu também te amo. Mais do que tudo nesse mundo.
Aaron sorriu de volta e imediatamente voltou sua atenção para os carrinhos, alheio ao drama interno da mãe. Claire ficou ali, observando-o, agarrando-se àquela pequena vitória, sem saber que o filho que ela tentava recuperar já estava destinado a algo muito maior — e muito mais perigoso — do que ser apenas o seu menino.
Igherm-Ater — Tunísia (~3000 a.C)
O vento do deserto soprava areia contra o rosto de Aaron, mas ele mal piscava. Ele estava parado diante de uma impossibilidade.
O homem à sua frente — Hanbal — tinha a pele curtida por décadas de sol implacável, cicatrizes finas cruzando os braços e uma postura de guerreiro que Aaron jamais tivera. Mas os olhos... os olhos azuis eram idênticos. Eram os olhos que Aaron via no espelho todas as manhãs.
— Você não pode simplesmente me deixar aqui sozinho — disse Aaron, a voz falhando entre a raiva e o pânico. — Isso é absurdo. Eu estava na floresta há cinco minutos!
— Relaxa, garoto. — Hanbal ergueu as mãos em um gesto pacificador, mas seus movimentos eram fluidos, perigosos. — Pânico desidrata. E aqui, água vale mais que ouro. Vai dar tudo certo.
A calma condescendente do estranho foi o estopim. Aaron recuou um passo e sacou a pistola que Walt lhe dera dias atrás. Ele apontou o cano trêmulo para o peito do homem.
— Não me faça perder a paciência! — gritou Aaron. — Quem diabos é você? E que tipo de jogo é esse?
Hanbal nem piscou para a arma. Ele olhou para a pistola com uma curiosidade nostálgica, como se visse um brinquedo de infância. — Glock 19. Nove milímetros. — Hanbal sorriu, um sorriso torto que Aaron reconheceu como o seu próprio. — Eu me lembro de quando apontei essa arma para mim mesmo. Eu estava assustado pra caramba, igual a você.
— Pela última vez... — Aaron destravou a arma, o clique metálico soando alto no silêncio do deserto. — Quem é você?
— Eu já disse. — O sorriso de Hanbal desapareceu, substituído por uma seriedade pesada. — Eu sou Aaron Littleton. Tenho quarenta e cinco anos. E você está olhando para o seu futuro.
— Não estou brincando! — Aaron gritou, o suor escorrendo pela têmpora. — Para de mentir!
— Olhe para mim, Aaron! — Hanbal deu um passo à frente, ignorando a arma. Ele apontou para uma pequena cicatriz em forma de meia-lua no próprio queixo. — Você fez isso caindo de bicicleta quando tinha sete anos, na casa da vovó Carole. E você tem uma marca de nascença na coxa esquerda que a mamãe costumava dizer que parecia a Austrália.
Aaron baixou a arma ligeiramente, o choque paralisando seus músculos. Ninguém sabia daquilo. Ninguém.
— Estamos na onde será a Tunísia, Aaron. Acredito que três mil anos antes de Cristo. — Hanbal abriu os braços, indicando a vastidão ao redor. — Você está pisando na Ilha. Ou melhor, no que ela era antes de ser arrancada da crosta terrestre.
Aaron olhou para as montanhas ao longe. A silhueta... era inconfundível. Mas, tudo morto. Conectado ao continente africano.
— Isso é... Igherm-Ater? Como é? Difícil pronunciar... — Aaron sussurrou, lembrando-se do nome que Hanbal mencionara antes.
— A terra dos Exilados. Onde os aterianos vivem. — Hanbal assentiu. — Taweret ainda não separou este pedaço de terra do mundo. A Fonte ainda está conectada ao Rio Medjerda subterrâneo.
Aaron guardou a arma, sentindo as pernas fraquejarem. Ele caiu de joelhos na areia quente. — Isso não pode ser real. Se você sou eu... e está aqui há vinte anos... isso significa que eu nunca vou voltar? Significa que eu vou ficar preso aqui para sempre?
Hanbal agachou-se na frente dele, ficando na altura dos olhos. — Significa que temos trabalho a fazer. Você não ficou preso, Aaron. Você foi convocado. Porque a guerra contra Osíris não começou em 2029. Ela começou aqui. E nós somos os únicos que podem terminá-la.
Aaron olhou para o seu eu mais velho, vendo a dureza e a solidão naquele rosto. Ele viu o seu destino. E pela primeira vez, sentiu o peso real de ser um Candidato.
— O que eu tenho que fazer? — perguntou Aaron.
Hanbal estendeu a mão para ajudá-lo a levantar. — Primeiro? Sobreviver até o pôr do sol.
A Ilha — Clareira Desconhecida – presente
O rugido do helicóptero rasgou o silêncio da noite. A aeronave pilotada por Miguel tocou o solo com suavidade, levantando uma nuvem de poeira e folhas secas.
Wilbert DeGroot saltou primeiro, seguido por Juan, Marcel e uma tropa de mercenários de elite. Eles se moveram com precisão militar, armas em punho, varrendo o perímetro. Wilbert consultou o dispositivo de rastreamento em seu pulso e franziu a testa.
Ele caminhou até onde deveria estar a entrada do complexo subterrâneo da Dharma. Havia apenas árvores antigas e mato fechado.
— Onde está a base? — gritou Miguel, desligando os rotores e descendo da cabine. — As coordenadas estão corretas, senhor. Deveria haver um bunker aqui.
— Estava aqui. — Wilbert chutou o chão, frustrado. — Maldito Benjamin Linus. Dadas as circunstâncias, acredito que ele tenha movido a Ilha.
— Como assim "movido"? — perguntou Juan, perplexo, verificando seu fuzil. — Tipo... geograficamente?
— Temporalmente, seu imbecil. — Wilbert olhou para o céu estrelado, calculando as constelações. — Estamos no lugar certo, mas na hora errada. A base ainda não foi construída... ou já foi destruída há séculos. Há muita coisa para explicar agora.
Um dos soldados correu até Wilbert, ofegante. — Senhor! O sinal dos outros grupos desapareceu instantaneamente após o clarão. Perdemos contato com a equipe Bravo.
— Entendido. Isso confirma o deslocamento. — Wilbert ajeitou o colete tático, assumindo o comando. — Nosso foco mudou. Esqueçam a base. O objetivo agora é a Estação Orquídea. Temos que impedir que a Ilha continue pulando no tempo ou ficaremos presos no limbo para sempre.
— Sim, senhor! — responderam os soldados em uníssono.
— Chame Frank Lapidus e Walt Lloyd — ordenou Wilbert. — Quero os dois na Orquídea imediatamente. Preciso do "Especial" para estabilizar a energia.
O soldado hesitou, engolindo em seco. — Desculpe, senhor... Frank e Walt não estão na frequência. O último relatório indica que partiram com uma facção para a floresta, perseguindo Ben Linus e o grupo de Hugo.
— Como é? — O rosto de Wilbert avermelhou de raiva. — Insubordinação? Agora?
Enquanto Wilbert gritava ordens furiosas para tentar restabelecer contato, ninguém notou Marcel se afastando silenciosamente para a escuridão da mata. O arqueólogo francês tinha seus próprios interesses, e obedecer a Wilbert não estava no topo de sua lista.
A Ilha — A Praia – presente
O som das ondas era o único acompanhamento para o funeral improvisado de Cindy Chandler. O grupo estava reunido em volta da cova rasa na areia, cabeças baixas.
Afastado do círculo de luto, Walt Lloyd estava sentado em um tronco caído, observando. Seus olhos não estavam no corpo, mas em Clementine, que observava a situação, abraçada a Bianca.
Uma sombra bloqueou sua visão.
— O que você está olhando? — perguntou Yan, parado à frente de Walt, os braços cruzados de forma desafiadora.
— Nada que te interesse — respondeu Walt, sem se levantar.
— Clementine me disse o que você fez. — Yan deu um passo à frente, a raiva transparecendo na voz. — Você tentou matá-la. Ordenou que atirassem nela.
Walt soltou um suspiro cansado. — Eu não ordenei nada. Roger e os homens dele têm gatilho fácil.
— Não minta. — Yan não recuou. — Eu também sou um Candidato, Walt. Eu sei que você não pode me matar, assim como não pode matar ela. Então não tente me intimidar.
Walt levantou o olhar, avaliando o enfermeiro. — Para alguém do seu físico, você é bem valente, não é, rapaz?
— Por que a sequestrou? — insistiu Yan.
— Eu não a sequestrei. Foi o Wilbert. — Walt levantou-se, ficando cara a cara com Yan. Ele era mais alto, mais forte e carregava uma escuridão que Yan desconhecia. — Eu queria usá-la como moeda de troca. Pela vida de Ben Linus. O homem que arruinou minha infância. O homem que sequestrou a mim e fez meu pai se entregar à morte nesta ilha maldita.
— Eu não me importo com sua história triste — retrucou Yan. — Ela me disse que você puxou o gatilho. A arma falhou, mas a intenção estava lá. Você é um assassino, Walt.
— Eu sabia que não funcionaria — admitiu Walt, a voz fria. — As regras da Ilha protegem os Candidatos agora. Mas entenda uma coisa: a vida de vocês não importa para mim. Eu estou aqui para vingar meu pai. Se vocês forem danos colaterais... que seja.
— Então por que está aqui conosco? — Yan apontou para o grupo na praia. — Por que não sumiu na floresta com o Frank?
— Porque se o mundo acabar por minha culpa... terei que carregar esse fardo pela eternidade na vida após a morte. E acredite, os sussurros já são barulhentos o suficiente.
Yan franziu a testa, confuso. — Vida após a morte? Você é louco.
Walt riu, um som seco e sem humor. — Você largou sua vida confortável de enfermeiro em um dos maiores hospitais dos EUA para seguir um gordo visionário numa expedição suicida... e o louco sou eu? — Walt empurrou o ombro de Yan ao passar por ele. — Eu vim parar nessa ilha por acaso, garoto. O que me tornei foi consequência. E não sei porque estou te dando satisfação. Saia do meu caminho.
Walt caminhou em direção à floresta, deixando Yan fervendo de raiva.
Mas antes que a briga pudesse escalar, um movimento na orla da mata chamou a atenção de todos.
Jessy Burke apontou, os olhos arregalados. — Olhem! É o Hugo! E... tem alguém com ele.
O grupo na praia se virou. Emergindo das sombras das árvores, Hugo Reyes caminhava com uma postura renovada. Ao lado dele, um guerreiro alto, com roupas estranhas e um olhar que carregava o peso de séculos, caminhava com a familiaridade de quem construiu aquele lugar.
Todos se aproximaram, curiosos e apreensivos. Até Walt parou para olhar.
Hanbal parou diante do grupo. Ele varreu os rostos conhecidos — Yan, Bianca, Jessy... e Clementine. Um sorriso suave, quase paternal, curvou seus lábios.
— Olá, pessoal. — A voz era a de Aaron, mas mais profunda, mais rouca. — É bom revê-los depois de tantos anos.
Clementine deu um passo à frente, trêmula. Ela olhou para aquele homem adulto, careca, com cicatrizes e barba, e tentou encaixar a imagem no garoto de vinte e poucos anos que desaparecera horas atrás. Mas os olhos... os olhos eram os mesmos.
— Aaron? — indagou Clementine, os olhos enchendo-se de lágrimas novamente. — É você?
Hanbal assentiu devagar. — Olá, Clementine. É bom te ver.
Clementine levou a mão à boca, o rosto ficando vermelho de confusão e alívio. — Mas... como? Você está... você está velho. Onde você estava?
— Eu estava esperando — respondeu Aaron/Hanbal, olhando para o horizonte escuro da Ilha. — Esperando o momento certo para liderar vocês. Porque a verdadeira guerra começa agora.
Sydney, Austrália — Casa de Carole Littleton (2011)
O sol de verão banhava o quintal da Sra. Littleton, enchendo o ar com o cheiro de grama cortada e cobertura de açúcar. Era um dia perfeito, do tipo que parecia impossível para quem viveu três anos sob a copa úmida de uma floresta misteriosa.
Aaron Littleton completava sete anos.
O quintal estava cheio de primos distantes e amigos da escola. No centro de tudo, Aaron corria com uma capa de super-herói amarrada no pescoço, rindo daquele jeito despreocupado que fazia o coração de Claire doer de tanto amor.
— Hora do bolo! — anunciou Carole, batendo palmas para reunir as crianças.
Claire trouxe o bolo de chocolate, equilibrando-o com cuidado. Todos se aglomeraram ao redor da mesa de piquenique. O coro desafinado de "Parabéns pra você" começou, mas Claire parou no meio do caminho, olhando para o topo do bolo.
— Ah, não! — Ela riu, balançando a cabeça. — Esqueci a velinha do número sete!
A risada foi geral. — Típico da Claire! — brincou uma tia.
— Segurem os parabéns! Eu volto num segundo! — Claire entregou o bolo para a mãe e correu de volta para a casa, passando pela porta de vidro da cozinha.
O barulho da festa foi abafado assim que ela entrou na quietude fresca do interior. Claire foi até as gavetas, remexendo em busca da vela azul que comprara.
— Você continua esquecida, Claire.
A voz veio da sala de estar. Uma voz que ela não ouvia há quase oito anos. Uma voz de uma vida passada.
Claire congelou. O sangue drenou de seu rosto. Ela se virou lentamente.
Parado perto da entrada da cozinha, segurando um embrulho malfeito nas mãos, estava Thomas. Ele parecia mais velho, o cabelo ralo, vestindo uma jaqueta de couro que já vira dias melhores. O "artista rebelde" que a engravidara e a abandonara agora parecia apenas um homem comum e patético.
— Thomas? — A palavra saiu como um gosto amargo. — O que você está fazendo aqui?
Ele sorriu, um sorriso nervoso e culpado. — Sua mãe... ela me deixou entrar. Eu disse que não demoraria.
— Você não deveria estar aqui. — Claire endireitou a postura. A garota assustada que ele deixara grávida tinha morrido na queda do voo 815. A mulher que estava ali tinha matado para proteger seu filho. — Saia.
— Eu sei, Claire. Eu sei que não tenho o direito. — Thomas deu um passo hesitante, colocando o embrulho sobre a bancada de granito. — Mas eu vi no jornal... o aniversário dele. Eu só queria... eu trouxe isso para o Aaron.
Claire olhou para o presente com desprezo. — Ele não precisa do seu presente. Ele não precisa de nada que venha de você.
— É apenas um kit de pintura. — Thomas olhou para as próprias mãos. — Eu sei que dinheiro não compra o tempo perdido. Sei que fui um covarde quando te deixei. E depois, quando vi as notícias do acidente... meu Deus, Claire, eu achei que tinha matado vocês dois com a minha covardia.
— Você não nos matou — disse Claire, fria como o aço. — Nós sobrevivemos. Eu sobrevivi. Sem você.
— Eu vejo isso. Você parece... diferente. Mais forte. — Thomas suspirou, derrotado. — Eu não quero bagunçar a vida dele. Só queria que ele tivesse algo meu.
— Vai embora — ordenou ela, apontando para a porta da frente. — Agora.
— Tudo bem. Já estou indo. — Thomas recuou, mas parou na soleira da porta. — Só... diga a ele que eu sinto muito. Por tudo.
— Não pense que uma caixa colorida conserta o que você fez — disparou Claire, a voz tremendo de raiva contida. — Abandonar sua família não é algo que se resolve com um pedido de desculpas, Thomas. Você escolheu ser um fantasma. Então continue sendo um.
Thomas assentiu, engolindo em seco. Ele se virou para sair.
A porta do quintal se abriu com um estrondo.
— Mamãe! — Aaron entrou correndo, a capa de super-herói voando. — Cadê a velinha? O sorvete vai derreter!
Aaron parou no meio da cozinha, derrapando de meias no piso liso. Ele olhou para a mãe, depois para o estranho parado na porta da sala.
Houve um silêncio pesado. Thomas olhou para o menino. Era a primeira vez que via o filho. Ele viu os próprios olhos no rosto de Aaron, o formato do queixo... A emoção no rosto de Thomas foi visível, uma mistura de orgulho e perda devastadora.
Aaron franziu a testa, curioso, sem nenhum reconhecimento. — Quem é esse homem, mamãe?
Claire olhou para Thomas. Ela viu o pedido mudo nos olhos dele, o desejo de ser apresentado, de ser, por um segundo, o pai.
Claire caminhou até Aaron e o pegou no colo, protegendo-o com o corpo. Ela olhou Thomas nos olhos, e com uma frieza absoluta, deu o veredito final.
— Não é ninguém, querido — disse Claire, sem desviar o olhar do ex-namorado. — É apenas um entregador que errou o endereço. Ele já está indo embora.
Thomas sentiu o golpe. Ele baixou a cabeça, aceitando sua punição. — Feliz aniversário, garoto — sussurrou Thomas, antes de abrir a porta e sair para a rua, desaparecendo da vida deles para sempre.
Claire ficou ali, abraçada ao filho, ouvindo a porta bater.
— Vamos, mamãe? — pediu Aaron, alheio ao drama. — A vela!
— Claro, meu amor. — Claire beijou a bochecha dele, pegando a vela na gaveta. — Vamos cantar parabéns.
Ela voltou para a festa, deixando o presente de Thomas esquecido na bancada da cozinha, um vestígio de um passado que não tinha mais lugar no futuro de Aaron.
Igherm-Ater — Tunísia (~3000 a.C)
O vento seco uivava entre as dunas, levantando uma poeira fina que cobria os dois homens idênticos separados pelo tempo.
Aaron segurava a pistola com as duas mãos, os nós dos dedos brancos de tensão. Diante dele, Hanbal baixou a guarda, abrindo os braços em um gesto de rendição cansada.
— Não dê mais um passo! — gritou Aaron, vendo que o guerreiro aparentemente abaixou a guarda.
Hanbal apenas suspirou. Aaron, movido pelo medo e pela descrença, puxou o gatilho.
CLICK.
O percutor bateu no vazio. A arma travou.
Aaron olhou para a pistola, chocado, e tentou destravar o ferrolho freneticamente.
— Eu sabia que isso ia acontecer — disse Hanbal, a voz calma. — A Ilha... o Tempo... chame como quiser. O universo tem mecanismos de defesa, garoto. Você não pode matar a si mesmo. O paradoxo não permite.
— Como você pode ter tanta certeza? — retrucou Aaron, sacudindo a arma inútil. — Isso é algum truque magnético?
— Não é truque. É a lei. Eu já disse que sou você.
— Então prove! — gritou Aaron, a voz quebrando. — Pare de falar enigmas e me diga algo que só eu sei!
Hanbal deu um passo à frente, os olhos azuis fixos nos de Aaron, carregados de uma tristeza nostálgica.
— No nosso aniversário de sete anos... — começou Hanbal, suavemente. — Mamãe esqueceu a vela. Ela foi buscar na cozinha e encontrou um homem. Ele trouxe um presente. Um kit de pintura.
Aaron paralisou. O vento pareceu parar.
— A mamãe disse que era um ninguém — continuou Hanbal. — Mas você encontrou o diário dela anos depois. Você viu a foto. Aquele homem era Thomas. Nosso pai. Foi a única vez que o vimos.
Aaron baixou a arma lentamente, a respiração ficando curta. — Pare de falar como se fôssemos a mesma pessoa... Eu sei que essa ilha faz loucuras com a mente, ela lê memórias...
— A Ilha não lê o que você sente, Aaron. — Hanbal tocou o próprio peito. — Eu sei que você nutre sentimentos pela Clementine desde o dia em que a viu no aeroporto, mas tem medo de admitir porque acha que vai estragar tudo. Sei que Tyler Abbadon é o irmão que você nunca teve.
Hanbal deu mais um passo. — E sei sobre o buraco no seu peito. Você ama a mamãe, mas sempre sentiu falta de alguém que não conseguia lembrar. Uma sombra que cantava para você dormir. Você sente falta de alguém que não se lembrava... a Kate. Também sei que você toca violão pois é um fragmento de outra memória que você não se lembra.
Aaron caiu de joelhos na areia. As lágrimas escorriam, misturando-se à poeira em seu rosto. Ninguém sabia daquilo. Ninguém sabia da dor fantasma que ele sentia pela mulher que sua mãe, Claire, “apagou” de sua memória.
— Está bem... já chega — sussurrou Aaron, derrotado. — Onde você quer chegar com isso?
Hanbal agachou-se na frente dele. — Você precisa entender o que você é. Em breve, você receberá a capacidade de entender a língua deste povo. Não é mágica, é direito de nascença. Taweret nos escolheu para sermos o Guardião destas terras por um motivo simples: nós somos o milagre.
— Milagre?
— Somente alguém que nasceu nesta ilha genuinamente, desafiando a maldição da infertilidade, poderia ocupar o cargo. Aaron, nós nascemos aqui. Graças aos esforços de Juliet Burke, a médica que morreu para que pudéssemos viver, nós quebramos as leis da natureza. Você é o Primeiro da Nova Era.
Aaron olhou para as montanhas de Igherm-Ater. O peso do destino esmagava seus ombros. — E agora? O que eu faço?
— Eu vou voltar para o futuro — disse Hanbal, levantando-se. — Minha guerra é lá, ao lado do Hugo. Não podemos coexistir na mesma linha temporal por muito tempo. A realidade está começando a rasgar.
— Como você vai voltar? — Aaron levantou-se também, desesperado. — Me leve com você!
— Eu não posso. — Hanbal balançou a cabeça. — E não posso te dizer como sair daqui. Você precisa descobrir sozinho. Se eu te der a resposta agora, você vai pular as etapas. Você nunca se tornará o homem que precisa ser para vencer o Osíris.
O corpo de Hanbal começou a tremeluzir, como uma imagem de TV saindo do ar. Ele estava se tornando translúcido, a areia do deserto visível através de sua pele.
— Espera! — Aaron avançou, tentando segurá-lo, mas seus dedos atravessaram o braço de Hanbal como se fosse fumaça. — Não me deixa aqui! Por favor!
— Sinto muito, Aaron. — A voz de Hanbal soou distante, metálica. — Não somos mais donos de nossas vontades. Fomos escolhidos. A Ilha nunca nos deixará em paz. Sobreviva.
E com um clarão silencioso, Hanbal desapareceu.
Aaron ficou sozinho na imensidão do deserto, cercado por cinco mil anos de história e solidão.
— VOLTA! — gritou Aaron, a voz rasgando a garganta. — NÃO ME DEIXA AQUI!
O silêncio do deserto foi a única resposta.
Em um impulso de fúria e desespero cego, Aaron ergueu a pistola para o céu vazio, para o Deus ou a Ilha que o abandonara, e puxou o gatilho.
BANG!
Desta vez, a arma não falhou. O tiro ecoou pelas dunas de Igherm-Ater, um som solitário marcando o momento em que o menino morreu e o exilado nasceu.
A Ilha — Orla da Floresta (Noite – presente)
O grupo recuou instintivamente. O homem diante deles não usava as roupas civis modernas que Aaron vestia minutos atrás. Ele trajava uma armadura de couro curtido, gasta por anos de sol e areia, e carregava uma espada embainhada nas costas.
Mas eram os olhos que causavam o verdadeiro terror. Eram os olhos de Aaron, sim, mas endurecidos por duas décadas de violência que eles não presenciaram.
— Como... como você pode estar velho? — gaguejou Ji Yeon, a voz sumindo na garganta. Ela olhou para as mãos calejadas do guerreiro, tentando conciliar a imagem do jovem de escritório com aquele veterano de guerra.
Hanbal passou a mão pela barba grisalha, um gesto de quem carrega o peso do mundo. — Peço desculpas pela mudança brusca de visual. A moda em 3.000 a.C. é um pouco rústica.
— 3.000 a.C.? — Jessy Burke deu um passo à frente, a mente científica tentando processar.
— Oficialmente, eu sou o General do Exército dos Aterianos — explicou Aaron, a voz rouca e autoritária. — Pelo menos fui, até Taweret arrancar este pedaço de terra do continente. Fui destituído por falhar em conter Minut... o homem que vendeu nosso povo a Osíris.
— Que loucura é essa? — Ji Yeon balançou a cabeça. — Você está falando de deuses egípcios?
— Aaron? É você mesmo, cara? — Yan interrompeu, a incredulidade estampada no rosto. Ele olhou ao redor, procurando o garoto. — O que aconteceu com a sua versão jovem? Ele estava aqui agorinha!
Aaron soltou uma risada curta e seca, sem humor. — Ele... que sou eu... ficou para trás. Em Igherm-Ater. Eu me lembro vividamente de estar naquele deserto, gritando, implorando para não ser deixado sozinho. — Ele olhou para Yan. — Eu me lembro do quanto me odiei naquele dia por ter me abandonado. Mas era necessário. Eu precisava viver os vinte anos para me tornar quem sou hoje.
— Igherm-Ater? — Clementine perguntou, a voz fraca. Ela olhava para Aaron com uma mistura de fascínio e desgosto. O garoto doce por quem ela nutria sentimentos tinha sido apagado da existência, substituído por aquele estranho perigoso.
— Sim. É o verdadeiro nome deste lugar — afirmou Aaron, batendo o pé no chão da floresta. — Antes de ser a Ilha.
— Então... essa ilha era parte do continente africano? — Jessy perguntou, as peças se encaixando. — Geologicamente conectada?
— Exatamente, doutora. — Aaron assentiu. — Nós não estamos apenas isolados no mar. Estamos isolados da história.
Yan ainda estava desconfiado. Ele cruzou os braços. — Como podemos ter certeza de que você é o Aaron? Isso pode ser um truque. Ou da tal ilusão temporal.
Aaron virou-se para Yan. Seu olhar suavizou por um instante. — Ah, Yan... Lembra quando fomos à casa do James Ford? Você estava apavorado. Eu disse para você relaxar. — Aaron sorriu, nostálgico. — Para você, isso foi há alguns dias. Para mim... parece que foi em outra vida.
Yan baixou os braços, convencido. Apenas Aaron sabia daquilo. — Meu Deus... você realmente viveu tudo isso.
Clementine deu um passo à frente, hesitante. Ela queria tocar o rosto dele, ver se era real, mas a aura de perigo a mantinha afastada. — Estou impressionada com o quanto você mudou, Aaron. — Havia uma tristeza profunda na voz dela. Ela estava de luto por alguém que estava parado bem na sua frente.
Aaron percebeu. Ele olhou para Clementine com ternura, mas manteve a distância. Ele sabia que aquele abismo de vinte anos entre eles era intransponível agora. — O tempo cobra seu preço, Clem. — Ele desviou o olhar, focando na missão para não desmoronar. — Há muito para explicar, mas não temos tempo. Resumidamente: sou o Aaron que veio com vocês, fui para o passado, lutei uma guerra por duas décadas e agora voltei para garantir que Osíris não vença no presente.
— Ok, você nos convenceu dessa loucura — disse Clementine, secando uma lágrima discreta. — Mas qual é o plano? Somos apenas pessoas comuns, Aaron. Viemos parar aqui por sua causa. Roger fugiu. Ben desapareceu. Estamos sem liderança.
— Ninguém está aqui por acaso — disse Aaron, a voz firme de um general. Ele se virou para Hugo, que ainda estava sentado em um tronco, com o olhar perdido. — E não estamos sem liderança.
Aaron caminhou até Hugo. — Sinto que o novo Guardião já foi escolhido. Hugo... você fez o ritual com o Roger.
Hugo levantou a cabeça, surpreso. — Sim... eu tentei passar o cargo. Mas não funcionou. Ele está estressado. Ainda me bateu.
— O ritual é apenas uma formalidade, Hugo. — Aaron sorriu. — A Ilha não liga para a água. Ela liga para a escolha. Você escolheu passar. E, no fundo, Roger aceitou o peso, mesmo que não saiba.
— Você está brincando, certo? — Hugo levantou-se, incrédulo. — O Roger? Ele nos abandonou! Ele fugiu com o Frank para tentar sair da ilha! Ele é a pior pessoa possível para proteger a Luz!
Aaron olhou para a escuridão da floresta, na direção onde Roger tinha desaparecido. — Ele não vai muito longe, Hugo. A Ilha tem um jeito engraçado de corrigir o curso. Roger é um Guardião agora. E quando ele perceber isso... ele será a arma mais letal que já tivemos.
A Ilha — Costa Leste (Noite — presente)
A lua cheia iluminava a areia branca, projetando sombras longas das palmeiras que pareciam grades de uma prisão tropical. Roger caminhava com a determinação cega de um soldado em território inimigo, chutando a areia a cada passo.
Atrás dele, Frank Lapidus mantinha o ritmo, mas com a cautela de quem sabe que está pisando em ovos.
Roger parou subitamente e girou nos calcanhares. — Por que diabos você está me seguindo? — rosnou ele, a mão pairando sobre o coldre.
— Porque eu não sou idiota o suficiente para ficar na floresta com uma mulher que sangra pelo nariz, um gordo desorientado e um bando de crianças assustadas — respondeu Frank, erguendo as mãos. — Eu só não quero fazer parte daquela loucura mágica. Assim como você.
— E por que eu deveria confiar em você? — Roger estreitou os olhos. — Você tentou me matar em Sydney, Lapidus. Ou a sua memória é curta?
— Eu tentei. Mas não matei, não é? Se eu quisesse você morto, você não teria chegado ao aeroporto.
A resposta insolente foi o estopim. Roger sacou a pistola num movimento fluido e pressionou o cano frio contra a garganta de Frank, empurrando-o contra uma árvore.
— Me dê apenas um motivo para não estourar seus miolos e deixar os caranguejos terminarem o serviço — sussurrou Roger, o dedo tencionado no gatilho.
Frank não piscou. Ele sentia o metal contra a pele, mas manteve o olhar fixo em Roger. — Eu não tive escolha, Roger. Fui encurralado. Alvar Hanso me encontrou em Los Angeles. Ele sabia onde minha ex-mulher morava. Sabia a escola da minha filha. Ele jurou que faria mal a elas se eu não tirasse você do caminho.
A menção à família fez Roger hesitar. Ele viu a verdade nos olhos cansados do piloto. Era o olhar de um homem desesperado, não de um assassino profissional.
Roger respirou fundo, o ódio lutando com a lógica. Ele precisava de aliados, não de cadáveres. Ele abaixou a arma lentamente, guardando-a no coldre.
Frank soltou o ar que prendia nos pulmões, massageando o pescoço. — Obrigado pela compreensão. — Ele ajeitou a camisa amassada. — Então... qual é o plano, militar?
— Não sei como vamos sair daqui — admitiu Roger, olhando para o mar escuro e infinito. — Mas vamos sair. Eu não vou morrer nesta pedra.
— Por experiência própria, sair daqui não é tão simples quanto pegar um táxi. — Frank olhou para a linha das árvores. — As correntes marítimas são traiçoeiras e o campo magnético ferra com qualquer bússola. Mas... podemos construir algo. Uma jangada. Tenho conhecimentos de engenharia aeronáutica, serve para barcos também.
Roger avaliou o homem à sua frente. Lapidus era um covarde, mas era um covarde útil. — Eu ainda não confio em você, Lapidus. Se você der um passo em falso, eu te mato.
— Justo. — Frank assentiu.
— Vamos procurar madeira. — Roger retomou a caminhada pela praia. — Temos uma jangada para construir.
A Ilha — Estação Orquídea (Subsolo)
O ar dentro da estufa abandonada era úmido e cheirava a plantas exóticas. Zack desceu as escadas de concreto com o coração na boca, iluminando o caminho com uma lanterna fraca que encontrara. Ele sabia que estava invadindo território sagrado.
Ele precisava chegar à câmara da Roda. Precisava parar os saltos.
Zack estava prestes a forçar a porta do elevador quando ouviu o clique inconfundível de uma arma sendo engatilhada atrás de sua cabeça.
— Quem é você?
A voz era calma, autoritária e mortalmente séria.
Zack virou-se lentamente, levantando as mãos. Diante dele, iluminado pela luz da lanterna, estava Richard Alpert. Mas não o Richard zumbi de 2029, nem o Richard que ele conhecera no Templo. Este Richard parecia... em paz. Vestia roupas civis simples, o cabelo impecável, segurando uma espingarda com firmeza.
— Eu... eu pensei que esta estação estivesse vazia — gaguejou Zack, o terror tomando conta.
— Nós controlamos todas as estações da Dharma, garoto. — Richard não baixou a arma. — E não costumamos receber visitantes. Não importa quem você seja ou como chegou aqui, terei que matá-lo para proteger este lugar.
— Espere! — gritou Zack. — Só me diga... antes de atirar... em que ano estamos?
Richard franziu a testa, confuso com a pergunta. — Que tipo de jogo é esse? Claro que é 2003.
Zack soltou um suspiro de alívio e desespero. — Eu sabia.
— O que você está fazendo aqui? — Richard deu um passo à frente, o dedo no gatilho. — Não vou perguntar de novo.
— Você tem que acreditar em mim. Eu vim do futuro.
Richard soltou uma risada curta, incrédula. — De novo isso?
Zack deu um passo à frente, ignorando o perigo. — Daqui a exatamente um ano, em setembro de 2004, um avião vai cair nesta ilha. Voo 815 da Oceanic. Eu estarei a bordo, na cauda, com minha irmã Emma. Meu nome é Zack. Nós seremos sequestrados por vocês. Pelo seu povo. E nos tornaremos parte da sua comunidade no Templo.
Richard parou. A especificidade dos detalhes o fez hesitar. O garoto não parecia louco; parecia apavorado e sincero. — E você espera que eu acredite nessa fábula?
— Eu juro que sou um de vocês. — Zack olhou nos olhos de Richard, buscando a conexão que eles teriam anos depois.
— Então me diga... — Richard baixou ligeiramente o cano da arma, testando-o. — O que repousa à sombra da estátua?
Zack endireitou a postura. Ele ouvira aquela frase mil vezes nos corredores do Templo, ensinada por Dogen e Lennon. Era a senha. O código sagrado.
— Ille qui nos omnes servabit. — A resposta em latim saiu perfeita, solene.
Richard Alpert arregalou os olhos. A arma baixou completamente. Aquele que salvará a todos nós. Apenas os Outros, os verdadeiros habitantes da Ilha, conheciam a resposta correta para aquele enigma.
— Você... — Richard olhou para o garoto com novos olhos. — Você conhece a língua. Você conhece os costumes.
— Acredite em mim, espere um ano e você verá o avião cair. Você mesmo vai me levar para o Templo. — Zack respirou fundo. — Mas agora, Richard, eu preciso que você me ajude.
— O que você quer? — perguntou Richard, guardando a desconfiança, mas mantendo a curiosidade.
— Me ajude a descer. Até a Roda. — Zack apontou para o elevador. — Há um distúrbio na linha temporal. A Ilha está solta no tempo. Se não resolvermos isso agora, o seu povo... o meu povo do futuro... vai sofrer consequências terríveis.
Richard olhou para o elevador, depois para Zack. Ele sentia algo peculiar naquele garoto. Uma aura de verdade. E Richard Alpert, o conselheiro de Jacob, sabia quando o destino batia à porta.
— A câmara da Roda é proibida — disse Richard. — Mas se o que você diz é verdade... Jacob gostaria que eu ajudasse.
Richard caminhou até a parede e acionou um painel oculto que abriu as portas do elevador. — Vamos, garoto do futuro. Vamos consertar o relógio.
A Ilha — A Praia (Noite)
O grupo havia se dispersado pela areia, cada um buscando um canto escuro para processar o luto e o medo. O corpo de Cindy fora coberto com folhas de palmeira, um montículo silencioso sob o luar.
Walt Lloyd estava sentado longe de todos, na orla da água, olhando para o mar negro. As ondas lambiam suas botas, mas ele não se movia. Os sussurros em sua cabeça — aquelas vozes que o atormentavam desde a infância — estavam mais altos do que nunca.
Aaron e Hugo se aproximaram. O contraste entre eles era gritante: Hugo caminhava com os ombros curvados pelo peso do mundo, enquanto Aaron se movia com a precisão letal de um guerreiro antigo.
— Walt. — A voz de Aaron cortou o som do vento. — Minut conversou com você, não conversou?
Walt não se virou. Ele jogou uma pedra no mar. — Sim. A voz dele é clara. Ele diz que eu falhei.
— Minut foi o primeiro traidor dos Aterianos. Ele é a boca de Osíris — explicou Aaron, parando ao lado do garoto. — Não se preocupe. Não te culpo pelo que você fez comigo, ou com a Clementine. Eu posso extinguir as trevas que Osíris implantou em você. Basta que você queira se libertar desse desejo de vingança.
Walt riu, um som quebrado e sem esperança. — É tarde demais para mim, cara. Eu tenho sangue nas mãos. Eu sou... defeituoso.
— Não é tarde. Nem para você, nem para Minut, se ele ainda tivesse corpo. — Aaron agachou-se ao lado de Walt. — Osíris não cria o mal, Walt. Ele explora o que já existe. Ele alimenta a vingança até que ela consuma a alma. Passei anos acreditando que a "doença" que pegou minha mãe, Claire... aquele ódio que ela sentia pela Kate... fosse loucura. Mas não era. Eram as trevas emergindo.
Hugo franziu a testa, lembrando-se de Sayid e da própria Claire no passado. — O que você quer dizer? — perguntou Hugo. — Você está falando da "Doença"? Aquela que a Rousseau falava?
— Exatamente. Mas não é biológica. É espiritual. Age como um vírus. — Aaron levantou-se, olhando para a fogueira distante onde o resto do grupo estava.
— Um vírus? — repetiu Hugo.
— Quando Osíris dominou alguns Aterianos, milênios atrás, ele não usou correntes. Ele usou a raiva. — A voz de Aaron tornou-se solene, como se recitasse uma história esquecida. — Homens bons foram subjugados por um espírito doentio, alimentado por mágoas antigas. Eles agiam conforme a vontade de Osíris, eliminando quem não obedecesse, achando que era ideia deles. Eles viraram uma colmeia.
Aaron apontou para a areia sob seus pés. — Para impedir que essa infecção se propagasse para o resto do mundo, e para garantir que Osíris nunca conquistasse o poder total de Taweret, Igherm-Ater foi arrancada do continente. Transformada nesta ilha. Um presídio para Minut, uma proteção contra Osíris.
O silêncio caiu sobre os três. A magnitude da revelação era esmagadora.
— Se Osíris vencer... — continuou Aaron, virando-se para Hugo — ele não vai apenas governar. Ele vai transformar a humanidade em um exército de cascas vazias. Um mundo de zumbis sob seu controle, sem livre arbítrio. Ele se tornaria o deus supremo de um reino morto. Estamos aqui para evitar isso.
Hugo piscou, atordoado. Ele olhou para o Aaron que ele conhecera — o bebê chorão, o garoto quieto — e tentou encontrar aquele menino no rosto do general à sua frente. — Cara... quando foi que você se tornou tão didático? E assustador?
Aaron sorriu, e por um momento, a gentileza voltou aos seus olhos. — Tenho quarenta e cinco anos agora, Hugo. E recebi o dom. Não sou mais o mesmo Aaron que você assombrava. Eu fui forjado para esta guerra.
— Tá, eu entendi a parte do "Guerreiro do Tempo". — Hugo apontou para Yan, Bianca, Jessy e os outros na praia. — Mas qual é o nosso papel nisso tudo? Eles são gente comum! Eles não têm habilidades de guerra, Aaron. Se o Osíris transforma gente em zumbi, nós vamos ser massacrados.
Aaron olhou para o grupo. Ele não via fraqueza; via potencial. — Compreendo tua preocupação, Hugo. Mas a Ilha, ou melhor, Taweret, não os escolheu por acaso.
Aaron colocou a mão no ombro de Hugo, firme como uma rocha. — Osíris usa o ódio. A única coisa que pode parar o ódio não é uma espada, Hugo. É a humanidade. Eles são a âncora que impede o mundo de virar escuridão. Se falharmos em protegê-los, o mundo que conhecemos sucumbirá.
Walt levantou a cabeça, olhando para Aaron. Pela primeira vez em anos, os sussurros em sua cabeça pareceram diminuir, abafados pela autoridade daquele homem. — E eu? — perguntou Walt. — Eu sou a cura ou a doença?
— Você é uma arma, Walt — respondeu Aaron. — E eu vou te ensinar a apontar para o lado certo.
Sydney, Austrália — Hospital St. Mary (2012)
O cheiro de antisséptico era forte, mas trazia uma sensação de segurança que Claire Littleton aprendera a valorizar depois de anos na selva.
Aaron, agora um menino de oito anos com cabelos loiros despenteados, balançava as pernas na cadeira de espera, folheando uma revista em quadrinhos. Claire acariciou a cabeça dele, sorrindo.
Uma jovem de jaleco branco, com o crachá de "Estagiária", apareceu na porta, exibindo um sorriso cansado, mas genuíno.
— Sra. Littleton? — chamou ela.
— Olá. — Claire levantou-se. — Doutora Jessy, certo?
— Jessy Burke, isso mesmo. — A estagiária abriu a porta. — Podem entrar. Já preparei tudo para o check-up do Aaron.
Antes que pudessem dar um passo, a porta da recepção foi aberta com violência.
Um homem de meia-idade, com cabelos desgrenhados e roupas amarrotadas, invadiu o corredor. Ele ignorou a enfermeira que tentava barrá-lo e marchou diretamente para Jessy, agarrando-a pelo braço com força desnecessária.
— Por que você fez aquilo? — gritou o homem, os olhos injetados de raiva e desespero.
Jessy empalideceu, tentando se soltar. — Richard, solte meu braço! Você está fazendo uma cena!
Claire paralisou. Aquele nome. Aquela voz.
Ela olhou para o homem. Richard Malkin. O vidente. O homem que insistira, com um fervor quase maníaco, que ela pegasse o voo 815 da Oceanic. O homem que desenhara o mapa do seu destino.
O trauma subiu pela garganta de Claire como bile.
— Richard Malkin? — A voz de Claire saiu trêmula, mas ganhou força rapidamente. — Não posso acreditar que seja você.
Malkin parou, soltando Jessy por um instante. Ele olhou para Claire, semicerrou os olhos e, então, o reconhecimento o atingiu. — Claire? — Ele deu um passo para trás, como se visse um fantasma. — O que você está fazendo aqui? Por que você... por que você saiu da Ilha?
— Eu que pergunto, seu charlatão desgraçado! — Claire avançou, a fúria materna explodindo. Aaron largou a revista, assustado. — Você mentiu para mim! Você disse que eu tinha que proteger o bebê...
— E em que parte eu menti? — Malkin retrucou, recuperando a arrogância mística. — Olhe para ele. — Ele apontou para Aaron. — Ele está vivo. Ele está aqui. Você o criou, não criou? Outra pessoa tentou, mas no fim, foi você.
— Eu sofri o inferno por sua causa! — gritou Claire.
— Você salvou o menino! — insistiu Malkin. — Aaron é especial. Eu vi isso. Eu provei isso! Ele precisava nascer lá.
— Richard, vá embora! — Jessy se colocou entre eles, empurrando Malkin. — Deixe meus pacientes em paz!
Malkin virou sua fúria de volta para a médica. Ele agarrou os ombros de Jessy e a sacudiu. — Eu ainda não acabei com você, garota! Por que contou à minha esposa? Você destruiu minha vida!
— Larga ela, seu ogro! — Claire tentou puxá-lo, mas Malkin era forte.
— Não se mete, garota! — Malkin empurrou Claire, que cambaleou. — Meu problema é com essa traidora!
— Ei!
A voz veio do fim do corredor. Calma. Fria.
Um homem bem-vestido, com uma postura elegante que destoava do caos, caminhou até eles. Era Marcel, mas sem o equipamento tático ou a sujeira da ilha. Ele parecia um executivo europeu.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Marcel, parando ao lado de Aaron.
— Ninguém te chamou na conversa, amigo — rosnou Malkin.
Marcel olhou para a mão de Malkin no braço de Jessy. — Eu não costumo tolerar homens que gritam com mulheres em hospitais. É de muito mau gosto.
— Não se intrometa, seu francesinho de merda — cuspiu Malkin, referindo-se ao sotaque francês do homem à sua frente.
O movimento de Marcel foi um borrão.
Ele não fez discurso. Apenas girou o quadril e desferiu um soco preciso, cirúrgico, no maxilar de Malkin.
CRACK.
O vidente caiu no linóleo como um saco de batatas, segurando o rosto, gemendo de dor.
— O que foi? — Marcel ajeitou o punho da camisa, impassível. — Quer tentar de novo? Ou sua coragem só funciona com estagiárias e mães solteiras?
Malkin olhou para cima, vendo a frieza nos olhos de Marcel. Ele percebeu que aquele homem não era um herói comum; era alguém perigoso.
Sem dizer uma palavra, o vidente levantou-se, humilhado, e correu para a saída, deixando um rastro de vergonha.
O silêncio voltou ao corredor.
— Vocês estão bem? — perguntou Marcel, voltando a sorrir com um charme desarmante.
— Sim... — Jessy massageou o braço, aliviada. — Obrigada. Eu não sei o que ele faria.
— Obrigada — disse Claire, recuperando o fôlego e puxando Aaron para perto de si. — Você tem um gancho de direita impressionante.
— Apenas o necessário. — Marcel fez uma leve reverência. — Prazer. Meu nome é Daniel. Estou aqui para a consulta das 14h. Sou o próximo.
— Ah, claro. Sr. Daniel. — Jessy sorriu, profissional novamente. — Deixe-me apenas terminar com o Aaron e já chamo o senhor.
— Sem pressa.
Marcel — ou Daniel — encostou-se na parede. Seus olhos desviaram-se de Jessy e pousaram em Aaron.
O menino olhou de volta.
Houve um momento de silêncio estranho. Marcel não olhava para Aaron como um adulto olha para uma criança. Ele o olhava com uma curiosidade clínica, predatória. Como se estivesse avaliando uma joia rara ou uma arma biológica. Um leve sorriso, quase imperceptível, curvou os lábios do francês.
Aaron, sensitivo como sempre foi, encolheu-se contra a perna da mãe.
Claire percebeu a troca de olhares. O instinto de proteção, afiado na selva, disparou um alarme em sua cabeça.
— Algum problema? — perguntou Claire, a voz dura, colocando-se na frente do filho.
Marcel piscou, o sorriso estranho desaparecendo instantaneamente, substituído pela máscara de polidez. — Nada, madame. Apenas acho que ele tem olhos... muito inteligentes.
Marcel sentou-se no banco de espera, pegando uma revista.
Claire ficou parada por um segundo, observando aquele homem que se chamava Daniel. Ele salvara o dia, mas algo nele fazia sua pele arrepiar mais do que as previsões de Malkin.
— Vamos, Aaron — disse ela, empurrando o filho rapidamente para dentro do consultório de Jessy e fechando a porta, desejando poder trancar o mundo lá fora.
A Ilha — Floresta Densa (Noite — Ano 2003)
Marcel corria, não como um soldado, mas como um homem desesperado. A vegetação parecia mais densa, mais selvagem do que ele se lembrava. O GPS em seu pulso estava morto. A bússola girava sem parar.
— Merde... Devo estar perdido — murmurou ele, o suor frio escorrendo pela testa.
Ele deu mais um passo.
CLACK.
O som de madeira batendo foi a única advertência. O chão sob seus pés desapareceu. Uma corda grossa laçou seu tornozelo, e o mundo girou de cabeça para baixo. Marcel foi içado violentamente para a copa das árvores, ficando pendurado a três metros do solo, preso em uma rede de carga antiga.
— Socorro! — gritou ele, o pânico superando o treinamento. — Alguém me ajude!
Sua voz foi engolida pela selva. Horas se passaram. O sangue subiu para sua cabeça, a visão começou a turvar. Ele estava prestes a desmaiar quando ouviu o estalo de um galho seco.
Uma figura emergiu das sombras.
— Quem é você? — A voz era feminina, rouca, carregada de uma paranoia vibrante. O cano de uma escopeta enferrujada apontou para o rosto de Marcel.
— Meu nome é Marcel... estou perdido... — balbuciou ele, tonto. — Por favor, me tire daqui. Quem é você?
— Você é um deles? — A mulher não baixou a arma. Ela circulou a armadilha como um predador.
— Um deles? — Marcel piscou, tentando focar. — De quem você está falando?
— Dos Outros. Você é um deles?
A mulher deu um passo à frente, entrando em um facho de luz do luar. O rosto estava sujo, o cabelo desgrenhado, os olhos selvagens de quem não via civilização há muito tempo.
Marcel parou de respirar. Ele conhecia aquele rosto. Ele carregava uma foto daquele rosto em sua carteira há trinta anos.
— Danielle? — O nome saiu como um sussurro incrédulo.
A mulher parou. A arma tremeu ligeiramente. — Como sabe meu nome? — A voz dela falhou. — Quem mandou você?
Marcel ignorou o perigo. As lágrimas começaram a cair, desafiando a gravidade. — C'est moi... Danielle... c'est moi, ton frère, Daniel. (Sou eu... Danielle... sou eu, seu irmão, Daniel.)
Os olhos de Danielle Rousseau se arregalaram. O choque foi tão visceral que ela quase deixou a arma cair.
A Ilha — Estação Orquídea (Subsolo) — 2003
O ar estava ficando gelado. Richard Alpert parou diante de uma estante de livros empoeirada no escritório subterrâneo. Ele puxou um volume falso, e a estante deslizou com um ruído hidráulico, revelando uma passagem escura e fria.
— Como você sabe que está atrás disso? — perguntou Zack, impressionado.
— Somente eu sei como funciona esta estação. Nem Ben Linus sabe como chegar à Câmara da Roda. — Richard sorriu, misterioso. — É uma medida de precaução de Jacob. Caso precisássemos... reiniciar o jogo.
— Por que me ajudou? — Zack hesitou na entrada do túnel.
— Já vivi o bastante para não duvidar de alguém que diz vir do futuro. E você sabia a senha. — Richard tocou o ombro do garoto. — Vá. O destino espera.
Zack assentiu e entrou no túnel. O frio tornou-se insuportável, congelando sua respiração. Ele caminhou até chegar a uma caverna de gelo iluminada por uma luz sobrenatural amarela e roxa.
No centro, encravada na parede de pedra, estava a Roda. O "Leme" do tempo.
Ela estava fora do eixo, oscilando freneticamente, emitindo um zumbido grave que fazia os dentes de Zack doerem. A luz piscava, instável.
— É agora — sussurrou Zack.
Na floresta, o reencontro entre irmãos.
— Est-ce vraiment toi? (É realmente você?) — A voz de Danielle era um fio de esperança e terror.
— Oui, c'est moi. (Sim, sou eu.) — Marcel chorava abertamente. — Laisse-moi partir, s'il te plaît. (Me solte, por favor.)
Com mãos trêmulas, Danielle puxou a faca de caça e cortou a corda. Marcel despencou no chão da floresta, gemendo. Antes que ele pudesse se levantar, Danielle estava sobre ele, tocando seu rosto, puxando seu cabelo, verificando se ele era carne e osso.
— Je suis sur cette île depuis 15 ans... (Estou nesta ilha há 15 anos...) — Ela o abraçou, depois o empurrou, confusa. — Comment peut-il apparaître ici et maintenant? (Como você pode aparecer aqui e agora? Você não envelheceu tanto!)
— 15 anos? — Marcel recuou, confuso. — Impossible. Nous sommes en 2029. (Impossível. Estamos em 2029.)
A menção da data errada foi o gatilho. A paranoia de Danielle, forjada por anos de sussurros e monstros, explodiu.
Ela recuou, apontando a arma novamente. — Es-tu cette foutue fumée qui essaie encore de me tuer? (Você é aquela maldita fumaça tentando me matar?) — gritou ela, os olhos arregalados de loucura. — Você está morto! Daniel morreu! Isso é um teste!
— Quoi? Non! Je le jure! (O quê? Não! Eu juro!) — Marcel levantou as mãos, aterrorizado. — Danielle, sou eu! O tempo... a ilha...
Naquele mesmo instante, Zack gritou, usando toda a sua força. Ele agarrou os raios da Roda congelada. O frio queimou suas mãos, arrancando a pele, mas ele não soltou.
— PELA EMMA! — gritou Zack.
Com um esforço sobre-humano, ele empurrou a Roda. O mecanismo gemeu, pedra moendo contra pedra, e deslizou de volta para o eixo correto.
KABOOM.
Uma luz branca cegante explodiu na caverna. O zumbido instável tornou-se um tom harmônico e puro.
Na praia, a noite virou dia em um segundo.
— O que está acontecendo? — gritou Yan, cobrindo os olhos.
— Está acontecendo de novo? — desesperou-se Clementine.
Aaron (Hanbal) olhou para a luz com um sorriso calmo. — Não. Alguém colocou o leme no lugar. O tempo está se curando.
— Zack?! — Emma caiu de joelhos na areia, sentindo no coração que o irmão tinha conseguido, e que ele tinha ido embora.
Na mata, Wilbert olhou para o céu. — O salto parou. Estamos fixando.
Na clareira da armadilha, o tempo colapsou.
Danielle Rousseau apertou o gatilho. — MEURT, MONSTRE! (MORRA, MONSTRO!)
BANG!
O tiro saiu no exato momento em que o clarão engoliu Marcel. A bala atravessou o espaço onde o peito dele estava milissegundos antes, atingindo uma árvore.
A luz consumiu tudo. O som de sucção do universo se reajustando foi ensurdecedor.
Marcel caiu de cara na terra úmida.
Ele levantou a cabeça, ofegante, tateando o peito em busca de um ferimento de bala. Não havia sangue. Apenas o coração batendo a mil.
Ele olhou ao redor. Era dia. O sol filtrava pelas árvores. A armadilha sumira. Danielle sumira.
— Danielle? — Ele chamou, a voz quebrando.
O silêncio da floresta foi a única resposta. Ele estivera a centímetros de salvar a irmã, a centímetros de ser morto por ela, e agora... ela era apenas um fantasma no passado novamente.
— Non... — Marcel socou o chão, gritando de frustração. — DANIELLE!
Na praia, o clarão dissipou-se. O sol brilhava alto. O mar estava calmo.
Aaron (Hanbal) respirou fundo, sentindo a estabilidade no ar. Ele olhou para Hugo. — Voltamos. Estamos no presente.
Hugo assentiu, mas seu olhar estava triste. Eles estavam de volta, mas a que custo?
Los Angeles — Estação Poste de Luz
Os computadores da sala de controle começaram a apitar freneticamente. Luzes verdes substituíram as vermelhas no mapa mundi gigante.
O telefone de Charlie Hume tocou. — Alô?
— Sr. Hume. Temos o sinal. — A voz do técnico estava eufórica. — A anomalia parou. As coordenadas estabilizaram.
— Como assim a Ilha se moveu de novo? — perguntou Charlie, incrédulo.
— Ela não apenas se moveu, senhor. Ela reapareceu. Está sincronizada com o nosso tempo.
— Está em nosso tempo?! — Charlie sorriu, um sorriso predador. Ele olhou para Tyler. — Obrigado.
Ele desligou o telefone. — Tyler, prepare a equipe de extração. Sabemos onde eles estão.
Deserto da Tunísia — Saída da Orquídea
O céu azul do deserto era vasto e impiedoso.
Um corpo caiu na areia quente, expelido do nada. Zack tossiu, vomitando bile, tremendo de frio apesar do calor de 40 graus. Ele estava vestindo a parka da Dharma que encontrara na estação, agora coberta de areia.
Ele se levantou com dificuldade, as pernas bambas. Olhou ao redor. Dunas infinitas.
Zack começou a caminhar em direção a uma cidadezinha que tremeluzia no horizonte. Ele estava sozinho. Exilado. Mas vivo.
Ele olhou para o céu e sussurrou: — Eu cumpri a promessa, Emma. Agora é a sua vez.
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