Lost: O Primeiro Herdeiro
23 LIVRO 3 — CAPÍTULO 23: O HOMEM DA TURBINA
LIVRO 3 — CAPÍTULO 23: O HOMEM DA TURBINA
Aeroporto Internacional de Sydney — 22 de Setembro de 2004
O ar condicionado do aeroporto zumbia, mas dentro da pequena sala de descanso dos funcionários da Oceanic, a temperatura parecia subir.
Cindy Chandler, com seu uniforme azul impecável e o lenço perfeitamente amarrado no pescoço, estava prensada contra a porta fechada. As mãos de Gary Troup estavam em sua cintura, puxando-a para perto com uma urgência que desafiava os avisos de "Última Chamada" ecoando lá fora.
O beijo foi profundo, com gosto de café e despedida. Gary não era apenas um passageiro charmoso; havia uma intensidade nele, um magnetismo de quem vivia no limite. Seus olhos escuros, geralmente escondendo segredos por trás de um sorriso literário, agora estavam focados inteiramente nela.
Cindy afastou-se apenas o suficiente para respirar, as testas encostadas. — Gary... — Ela tentou recuperar o fôlego profissional. — Nós precisamos parar. Está tudo uma zona. O voo 815 não vai esperar mais. O capitão Lapidus se atrasou de novo e o capitão Norris o substituiu e já está fazendo o checklist.
Gary sorriu, aquele sorriso torto que a fizera quebrar três regras da companhia aérea na noite anterior. — Deixe o avião partir, Cindy. Pegamos o próximo. Vamos para Fiji. Ou sumimos no Outback.
Ela riu, alisando a lapela do casaco dele. — É sério. Eu tenho um trabalho. E você tem um prazo. Nova York está esperando o próximo best-seller.
A expressão de Gary mudou. A brincadeira desapareceu, substituída por uma gravidade repentina. Ele soltou a cintura dela e pegou a mochila de couro surrada que sempre carregava.
— O livro... — Gary abriu o zíper e tirou um livro branco. A capa provisória dizia apenas: BAD TWIN e seu nome como subtítulo. — Eu quero que você fique com isso.
Cindy olhou para o livro, confusa. — O original? Gary, você trabalhou nisso por meses. É a sua vida.
— Exatamente. — Ele pegou a mão dela e colocou o livro sobre a palma aberta. — Não é apenas um romance, Cindy. Há coisas aqui... verdades disfarçadas de ficção. Sobre pessoas poderosas. A Fundação Hanso. O segredo mais profundo de Charles Widmore. Se algo acontecer comigo...
— Ei. — Cindy tocou o rosto dele, interrompendo o discurso sombrio. — Nada vai acontecer. É só um voo de catorze horas. Você está nervoso com a publicação?
Gary suspirou, desistindo de explicar o perigo real. Ela não entenderia. Não agora. — Digamos que sim. Mas eu quero que você tenha. Porque se este livro for o meu legado, eu quero que ele esteja nas mãos da única pessoa que me fez esquecer a conspiração por alguns dias.
Cindy sorriu, tocada, mas prática. Ela devolveu o maço para ele. — Gary, olhe para mim. Eu não tenho onde guardar um livro no carrinho de bebidas. E se eu perder?
Ele a encarou intensamente, avaliando o risco. — Tudo bem. — Gary guardou o livro de volta na mochila, com cuidado reverente. — Eu levo comigo na cabine. Mas assim que pousarmos em Los Angeles... ele é seu. Considere um seguro de vida.
— Combinado. — Cindy puxou-o pela gravata para um último beijo rápido. — Agora vá. Assento 24D, certo?
— Vou estar esperando você passar com o café.
Gary pegou a mochila e saiu da sala, lançando um último olhar para ela antes de desaparecer no corredor movimentado.
Cindy ficou ali por um segundo, sorrindo para o nada, ajeitando o batom no espelho. Ela abriu a porta para sair e quase esbarrou em um homem alto, de cabelos compridos e barba por fazer, que estava encostado na parede oposta, lendo uma revista de carros.
O homem baixou a revista e abriu um sorriso malicioso, cheio de covinhas. — Romântico — comentou James Ford, com seu sotaque sulista arrastado. — Mas cuidado, docinho. Escritores são conhecidos por inventar finais felizes que não existem.
Cindy revirou os olhos, profissional novamente. — O embarque começou, senhor. Sugiro que se apresse.
James riu e desencostou da parede, jogando a revista no lixo. — Não se preocupe. Eu não perderia esse voo por nada nesse mundo.
Cindy o observou caminhar em direção ao portão de embarque, sem saber que aquele homem, aquele escritor e aquele manuscrito estavam prestes a cair do céu e arrastá-la para o centro de uma história que Gary Troup jamais poderia ter inventado.
A Ilha — Estação Orquídea (Exterior)
O mundo parou de girar, mas o estômago de Clementine continuou.
Ela abriu os olhos, sentindo a náusea violenta subir pela garganta. O zumbido agudo em seus ouvidos diminuía lentamente, substituído pelo som dos grilos. Segundos atrás, era uma tarde ensolarada. Agora, a noite cobria a selva, densa e sufocante.
Zack e Emma estavam a alguns metros, olhando para o céu estrelado como se tivessem visto um fantasma.
— Ben moveu a Ilha — murmurou Zack, a voz carregada de um temor reverente.
— Como é? — Clementine tentou se levantar, mas suas pernas pareciam gelatina.
Cindy Chandler emergiu das sombras das árvores, limpando a poeira do uniforme de aeromoça que usava há décadas. Ela olhou para a estufa da Estação Orquídea, que agora parecia abandonada, com vidros quebrados e trepadeiras subindo pelas paredes.
— Aquele desgraçado... — Cindy balançou a cabeça. — Ele realmente fez o que disse. Ele girou a roda.
— Do que vocês estão falando? — Clementine olhou de um para o outro, o pânico crescendo. — Como assim "moveu a ilha"? Isso é impossível. E por que ficou de noite em um segundo?
— Não é apenas noite, Clementine. — Zack apontou para a constelação acima deles. — É outra noite. Outro ano. A Ilha se soltou da âncora temporal.
Clementine olhou para a estrutura envelhecida da Orquídea. As teorias insanas que ela lera em Oxford sobre eletromagnetismo e bolsas de energia exótica começaram a dançar em sua mente, formando uma imagem aterrorizante. — Nós... viajamos no tempo?
— Provavelmente estamos entre 2004 e 2007, julgando pelo estado da vegetação — avaliou Zack, prático. — Mas a Ilha está instável. Se Ben girou a roda e ela saiu do eixo, vamos ficar pulando como um disco riscado.
— E agora? O que faremos? — perguntou Emma, a voz trêmula de medo infantil.
Zack olhou para a entrada subterrânea da Orquídea. Ele sabia o que precisava ser feito. Ele ouvira as histórias dos mais velhos no Templo. — Alguém precisa descer lá. A roda precisa ser realinhada, ou a ilha vai continuar saltando até que nossos cérebros derretam.
— Não! — Cindy interveio, segurando o braço dele. — Zack, você sabe o que acontece. Quem gira a roda... quem mexe naquele mecanismo... não pode ficar. A Ilha expulsa você.
Zack olhou para Cindy, depois para a irmã, Emma. Ele tinha o olhar de um soldado aceitando uma missão suicida. — Se a ilha continuar se movendo, Cindy, todos nós morreremos. Alguém tem que parar o salto.
Emma entendeu. As lágrimas começaram a correr pelo rosto dela. — Mas... isso significa que você vai embora. Podemos nunca mais nos ver!
Zack abaixou-se e abraçou a irmã com força, beijando o topo da cabeça dela. — Ei, não chora. Eu sou duro na queda, lembra? A Ilha não vai se livrar de mim tão fácil. Eu vou encontrar um caminho de volta. Eu prometo.
Ele se levantou e olhou para Cindy. — Cuide dela.
— Com a minha vida — prometeu Cindy, a voz embargada.
Zack não olhou para trás. Ele correu em direção à entrada escura da Orquídea, desaparecendo no subsolo para salvar o lugar que era sua única casa.
Assim que ele sumiu, Cindy levou a mão ao rosto. Ela sentiu algo quente e úmido no lábio superior. Ao afastar os dedos, viu o sangue escuro brilhando sob o luar.
— Cindy? — Clementine notou, alarmada. — Você está sangrando. O que está acontecendo?
Cindy limpou o nariz rapidamente, tentando esconder o tremor nas mãos. Ela sabia o que aquilo significava. Deslocamento Temporal. O corpo rejeitando o tempo. — Não é nada. Apenas a pressão. — Ela mentiu, forçando um tom de autoridade. — Vamos. Não podemos ficar aqui. Precisamos encontrar abrigo antes que a Ilha decida pular de novo.
A Ilha — Clareira na Floresta
A alguns quilômetros dali, o caos reinava.
O grupo de Hugo acordou espalhado pela clareira, tossindo e desorientados pela mudança abrupta de luz. Roger levantou-se com a arma em punho, girando em círculos, procurando um inimigo que não estava lá.
— Relatório! — gritou Roger, o instinto militar assumindo. — Quem atirou? Onde está o sol?
— Ninguém atirou, cara — disse Hugo, levantando-se com dificuldade e limpando a terra das calças. Ele olhou ao redor, reconhecendo a sensação elétrica no ar. — A Ilha se moveu. Ben conseguiu.
— Moveu? — Roger baixou a arma, incrédulo. — Você quer dizer geograficamente? Porque o céu acabou de apagar!
— Temporalmente — corrigiu Hugo.
— Gente... — A voz de Jessy Burke soou trêmula. Ela estava parada perto de uma árvore, apontando para um espaço vazio na grama. — O Aaron... ele sumiu. E aquele guerreiro careca que estava com ele também.
Todos olharam. Onde Aaron estava segundos atrás, havia apenas mato. — Como isso é possível? — perguntou Ji Yeon, assustada. — Ele estava bem ali!
— A Ilha deve ter levado ele para outro lugar... ou outro tempo — teorizou Hugo, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros. — Escutem todos! Precisamos manter a calma. Não sabemos em que ano estamos. Qualquer pessoa que encontrarmos pode ser um inimigo ou alguém que ainda não nos conhece.
— Você está falando um monte de asneiras místicas, gordo! — Roger explodiu, o medo se transformando em agressividade. — Viagem no tempo? Você acha que eu sou idiota?
— Ele está certo, Roger. — Walt, que estava analisando o terreno falou pela primeira vez após o pulso magnético. — Eu sinto. O lugar... ele mudou. Não é seguro ficar aqui.
Roger virou a arma para Walt. — Cale a boca! Ninguém pediu a opinião do inimigo. Até onde eu sei, isso é truque desse gordo e do amigo maníaco dele.
— Roger, abaixe a arma! — ordenou Hugo, a voz ganhando a autoridade do Protetor. — Ninguém vai atirar em ninguém. Estamos todos no mesmo barco agora.
— Qual é o plano então, rolha de poço? — Ji Yeon cruzou os braços, exigindo liderança. — Vamos ficar aqui esperando o sol nascer no ano passado?
— Não me chame de rolha de poço. — Hugo olhou para o grupo, sério. — E chega de piadinhas. A situação é crítica. Vamos para a praia.
— Por que a praia? — questionou Frank Lapidus, que estava encostado em uma árvore, balançando a cabeça. — Eu odeio aquela praia.
— Porque a praia é a nossa constante — explicou Hugo, começando a caminhar. — O acampamento. Se estivermos no passado, Rose e Bernard podem estar lá. Se estivermos no futuro... bem, pelo menos teremos água.
Hugo começou a andar, mas parou ao perceber que ninguém o seguia. Ele se virou, encarando Roger e os outros. — Pessoal, isso é sério. Se a Ilha pular de novo e não estivermos juntos, podemos nos perder para sempre na linha do tempo. Vamos.
Roger relutou, mas abaixou a arma. Ele sabia seguir ordens, e na falta de um general, Hugo era o que tinha. O grupo começou a seguir o Protetor pela trilha escura.
Frank Lapidus, fechando a fila, olhou para o céu estrelado e suspirou. — Ahh maldita hora que eu decidi estar com eles.
A Ilha — Trilha Costeira
Cindy liderava Clementine e Emma pela trilha que ela conhecia de cor, desde os tempos em que era uma das "Outras".
— Para onde estamos indo? — perguntou Clementine, ofegante.
— Para um lugar seguro — disse Cindy, apertando o passo. O sangue continuava a gotejar de seu nariz, mas ela limpava antes que as meninas vissem. — Se estamos na época que o Zack falou... existe um acampamento na praia. Pessoas que entendem o que está acontecendo. Rose e Bernard.
Clementine olhou para a selva escura ao redor. Ela viera procurar o pai, mas acabara encontrando um pesadelo de ficção científica. E a única certeza que ela tinha era que, naquela ilha, o tempo não curava feridas; ele as reabria.
A Ilha — Acampamento na Praia (2007) (Dias após a partida do voo da Ajira e a morte de Jack)
O sol se punha sobre o oceano, tingindo o céu de roxo e laranja, uma beleza irônica para um lugar que acabara de engolir tantos amigos.
Cindy Chandler emergiu da orla da floresta, segurando as mãos pequenas de Zack e Emma. Eles estavam sujos, cansados e assustados. Com a morte de Jack e a partida do avião, a hierarquia da Ilha tinha desmoronado. Os "Outros" estavam dispersos. O Templo caíra.
Eles caminharam até a única estrutura que parecia emanar paz: a cabana construída com restos de fuselagem e madeira, onde Rose e Bernard viviam à margem da guerra.
Rose estava na varanda, debulhando frutas, quando viu o trio se aproximar. Ela estreitou os olhos, limpando as mãos no avental. — Você... você não é a comissária de bordo do 815? Aquela que sumiu com as crianças?
Cindy assentiu, exausta. O uniforme azul estava rasgado, e o lenço no pescoço era a única coisa que ainda mantinha sua dignidade. — Olá, Rose. — A voz de Cindy era um sussurro rouco. — Sim, sou eu. Nós... nós não temos para onde ir. O Templo caiu. Os outros se foram. Eu não posso ficar sozinha na selva com eles.
Rose olhou para Zack e Emma, que pareciam órfãos de guerra, e seu rosto suavizou-se em uma expressão maternal. — Oh, meu Deus. Olhe para vocês. Entrem. Bernard foi pescar, mas temos espaço e comida. Vocês estão seguros aqui.
— Obrigada, Rose. — Cindy sentiu as pernas cederem.
— Não precisa agradecer, querida. — Rose ajudou-a a subir os degraus. — Sinto muito que vocês não tenham conseguido escapar com o Lapidus. Vi o avião partindo...
Cindy sorriu, um sorriso triste e resignado. — Chegamos atrasados. A história da minha vida.
Dentro da cabana, Rose improvisou camas no chão com cobertores grossos. Zack e Emma, exaustos pelo medo, adormeceram quase instantaneamente. Cindy deitou-se ao lado deles, prometendo vigiar, mas o cansaço foi mais forte.
Assim que seus olhos se fecharam, a Ilha a puxou para trás.
Mais tarde, o som veio primeiro. O grito metálico de metal sendo rasgado e o rugido ensurdecedor de motores em chamas.
Cindy abriu os olhos e estava de volta ao dia em que o mundo acabou.
A praia era um inferno de fumaça preta e gritos. Destroços do voo 815 choviam do céu. Jack Shephard corria entre os corpos, tentando salvar vidas. Uma garota loira grávida (Claire) gritava, segurando a barriga.
Cindy tentou se mover, ajudar, mas seus pés a levaram para um único lugar. Perto da asa quebrada, a turbina do avião ainda girava com uma violência furiosa, sugando o ar e tudo o que estivesse perto.
E lá estava ele.
Gary Troup estava parado perigosamente perto da boca do motor, olhando ao redor, confuso, segurando sua mochila contra o peito como se fosse um escudo.
— Gary! — Cindy gritou, o som rasgando sua garganta. — Saia daí! Gary!
Mas no sonho, a voz dela não tinha som. Gary não a ouviu.
Ele deu um passo em falso. A sucção da turbina foi impiedosa.
— NÃO!
Cindy assistiu, paralisada pelo horror, enquanto o homem que ela amava era erguido do chão e sugado para dentro das lâminas giratórias. Houve um som úmido, terrível, seguido por uma explosão que sacudiu a praia.
Cindy caiu de joelhos na areia, cobrindo o rosto, soluçando.
O barulho cessou abruptamente. O calor do fogo sumiu.
— Olá, Cindy.
A voz era calma. Quente. Familiar.
Cindy baixou as mãos. A praia destruída tinha desaparecido. Ela estava em um espaço branco, calmo, onde a única coisa que existia era ele.
Gary Troup estava parado à sua frente. Inteiro. Sem ferimentos. Vestindo o mesmo terno amarrotado do dia do embarque, com aquele sorriso torto e literário que ela tanto amava.
— Gary? — Ela estendeu a mão, com medo de que ele fosse fumaça. — É realmente você?
Gary segurou a mão dela. O toque era sólido. Real. — Sou eu. — Ele olhou para ela com tristeza. — Peço desculpas por ter te feito ver aquilo de novo. A turbina... não foi um jeito elegante de partir. Mas você precisava ver o fim para entender o começo.
— Isso não é justo, Gary. — Cindy agarrou a lapela do casaco dele, chorando. — Sinto tanto a sua falta. Eu fiquei sozinha aqui. Eles me levaram, me mudaram...
— Eu sei. Eu vi tudo. — Gary acariciou o rosto dela. — Mas escute, Cindy. O tempo é curto aqui. Precisamos falar sobre o livro.
— O livro? — Cindy franziu a testa, confusa. — Gary, você morreu. O que importa um livro agora?
Gary ficou sério. Seus olhos escuros ganharam uma intensidade urgente. — Importa porque é a chave. Jack Shephard encontrou o manuscrito na selva e o queimou. Ele não sabia o que estava fazendo. Ele achou que era apenas papel.
— Queimou? — Cindy sentiu uma pontada de raiva.
— Sim. Mas palavras não morrem tão fácil. — Gary apertou os ombros dela. — No futuro, alguém trará uma cópia de Bad Twin de volta para a Ilha. Uma cópia impressa. Você precisa estar preparada para esse momento.
— Do que você está falando, Gary? Por que esse livro é tão importante?
— Porque não é ficção, Cindy. — Gary aproximou o rosto do dela, sussurrando como um conspirador. — Eu escondi tudo lá. Os códigos da Hanso. Os segredos da Widmore. A Equação. Uma guerra está vindo, amor. Uma guerra entre deuses, maior do que Jacob ou a Fumaça. E o meu livro é o mapa para vencer.
A imagem de Gary começou a tremeluzir, como uma transmissão falhando.
— Gary! Não! — Cindy segurou-o com mais força.
— Procure por Persephone... — A voz de Gary soou distante. — Quando o livro chegar, procure os códigos. Eu te amo, Cindy. Eu sempre estive com você na fuselagem. E estarei com você na guerra.
— Espere! Não vá! — Cindy gritou. — Gary, por favor!
Ele sorriu uma última vez e se desfez em luz.
Cindy acordou com um solavanco, sentando-se no chão da cabana de Rose. Seu peito subia e descia, o coração disparado. Zack e Emma dormiam tranquilamente ao seu lado.
A cabana estava silenciosa, mas Cindy sentia uma eletricidade no ar. Não era apenas um sonho. Ela podia sentir o cheiro da loção pós-barba de Gary no ambiente.
Decidida, ela se levantou, limpando as lágrimas. Ela saiu da cabana para a noite estrelada da Ilha, olhando para a escuridão da selva. Gary Troup lhe dera uma missão. O livro viria. E quando viesse, ela estaria pronta para terminar o que ele começou.
A Ilha — A Costa – presente
O mar estava agitado, ondas escuras batendo contra o casco do boat inflável. Yan lutava com o leme, tentando manter o curso, enquanto Bianca segurava a lateral com os nós dos dedos brancos. Segundos antes, o sol estava a pino. Agora, a lua cheia iluminava a espuma das ondas.
— O que diabos aconteceu? — gritou Bianca sobre o rugido do motor. — Quem apagou a luz?
— Não faço ideia! — respondeu Yan, forçando os olhos contra a escuridão. — Mas o GPS pifou. Estamos navegando no visual.
Foi então que Bianca viu. Um vulto na areia pálida da praia. Um homem agitando os braços freneticamente, correndo em direção à arrebentação.
— Tem alguém ali! — apontou ela.
Yan virou o barco em direção à terra firme. À medida que se aproximavam, a figura se tornou mais nítida: um homem idoso, encharcado, com uma expressão de puro pânico.
Yan cortou o motor quando o casco raspou na areia. Antes que pudessem descer, o homem entrou na água até a cintura, agarrando a borda do barco.
— Ei! Quem é o senhor? — gritou Yan, defensivo.
— Meu nome é Bernard! — O homem ofegava, os olhos varrendo o barco em busca de mais alguém. — Vocês estão com o grupo novo? O pessoal do Aaron?
Yan e Bianca trocaram um olhar rápido. O nome era a senha. — Sim! — disse Yan, pulando na água para ajudar a puxar o barco. — Conhecemos o Aaron. Onde eles estão?
Bernard passou a mão pelo rosto molhado, tremendo. — Eles estavam aqui... na floresta. Minutos atrás. Estávamos todos juntos. De repente, houve aquele clarão maldito, o barulho... e quando abri os olhos, minha cabana sumiu. Minha esposa sumiu. Tudo sumiu!
— Como assim "sumiu"? — Bianca desceu do barco, a água gelada batendo em seus joelhos. — Casas não somem, senhor.
— Nesta ilha somem — disse Bernard, a voz embargada de choro. — A Ilha viajou no tempo. De novo. Rose e eu... estávamos em lugares diferentes quando o clarão aconteceu. Ela ficou para trás. Ou foi para frente. Eu não sei. — Ele caiu de joelhos na areia molhada, derrotado. — Ela é tudo o que eu tenho.
Yan sentiu um aperto no peito. Ele olhou para Bianca. — Precisamos ajudar.
Bianca puxou Yan pelo braço, afastando-o alguns passos e baixando a voz para um sussurro urgente. — Você ficou maluco? Não conhecemos esse cara. Ele pode ser um dos inimigos. Ele está falando de viagem no tempo, Yan! Isso é loucura.
— Olhe para ele, Bianca — retrucou Yan, firme. — Aquele é o olhar de alguém que perdeu o amor da vida. Se fosse eu procurando por você, eu gostaria que alguém me ajudasse. Não podemos deixá-lo aqui.
— O que vocês estão cochichando? — perguntou Bernard, levantando-se, desconfiado.
Yan soltou-se de Bianca e voltou-se para o homem, estendendo a mão. — Estamos dizendo que vamos ajudar. Vamos descobrir o que está acontecendo e vamos encontrar a sua esposa. Você não está sozinho.
A Ilha — Trilha na Floresta – presente
A caminhada era tensa. Hugo liderava o grupo heterogêneo pela trilha escura, iluminada apenas pela lua e pelas lanternas táticas dos soldados de Roger.
A desconfiança era palpável. Roger mantinha a mão perto do coldre, seus olhos varrendo as árvores. Frank Lapidus caminhava com a resignação de um prisioneiro no corredor da morte.
Hugo diminuiu o passo para andar ao lado de Walt, que caminhava com as mãos livres, mas sob a mira constante dos homens de Roger.
— O que aconteceu com você, cara? — perguntou Hugo, baixo. — Por que se juntou ao Wilbert? Você era um de nós.
Walt olhou para frente, o rosto endurecido por anos de traumas que Hugo desconhecia. — Não é tão simples, Hugo. E eu prefiro não falar disso agora.
Frank, logo atrás, bufou. — Se eu ganhasse dinheiro em toda vez que faço escolhas ruins eu seria rico.
Mais atrás, Jessy Burke tentava processar a realidade. Ela era médica, uma mulher de ciência, mas a ciência tinha acabado de pular pela janela. — Depois de tudo o que vi hoje... — sussurrou ela para Ji Yeon. — Estou convencida de que este lugar não obedece a nenhuma lei da física.
— Não descarto a possibilidade de estarmos todos em coma coletivo — respondeu Ji Yeon, esfregando os braços arrepiados. — Ou mortos.
— Cale a boca! — Roger rosnou, girando para elas. — Ninguém está morto. Mantenham o foco e o silêncio.
CRACK.
O som de um galho seco quebrando ecoou como um tiro na noite silenciosa. Veio dos arbustos à direita.
— Parados! — gritou Roger.
Imediatamente, três lanternas iluminaram a vegetação densa. Os soldados ergueram os fuzis. Walt ficou tenso, pronto para usar seus poderes se necessário.
— Pessoal, quem quer que seja, não atirem! — gritou Hugo, levantando as mãos. — Lembrem-se, podemos estar no passado! Não interajam se não for necessário!
Os arbustos se abriram.
Três figuras emergiram, protegendo os olhos contra a luz forte das lanternas.
— O que está acontecendo? — perguntou Cindy Chandler, piscando, com Emma e Clementine encolhidas atrás dela.
— Baixem as armas! — gritou Frank, reconhecendo a aeromoça. — É a Cindy!
Roger fez um sinal e as armas baixaram lentamente. O alívio foi momentâneo.
Clementine deu um passo à frente, sorrindo ao ver rostos conhecidos. — Pessoal! Vocês estão...
O sorriso morreu quando seus olhos pousaram em Walt Lloyd. — O que ele está fazendo aqui? — Clementine apontou, a hostilidade evidente. — Ele tentou me matar.
— Calma, ele está sob custódia... mais ou menos — tentou explicar Hugo.
Clementine olhou para Hugo, confusa. Ela nunca tinha visto o "Hurley", o Protetor. — Quem é você?
Todos ficaram em silêncio por um segundo, a confusão de identidades e lealdades pairando no ar.
— Cindy? — chamou a pequena Emma, a voz trêmula.
Todos olharam. Cindy estava parada, balançando levemente. Um fio grosso de sangue escuro escorria de sua narina esquerda, manchando o colarinho do uniforme.
— Seu nariz... está sangrando muito — disse Emma.
Cindy tocou o rosto, olhando para os dedos vermelhos com um olhar vago. — O quê? — A voz dela saiu fraca.
Os joelhos dela cederam.
— Cindy! — gritou Emma.
Frank e Hugo correram, mas Cindy desabou no chão da floresta antes que pudessem alcançá-la, os efeitos do deslocamento temporal cobrando seu preço brutal. A reunião tinha acabado de se transformar em uma emergência médica.
A Ilha — Ruínas da Estátua de Taweret (2010)
A lua cheia iluminava os restos do pé de quatro dedos da estátua antiga, lançando sombras longas sobre a areia da praia. Cindy Chandler rastejava pela vegetação rasteira, movendo-se com o silêncio que aprendera durante seus anos com os "Outros".
Ela ouvira os sussurros na selva. O menino voltou. O especial.
Se Walt Lloyd estava na ilha, ele poderia ser a chave. Gary lhe dissera no sonho que "alguém traria o livro". Quem melhor do que alguém que veio do mundo exterior?
Cindy aproximou-se da clareira. Uma fogueira crepitava baixo. Deitado perto das chamas, embrulhado em um cobertor, estava Walt, agora um adolescente. Um pouco mais afastado, montando guarda mesmo enquanto dormia, estava Benjamin Linus.
O coração de Cindy disparou. Ela precisava chegar a Walt antes que Ben acordasse. Ela deu um passo para fora dos arbustos.
— Você não deveria estar aqui, Cindy.
A voz veio de trás, calma e profunda.
Cindy girou, assustada, pronta para correr. Mas não havia ninguém atrás dela segundos antes.
Hugo "Hurley" Reyes estava parado ali, vestindo uma camisa larga e com o cabelo solto ao vento. Ele não fez barulho ao chegar. Ele parecia... parte da ilha.
— Hugo? — Cindy sussurrou, a mão no peito. — Como você fez isso? Você brotou do chão?
— Eu sou o novo número um, lembra? — Hugo deu de ombros, sem o sorriso habitual. — Tenho alguns truques novos. Foi assim que trouxemos o Walt de volta.
Cindy olhou para o garoto dormindo. — Eu só preciso conversar com ele. Cinco minutos.
— Não posso deixar, dud... digo, Cindy. — Hugo bloqueou o caminho dela com o corpo. — Walt está instável. Ele passou por muita coisa. Ele não pode ter contato com ninguém da "velha guarda". Isso inclui você.
— Por favor, Hugo. Não é curiosidade. É uma missão. — Cindy deu um passo à frente, desesperada. — Eu tive um sonho... uma visão. Gary Troup, meu namorado que morreu no acidente. Ele me disse que alguém traria o livro dele de volta para a ilha. O manuscrito do Bad Twin.
Os olhos de Hugo se arregalaram levemente. — Gary Troup? O cara que foi sugado pela turbina?
— Você sabe quem ele é?
— Se eu sei? — Hugo soltou um riso nervoso. — Cara, o Sawyer estava lendo aquele manuscrito na praia. Ele estava viciado. Eu cheguei a ler umas páginas por cima do ombro dele. Era sobre gêmeos ricos, conspiração... parecia bom.
— Onde está esse manuscrito agora? — perguntou Cindy, esperançosa.
— Jack queimou. — A resposta de Hugo foi um balde de água fria. — Ele usou para fazer fogo quando precisávamos de óculos. Foi mal.
Cindy sentiu as lágrimas voltarem. — Gary disse que era importante. Que havia segredos lá. Ele disse que o livro voltaria. Eu só queria saber se Walt o trouxe.
Hugo olhou para Walt, depois para Cindy. Ele viu a dor nos olhos dela. A dor de alguém que perdeu tudo e se agarrava a uma promessa fantasma. — Walt veio de mãos vazias. Se o Gary está morto... eu posso tentar perguntar a ele.
Cindy piscou, confusa. — Como assim?
— É o meu outro "truque". — Hugo coçou a nuca, desconfortável. — Eu falo com gente morta. Às vezes. Eles aparecem, a gente joga xadrez, conversa. Não é como ligar um rádio, sabe? Eles vêm quando querem. Mas se o Gary aparecer... eu pergunto sobre o livro.
Cindy olhou para Hugo com uma mistura de assombro e medo. Aquele homem gordo e simpático que distribuía comida no acampamento agora falava com os mortos e controlava a Ilha.
— Você faria isso?
— Claro. Mas agora você tem que ir. — Hugo apontou para a floresta. — O Ben tem sono leve e ele não é tão gente boa quanto eu. Walt precisa ir embora amanhã. Ele tem uma vida para viver.
Cindy assentiu, recuando, deixando Hugo pensantivo.
A Ilha — Clareira na Floresta – presente
O silêncio da floresta foi quebrado por um grito agudo.
Cindy Chandler abriu os olhos, mas não viu a selva, nem os rostos preocupados ao seu redor. Ela viu o caos de 2004. Ela sentou-se de súbito, empurrando Emma para longe com uma força surpreendente.
— Onde está o manifesto de voo?! — gritou Cindy, os olhos varrendo o vazio, vidrados. — Precisamos contar os passageiros da cauda! Gary! Onde está o Gary?
— Cindy! — Emma tentou segurar a mão dela, chorando. — Sou eu, a Emma. Estamos na Ilha.
Cindy olhou para a menina como se ela fosse uma estranha. — Emma? Que Emma? Eu preciso encontrar o Gary Troup. Ele estava com o manuscrito... a turbina...
Clementine, observando a cena, sentiu um frio no estômago. Ela reconhecia os sintomas das anotações de Faraday que lera. — Deslocamento temporal — murmurou Clementine, a voz trêmula. — O cérebro dela está desancorando. É a Crise de Faraday.
— Era só o que faltava — rosnou Roger, passando a mão pelo rosto suado. — Mais uma para carregarmos.
Hugo deu um passo à frente, as mãos levantadas em um gesto pacificador que ele usara mil vezes, mas que agora parecia vazio. — Pessoal, calma. Sabíamos que isso podia acontecer. Alguns de nós são mais suscetíveis à energia da roda... Sinto muito que esteja acontecendo agora.
— Você "sente muito"? — A voz de Roger foi baixa, perigosa. Ele se virou para Hugo, os olhos injetados de raiva e exaustão. — Você sente muito, seu balofo? É isso que você tem para nos dizer?
Antes que Hugo pudesse responder, Roger avançou. O movimento foi rápido e brutal.
CRAQ!
O punho de Roger atingiu o maxilar de Hugo com todo o peso da frustração acumulada. Hugo cambaleou e caiu na terra, atordoado, o gosto de sangue enchendo sua boca.
— Hugo! — gritou Jessy, correndo para ajudá-lo.
— Parados! — Roger sacou a pistola e disparou um tiro para o alto.
O estalo do disparo ecoou pela mata, congelando todos no lugar. Os soldados de Walt, que iam intervir, recuaram. Roger apontou a arma para o chão, arfando, olhando para Hugo com desprezo puro.
— Acabou — disse Roger, cuspindo no chão perto de Hugo. — Eu cansei de seguir esse gordo desgraçado. Olhem para nós! Perdidos no tempo, com gente morrendo, sangrando pelo nariz... e o plano dele é "ir para a praia"?
— Roger, por favor... — Clementine tentou intervir, dando um passo à frente.
— Cala a boca, garota! — Roger girou a arma na direção dela.
— Ei! Abaixa isso! — gritou Frank Lapidus, colocando-se na frente de Clementine. — Você perdeu o juízo, Roger? Ela é uma criança!
Roger manteve a arma erguida por um segundo, tremendo de raiva, mas acabou guardando-a no coldre com um movimento brusco. — Eu estou exausto. Eu sou um soldado, não uma babá de aberrações. Vou arrumar um jeito de sair dessa pedra maldita.
Hugo, ainda no chão, limpou o sangue do lábio. Ele não se levantou. — Roger... você não entende — disse Hugo, a voz cansada. — Se você sair andando, não sabe onde vai parar. A selva pode estar em 2004, a praia em 1950... é perigoso.
— Foda-se o perigo. E foda-se você. — Roger virou as costas. — Não me sigam. Quem vier atrás de mim, leva bala.
Roger começou a marchar para a escuridão da trilha oposta.
Frank Lapidus olhou para o grupo — pessoas sumidas, a mulher delirando, o líder caído — e tomou uma decisão pragmática. — Ei! Espera aí! — Frank ajeitou a camisa e correu atrás de Roger.
— Aonde você vai? — perguntou Walt, bloqueando o caminho.
— Vou garantir que ele não faça nenhuma besteira maior do que já fez — respondeu Frank, sério. — E, sinceramente, garoto? Prefiro as chances com o lunático armado do que com essa loucura mágica. Boa sorte com o "Protetor".
Frank sumiu na escuridão atrás de Roger. Walt olhou para Hugo, esperando uma ordem para trazê-los de volta.
Hugo apenas balançou a cabeça, derrotado. — Deixe-os ir.
O silêncio voltou à clareira, pesado e triste.
— Gary? — Cindy sorriu para o vazio, estendendo a mão para acariciar um rosto invisível. — Você trouxe o livro?
A cena era de partir o coração. Jessy Burke olhou para Cindy e depois para Clementine. — Ela está presa num loop. O cérebro dela está procurando uma âncora. — Jessy olhou para Hugo, implorando por uma solução. — Quem é a constante dela, Hugo? Precisamos encontrar essa pessoa agora.
Hugo levantou-se com dificuldade, limpando a terra das calças. Ele olhou para Cindy, perdida em sua alucinação romântica, e a realidade o esmagou.
— Não importa mais — disse Hugo, a voz desprovida de qualquer esperança. — Ele já morreu.
Hugo passou por Jessy e Clementine sem olhar para trás, ignorando as perguntas em seus olhos. Ele começou a caminhar em direção à praia, sozinho, os ombros curvados, abandonando a postura de líder.
Walt suspirou. Ele pegou Cindy no colo com cuidado, como se ela fosse feita de vidro, e fez um sinal para os outros.
— Vamos — disse Walt. — Sigam o Hugo.
O grupo, fraturado e aterrorizado, seguiu para a escuridão, marchando em direção a uma praia que poderia não estar mais lá quando chegassem.
A Ilha — Cabana de Rose e Bernard (2010)
A luz da lamparina a óleo oscilava, lançando sombras longas nas paredes de madeira improvisada. Hugo Reyes estava sentado no chão, de pernas cruzadas, os olhos fechados, tentando sintonizar uma frequência que só ele podia ouvir. Cindy Chandler estava sentada à frente dele, ansiosa, segurando o próprio joelho com força.
Minutos se passaram em silêncio absoluto, apenas com o som da selva lá fora.
Finalmente, Hugo abriu os olhos e soltou o ar, derrotado. — Nada.
Cindy murchou visivelmente. — Nada? Nem um sussurro?
— Sinto muito, Cindy. — Hugo balançou a cabeça, frustrado. — Não funciona como um telefone. Eu não posso simplesmente discar para o além. Às vezes eles vêm, às vezes não. O Gary... ele deve estar em paz, ou ocupado.
Cindy baixou o olhar, escondendo a decepção. Ela precisava saber sobre o livro, mas talvez Gary tivesse razão no sonho: ela teria que esperar.
O silêncio voltou, mas agora era desconfortável. Cindy observou Hugo. Ele parecia cansado, mais velho do que sua idade real. — Escuta... — começou ela, hesitante. — O que você quis dizer lá fora... com ser o "Guardião da Ilha"?
Hugo ajeitou a camisa, desconfortável com o título. — É o trabalho. — Ele olhou para as próprias mãos. — Fui escolhido por Jack antes de ele morrer. Ele disse que eu tinha que proteger a Luz. Resguardar o mundo do mal que está preso aqui.
Cindy ergueu uma sobrancelha, o ceticismo natural de quem sobreviveu a mentiras demais vindo à tona. — Que conveniente. Um emprego divino. E você realmente acredita nisso?
— Eu tenho que acreditar, né? — Hugo deu de ombros, mas havia uma firmeza nova em sua voz. — Descobri que tenho habilidades... truques que eu não tinha antes. Eu não envelheço do mesmo jeito. Eu falo com mortos. Se isso não é real, então estou louco há muito tempo.
Cindy suspirou, absorvendo a realidade fantástica daquele lugar. — E você não sente falta de casa? — perguntou ela, suavemente. — De frango frito? De ar condicionado? Da sua vida?
Hugo sorriu, um sorriso triste e nostálgico. — Todo dia. — Ele olhou para a porta da cabana. — Eu sou o Guardião, Cindy, mas... eu não pedi por isso. É um fardo pesado. Acredito que o Walt... ele é especial. Ele vai me substituir em breve. Foi por isso que trouxemos ele de volta. Lá fora, o mundo estava quebrando a cabeça dele. Aqui, ele tem propósito.
— Entendo. — Cindy assentiu. Ela olhou para o canto da cabana onde Zack e Emma dormiam, depois para a rede onde Rose e Bernard descansavam. Eles eram uma família de náufragos.
Ela se inclinou para frente, invadindo o espaço pessoal de Hugo, forçando-o a encará-la. — Hugo, olhe para mim.
Ele levantou os olhos.
— Você promete que manterá todos nós seguros aqui enquanto for o Guardião?
Hugo piscou. — Eu... eu vou tentar.
— Tentar não é o suficiente. — A voz de Cindy endureceu. — Estou falando sério, Hugo. Eu, as crianças, Rose, Bernard, o Desmond quando ele voltar... Todos nós estamos presos nessa ilha. Agora, esse é o nosso único lar. O mundo lá fora nos esqueceu.
Ela segurou a mão dele. A mão dela era fria, a dele quente. — Você tem o poder de um deus, Hugo. Você promete, pela sua alma, que estaremos seguros do mal enquanto você estiver neste cargo?
Hugo olhou profundamente nos olhos dela. Ele viu o medo, a esperança e a confiança absoluta que ela depositava nele. O peso da responsabilidade desceu sobre seus ombros como uma âncora de ferro.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto redondo de Hugo. Ele finalmente compreendeu que ser o Guardião não era apenas proteger uma luz mágica em uma caverna; era proteger as pessoas que dependiam dele para sobreviver.
Ele apertou a mão de Cindy.
— Eu prometo — disse Hugo, a voz embargada, selando um pacto que ele morreria tentando cumprir. — Enquanto eu for o Protetor, nada de ruim vai acontecer com vocês.
Cindy sorriu, aliviada, sem saber que promessas feitas na Ilha costumam ser cobradas com sangue.
A Ilha — A Praia (Noite)
A areia estava fria sob os pés descalços, mas para o grupo que emergia da floresta, parecia o chão mais seguro do mundo.
Hugo Reyes não estava com eles. O Protetor havia desaparecido na escuridão da trilha minutos antes, esmagado pelo peso de uma promessa que ele sabia não poder mais cumprir. Ele os deixara chegar sozinhos, órfãos de liderança.
Quando as silhuetas de Yan e Bianca apareceram perto da arrebentação, houve um momento de hesitação, seguido por uma explosão de alívio.
— Clementine?! Jessy?! — gritou Bianca, correndo pela areia.
— Bianca! — Clementine correu ao encontro dela.
O choque dos corpos em um abraço coletivo foi a única coisa real naquele pesadelo temporal. Yan abraçou Jessy e Ji Yeon, sorrindo apesar do medo. Por um breve momento, no meio do caos, eles eram apenas amigos que sobreviveram a mais um dia no inferno.
Mas a alegria não era completa.
Afastado do grupo, Bernard Nadier estava sentado em um tronco trazido pela maré, olhando para o horizonte escuro onde sua casa costumava estar. Ele não participou dos abraços. Seu olhar estava vazio, focado em um tempo e lugar onde sua esposa, Rose, ainda existia. Ele era um homem pela metade.
A atmosfera pesou novamente. Hugo sumira. Roger e Frank tinham desertado, levando armas e experiência. E Cindy...
Walt, que carregava Cindy nas costas com um cuidado reverente, ajoelhou-se na areia. Cindy recuperara a consciência, mas seus olhos brilhavam com uma lucidez febril, sobrenatural. Ela sussurrou algo no ouvido de Walt, apontando com mão trêmula para Bianca.
Walt assentiu e a depositou suavemente na areia, bem na frente da recém-chegada.
Bianca recuou um passo, assustada com a aparência da mulher: o uniforme de aeromoça rasgado, o sangue seco no nariz e o olhar fixo, intenso, como se enxergasse através da alma dela.
— Quem é essa mulher? — perguntou Bianca, buscando apoio em Yan. — Ela precisa de ajuda?
Cindy não parecia sentir dor. Um sorriso misterioso, quase beatífico, curvou seus lábios pálidos. Ela ignorou a pergunta e focou na bolsa de couro transversal que Bianca carregava.
— Você tem algo para mim, querida? — A voz de Cindy era fraca, mas carregada de certeza absoluta.
A pergunta deixou todos em silêncio. O som das ondas parecia diminuir.
Bianca franziu a testa, confusa. — O quê? Eu não... eu não te conheço. Quem é você?
Cindy manteve o sorriso enigmático. Ela não estava falando com Bianca; estava falando com o destino. — Meu nome é Cindy Chandler. — Ela estendeu a mão trêmula. — E o livro na sua bolsa pertence a mim.
Bianca sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O ar ao redor delas ficou denso. Aquele nome... Cindy. Ela se lembrou das anotações no manuscrito, ou talvez de algo que Frank Lapidus mencionara no aeroporto. Mas como ela sabia?
— O livro... — Bianca sussurrou, levando a mão à bolsa.
Ela sentiu o peso do volume grosso de Bad Twin. Durante toda a viagem, aquele livro parecera apenas um passatempo ou uma curiosidade. Agora, parecia vibrar.
Com gestos lentos, Bianca abriu a bolsa e retirou o manuscrito desgastado. A capa estava dobrada, as páginas amareladas pela maresia, mas o título em letras garrafais ainda era legível.
Os olhos de Cindy se encheram de lágrimas, mas não de tristeza. Eram lágrimas de reencontro.
— Gary... — Cindy murmurou, tocando a capa como se tocasse o rosto de um amante.
— Toma. — Bianca entregou o livro, sentindo que estava completando um ciclo que começara anos antes de ela nascer. — É seu.
Cindy abraçou o livro contra o peito, fechando os olhos. Uma paz profunda desceu sobre o rosto dela, suavizando as linhas de dor e medo. Naquele momento, ela não precisava de uma Constante viva. A alma de Gary Troup estava ali, impressa naquelas páginas, cumprindo a promessa feita em um sonho.
— Obrigada — sussurrou Cindy para o vento, e todos ao redor sentiram, com um arrepio, que ela não estava agradecendo a Bianca.
Na escuridão da praia, com o grupo reunido mas fraturado, e o Protetor desaparecido, aquela mulher sangrando abraçada a um livro era a única imagem de esperança que restava.
A Ilha — Coração da Floresta
Longe dali, na escuridão opressiva da mata, Hugo Reyes caiu de joelhos.
Ele não era mais o Guardião. Naquele momento, ele era apenas um homem esmagado. O peso da ilha, das vidas perdidas, das promessas quebradas a Cindy e aos outros... era demais.
As lágrimas rolavam por seu rosto, quentes e salgadas, misturando-se à terra. — Não suporto mais! — O grito de Hugo rasgou o silêncio, um uivo de dor pura. — Por favor, Jack... Jacob... qualquer um! Eu não quero mais ser o guardião. Eu desisto!
O vento parou. Os grilos silenciaram.
De repente, a escuridão à sua frente se partiu. Um lampejo dourado, não de tecnologia, mas de espírito, iluminou a clareira.
Um guerreiro emergiu da luz. Ele vestia peles antigas e carregava a sabedoria de eras nos olhos, mas o rosto... o rosto era familiar.
— Hugo. — A voz era grave e gentil. — Seu papel ainda não terminou, meu amigo. A ilha não clama por sua força, mas pelo seu coração.
Hugo ergueu a cabeça, limpando as lágrimas com as costas das mãos sujas. — Você é... — Hugo piscou, reconhecendo os traços daquele homem adulto no bebê que ele segurara tantas vezes. — Aaron? Aaron Littleton?
— Sim, sou eu. — Hanbal sorriu, estendendo a mão. — Ou o que me tornei. É reconfortante revê-lo, Hugo.
— Mas... você sumiu. Você foi para o passado...
— Eu fui para o início. Para entender a complexidade de tudo. — Aaron olhou ao redor. — Cada perda, cada morte, cada pessoa que pisou nesta areia... tudo faz parte da tapeçaria que estamos tecendo.
Hugo balançou a cabeça, a culpa voltando. — Eu falhei, Aaron. Sou um guardião terrível. O grupo se dividiu, a Cindy está morrendo... eu só cometi erros.
— Isso não é verdade, dude.
A gíria atingiu Hugo como um raio. Aquela voz. Aquela entonação.
Hugo girou o corpo, quase caindo. Parado atrás dele, com as mãos nos bolsos da calça e aquele meio sorriso que tentava consertar o mundo, estava ele.
— Jack! — A voz de Hugo falhou, embargada.
— É bom te ver, Hurley. — Jack Shephard deu um passo à frente. Ele não parecia cansado como no dia em que morreu no bambuzal. Ele parecia em paz.
— Olá, tio. — Aaron cumprimentou, inclinando a cabeça em respeito a Jack.
Jack olhou para o guerreiro ao lado de Hugo e riu, balançando a cabeça. — Veja só você... Como cresceu, Aaron. Quem poderia imaginar que o bebê que eu tirei dos braços da Claire seria o Guardião Primordial?
— Alguém tinha que limpar a bagunça que vocês deixaram — brincou Aaron, mas havia amor em sua voz.
Hugo olhava de um para o outro, atordoado. — Espera... Guardião Primordial?
— Como você acha que os nomes foram parar na caverna de Jacob, Hugo? — Aaron tocou o ombro do amigo. — Fui eu. Do passado distante, influenciei a linha do tempo. Eu sussurrei os nomes para a lista.
De repente, outra figura surgiu da luz. Um homem de túnica simples, com olhar calmo. — Quem diria... — disse Jacob.
— Jacob?! — Hugo estava prestes a hiperventilar. — A gangue toda está aqui?
— Estamos todos conectados, Hugo. Sempre estivemos. — Jack colocou a mão no ombro de Hugo. — Você nunca esteve sozinho.
Jacob sorriu, e ao lado dele, uma mulher apareceu. Ela tinha traços fortes, guerreiros. — Esta é Hannah — apresentou Jacob. — Minha mãe adotiva. A mulher que me criou e me ensinou a proteger a Luz.
Hannah sorriu para Aaron. — Olá, pai.
Hugo arregalou os olhos. — Pai?! Espera... A mãe do Jacob era filha do Aaron? Isso quer dizer que...
— Que somos todos família, Hugo — completou Jack. — Em sangue ou em espírito. O ciclo se fecha em nós.
As figuras brilhavam com uma luz suave. — Estamos sempre com você, Hugo — disse Jack, apertando o ombro dele com firmeza. — Não pense, nem por um segundo, que não estamos observando. Cada passo seu. Você fez um ótimo trabalho. Melhor do que eu faria.
— Estaremos sempre observando — ecoaram Jacob e Hannah.
Hugo sentiu um calor preencher seu peito, expulsando o frio e o medo. Ele enxugou o rosto, sorrindo pela primeira vez em dias. — Obrigado, Jack. Obrigado, caras.
As figuras de Jack, Jacob e Hannah começaram a se dissolver na luz, voltando para a correnteza da Ilha. Restou apenas Aaron, sólido e real.
— Assim, meu amigo, tudo já foi traçado — disse Aaron. — Você não é culpado de nada. A Cindy... o Roger... era o caminho deles. Compreenda sua posição agora. Você segurou a barra até eu poder voltar.
Hugo olhou para o amigo. — Você está bem mais velho, Aaron.
Aaron riu, uma risada curta e seca. — Vivi entre os aterianos por mais de vinte anos, Hugo. Lutei guerras que você não acreditaria. Mas agora... tudo depende de nós. Não podemos deixar que Osíris vença essa batalha.
— Eu estou pronto — disse Hugo, sentindo a força retornar aos seus membros. — Eu precisava dessa conversa.
— Vamos. — Aaron fez um gesto para a trilha. — Precisamos nos reunir com o pessoal na praia. Todos serão úteis na batalha iminente. Até mesmo aqueles que partiram.
Local Desconhecido — Data Desconhecida
A escuridão foi rompida não por um som, mas pelo calor.
Aaron Littleton acordou com o sol castigando suas pálpebras, uma luz branca e impiedosa que parecia tentar cegá-lo. Ele se sentou em um solavanco, engasgando com o ar seco e empoeirado que arranhou sua garganta.
Ele esperava ver as copas das árvores da selva, ouvir o som do oceano ou os pássaros tropicais. Em vez disso, encontrou o silêncio do vento sibilando sobre a areia.
Aaron levantou-se, tonto, limpando a terra do rosto. Ele olhou ao redor e sentiu uma vertigem nauseante. A topografia... as montanhas ao longe, o formato dos picos... eram estranhamente familiares. Era a silhueta da Ilha. Ele reconhecia aquele horizonte.
Mas onde deveria haver verde, havia apenas ocre. Onde deveria haver o acampamento de Rose e Bernard, havia dunas intermináveis. O oceano havia recuado, ou talvez nunca tivesse estado ali.
— Onde estou? — Aaron gritou para o vazio, sua voz sendo engolida pela vastidão do deserto. — Rose?! Bernard?!
Ele começou a caminhar, tropeçando na areia quente, movido pelo pânico. Isso era algum truque da Ilha? Uma alucinação?
— Você está gastando energia à toa.
A voz veio de trás. Era grave, rouca, mas assustadoramente familiar. Como ouvir sua própria voz em uma gravação antiga, distorcida pelo tempo.
Aaron girou nos calcanhares, os punhos cerrados.
Um homem emergiu da névoa de calor. Ele vestia trajes de guerreiro — couro curtido, tecidos pesados, uma espada embainhada nas costas — mas seu rosto estava descoberto. Ele tinha cicatrizes que Aaron não tinha, e o peso de décadas nos olhos, mas a semelhança era inegável.
Era como olhar para um espelho quebrado.
Sem pensar, movido pela adrenalina, Aaron avançou. Ele desferiu um soco direto no rosto do estranho.
O homem não recuou. Com uma agilidade fluida, ele desviou a cabeça milímetros para o lado e segurou o punho de Aaron no ar. A mão do guerreiro era como uma morsa de ferro.
— Calma, garoto — disse o estranho, sem soltá-lo.
— Quem é você?! — Aaron gritou, tentando se libertar, mas a força do outro era superior. — O que você fez com os outros?
O guerreiro soltou o braço de Aaron e deu um passo para trás, avaliando-o com um misto de pena e orgulho.
— Eu sou Hanbal — disse ele. — Mas você me conhece por outro nome. Eu sou você, Aaron. Vinte anos mais velho, claro.
Aaron recuou, balançando a cabeça. — Pare de brincadeiras. Isso é impossível.
Hanbal deu de ombros, ajustando a correia de sua espada. — O impossível é apenas o que você ainda não viu. — Ele olhou para o horizonte, onde o sol começava a baixar. — Eu não tenho muito tempo. O paradoxo de estarmos aqui, respirando o mesmo ar, força a realidade. É perigoso para ambos.
Hanbal virou as costas e começou a caminhar em direção às dunas.
— Ei! Espere! — Aaron correu atrás dele, agarrando seu braço. — Você não pode jogar essa bomba e ir embora! Para onde você está indo?
— Estou voltando para o meu tempo. Para a guerra que você ainda vai lutar. — Hanbal olhou nos olhos de Aaron, e pela primeira vez, Aaron viu o medo lá no fundo. — Você precisa entender onde está, Aaron. Para entender o que precisa proteger.
— Mas onde você me trouxe? — Aaron girou, apontando para o deserto. — Isso parece a Ilha, as montanhas são iguais, mas... é um deserto! Não tem mar!
Hanbal sorriu, um sorriso triste. — Estamos nas redondezas do que um dia será a Tunísia.
Aaron paralisou. — Tunísia?
— Estamos cinco mil anos no passado, Aaron. — Hanbal abriu os braços, abrangendo a desolação ao redor. — Este é o local onde a Ilha existiu antes de ser uma ilha. Antes de ser arrancada da terra e escondida no tempo. Bem-vindo a Igherm-Ater.
O mundo girou ao redor de Aaron. O calor, a sede, a confusão... tudo se fundiu em um choque absoluto. Ele estava diante de si mesmo, cinco milênios antes de nascer, pisando na terra que um dia se tornaria o lugar mais misterioso do mundo.
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