Lost: O Primeiro Herdeiro
22 LIVRO 3 — CAPÍTULO 22: O LONGO GOLPE
Albuquerque, Novo México — Praça Central – Presente
A frase pairou no ar quente e poeirento, pesada como uma lápide. Eu morri.
James Ford ficou parado por um segundo, processando as palavras, vendo as costas de Richard Alpert se afastarem em direção à rua movimentada. O choque inicial deu lugar a um instinto muito mais antigo e violento: o pânico de um pai.
James correu. Ele alcançou Richard em três passadas largas e girou o homem pelo ombro com brutalidade, quase rasgando o tecido barato da jaqueta.
— Como assim "você morreu"? — James rosnou, o rosto a centímetros do de Richard. — Pare de falar por enigmas, seu maldito! O que aconteceu?
Richard não resistiu ao puxão. Ele olhou para James com olhos de peixe morto — sem brilho, sem medo. — Não é enigma, James. É balística. — Richard tocou o próprio peito, onde, sob a camisa, as bandagens cirúrgicas ainda estavam frescas. — Fui emboscado no aeroporto. Uma chuva de balas antes mesmo de chegarmos ao portão de embarque. A última coisa que me lembro é do cheiro de pólvora e do chão frio.
A cor sumiu do rosto de James. O mundo ao redor — o trânsito, as pessoas, o sol — pareceu diminuir o volume. — Emboscada? — A voz de James falhou. — A Clementine estava com você. O grupo todo estava com você!
— Eu caí primeiro. — Richard disse a verdade nua e crua. — Acordei neste hospital ontem, costurado como uma colcha de retalhos. Eu não vi quem embarcou. Não sei quem sobreviveu. Não sei se o avião decolou.
A notícia atingiu James como um soco no estômago. Ele soltou Richard, recuando, passando as mãos pelo cabelo em um gesto de desespero puro. — Você está me dizendo... que a minha filha pode estar morta em um hangar qualquer? Ou voando para uma zona de guerra? E você não sabe?
— Sinto muito, James.
— "Sente muito"? — James riu, um som quebrado. — Você tem duzentos anos de experiência em manipular pessoas, Alpert! Você deveria ter protegido ela!
James olhou ao redor, buscando uma saída, uma solução. A mente do golpista começou a trabalhar rápido. — O chefe. O escocês. Desmond. Ou a Penelope. Quem quer que esteja financiando essa porra. — James apontou o dedo para Richard. — Ligue para ele. Agora. Pergunte sobre a missão. Eles têm satélites, têm relatórios. Ligue!
Richard balançou a cabeça devagar. Ele sabia que ligar para Desmond seria desastroso. Desmond abortaria tudo para salvar uma vida, e Richard sabia que a missão exigia sacrifícios. — Não posso fazer isso.
— Como não pode? Pegue esse telefone e ligue!
— Eu disse que não posso. — A voz de Richard endureceu, fria como aço. — O homem para quem eu trabalho não pode saber que estou vivo, ou a missão fracassa. E a missão é maior do que a sua filha, James. É maior do que nós dois.
James olhou para Richard com um ódio que não sentia desde que caçara o verdadeiro Sawyer. — Nada é maior do que a minha filha.
Richard sustentou o olhar, impassível. — Então sugiro que você pare de gritar comigo e vá procurá-la. Porque eu sou apenas um cadáver caminhando, James. Eu não tenho mais respostas para você.
Com o coração apertado de preocupação e uma raiva vulcânica, James empurrou Richard para o lado. — Saia da minha frente. Antes que eu termine o serviço que começaram no aeroporto.
Richard não se moveu. James virou as costas e saiu marchando pela praça, a mente fervilhando. Ele não precisava de Richard. Ele não precisava de "zumbis" ou profecias. Ele era James Ford. Ele sabia como encontrar pessoas que não queriam ser encontradas.
Los Angeles — Aeroporto Internacional (LAX) — 2007
O terminal de embarque era um aquário de vidro e aço, frio e impessoal. James Ford estava sentado em uma das cadeiras de espera, balançando a perna nervosamente. Ele vestia roupas civis novas, compradas com o dinheiro do "acordo de silêncio" da Widmore, mas se sentia como se estivesse usando uma fantasia.
Ele olhou para o lado. Kate Austen estava lendo uma revista, mas seus olhos não se moviam pela página. Ela estava tão quebrada quanto ele. Dois fugitivos que sobreviveram ao fim do mundo apenas para descobrir que o mundo real era mais complicado.
James levantou-se e foi até o quiosque, voltando minutos depois com dois copos de papel.
— Aqui. — Ele estendeu um para ela. — Cafeína líquida.
Kate pegou o copo, aquecendo as mãos. — Obrigada.
— Cinco dólares por essa água suja. — James sentou-se, bufando. — Se eu soubesse que a inflação estava assim, teria ficado na ilha comendo peixe e manga. É um roubo à mão armada, e olha que eu entendo de roubos.
Kate sorriu, um sorriso fraco, mas genuíno. — Deixe de ser pão-duro, James. A Widmore está bancando. O cartão deles não tem limite.
— É, eu sei. — James tomou um gole e fez uma careta. — O "salário do silêncio". Não é todo dia que um golpista é pago para não fazer nada além de calar a boca.
O silêncio caiu entre eles novamente, pesado e carregado de coisas não ditas. O voo para Albuquerque, Novo México, sairia em quarenta minutos. James batucava os dedos no apoio de braço.
Kate fechou a revista e olhou para ele. Ela conhecia aquele tique nervoso. — James... você está bem?
Ele parou de batucar. — Como assim? Claro que estou bem. Estou rico, estou livre e estou com a garota mais bonita do aeroporto. O que mais eu poderia querer?
— Você sabe do que estou falando. — Kate inclinou-se para frente, a voz suave. — Tem certeza de que quer fazer isso? Ir até lá?
— É a minha filha, Kate. — A defesa dele foi imediata. — Clementine. Eu perdi anos da vida dela. Ela merece saber que tem um pai.
Kate hesitou. Ela conhecia o terreno onde James estava prestes a pisar. Durante os três anos em que ela foi uma das "Oceanic Six", ela cumprira a promessa feita a James no helicóptero: encontrara Cassidy Phillips e ajudara a cuidar de Clementine.
— James... eu conheci a Cassidy enquanto você estava... "morto". — Kate escolheu as palavras com cuidado. — Ela não tem uma visão muito heroica de você. Para ela, você ainda é o homem que a usou em um golpe longo.
— Não importa como ela me vê. — James endureceu o maxilar. — Eu mudei. Eu não sou mais aquele cara. Tenho o direito de ver minha filha, não tenho?
— Entendo suas prioridades. E acho nobre. — Kate suspirou, olhando nos olhos dele com uma tristeza profunda. — Mas talvez... talvez seja melhor para essa criança nunca saber quem você é.
James largou o copo no chão, irritado. — Como é que é?
— Pense nisso. Para o mundo, James Ford morreu na queda do voo 815. Você não tem documentos, não tem vida legal. Você vai aparecer lá como quem? Um fantasma? E se a Widmore descobrir? Você vai colocar um alvo nas costas da menina.
— Então a sua sugestão é eu continuar morto? Deixar ela crescer sem pai?
— Minha sugestão é proteger o coração dela. — Kate tocou o braço dele. — Às vezes, amar significa ficar longe.
James puxou o braço, sentindo a ferroada da rejeição. Ele olhou para Kate e viu a dor nos olhos dela — a dor de quem acabara de entregar Aaron para Claire. E, em sua defesa, ele atacou onde mais doía.
— Isso não é sobre a Clementine, é? — James semicerrou os olhos. — Isso é sobre você.
— O quê?
— Você está projetando, Sardenta. — James inclinou-se, a voz baixa e cruel. — Você acabou de perder o Aaron. Você teve que devolver o garoto para a mãe verdadeira e agora está se sentindo vazia.
— James, pare... — Kate avisou, a voz trêmula.
— Você não quer que eu encontre minha filha porque ver a minha felicidade vai te lembrar do que você perdeu. Você não suporta a ideia de que eu possa ser pai, porque você fracassou em ser mãe.
O estalo da cadeira sendo empurrada ecoou no terminal.
Kate levantou-se abruptamente, o rosto vermelho de fúria e lágrimas contidas. Ela olhou para James como se ele a tivesse esbofeteado. — Você é patético, Sawyer.
Ela virou as costas e começou a andar rápido em direção aos banheiros.
— Ei! — James levantou-se, percebendo tarde demais que tinha ido longe demais. — Para onde você está indo? A conversa não acabou! Sardenta!
— Estou indo ao banheiro! — gritou ela, sem olhar para trás.
James ficou ali, em pé no meio do aeroporto movimentado, com as pessoas olhando. Ele chutou o copo de café vazio, sentindo o gosto amargo do arrependimento. Ele era um especialista em afastar as pessoas que amava, e parecia que, mesmo fora da ilha, esse era o único talento que lhe restava.
Ele se sentou novamente, cobrindo o rosto com as mãos, esperando o voo que o levaria para a filha que ele talvez não merecesse conhecer.
Albuquerque, Novo México — Ruas Adjacentes à Praça
James Ford caminhava pela calçada quente, o celular pesando uma tonelada em sua mão. Na tela iluminada, o nome "Kate" piscava, esperando apenas um toque do polegar para chamar.
Ele parou na esquina. Ligar para ela significava arrastá-la de volta para a lama. Significava admitir que, vinte anos depois, ele ainda precisava dela para consertar o que estava quebrado. Mas a imagem de Clementine perdida — talvez morta — em um hangar qualquer queimava em sua mente.
— Inferno... — James praguejou, o polegar pairando sobre o ícone verde.
Ele bloqueou a tela. Não podia fazer isso por telefone. Ele precisava de respostas concretas primeiro. Precisava saber onde começar a procurar. E a única pista que ele tinha era o zumbi de terno barato sentado na praça.
James deu meia-volta, guardando o celular e sacando a pistola que sempre carregava no coldre do tornozelo desde que o mundo virara de cabeça para baixo.
Praça Central
Richard Alpert estava sentado no mesmo banco, imóvel como uma gárgula. Ele verificou o relógio. O jato de Charlie Hume deveria estar a caminho. Mas algo estava errado.
Uma sensação antiga, um formigamento na nuca que ele não sentia desde os tempos de Jacob, o alertou. Ele não estava sendo observado; estava sendo caçado.
Richard correu os olhos pela praça sem virar a cabeça. Um homem de boné lia um jornal de cabeça para baixo a dez metros dali. Outro, vestindo uma jaqueta grossa demais para o calor do deserto, estava encostado em uma árvore, os olhos fixos nele como lasers.
Eles não eram turistas. Eram limpadores.
Richard endureceu o corpo, pronto para correr, quando os dois homens se moveram em sincronia, flanqueando-o. O homem da jaqueta sentou-se ao lado dele no banco, bloqueando a saída.
— O que vocês querem? — perguntou Richard, a voz baixa e calma.
O homem sorriu, mas seus olhos eram frios. Ele colocou a mão dentro da jaqueta, revelando o cabo de uma pistola com silenciador. — O Sr. Hume manda lembranças.
Richard franziu a testa. — Charlie? Eu falei com ele há uma hora. Ele está mandando um jato.
— Charlie não vem. — O homem engatilhou a arma discretamente sob o casaco. — E você não vai a lugar nenhum.
Antes que o assassino pudesse puxar o gatilho, um estrondo rasgou o ar da tarde.
BANG!
O homem ao lado de Richard gritou, a coxa explodindo em sangue enquanto ele caía do banco, a arma voando para a grama.
A praça entrou em pânico. Pessoas gritavam e corriam, pombos voavam em revoada.
O segundo assassino (o do jornal) girou, sacando sua arma, mas parou ao ver o cano de uma pistola apontada diretamente para sua testa.
James Ford estava parado a três metros de distância, a fumaça saindo do cano de sua arma, com a postura relaxada de quem fazia aquilo a vida toda.
— Largue a arma, amigo — ordenou James. — Ou a próxima vai no meio dos seus olhos.
O assassino ergueu as mãos lentamente, soltando a pistola no chão.
James olhou para Richard, que ainda estava sentado no banco, imperturbável apesar do sangue do assassino respingado em seus sapatos.
— Então, eles não estavam mentindo sobre quererem te matar? — James comentou, sem desviar o olhar do homem rendido.
— Parece que não. — Richard levantou-se, limpando uma gota de sangue da lapela. Seu rosto estava pálido. — Obrigado pela assistência.
— Não me agradeça ainda. — James avançou sobre o assassino de pé. — Quem enviou você? Fale!
O homem sorriu, um sorriso fanático de quem sabia que estava morto de qualquer jeito. Em um movimento suicida, ele tentou puxar uma faca da bota.
BANG!
James não hesitou. O tiro atingiu o peito do homem, que caiu para trás, morto antes de tocar o chão.
James virou-se para o primeiro homem — aquele com a perna estraçalhada — que gemia no chão, tentando se arrastar para longe.
James caminhou até ele e pisou na ferida aberta com força.
— Aaaargh! — O assassino gritou, lágrimas de dor escorrendo. — Por favor! Eu tenho filhos! Não me mate!
James agachou-se, o rosto a centímetros do homem, os olhos brilhando com uma crueldade fria. — Você tem filhos? Que coincidência. Eu também tenho uma filha. E alguém a levou de mim.
Ele pressionou o cano da arma na testa suada do homem. — Colabore comigo, diga quem enviou você?
— Eu venho a mando do Sr Hume, Charlie Hume. — Disse o homem em gritos.
— O filho do Desmond? — Indagou James. Richard ficou paralisado. A ordem de mata-lo veio de dentro da Widmore. — Veja que coincidência. Justamente quem eu procurava. Cadê minha filha?!
O homem soluçou, tremendo, olhando para o buraco negro da arma de James. — Eu não sei de filha nenhuma! — choramingou ele. — Só fomos pagos para apagar o Alpert! Ordem direta do Sr. Hume.
Richard sorriu sombrio. — Parece que a nova geração da Widmore decidiu limpar as pontas soltas.
James levantou-se, guardando a arma, mas mantendo o pé sobre o assassino. — Ótimo. Se o Charlie quer brincar de guerra, vamos brincar.
Ele olhou para Richard. — Você disse que precisava de um transporte para a Ilha. Eu arranjo o transporte. Mas quando chegarmos lá, você vai me levar até a Clementine. Estamos entendidos?
— Entendidos — concordou Richard.
James sorriu, e pela primeira vez em dias, ele parecia vivo. O velho James Ford estava de volta.
— Então vamos sair daqui antes que a polícia chegue.
Arredores de Alexandria, Egito — Estação A Linha (Subsolo)
A consciência voltou para Benjamin Linus em ondas de dor.
Ele tentou se mover, mas seus braços estavam esticados acima da cabeça, os pulsos em carne viva, presos por correntes que desciam do teto de pedra. Seus pés mal tocavam o chão frio. Cada respiração era um esforço; ele podia sentir pelo menos duas costelas quebradas e o gosto metálico de sangue na boca.
O ambiente cheirava a mofo e eletricidade estática. Não era uma prisão comum. Era um laboratório.
A porta de metal pesado se abriu, deixando entrar um feixe de luz artificial que feriu os olhos inchados de Ben. Dois homens entraram. O primeiro era um brutamontes com os nós dos dedos esfolados — o "artista" responsável pela condição atual de Ben.
O segundo entrou deslizando em uma cadeira de rodas tecnológica, vestindo um terno impecável que contrastava violentamente com a sujeira e o sangue da sala.
Ben ergueu a cabeça com dificuldade. Mesmo naquela posição humilhante, ele conseguiu curvar os lábios em um sorriso sangrento.
— Alvar Hanso... — Ben sussurrou, a voz rouca. — Você é como o Papai Noel para a Dharma... uma lenda que ninguém nunca vê, mas que todo mundo espera que traga presentes.
Alvar parou a cadeira a uma distância segura, observando Ben como se ele fosse um espécime interessante em um vidro de formol.
— E você continua decepcionante, Benjamin. — A voz de Alvar era calma, culta. — Colocar vigias na saída do Deserto da Tunísia foi o investimento mais simples que já fiz. Sabíamos que, se a roda fosse girada, a ilha cuspiria seu "lixo" lá.
— Lixo... — Ben riu, tossindo sangue em seguida. — Eu movi a Ilha, Hanso. Eu a tirei do seu alcance. Você pode ter todos os satélites do mundo, todos os bilhões da Widmore... mas você nunca vai encontrá-la agora. Nem em Guam, nem no inferno.
Alvar inclinou a cabeça, impassível. — Você acha que moveu a ilha para protegê-la. Mas tudo o que fez foi mudar as coordenadas do jogo. Eu não sou tolo, Ben. A Estação Poste de Luz em Los Angeles... o Pêndulo... Vocês pensam que estão jogando seus próprios jogos e eu sou o vilão final que vocês matarão. Mas eu sou o protagonista desta história.
O sorriso de Ben vacilou por um milésimo de segundo. Hanso notou.
— Sim. O neto de Charles é muito eficiente. Em poucas horas, ele terá a latitude e a longitude, mas... Talvez não seja o que ele espera. — Alvar sorriu. — O que tenho a dizer é que Ricardus vai interceptá-lo em breve. As peças estão se movendo, Ben.
— O Richard? — Ben bufou, recuperando a compostura. — O Richard nunca trabalharia para você. Ele serviu a Jacob por séculos. Ele sabe quem você é.
— E quanto ao seu ex-imortal favorito... digamos que ele teve um acidente infeliz em um aeroporto. Charlie o matou, Ben. Simplificou meu trabalho. Sou grato a ele.
Ben parou. O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor.
— Mas eu sou generoso — continuou Alvar, seus olhos brilhando com uma luz azulada e fria. — Eu o trouxe de volta. Mas a alma... ah, a alma é algo difícil de recolocar no lugar certo. Ele é meu escravo mais leal.
Ben sentiu um frio na espinha que não tinha nada a ver com a temperatura da sala. Richard Alpert, o conselheiro eterno, transformado em uma marionete de Osíris. Se isso fosse verdade, Hugo e os outros estavam caminhando para uma armadilha mortal.
— Você é um monstro — sussurrou Ben.
— Vindo de você, é um elogio... Eu sou um deus, Benjamin. Monstros são criaturas que se escondem debaixo da cama. Eu sou aquele que constrói a casa.
Alvar girou a cadeira de rodas em direção à porta. — Divirta-se com meu associado. Ele tem instruções para mantê-lo vivo, mas... apenas o suficiente.
A porta se fechou atrás de Alvar Hanso, e o brutamontes estalou os dedos, aproximando-se de Ben. Pela primeira vez em muitos anos, Benjamin Linus percebeu que não tinha um plano B.
Albuquerque, Novo México — Praça Central
O cheiro de pólvora e sangue ainda pairava no ar quente. James Ford rasgou um pedaço da camisa do assassino morto e amarrou com força ao redor da coxa do sobrevivente, estancando o sangramento.
— Isso vai doer — avisou James, apertando o torniquete.
O homem grunhiu, cerrando os dentes, suor frio escorrendo pela testa. — Você... você tem mão pesada.
— Agradeça por eu não ter atirado na sua cabeça. — James levantou-se, limpando as mãos na calça. — Precisamos sair daqui. As sirenes já devem estar a caminho. Consegue andar?
— Consigo — respondeu o homem, ofegante. — Meu nome é Albert.
— Não me interessa o seu nome, Albert. Me interessa o que você sabe. — James puxou o homem pelo braço, colocando-o de pé.
Enquanto isso, Richard Alpert estava parado a alguns metros, olhando para o céu azul sem nuvens, completamente alheio ao drama humano ao seu redor. Ele parecia esperar algo que nunca chegaria.
— Ele não virá — disse Albert, apoiando-se em James, mas olhando para Richard.
Richard baixou os olhos lentamente, encarando o assassino ferido. — O jato. Charlie Hume.
— Ele desviou a rota — revelou Albert, a voz falhando pela dor. — Ele está indo para a Estação Poste de Luz, em Los Angeles. A ordem era clara, Sr. Alpert: limpar as pontas soltas antes de partir. E você era a ponta solta.
— Charlie mandou vocês me matarem? — Richard perguntou. A voz dele não tinha surpresa, nem raiva. Era apenas uma constatação de fatos, fria como o mármore.
— Sim — confirmou Albert, exausto. — Ele disse que você sabia demais.
Richard soltou um sorriso gélido, um movimento muscular que não alcançou seus olhos. James, observando a cena, sentiu um arrepio. Aquele não era o Richard que ele conhecia na Ilha. Aquele homem não tinha medo, nem lealdade. Parecia... vazio.
— Interessante — disse Richard. — A nova geração da Widmore é mais pragmática do que eu pensava. Magnus ficaria orgulhoso.
— Magnus? — James franziu a testa. — Do que você está falando, Alpert?
Richard ignorou a pergunta, ajeitando as abotoaduras do terno barato que comprara. — Mudança de planos. Não vamos esperar por um jato que não vem. Vamos pegar o primeiro voo comercial para Los Angeles. Agora.
— Ei, espera um pouco! — James protestou, segurando o peso de Albert. — Nós temos um homem baleado e um cadáver na praça. Não podemos simplesmente entrar num avião!
— Nós podemos e vamos. — Richard virou-se e começou a caminhar em direção à saída da praça, com passos firmes e decididos. — Você quer encontrar sua filha, James? A chave está com Charlie Hume. E Charlie está em Los Angeles. Se apresse.
James olhou para Richard se afastando, depois para Albert, que sangrava ao seu lado. — Que dia maravilhoso para parar de beber — resmungou James.
Ele içou Albert pelo ombro e começou a arrastá-lo. — Vamos, campeão. Se você desmaiar, eu te deixo para a polícia.
Enquanto caminhavam para longe das sirenes que se aproximavam, James não conseguia tirar os olhos das costas de Richard. O imortal sempre fora misterioso, mas agora... agora ele parecia perigoso de um jeito novo. James percebeu que, para salvar Clementine, ele talvez tivesse se aliado a algo pior do que a Widmore.
Albuquerque, Novo México — Subúrbio Residencial (2007)
O caminho até a casa foi marcado por um silêncio pesado. James e Kate andavam lado a lado, mas a distância emocional entre eles era um abismo. A discussão no aeroporto ainda ecoava, e James sabia que tinha cruzado uma linha perigosa ao mencionar Aaron.
— Sardenta... — James tentou, a voz rouca, quebrando o silêncio enquanto caminhavam pela calçada quente. — Por favor, me escuta. Desculpa, está bem? Eu fui um idiota.
Kate soltou um bufo de frustração. Ela parou, virando-se para ele com os braços cruzados, a postura rígida de quem estava cansada de desculpas. — Escuta, James. Eu sei que não deveria ter dito o que disse sobre a sua filha. Não queria impedi-lo de conhecê-la. Mas você passou dos limites. Tocar no nome do Aaron... você sabe o que isso faz comigo.
James suspirou, passando a mão pelo cabelo, desarmado. — Eu sei. Peço desculpas. Posso ser o James de novo, se você quiser. O Sawyer ficou no aeroporto.
Kate rolou os olhos, mas a raiva diminuiu um pouco, substituída pela ansiedade do que estava por vir. Ela voltou a andar. — Escuta... Eu não faço ideia de como a Cassidy vai reagir quando te vir. — Kate olhou para a casa modesta que se aproximava, um contraste gritante com a vida que James levava antes. — Espero, pelo menos, que ela te deixe ver a menina. Mas não crie expectativas.
James esboçou um sorriso fraco, cheio de incerteza. — Vamos descobrir.
Eles pararam diante da porta. Era uma casa simples, com um jardim bem cuidado. James ergueu a mão para bater, mas paralisou. O golpista confiante desapareceu; ali estava apenas um pai aterrorizado. Suas mãos tremiam.
Kate percebeu o nervosismo dele. Sem dizer uma palavra, ela tomou a frente e bateu na porta com firmeza.
Segundos depois, a porta se abriu. Uma senhora de idade, com expressão desconfiada, olhou para os dois estranhos parados em sua varanda. — Quem são vocês? — perguntou ela, segurando a porta entreaberta.
Kate sorriu, aquele sorriso que tentava desarmar qualquer hostilidade. — Olá. Sou Kate Austen, amiga de Cassidy. Ela está em casa?
A mulher franziu a testa, reconhecendo vagamente o rosto, e assentiu. Ela recuou, gritando para o interior da casa. — Cassidy! Tem gente querendo falar com você!
Kate lançou um olhar rápido para James, que parecia querer se esconder atrás dela. Ele estava visivelmente desconfortável, deslocado naquele cenário doméstico.
Passos rápidos soaram no corredor. Cassidy Phillips apareceu na porta, secando as mãos. Quando seus olhos pousaram em Kate, a expressão de curiosidade transformou-se em choque absoluto.
— Kate? — A voz dela falhou. Cassidy correu e abraçou a amiga com um entusiasmo desesperado. — Não posso acreditar que é você! Eu vi no noticiário, mas... você está viva! É tão bom te ver!
— Sim, estou viva, Cass — respondeu Kate, retribuindo o abraço com sinceridade.
Cassidy se afastou, segurando os ombros de Kate, sorrindo com lágrimas nos olhos. Mas então, seu olhar desviou-se por cima do ombro de Kate.
O sorriso morreu instantaneamente.
James estava parado ali, forçando um sorriso amigável que não chegava aos olhos.
A cor sumiu do rosto de Cassidy. O choque deu lugar a uma perturbação visível, uma mistura de medo e repulsa, como se estivesse vendo um fantasma que não foi convidado.
— O que ele está fazendo aqui? — perguntou Cassidy, a voz fria e cortante, o corpo ficando rígido.
James abriu a boca para falar, mas nada saiu. A rejeição era palpável.
Kate percebeu que a situação estava prestes a explodir. Ela deu um passo à frente, tentando mediar o conflito antes que a porta fosse batida na cara deles. — Cassidy... nós precisamos conversar.
Cassidy não respondeu. Ela apenas olhava para James, bloqueando a entrada, a promessa de um reencontro difícil pairando no ar quente da tarde.
Aeroporto Internacional de Albuquerque (Novo México)
O terminal estava cheio. James Ford sustentava o peso de Albert, o assassino baleado, que mal conseguia colocar o pé no chão. O torniquete improvisado na perna dele estava escondido sob a calça, mas o suor frio que escorria pelo rosto do homem e a palidez mortal denunciavam que ele estava entrando em choque.
— Aguenta firme — sussurrou James, sentindo a pele de Albert queimando de febre. — Estamos quase lá.
Richard Alpert caminhava ao lado deles, impecável, sem oferecer ajuda. Ele olhava para o relógio, impaciente.
— Ele não vai conseguir embarcar assim — disse Richard, sem emoção. — Ele está delirando. A segurança vai barrá-lo.
— Precisamos levá-lo para um hospital — insistiu James, ajeitando Albert, que gemia baixo. — Ele precisa de antibióticos e sangue.
— Você atirou nele há vinte minutos e agora está com pena? — Richard parou, bloqueando o caminho de James. — Não temos tempo para desvios humanitários. O voo para Los Angeles sai em meia hora. Deixe-o aqui.
James sentiu a raiva subir. A frieza de Richard era exasperante. — Escuta aqui. Esse cara é a nossa única fonte de informação sobre a operação do Charlie. Se ele morrer ou entrar em coma, perdemos o rastro. Precisamos saber onde é o ponto de encontro!
— Se quiser brincar de enfermeiro, fique à vontade. Eu vou continuar minha viagem. — Richard deu de ombros e começou a se afastar em direção ao portão de embarque.
— Não sei o que aconteceu com você naquele hospital, Alpert, mas eu não vou seguir seu plano suicida! — James gritou, atraindo olhares. — Eu quero encontrar minha filha, e algo me diz que esse homem moribundo vale mais do que você agora!
Richard parou e olhou para trás. Seu rosto era uma máscara inexpressiva. — Faça como quiser, James. Mas não diga que eu não avisei.
Nesse momento, o corpo de Albert ficou rígido nos braços de James. — Ei! — James tentou segurá-lo.
Os olhos de Albert viraram. Ele soltou um som gorgolejante e começou a ter convulsões violentas, o corpo sacudindo descontrolado devido à febre alta e à infecção galopante.
— Ele está tendo um ataque! — gritou alguém na fila.
James foi obrigado a soltar Albert no chão para que ele não se machucasse, tentando segurar a cabeça dele. — Maldição! Alguém chame um médico!
A multidão se aglomerou instantaneamente, formando um círculo de curiosos. — Afastem-se! Deem espaço! — James gritou, desesperado.
No meio da confusão, James olhou para cima, procurando ajuda. Mas Richard não estava mais lá. Aproveitando a distração da multidão e dos seguranças que corriam para o local, Richard Alpert simplesmente desapareceu em direção aos portões de embarque, deixando James sozinho com o caos.
Los Angeles — Pista de Pouso Privada
O jato da Widmore tocou o solo sob um céu cinzento. Charlie Hume desceu a escada rapidamente, seguido por Tyler. A missão estava atrasada, e a paciência de Charlie estava curta.
O celular dele tocou. Número restrito.
Ele atendeu enquanto entrava no carro preto que os aguardava. — Hume.
— Quando enviar homens para me matar garanta que termine o serviço.
A voz de Richard era calma, mas carregava uma promessa de violência que fez Charlie parar com a mão na porta do carro.
— Você não chegará à Ilha. Eu vou te matar antes.
O clique da chamada encerrada soou como um tiro.
Charlie baixou o celular lentamente, o rosto pálido. Ele fechou os olhos por um segundo, imaginando o que Richard — um homem com séculos de experiência em sobrevivência — seria capaz de fazer agora que sabia que fora traído.
— Algum problema? — perguntou Tyler, notando a tensão.
— Precisamos nos apressar — disse Charlie, entrando no carro e batendo a porta. — Para a Estação Poste de Luz. Agora.
Albuquerque — Ambulância em Movimento
A sirene uivava, cortando o trânsito da cidade. James estava sentado no banco de trás da ambulância, olhando para Albert, que agora estava inconsciente, com uma máscara de oxigênio e soro na veia.
Os paramédicos trabalhavam rápido. A polícia encontraria James no hospital em breve. Ele tinha pouco tempo.
Richard tinha fugido. A pista estava em coma. E Clementine continuava desaparecida. James percebeu que, sozinho, ele não conseguiria vencer aquela guerra. Ele precisava de alguém que conhecesse os truques dele. Alguém em quem ele confiasse a vida, mesmo que ela o odiasse.
Com os dedos sujos do sangue de Albert, James pegou o celular. O coração batia forte, não pelo perigo, mas pela pessoa que ele estava prestes a chamar.
Ele discou.
O telefone chamou três vezes. Parecia uma eternidade.
— O que você quer, Sawyer?
A voz de Kate era suave, mas firme. Aquele apelido, dito por ela, trouxe uma onda de memórias que quase o derrubou. James fechou os olhos, encostando a cabeça na parede fria da ambulância.
Albuquerque, Novo México — Casa de Cassidy (2007)
A porta bateu com a finalidade de um caixão sendo fechado.
— Você não deveria ter vindo — disse Cassidy, segundos antes da madeira maciça bloquear a visão que James tinha do corredor, onde brinquedos de criança estavam espalhados pelo chão.
James ficou parado na varanda, o som da tranca girando ecoando como um tiro em seu peito. Ele piscou, tentando processar a rejeição, mas as lágrimas vieram antes do raciocínio.
— Espera... Cassidy! — James avançou, batendo na madeira com a palma da mão aberta. — Cass, por favor! Abre a porta!
Não houve resposta. Apenas o silêncio de uma casa que se recusava a deixá-lo entrar.
— Deixa eu ver minha filha! — A voz de James quebrou, transformando-se em um soluço rouco. Ele socou a porta, não com violência, mas com desespero. — Eu só quero ver o rosto dela! Cinco minutos! Não faz isso comigo, Cass!
Kate estava parada no degrau da varanda, abraçando o próprio corpo. Ver James Ford — o homem que sobrevivera à Ilha, aos Outros e ao urso polar — desmoronar daquele jeito era insuportável. Ela sentiu as próprias lágrimas escorrerem. A dor dele era um espelho da dor dela por Aaron.
— James... — Kate subiu os degraus e tocou o ombro dele, a voz embargada. — Vamos embora.
— Não! — James se desvencilhou, encostando a testa na porta fechada, respirando com dificuldade. — Eu não vou embora enquanto não a vir. Ela está aí dentro, Kate. Minha menina está aí dentro.
— Ela não vai abrir, James — sussurrou Kate, puxando-o suavemente pelo braço. — Se você continuar, ela vai chamar a polícia. E você não pode ser preso. Não agora.
James olhou para a porta uma última vez, esperando um milagre, um som, um choro de criança. Nada. Apenas a barreira intransponível que ele mesmo ajudara a construir anos atrás com seus golpes.
A força saiu de suas pernas. Ele se deixou ser guiado por Kate, descendo os degraus como um homem condenado caminhando para a forca.
Eles caminharam em silêncio até a esquina, longe da casa que guardava a vida que ele nunca teria. James parou sob a sombra de uma árvore, cobrindo o rosto com as mãos, os ombros sacudindo.
— Obrigado... — ele murmurou, a voz abafada. — Obrigado por vir comigo, Sardenta. Eu não teria conseguido chegar até a porta sem você.
Kate olhou para ele, o coração apertado de amor e pena. Naquele momento, não havia triângulos amorosos, não havia Jack, não havia ilha. Havia apenas duas pessoas quebradas tentando se manter de pé.
— Eu te amo, James — disse ela, a confissão saindo natural e dolorosa. — Eu não queria que você sofresse assim. Eu queria te proteger disso.
James levantou o rosto, os olhos vermelhos e úmidos. Ele olhou para Kate — a única coisa real que lhe restava no mundo. Ele a puxou para si, um abraço desesperado, enterrando o rosto no pescoço dela. Kate o segurou com força, sendo a âncora que ele precisava.
Quando James a beijou, não foi um beijo de paixão. Foi um beijo de sobrevivência. Intenso, salgado pelas lágrimas, selando um pacto silencioso de que, enquanto eles tivessem um ao outro, poderiam suportar o inferno.
Albuquerque — Ambulância em Movimento (2029)
— Não vai dizer nada?! — A voz de Kate no telefone era um eco daquele passado, mas agora soava como uma acusação.
As palavras morreram na garganta de James. A lembrança daquele beijo em 2007, da promessa implícita de "nós contra o mundo", colidiu violentamente com a realidade de vinte anos de silêncio e mágoa. Ele não conseguia falar. Ele não merecia falar.
Num gesto brusco de pânico, James desligou o telefone.
A tela ficou preta.
Ele soltou um bufo forte, batendo a cabeça contra a parede de metal da ambulância. O assassino Albert gemia ao seu lado, mas James mal ouvia. Ele acabara de cortar a única linha de vida que tinha, consumido pela incerteza de saber se a mulher que ele amou ainda existia ou se ela o odiava tanto quanto ele odiava a si mesmo.
Nova York — Penthouse no Upper East Side
A vista noturna de Manhattan era deslumbrante através das janelas de vidro do chão ao teto, mas Kate Austen não via as luzes da cidade.
Ela estava parada no meio da sala de estar luxuosa, vestida com um robe de seda, segurando o celular desligado como se ele estivesse queimando sua pele. O nome de Sawyer na tela tinha desenterrado fantasmas que ela levara duas décadas para enterrar.
Ela guardou o aparelho no bolso, as mãos trêmulas. Caminhou até a ilha da cozinha de mármore e serviu-se de mais vinho, bebendo um gole longo para acalmar os nervos. Um suspiro pesado escapou de seus lábios, o som solitário em um apartamento grande demais.
Braços fortes a envolveram por trás, quentes e familiares.
Kate não se assustou, mas seu corpo ficou tenso por uma fração de segundo antes de relaxar forçadamente.
— Quem era, amor? — A voz masculina sussurrou em seu ouvido, suave e confiante.
Kate girou na base dos pés, ainda dentro do abraço. Diante dela estava Edward Widmore. Ele era bonito daquela maneira clássica e rica que os Widmore sempre eram. No dedo anelar dele, uma aliança de ouro grossa brilhava sob a luz da cozinha. No dedo de Kate, uma aliança idêntica pesava toneladas.
Ela forçou um sorriso, usando toda a sua habilidade de fugitiva para esconder o pânico. — Ninguém importante. Apenas engano.
Edward, o "Ed" do livro Bad Twin, estreitou os olhos levemente. Ele conhecia a esposa. Percebeu a tensão na mandíbula dela, o jeito como ela segurava a taça de vinho com força excessiva.
— Então por que essa expressão? — Ele acariciou o rosto dela com o polegar. — Você parece... assustada. O que está acontecendo, Kate?
Kate sentiu o coração bater na garganta. Dizer a verdade significava destruir a vida "segura" que ela construíra. Significava trazer a guerra da Ilha para dentro da sua casa.
— Não é nada — mentiu ela, passando os braços ao redor do pescoço dele, desviando o assunto. — Escuta... que tal levarmos esse vinho para o quarto? A noite está tão bonita. Não vamos estragar o momento.
O rosto de Edward relaxou, o sorriso charmoso voltando aos lábios. — Você tem razão, Sra. Widmore. Nada pode estragar nossa noite.
Ele a puxou para mais perto, começando a dançar suavemente ali mesmo na cozinha, sem música. Kate apoiou a cabeça no ombro do marido, fechando os olhos.
Enquanto Edward a balançava, alheio a tudo, Kate sentia o peso do celular no bolso e o peso da mentira na alma. O passado tinha ligado. E, ao olhar para o homem com quem se casara — um Widmore, herdeiro do império que James odiava —, Kate sabia que o equilíbrio frágil de sua vida estava prestes a se estilhaçar em mil pedaços.
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