Lost: O Primeiro Herdeiro

21 LIVRO 3 — CAPÍTULO 21: O RECIBO



Los Angeles — Casa Segura (2007) (Três semanas após o retorno do voo da Ajira)

A chuva batia nas janelas da mansão discreta em Hollywood Hills. Richard Alpert serviu-se de um copo de vinho, olhando para o próprio reflexo no vidro escuro. Ele viu, pela primeira vez em séculos, um fio de cabelo grisalho. A mortalidade havia chegado. Jacob estava morto. O Homem de Preto estava morto. Charles Widmore estava morto.

Finalmente, havia silêncio.

Batidas pesadas na porta quebraram a paz.

Richard franziu a testa. Ninguém sabia que ele estava ali, exceto os poucos sobreviventes do voo. Ele caminhou até a porta e abriu.

Dois seguranças enormes de terno preto bloqueavam a chuva. Entre eles, um homem idoso. Ele tinha um olhar de gelo azul que fez o sangue de Richard — agora mortal — gelar.

A semelhança era impossível. Mas aqueles olhos... eram os mesmos de 1867.

— Magnus? — A palavra escapou dos lábios de Richard, um fantasma de seu passado acorrentado.

O idoso inclinou a cabeça levemente. — Alvar. Alvar Hanso. — A voz era calma, corrigindo-o com uma polidez afiada. — Posso entrar, Ricardus?

Richard recuou, atordoado, deixando-os passar. — Alvar Hanso... — Richard fechou a porta. — Eu vi as notícias. O escândalo da Noruega. Disseram que você estava preso, ou senil.

Alvar soltou uma risada curta e seca enquanto caminhava para o centro da sala. — Você viveu tanto tempo, Ricardus, e ainda acredita no que dizem os jornais? Aquilo foi teatro. Uma limpeza de imagem necessária enquanto Jacob e Charles brincavam de guerra.

Alvar olhou ao redor da sala luxuosa com desdém. — Bela casa. Espólio do Charles Widmore? Ouvi dizer que a filha dele, Penelope, está sendo generosa com os sobreviventes.

— Charles está morto — disse Richard, ríspido. — Ben Linus o matou na ilha.

— Eu sei. — Alvar sorriu, sem qualquer empatia. — Também sei sobre o Jacob. Sei por alto as informações. Mas tem uma que preciso que me confirme.

— O que quer saber? — Richard perguntou, a tensão aumentando.

— O que vocês chamam de monstro fumaça. Um apelido adequado para ele... Ele está morto?

— Não posso confirmar isso. Saí antes do desfecho.

— Parece que vocês combinaram resposta. James e Kate disseram o mesmo. — Disse Alvar com um leve sorriso no rosto. Voltando a frieza, comentou: — Mas, diferente deles, você não tem como recusar minha oferta de trabalho.

— Eu não tenho nada com você. Sou um homem livre agora. Vou viver o resto dos meus dias em paz.

— Livre? — Alvar riu.

Alvar caminhou até Richard, invadindo seu espaço pessoal com a autoridade de um capitão de navio de escravos. — Você parece ter esquecido quem te tirou das correntes em Tenerife. Quem pagou ouro por você. Quem te colocou no porão do Black Rock com um destino traçado.

Richard deu um passo para trás. — Seu avô, Magnus Hanso... Jacob me salvou.

— Jacob te roubou. — Alvar corrigiu, os olhos brilhando com uma malícia antiga. — O navio naufragou na ilha, sim. Sobre meu avô, você quase acertou...

— O que quer dizer? — Indagou Richard, nervosismo aumentando.

— Você não é o único que sabe enganar a morte, meu amigo. Eu sou Magnus. Eu sou Alvar. Eu sou o dono do recibo.

— Aonde que você quer chegar?

— Ricardus, como você ainda não entendeu? Eu estou nesse mundo há mais tempo que você imagina. Mas a minha idade não vem ao caso, certo? Eu venho te lembrar que você pertence à mim. E agora, finalmente fora da ilha, não há quem pode te proteger das minhas mãos aqui fora.

— A escravidão acabou há séculos — disse Richard, tentando manter a voz firme. — Eu não sirvo mais a ninguém.

— Eu não me submeto às leis impostas pelos homens neste mundo. — Alvar ajeitou as abotoaduras do terno. — O contrato original volta a valer. Você é minha propriedade, Ricardus.

— Saia da minha casa — ordenou Richard.

Alvar sorriu, como se um cachorro tivesse latido para ele. Ele virou as costas e caminhou para a saída com passos firmes. Antes de sair, ele parou.

— Aproveite sua "aposentadoria". Coma, beba, envelheça. Veja seu corpo falhar. Mas não se iluda. Agora que os outros jogadores caíram, o jogo é meu. E quando eu chamar... você virá.

A porta se fechou. Richard Alpert ficou sozinho na sala imensa, o copo de vinho tremendo em sua mão, percebendo com horror que, embora tivesse sobrevivido à Ilha, ele tinha acabado de ser reencontrado pelo Diabo que o levou até lá.

Albuquerque, Novo México — Arredores do Hospital – presente

O sol do deserto queimava o asfalto, mas Richard Alpert sentia frio. Ele caminhava pela calçada recém-saído do hospital, vestindo roupas que não eram suas, segurando uma alta médica que parecia um milagre — ou uma maldição.

A conversa com Alvar Hanso no leito — ou teria sido um delírio da morfina? — ainda ecoava em sua mente. Você é minha propriedade, Ricardus.

— Maldição... — murmurou ele, ajeitando a gola da camisa barata que a enfermeira lhe conseguira. Ele precisava sair dali. Precisava voltar para o único lugar onde as regras de Alvar podiam ser quebradas, ou onde ele poderia, pelo menos, morrer lutando.

Richard parou em frente a uma vitrine. O reflexo mostrava um homem cansado, mortal e antiquado. Ele entrou na loja de departamentos. Usou um cartão de crédito de emergência da Widmore — uma conta antiga que Penny mantinha ativa para "consultores especiais". Comprou jeans, uma jaqueta de couro e óculos escuros. Se ia para a guerra, não iria vestido como um paciente geriátrico.

Minutos depois, ele estava no balcão da companhia aérea no aeroporto.

— Preciso de um voo para Sydney. O próximo. Primeira classe, econômica, compartimento de carga, não importa.

A atendente digitou no teclado, mordendo o lábio. — Sinto muito, senhor. Tudo lotado para a Austrália hoje. Temos uma tempestade no Pacífico desviando rotas. Só tenho vaga para daqui a dois dias.

Richard socou o balcão, frustrado. Dois dias era tempo demais. Se Alvar estava se movendo, a Ilha já estava em perigo.

Ele saiu do terminal, parando na calçada movimentada. O instinto gritava para ligar para Desmond, mas Richard hesitou. Desmond era emotivo. Se soubesse que Richard estava vivo, tentaria salvá-lo, desviando o foco da missão.

Não. Ele precisava de alguém pragmático. Alguém que entendesse o jogo de poder.

Richard pegou o celular descartável e digitou um número que ele memorizara anos atrás. O número do herdeiro.

O telefone tocou três vezes.

Hume. — A voz do outro lado era seca, profissional.

— Charlie. Sou eu. Richard.

Houve um silêncio pesado na linha. Um silêncio de quem acabou de ver um fantasma. — Richard? — A voz de Charlie Hume falhou por um milissegundo, antes de recuperar a compostura, mas a incredulidade estava lá. — É... impossível. Me disseram que você morreu no tiroteio do aeroporto. Eu vi o relatório policial.

— Os relatórios foram exagerados. Eu sou difícil de matar, você sabe disso. — Richard olhou para os lados, paranoico. — Escute, Charlie. Preciso que você me escute com atenção. Seu pai não pode saber que estou vivo.

O meu pai? — Charlie parecia genuinamente confuso e cauteloso. — Por que esconder isso do Desmond? Ele ficaria aliviado.

— Porque o Desmond tem coração mole. Ele viria me buscar e abortaria a missão. E nós não temos esse luxo. — Richard baixou a voz, protegendo o microfone do vento. — Eu sei que vocês estão indo para a Ilha. Sei da expedição.

Como você sabe disso? — O tom de Charlie endureceu.

— Eu passei os últimos vinte anos ajudando sua mãe a construir a infraestrutura da Widmore para este exato momento. A lista de Hugo, os Candidatos... eu ajudei a desenhar o tabuleiro, Charlie. Eu sei que eles foram na frente como isca, e sei que você vai coordenar a segunda onda.

Do outro lado da linha, em um escritório luxuoso em Londres, Charlie Hume apertou o telefone com força.

Você está muito bem informado para um homem morto — disse Charlie, friamente. — O que você quer?

— Um transporte. — Richard foi direto. — Estou nos Estados Unidos. Preciso que me tire daqui e me coloque nessa expedição. Eu conheço a Ilha melhor do que qualquer mapa que o seu avô tenha deixado. Você precisa de mim.

Charlie ficou em silêncio, calculando. Se ele recusasse, Richard poderia procurar Desmond ou outra rota e estragar tudo. Trazê-lo para perto era a melhor forma de... controlá-lo.

Certo — disse Charlie, soltando o ar. — Você tem razão. Sua experiência é valiosa.

— Vou enviar minha localização segura. — Richard sentiu um alívio momentâneo. — E Charlie... mantenha isso entre nós. Eu confio em você para fazer o que é necessário, sem o peso emocional do seu pai.

Alguma vez eu já te decepcionei, Richard?

— Ainda não.

A chamada encerrou.

Richard enviou as coordenadas e guardou o celular no bolso da jaqueta. Ele colocou os óculos escuros, observando os aviões decolarem ao longe. Ele achava que estava voltando para o jogo como um jogador experiente. Não fazia ideia de que acabara de pedir carona ao homem que assinara sua sentença de morte.

— Magnus acha que eu sou propriedade dele... — sussurrou Richard para si mesmo. — Vamos ver quem é dono de quem quando eu pisar naquela areia.

Londres — Cemitério de Highgate (2007)

O céu de Londres estava da cor de ardósia, uma massa cinzenta e opressiva que combinava perfeitamente com o clima no Cemitério de Highgate. A chuva fina molhava as lápides góticas, transformando o solo em lama escura.

Um pequeno grupo de pessoas vestidas de preto cercava duas covas recém-aberta. As lápides de mármores negros traziam os nomes de Charles Widmore e Desmond Hume. Não haviam corpos nos caixões de mogno polido que descia à terra. Apenas memórias e segredos.

Penelope Widmore apertou o celular contra o ouvido, afastando-se alguns passos do grupo.

— Ele esteve aqui hoje, Penny. — A voz de Richard Alpert soava tensa do outro lado do Atlântico. — Alvar Hanso. Magnus. Ele entrou na minha casa como se fosse o dono. Ele sabe que Charles está morto.

Penny sentiu um nó no estômago. O nome Hanso era um fantasma que seu pai temia mais do que a própria morte. — Richard, por favor... — A voz dela falhou. — Não agora. Eu estou... nós estamos enterrando meu pai.

— Penny, se o Alvar voltou à ativa, o acordo de paz acabou. Ele vai vir atrás da Widmore Corporation. Ele vai vir atrás de você.

— Eu não quero discutir isso! — Penny sussurrou com raiva, vendo seus primos olhando em sua direção. — Eu tenho que desligar.

Ela encerrou a chamada e guardou o telefone na bolsa, respirando fundo para recompor a máscara de luto. Ela sabia que Charles tinha morrido na Ilha, mas para o mundo, Charles Widmore havia desaparecido em um "acidente de barco no Pacífico" e levou junto com seu genro.

Ela voltou para a beira da cova. Uma babá se aproximou silenciosamente e entregou o pequeno Charlie Hume em seus braços. O bebê, alheio à política e à morte, brincava com a lapela do casaco da mãe.

Um braço forte envolveu os ombros de Penny. — Quem era, prima? — perguntou Edward Widmore.

Penny olhou para o lado. Edward e Clifford Widmore estavam parados como duas estátuas idênticas. Gêmeos. Bonitos, ricos e com a mesma ambição predatória do tio Charles, mas sem a sutileza dele. Atrás deles, Vivian Widmore, impecável em seu véu de renda, observava tudo com olhos de falcão.

— Ninguém importante — mentiu Penny, aninhando Charlie. — Apenas condolências.

— O caixão está vazio, Penelope — comentou Clifford, olhando para o buraco na terra com um misto de ceticismo e ganância. — Estamos enterrando uma caixa de madeira.

— Clifford... — repreendeu Vivian, suavemente.

— É a verdade, mãe. — Clifford virou-se para Penny. — Os sobreviventes do voo da Ajira disseram que ele morreu, mas não trouxeram corpo. Tio Charles era mestre em desaparecer. Quem garante que isso não é mais um dos jogos dele?

— Ele se foi, Clifford — disse Penny, a voz fria. — Enterrar o caixão vazio... Isso basta para mim.

— Mas isso não muda nada. — retrucou Edward, com um sorriso condescendente. — A questão, prima, é que a cadeira da presidência da Widmore Corporation não pode ficar vazia. O mercado não gosta de vácuos. A nossa família preside a fundação, não podemos assumir seu lugar como herdeira.

Penny sentiu a bile subir. O corpo do pai nem tinha esfriado — metaforicamente — e os abutres já estavam circulando. — Vocês não têm respeito? — Ela apertou Charlie contra o peito. — Estamos em um funeral.

— Estamos em uma transição de poder — corrigiu Vivian, dando um passo à frente. Ela tocou o braço de Penny com unhas manicuradas que pareciam garras. — Você sabe que a empresa agora está em suas mãos, querida. Mas você nunca teve estômago para os "negócios especiais" do seu pai. A pesquisa. A logística. A Ilha.

Penny olhou para a tia, para os primos gêmeos. Ela via a fome nos olhos deles. Eles queriam os segredos de Charles. Eles queriam a guerra que matou seu pai.

— O império que Charles construiu não pode desmoronar só porque você está brincando de casinha com um bebê — continuou Vivian. — Nós podemos ajudar, Penny. Assine uma procuração. Deixe Edward e Clifford cuidarem do legado sujo. Você fica com o dinheiro e a criança.

Penny olhou para o filho. O pequeno Charlie a olhava com inocência. Ela prometera a Desmond que protegeria aquele menino. E entregar a Widmore para aqueles sociopatas seria condenar o futuro de Charlie.

— Já chega! — exclamou Penny, recuando.

— Penny, seja razoável... — Edward tentou segurá-la.

— Não toquem em mim. — O tom de voz dela mudou. Não era mais a filha de luto; era a CEO herdeira. — A Widmore é minha. O legado é meu. E se algum de vocês tentar chegar perto da minha cadeira... eu vou mostrar que sou filha do meu pai.

Penny virou as costas e caminhou apressada pela trilha de cascalho, abraçando o filho contra o vento frio de Londres.

Atrás dela, Clifford olhou para o irmão gêmeo e sorriu. — Ela vai quebrar. É só questão de tempo.

Vivian observou a sobrinha se afastar e pegou o próprio celular. — Vamos garantir que ela quebre rápido. O velho Hanso ligou ontem. Acho que está na hora de aceitarmos o convite dele para um chá.

Enquanto Penny fugia dos fantasmas da família, ela não sabia que a verdadeira ameaça não eram seus primos gananciosos, mas o homem que Richard mencionara ao telefone. A guerra pela Ilha tinha acabado de chegar a Londres.

Londres — Residência Hume-Widmore (Presente)

A chuva fina de Londres batia na janela do quarto, mas lá dentro, o clima era de uma serenidade rara. Penelope e Desmond acordaram juntos, a luz cinzenta da manhã iluminando os lençóis desarrumados.

Desmond observou o rosto da mulher que ele atravessara oceanos e o próprio tempo para encontrar. Por um momento, a Ilha parecia um pesadelo distante. Tudo correra como previsto. Ele estava em casa.

— Bom dia, amor. — Desmond sorriu, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela e beijando-a com uma ternura devota.

— Bom dia... — Penny murmurou, ainda sonolenta, aninhando-se nele.

Desmond saltou da cama, sentindo-se estranhamente energizado. — Fique aí. Hoje o café da manhã é por conta da casa.

Ele vestiu o roupão e desceu as escadas, assobiando baixinho. Ao entrar na cozinha espaçosa e moderna, encontrou a governanta, Sra. Miller, cortando frutas.

— Bom dia, Sr. Hume — disse ela, surpresa.

— Bom dia, Martha. — Desmond aproximou-se, pegando a faca da mão dela com gentileza. — Pode deixar. Hoje eu quero preparar algo especial para a Penny. Tire a manhã de folga.

A governanta sorriu, recuando. — O senhor é quem manda.

Desmond virou-se para o fogão, pegando a cafeteira. O cheiro de café fresco subiu. A normalidade era deliciosa. Ele estendeu a mão para pegar uma xícara no armário.

Foi então que o zumbido começou.

Não era um som externo. Era uma vibração dentro de seu crânio, o mesmo som de estática eletromagnética que ele conhecia tão bem. A xícara escorregou de seus dedos.

Antes que a porcelana tocasse o chão, o mundo mudou.

A cozinha luxuosa de Londres desapareceu, substituída por um céu cor de enxofre e fumaça. Desmond não estava mais em casa; ele estava no meio de uma rua destroçada, cercado por escombros de prédios que ardiam em chamas negras.

Não era uma guerra comum. Era o inferno na Terra.

Pessoas corriam em todas as direções, mas não fugiam. Civis — homens de terno, mães com crianças, idosos — atacavam uns aos outros com uma fúria feral, animalesca. Seus olhos estavam vazios, desprovidos de humanidade, como se suas vontades tivessem sido apagadas.

Soldados com uniformes irreconhecíveis disparavam contra a multidão, não para conter, mas para exterminar. O som era ensurdecedor: gritos, tiros e o rugido de algo maior.

Desmond olhou para o horizonte. Uma muralha de escuridão — uma nuvem negra, densa e viva, idêntica à Fumaça da Ilha, mas em escala global — avançava sobre a cidade, engolindo arranha-céus inteiros. Onde a nuvem tocava, a realidade se desfazia em pó.

Era Alvar Hanso. Era Osíris. Não mais contido por uma ilha, mas espalhado por todo o planeta, reescrevendo o mundo à sua imagem caótica.

Desmond tentou correr, mas seus pés estavam chumbados no asfalto derretido. Ele tentou gritar o nome de Penny, mas sua voz não saiu. Ele era apenas um espectador paralisado do fim de tudo.

Lágrimas quentes escorreram pelo seu rosto enquanto a Nuvem Negra se fechava sobre ele, trazendo o silêncio absoluto.

Sr. Hume? Sr. Hume!

O grito o puxou de volta com a violência de um elástico arrebentando.

Desmond abriu os olhos, ofegante, o coração martelando contra as costelas como um pássaro preso. Ele estava de joelhos no chão frio da cozinha. A xícara de porcelana estava estilhaçada ao seu lado.

A governanta, Sra. Miller, estava agachada, segurando o braço dele, os olhos arregalados de medo. — Sr. Hume! O senhor está bem? O senhor ficou pálido, começou a tremer...

Desmond olhou para as próprias mãos. Elas tremiam incontrolavelmente. O cheiro de enxofre e morte ainda estava em suas narinas, sobrepondo-se ao aroma do café.

— O que aconteceu? — insistiu a mulher.

Desmond engoliu em seco, limpando o suor frio da testa. Ele sabia exatamente o que tinha visto. Não era um pesadelo. Era uma profecia.

— Nada — murmurou ele, a voz rouca, levantando-se com dificuldade. — Não foi nada, Martha. Apenas... uma tontura.

Mas enquanto ele se apoiava na bancada, Desmond sabia que a paz tinha acabado. A missão não estava cumprida. O mundo ainda estava por um fio, e a tesoura estava nas mãos de Alvar Hanso.

Londres — Aeroporto de Luton (Terminal Privado)

A chuva inglesa açoitava a fuselagem do jato executivo da Widmore Corporation. Na pista, os motores já aqueciam, emitindo um zumbido agudo que cortava a noite.

Charlie Hume desligou o celular, o sorriso cordial que usara com Richard desaparecendo instantaneamente, substituído por uma máscara de tédio. Ele entregou o aparelho a um assistente e subiu a escada de embarque, onde Tyler Abbadon o aguardava.

Tyler não era mais o garoto que Charlie conhecera na infância. Vestindo um terno sob medida que mal escondia a compleição física de um soldado, ele lembrava assustadoramente seu tio, Matthew Abbadon. Ele era a sombra de Charlie, seu braço direito e executor.

— Então ele não morreu — comentou Tyler, a voz baixa, observando a porta do jato se fechar e isolar o ruído da tempestade.

Charlie serviu-se de um uísque no bar de bordo, sem oferecer um ao colega. — Aparentemente, Richard Alpert é mais resistente a balas do que os relatórios de autópsia sugeriam. Seja o que for que está respirando no Novo México, é um problema.

— Por que trazê-lo para o jogo? — Tyler sentou-se na poltrona de couro creme. — Deveríamos ter mandado uma segunda equipe para terminar o serviço no hospital.

— E chamar atenção da polícia local? Ou pior, do meu pai? — Charlie balançou a cabeça, sentando-se à frente de Tyler. — Não. Richard desesperado é perigoso. Richard com esperança é manipulável. Deixe que ele pense que é útil.

O jato começou a taxiar. A gravidade empurrou-os contra os assentos enquanto a aeronave rasgava o céu de Londres, deixando a Europa para trás.

Quando atingiram a altitude de cruzeiro, a tensão no ambiente mudou. Tyler olhava para o tablet com mapas logísticos.

— Meu tio Matthew me contou histórias sobre aquele lugar... sobre os "trabalhos" que ele fazia para o seu avô — disse Tyler, quebrando o silêncio. — Ele dizia que a Ilha cobrava um preço de todos que tentavam controlá-la. Não sei se estamos prontos para pagar.

Charlie girou o copo de uísque, observando o líquido âmbar. — Matthew era eficiente, mas era um funcionário. Ele via o perigo. Nós, Tyler, vemos o legado.

— Seu pai não vê assim — retrucou Tyler. — Se Desmond souber que estamos usando os recursos da Widmore para caçar a Ilha...

— Meu pai é um homem bom, Tyler. E esse é o defeito dele. — Charlie suspirou, uma pontada de tristeza genuína em sua voz. — Ele acha que proteger o mundo significa fugir do poder. Ele não entende que o vácuo de poder é o que atrai monstros como Alvar Hanso. Meu avô Charles foi um herói nas sombras. Nós somos a nova geração de protetores. Alguém tem que sujar as mãos para que homens como meu pai possam dormir tranquilos.

— E quanto a Hanso? — Tyler insistiu. — Se Richard estiver certo, o velho está se movendo.

— Enquanto os "Guardiões" do Hugo estiverem brincando de acampamento na Ilha, Hanso terá dificuldades para entrar. Eles são a distração perfeita.

Charlie olhou para o relógio de pulso, impaciente. — O que me preocupa não é o Hanso. É o silêncio.

— O silêncio?

— A garota. — Charlie tamborilou os dedos na mesa. — Dei a ela a chave mestra. Um simples drive de acesso. Tudo o que ela precisava fazer era plugá-lo em qualquer terminal da Dharma. Mas o sinal ainda não veio.

Tyler franziu a testa. — Talvez ela não tenha chegado à Estação ainda.

— Ou talvez ela seja mais esperta do que parecia. — Charlie bufou. — Precisamos daquela localização, Tyler. A Estação na Antártica detectou uma oscilação eletromagnética. A Ilha se moveu de novo. Estamos voando às cegas.

Charlie tomou um gole longo do uísque, o olhar endurecendo. — E não podemos nos dar ao luxo de atrasos. Tenho uma sócia muito exigente monitorando essa operação.

Tyler ergueu uma sobrancelha. — Sócia?

— A Srta. Blake — disse Charlie, o nome saindo com um misto de respeito e cautela. — Ela tem os códigos que precisamos para derrubar as defesas do pai dela. Se demorarmos muito, ela pode decidir que não precisa mais da Widmore. E eu não quero ter Rachel Blake como inimiga.

Tyler assentiu, processando a informação. A rede de alianças de Charlie era mais complexa do que ele imaginava. — Entendido. Então vamos para Los Angeles. Para a estação Poste de Luz.

— Exato. Vamos usar o pêndulo para encontrar a agulha no palheiro.

— E depois? — perguntou Tyler. — Passamos no Novo México para pegar o Richard? Ele disse que enviaria as coordenadas.

Charlie olhou pela janela, para a escuridão infinita acima das nuvens. Um sorriso frio, desprovido de qualquer afeto, curvou seus lábios.

— Tyler... você ainda pensa como um funcionário.

Charlie virou-se para ele, os olhos mortos. — Nós vamos para Los Angeles encontrar a Ilha. Depois, vamos para o Pacífico. Quanto ao Richard... deixe-o esperando no aeroporto.

— Mas você disse a ele...

— Eu disse o que ele precisava ouvir para não ligar para o meu pai. — Charlie encerrou o assunto, abrindo seu laptop. — Richard Alpert é um fantasma de uma era que já acabou. E, se depender de mim, não iremos nos encontrar com ele nesta vida.

Tyler Abbadon recostou-se na poltrona, atordoado, percebendo finalmente que, naquela cabine pressurizada, ele não estava sentado com o filho de Desmond Hume. Ele estava sentado com a reencarnação da ambição de Charles Widmore.

Londres — Mansão Widmore (2007 — Noite)

O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz amarela dos postes da rua que filtrava através da chuva na janela. Penelope Widmore ainda usava o vestido preto do enterro. Ela estava sentada em uma poltrona de veludo, imóvel, observando o berço onde o pequeno Charlie dormia.

O silêncio da casa era opressivo. Sem Desmond, sem o pai, ela estava sozinha em um mausoléu de memórias ruins.

Batidas discretas, mas firmes, soaram na porta do quarto.

— Vá embora! — gritou Penny, a voz embargada pelo choro que ela segurava há horas. — Eu disse que não quero ver ninguém!

— Sra. Hume... — A voz do outro lado era grave e desconhecida. — Eu tenho instruções expressas do seu pai. É um protocolo de contingência nível zero.

Penny enxugou o rosto com as costas da mão, sentindo um arrepio. "Protocolo". A linguagem de Charles Widmore a assombrava até depois da morte.

Ela se levantou e abriu a porta.

Um homem de idade avançada, vestindo um terno risca-de-giz impecável e segurando uma maleta de couro, fez uma leve reverência. Ele não parecia um funcionário comum; tinha a postura de quem guardava segredos de estado.

— Quem é você?

— Sou o executor do testamento privado do Sr. Widmore. — O homem estendeu uma pasta grossa, selada com cera. — Ele deixou ordens estritas. Estes documentos só deveriam ser entregues se ele não retornasse da Ilha. Ele sabia que era uma viagem sem volta.

— O que é isso? — Penny olhou para a pasta como se fosse uma bomba.

— O legado, senhora. E o aviso.

O homem entregou a pasta e recuou, desaparecendo no corredor escuro como um espectro.

Penny trancou a porta. Com as mãos trêmulas, ela rompeu o lacre. Havia mapas, coordenadas bancárias de contas nas Ilhas Cayman, dossiês da Dharma e, no topo de tudo, uma carta manuscrita. A caligrafia de Charles era angular e agressiva.

Penny sentou-se na beira da cama, sob a luz do abajur, e começou a ler.

"Minha querida Penny,

Se você está lendo isso, eu falhei. E se eu falhei, o mundo está em perigo.

Eu sei que você me odeia. Sei que você acha que sou um monstro que tentou destruir sua felicidade com o escocês. Eu não peço seu perdão, Penelope, mas exijo sua compreensão. Tudo o que fiz — cada crueldade, cada mentira — foi para manter a porta do inferno fechada.

Peço desculpas por ter levado Desmond. Sei que pareceu vingança, mas foi necessidade. Desmond Hume é especial. Ele é a única resistência que temos contra o magnetismo daquele lugar. Ele possui um potencial extraordinário para salvar a humanidade de uma aniquilação que você nem consegue imaginar.

Mas o perigo real não é a Ilha. É quem quer entrar nela.

Há um homem, Penny. Um homem que opera nas sombras há séculos. O nome dele é Alvar Hanso. O mundo acha que ele é um filantropo, ou um velho senil. Não acredite nisso. Ele é o homem mais perigoso da história.

No passado, ele me usou. Ele financiou minha ascensão, me ajudou a construir a Widmore Corporation. Eu achei que ele era um aliado, mas eu era apenas um peão. Ele queria que eu construísse a infraestrutura para roubar o poder da Ilha. Quando descobri suas verdadeiras intenções — drenar a Fonte e remodelar a realidade à sua imagem —, eu o bloqueei. Foi por isso que fui exilado. Foi por isso que lutei contra Ben Linus. Não era pelo poder, era pela proteção.

A Iniciativa Dharma foi a criação de Hanso. Uma tentativa de sugar a energia da Ilha como um parasita, já que ele, pessoalmente, não consegue entrar lá devido às regras antigas.

Agora que eu me fui, a barreira sou eu. Ou melhor, a barreira é você.

Estes documentos contêm tudo. Os segredos da Dharma, a localização das estações, o perfil de Benjamin Linus e a verdade sobre os Guardiões. É um fardo pesado, minha filha, mas é o seu direito de nascença.

Seu dever é proteger aquela Ilha. Use o dinheiro. Use a influência. Capacite o novo Guardião. E, acima de tudo, assuma meu lugar na cadeira da presidência. Não deixe seus primos ou sua tia tocarem nisso; eles são fracos e seriam corrompidos por Hanso em um dia.

E quanto ao meu neto, Charlie... Treine-o. Não o proteja da verdade como eu tentei proteger você. Prepare-o. Ele precisará ser forte para suceder você e terminar a guerra que eu comecei.

Eu amei você, do meu jeito torto.

Adeus, Charles Widmore."

Penny largou a carta. O papel caiu no tapete persa.

O choque inicial deu lugar a uma onda de náusea. Toda a sua vida, ela achou que o pai fosse apenas um empresário ganancioso e controlador. Descobrir que ele era a última linha de defesa contra um "demônio" chamado Alvar Hanso era demais para processar.

— Você me usou... — sussurrou ela, as lágrimas de raiva escorrendo. — Até depois de morto, você está controlando a minha vida!

Num acesso de fúria, Penny pegou a pasta e a arremessou contra a parede. Papéis voaram pelo quarto, espalhando segredos de estado pelo chão. Ela queria queimar tudo. Queria pegar Charlie e fugir para a Escócia, viver em um farol, longe de tudo.

Mas então, o bebê se mexeu no berço. O pequeno Charlie soltou um suspiro suave durante o sono.

Penny olhou para o filho. Depois olhou para a carta amassada no chão.

Alvar Hanso. O homem que Richard mencionara. O homem que ameaçava Desmond.

Se ela fugisse, Hanso viria. Se ela deixasse a empresa para os primos idiotas, Hanso tomaria tudo. E então, não haveria lugar seguro no mundo para seu filho.

Penny enxugou as lágrimas. A tristeza em seus olhos endureceu, transformando-se em aço frio. Ela se agachou e começou a recolher os papéis, um por um, organizando o dossiê.

Ela não era apenas Penelope. Ela era uma Widmore.

Sede da Widmore Corporation — Londres (2007 — Dia Seguinte)

O burburinho na sala de reuniões cessou instantaneamente quando as portas duplas se abriram.

Edward estava sentado à cabeceira da mesa, rindo de alguma piada, com Olivia ao lado. Eles pararam, os sorrisos murchando.

Penelope Widmore entrou. Ela não usava mais o preto do luto. Vestia um terninho cinza, corte impecável, salto alto batendo no mármore com autoridade. Seu cabelo estava preso, o rosto limpo de qualquer traço de choro.

Ela caminhou até a cabeceira da mesa. Edward tentou se levantar. — Penny? O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse descansando...

— Saia da minha cadeira, Edward — disse Penny. A voz não era alta, mas cortou o ar como uma lâmina.

— O quê? — Edward riu, nervoso. — Prima, nós estamos cuidando da transição...

— Eu disse: saia.

Penny jogou uma pasta sobre a mesa. Não a pasta dos segredos da Ilha, mas a pasta jurídica que lhe dava controle majoritário das ações. — A partir de hoje, a transição acabou. Eu sou a proprietária majoritária e CEO das Corporações Widmore.

Olivia levantou-se, lívida. — Você não tem experiência, Penelope! Você não sabe o que essa empresa faz nas sombras!

Penny olhou para a tia com o mesmo olhar gélido que Charles Widmore usava antes de destruir um concorrente. — Eu sei exatamente o que fazemos, tia. E sei exatamente quem são nossos inimigos.

Ela olhou para os executivos ao redor da mesa, homens velhos que serviram ao seu pai. — Quem não estiver confortável com a minha liderança pode pegar sua rescisão na saída. Os que ficarem, preparem-se. Temos uma guerra para financiar.

Um silêncio chocado pairou por três segundos. Então, um a um, os executivos assentiram, reconhecendo a nova alfa da alcateia.

Edward, derrotado, saiu da cadeira.

Penelope sentou-se na cabeceira. Ela olhou para a vista de Londres através da janela de vidro. Ela tinha perdido o pai e o marido, mas tinha ganhado um exército. E ela usaria cada centavo dele para garantir que Alvar Hanso nunca tocasse em seu filho.

Londres — Residência Hume-Widmore – Presente

A cozinha estava silenciosa, exceto pelo som de Penny varrendo os cacos da xícara de porcelana que Desmond deixara cair. Ela se levantou, jogando os pedaços no lixo, e olhou para o marido. Desmond estava encostado na pia, lavando as mãos com uma obsessão maníaca, como se tentasse limpar uma sujeira invisível.

— Dess... — Penny aproximou-se devagar, como quem se aproxima de um animal ferido. — O que diabos aconteceu com você? Você ficou pálido, seus olhos viraram... Você está agindo de forma estranha desde que acordou.

Desmond desligou a torneira e secou as mãos, evitando o olhar dela. Ele forçou um sorriso, mas era apenas um esgar de músculos tensos. — Estou bem, Penny. Foi só uma tontura. Desculpe por te preocupar.

Ele tentou passar por ela para sair da cozinha, mas Penny bloqueou o caminho, a mão firme no peito dele. — Não minta para mim, Desmond Hume. — A voz dela tremeu, carregada de frustração e medo. — Eu conheço esse olhar. Eu vi esse olhar quando você voltou do cargueiro. Você teve uma visão, não teve?

Desmond travou. Ele não podia contar a ela. Não podia dizer que vira o mundo ser consumido por uma nuvem negra. — Penny, por favor...

— Não! — Ela o empurrou, sentindo-se traída. — Nós prometemos, sem mais segredos! Se a Ilha está te chamando de volta, tenha a coragem de me dizer!

Desmond olhou para a mulher que amava. A dor nos olhos dela era pior do que qualquer apocalipse. — Eu preciso de um banho — murmurou ele, incapaz de encarar a verdade.

Ele saiu da cozinha, deixando Penelope sozinha com o cheiro de café queimado e a certeza terrível de que a paz deles tinha acabado.

Albuquerque, Novo México — Praça Central

O sol do meio-dia castigava o banco de concreto da praça, mas Richard Alpert não suava. Ele estava sentado imóvel, os olhos fixos na tela do celular, lendo notícias sobre a movimentação da Widmore, mas sua mente estava vazia. Ele era um receptor aguardando um sinal.

Uma sombra caiu sobre ele.

— Achei você, seu desgraçado.

Richard ergueu os olhos devagar. James "Sawyer" Ford estava parado ali, vestindo jeans surrados e uma camiseta suada, parecendo um homem que não dormia há dias.

— Olá, James. — A voz de Richard era monótona.

Sawyer sentou-se ao lado dele, invadindo seu espaço, exalando agressividade. — Por que você ficou por aqui? O avião de carga partiu sem você. Achei que você fosse o guia turístico daquele inferno.

— Digamos que algo me impediu de embarcar — respondeu Richard, voltando a olhar para o celular.

— Algo? — Sawyer arrancou o celular da mão de Richard e o jogou longe, na grama. — Ou alguém?

Richard nem piscou com o gesto violento. Ele virou o rosto para James, com a calma de uma estátua. — Fui baleado no aeroporto, James. Acordei em um hospital ontem. Se estou sentado aqui, é um milagre médico.

— Milagre? — James riu, um som sem humor. — Você é um zumbi com delineador que anda pela Terra há duzentos anos. Você não morre. Você é a barata no fim do mundo.

Richard suspirou, não com cansaço, mas com tédio. — O que você quer, James? Não deveria estar cuidando da sua fazenda? Ou gastando o dinheiro do silêncio?

O rosto de James se contorceu. A máscara de sarcasmo caiu, revelando o pai desesperado. — Não tenho tempo para brincar de fazendeiro. Eu quero saber da minha filha.

— Clementine... — Richard disse o nome como se lesse um arquivo.

— Vocês a levaram há dias! — James explodiu, agarrando o colarinho da jaqueta de Richard. — Nenhuma ligação, nenhuma notícia! A Widmore cortou meus pagamentos, o que eu não dou a mínima, mas levaram a garota para aquela ilha maldita!

— Eu não sei o que houve com eles — disse Richard, sem tentar se soltar. — Eu estava em coma, lembra?

— Não minta para mim, Alpert! — James sacudiu Richard. — Escute aqui. Se a Clementine sofrer um único arranhão, eu vou cair matando em cima de vocês. Eu vou processar a Widmore até o último centavo, vou expor tudo para a imprensa, vou fazer o inferno na Terra!

Richard olhou para as mãos de James em sua jaqueta. Ele não sentia medo. Não sentia raiva. Não sentia... nada. — Processos? Imprensa? — Richard inclinou a cabeça. — Você está latindo para a árvore errada, James.

James, frustrado pela falta de reação, fechou o punho e o ergueu, pronto para quebrar o nariz de Richard. — Me dê um único motivo para não deformar essa sua cara bonita agora mesmo.

Richard olhou nos olhos de James. Seus olhos, antes cheios de sabedoria secular, agora eram poços escuros e vazios. — Você não pode me machucar, James.

— É mesmo? E por que não?

Richard segurou o pulso de James com uma força surpreendente, removendo a mão dele de sua roupa com um movimento lento e mecânico.

— Porque eu morri — disse Richard.

A frase pairou no ar quente da praça. James recuou, confuso. Não era uma metáfora sobre a quase morte no hospital. O tom de Richard era literal. O homem que servira a Jacob, o conselheiro, o imortal... aquele homem não estava mais ali.

— Do que diabos você está falando? — sussurrou James, vendo um vazio nos olhos de Richard que nem o Monstro de Fumaça tinha.

— O Richard que você conhecia morreu naquela maca — disse ele, levantando-se e ajeitando a jaqueta. — O que está na sua frente agora... apenas obedece.

Richard virou as costas e começou a caminhar, deixando James Ford sentado no banco, com o punho ainda fechado, percebendo com horror que a Ilha já tinha começado a vencer antes mesmo de eles chegarem lá.

Los Angeles — Um Bar em North Hollywood — 2007

O letreiro de neon do lado de fora zumbia com um defeito irritante, piscando um vermelho intermitente sobre a calçada suja. Dentro, o ar cheirava a cerveja choca, serragem e arrependimento.

Richard Alpert estava sentado no fundo, girando um copo de uísque que ele não pretendia beber. Ele olhava para o líquido âmbar, tentando ver o futuro ali, mas tudo o que via era o rosto de Alvar Hanso e a certeza de que a paz era uma mentira.

— Esse lugar não combina com o seu terno, amigo.

Richard ergueu os olhos. Um homem de camisa havaiana desbotada e barba por fazer puxou o banco ao lado. Ele parecia ter envelhecido dez anos em três dias.

— Frank? — Richard piscou, surpreso.

Frank Lapidus fez um sinal para o barman, pedindo uma cerveja e um shot. — O próprio. — Frank suspirou, esfregando o rosto. — O mundo é pequeno quando você está no fundo do poço, não é?

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Richard.

— Bebendo até esquecer que vi uma ilha desaparecer no meio do oceano. — Frank virou o shot de uma vez e bateu o copo na mesa. — E comemorando minha demissão. A Ajira não gostou muito de eu ter sumido com um Boeing 737 e voltado sem passageiros e com uma história que nem a CIA acreditaria. Licença cassada. Fim da linha.

Richard sorriu, um sorriso triste e cúmplice. — Bem-vindo ao clube dos desajustados, Frank.

— É... — Frank olhou para Richard. — Sabe, eu já vi muita coisa estranha. Mas aquela fumaça preta... pessoas mortas andando na selva... e agora estou aqui, bebendo com um sujeito que dizem ter duzentos anos. — Frank riu, balançando a cabeça. — Se eu contar isso para alguém, me internam no hospício antes de eu terminar a frase.

— Acredite, Frank. O hospício seria mais seguro do que a verdade. — Richard empurrou seu copo intocado para o piloto. — Beba por mim. Eu perdi o gosto.

— O que vai fazer agora, Alpert? Voltar para o seu chefe fantasma?

— Meu chefe está morto. — Richard levantou-se, ajeitando o paletó. — Vou tentar sobreviver ao novo dono do mundo.

— Boa sorte com isso. Eu vou tentar encontrar minha filha, Jean. Tentar convencer a Anne de que não sou um completo desperdício de oxigênio.

— Família é um bom motivo para viver. Cuide delas, Frank. — Richard tocou o ombro do piloto e saiu do bar, desaparecendo na noite de Los Angeles, deixando Frank sozinho com a bebida e os fantasmas.

Frank pediu outra rodada. Ele estava prestes a levar o copo à boca quando a porta do bar se abriu. O barulho das conversas diminuiu. Não era comum ver ternos de três mil dólares naquele buraco.

Dois seguranças enormes entraram primeiro, abrindo caminho. Atrás deles, uma cadeira de rodas tecnológica deslizou suavemente pelo chão de madeira sujo.

O homem na cadeira parecia um aristocrata perdido no inferno. Ele parou ao lado de Frank.

— Frank Lapidus, imagino — disse o homem, com uma voz que exalava poder antigo.

Frank nem olhou. Continuou encarando a espuma da cerveja. — Se quer um autógrafo, entra na fila. Se quer me processar pelo avião, fale com meu advogado... ah, espera, eu não tenho advogado.

O homem riu, uma risada culta e fria. — Sou Alvar Hanso. Proprietário da Fundação Hanso. E não estou aqui pelo avião. Estou aqui para lhe oferecer um emprego. Quero que seja meu piloto particular.

Frank virou-se lentamente no banco. Ele olhou para o velho. — Alvar Hanso? O cara da Dharma? — Frank soltou uma risada incrédula. — Deixa ver se entendi. Um dos homens mais ricos do mundo sai da Dinamarca, entra num bar fedorento em North Hollywood e oferece emprego para um piloto com a licença cassada? Desculpa, vovô. Estou num dia ruim. Procure outro motorista.

Frank virou-se de volta para o balcão. — Eu não recusaria se fosse você, Sr. Lapidus. — A voz de Alvar mudou. Ficou mais baixa, mais perigosa. — Pelo menos, não se você preza pela segurança de Jean e Anne.

O copo parou no meio do caminho. O sangue de Frank gelou. O nome da filha e da ex-esposa naquela boca soou como uma sentença de morte.

Frank girou no banco, os olhos faiscando de ódio. — Se você encostar um dedo nelas...

— Acalme-se. — Alvar levantou a mão, calmamente. — Não fizemos nada a elas... ainda. Elas estão bem. Anne está assistindo TV em casa, Jean está dormindo. Eu só estou lhe oferecendo uma oportunidade de garantir que o sono delas continue tranquilo. O pagamento será generoso.

Frank olhou para os dois seguranças. Ele sabia que podia derrubar um, talvez dois. Mas sabia que homens como Hanso não precisavam estar presentes para machucar alguém.

— Por que eu? — perguntou Frank, derrotado.

— Porque você foi àquela Ilha duas vezes e voltou vivo. — Alvar inclinou-se para frente. — Você é um piloto excepcional e, segundo seus registros militares, um atirador competente. Preciso de alguém que não faça perguntas e que saiba pousar onde não há pista.

— Você é o monstro por trás de tudo aquilo, não é? — Frank sussurrou. — A Dharma... a ilha...

— Aceita a proposta?

— Eu tenho escolha?

— Sempre temos escolha, Frank. A questão é com o que podemos viver depois.

Frank olhou para o fundo do copo vazio, depois para o rosto impassível de Alvar. — Onde eu assino?

— Excelente. — Alvar fez um sinal para os seguranças, que entregaram um envelope a Frank. — Preciso que comece imediatamente. Temos uma caçada pela frente.

— Caçada a quem?

— A um homem chamado Wilbert DeGroot. — Alvar sorriu. — Hoje, ele é um ninguém, um filho esquecido dos fundadores da Dharma. Mas com a orientação certa... ele será o arquiteto do meu futuro. Vamos buscá-lo.

Alvar girou a cadeira de rodas e saiu do bar.

Frank Lapidus ficou ali por um momento, segurando o envelope grosso de dinheiro. Ele olhou para a garrafa de uísque, desejando poder beber até esquecer o nome Hanso. Mas ele tinha uma filha para proteger.

Ele jogou uma nota no balcão, pegou sua jaqueta e seguiu o Diabo para fora do bar, entrando em uma tempestade da qual ele nunca mais sairia.