Lost: O Primeiro Herdeiro
16 LIVRO 2 — CAPÍTULO 16: O ESPELHO DA MEMÓRIA
Aaron avançava pela trilha mais densa da mata, forçando o corpo a continuar mesmo quando seus músculos gritavam por descanso. Ele evitava os caminhos abertos, movendo-se pelas sombras como um animal acuado, determinado a evitar qualquer encontro indesejado antes de chegar ao seu alvo.
O peso da pistola no cós da calça parecia aumentar a cada quilômetro. O plano de Walt era simples, mas brutal: entregar Ben para devolver Clementine. Uma vida por outra. Mas, para Aaron, aquilo era uma jornada por um território moral desconhecido e aterrorizante. Ele não era um assassino. Não era um soldado. Era apenas um cara que agora queria voltar para casa, e agora carregava o destino de outra pessoa nas mãos sujas de terra.
A exaustão finalmente venceu a adrenalina. As pernas de Aaron cederam e ele se deixou cair no chão coberto de folhas úmidas. A escuridão da noite parecia pressionar seus olhos, turvando sua visão, misturando a realidade com o cansaço.
Foi então que o silêncio da floresta se quebrou.
Ssss... Aaron... ssss... ele sabe...
Sussurros.
Eles não vinham de um ponto específico; emergiam dos arbustos, das copas das árvores, do próprio ar. Eram vozes sobrepostas, urgentes e incompreensíveis.
Aaron levantou-se num salto, o coração martelando contra as costelas. Ele sacou a arma, segurando-a com as duas mãos trêmulas. — Quem está aí? — indagou ele, girando em círculos.
Os sussurros aumentaram de volume, tornando-se um coro caótico. Pareciam vir de todas as direções ao mesmo tempo, ecoando dentro de seu crânio. — Apareçam! — gritou Aaron, o pânico tomando conta.
Ele apontou a arma para a esquerda, depois para a direita, mas não havia ninguém. Apenas sombras que dançavam. Acuado pelo medo, Aaron soltou a arma e cobriu os ouvidos com as mãos, fechando os olhos com força, buscando refúgio na escuridão interna para escapar do tormento auditivo.
— Me encontre...
A frase cortou os sussurros como uma lâmina.
Era uma voz clara, masculina e britânica. A mesma voz que assombrava seus sonhos há semanas. A voz que o chamava nas visões.
O zumbido parou instantaneamente.
Aaron abriu os olhos e olhou para trás.
Encostado em uma árvore, banhado por um feixe de luar que atravessava a copa densa, estava um homem. Ele era jovem, loiro, com anéis nos dedos e vestia roupas que evocavam o estilo de um roqueiro dos anos 2000 — um casaco com capuz e jeans desgastados.
Ele sorria. Um sorriso enigmático, mas estranhamente acolhedor.
A familiaridade atingiu Aaron como um soco. Ele nunca tinha visto aquele rosto pessoalmente, pelo menos não que ele lembrasse, mas sua alma o reconhecia. Era o rosto dos momentos de loucura, o guia de suas visões.
Era Charlie Pace.
O fantasma desencostou da árvore e olhou profundamente nos olhos de Aaron, como um velho amigo reencontrando alguém que se perdeu.
— Olá, Aaron.
Enquanto isso, do outro lado da ilha, a busca pelos desaparecidos avançava lentamente sob o véu sufocante da noite. A selva parecia fechar-se ao redor do grupo de resgate, transformando cada sombra em uma ameaça.
Jessy Burke caminhava um pouco atrás da linha de frente, os braços cruzados com força sobre o peito, como se tentasse segurar os pedaços de si mesma que ameaçavam desmoronar. Seus olhos varriam a mata, mas sua mente estava presa a quilômetros dali, no convés inferior do Elizabeth.
Ela ainda podia ouvir os gritos. O som úmido de sangue engasgando gargantas. Os homens que ela jurara proteger, deixados para trás amarrados a macas enquanto o tempo destroçava suas mentes.
Exausta, Jessy tropeçou e, incapaz de dar mais um passo, deixou-se cair entre as raízes grossas de uma árvore gigante. Ela enterrou o rosto nas mãos, o choro vindo em ondas silenciosas e dolorosas.
Um facho de luz cortou a escuridão, iluminando-a. Yago, o soldado que liderava aquele flanco da busca, parou e voltou. Ele baixou a lanterna para não cegá-la, sua expressão endurecida suavizando ligeiramente ao ver o estado da médica.
— Doutora? — chamou ele. — Tudo bem?
Jessy levantou o rosto, sujo de lama e lágrimas. — Não... não, não está tudo bem. — A negação saiu como um desabafo represado. — Como poderia estar? Eu sou médica, Yago. E eu fugi.
— Você fez o que era preciso — tentou Yago, mas a voz dela o cortou.
— Eu abandonei meus pacientes! — A voz de Jessy tremeu, carregada de horror. — Pessoas morreram de maneira terrível naquele navio. Cérebros liquefeitos, sangrando pelos olhos, gritando por ajuda... tudo por causa dessa doença insana que a Clementine previu. E ninguém está falando sobre isso! Estamos aqui, marchando na lama, agindo como se não tivéssemos deixado um matadouro para trás!
Yago permaneceu em silêncio. Ele era um mercenário; a morte era parte do contrato. Mas ele reconhecia o peso da consciência de quem não estava acostumado a deixar companheiros para trás. Ele não ofereceu desculpas vazias ou mentiras reconfortantes.
Após um breve intervalo, respeitando a dor dela, ele estendeu a mão enluvada. Um gesto simples, mas firme. Uma âncora na escuridão.
— O navio ficou para trás, Jessy. Mas o Aaron e a garota ainda estão vivos — disse Yago, olhando nos olhos dela. — Se você quer compensar o que aconteceu lá... salve quem está aqui. Levante-se. Vamos encontrá-los.
Jessy olhou para a mão estendida. A lógica brutal do soldado era a única coisa que fazia sentido naquele momento. Chorar não traria os marinheiros de volta.
Ela respirou fundo, engolindo a culpa, e segurou a mão de Yago. Ele a puxou para cima.
— Vamos — disse ela, limpando o rosto. — Não vou perder mais ninguém hoje.
Hospital Central de Sydney — Maio de 2020
O mundo lá fora estava parado, refém de um vírus invisível, mas dentro das paredes do Hospital Central, era uma zona de guerra.
Jessy Burke, então uma biomédica em ascensão, caminhava pelos corredores estéreis como um fantasma. Seu rosto estava marcado pelo uso contínuo da máscara N95, e seus olhos ardiam de exaustão. Ela não salvava vidas naquela noite; ela apenas gerenciava o declínio.
Buscando cinco minutos de sanidade, ela escapou para a área de carga e descarga nos fundos. O ar da noite estava frio. Jessy arrancou a máscara, puxou o ar com força e, com mãos trêmulas, acendeu um cigarro — um hábito sujo que ela jurara ter abandonado na residência médica.
— Está tudo bem contigo?
Jessy não se virou. Ela conhecia os passos leves. Charlotte Malkin, enfermeira-chefe do setor psiquiátrico (deslocada para a emergência devido à crise), encostou-se na parede ao lado dela. Charlotte tinha olhos azuis penetrantes, herança de seu pai, e uma calma que destoava do caos.
— Só mais uma noite no paraíso, Charlotte — respondeu Jessy, soltando a fumaça.
— Você está fumando de novo. — Charlotte sorriu, balançando a cabeça. — Não pega muito bem para a "Médica do Ano", sabia? Seus pacientes descobriram que você destrói o próprio pulmão enquanto conserta o deles?
Jessy riu, um som curto e sem alegria. — A respiração deles para de qualquer jeito. Com ou sem nicotina.
— Você está exausta, Jessy. — Charlotte ficou séria. — Deveria ir para casa.
— Não posso. A UTI está lotada. Eu sei que não é minha área de atuação mas não posso abandonar pacientes assim... — Jessy mudou de assunto, evitando a piedade. — Falando nisso. Como está seu pai? O Richard?
Charlotte suspirou, olhando para o céu sem estrelas de Sydney. — O asilo ligou. Ele está agitado. Dizendo coisas sobre aviões caindo e ilhas que se movem. Minha mãe quer trazê-lo para casa, mas... é perigoso.
— Ironicamente, a única coisa que o grande vidente Richard Malkin não previu foi uma pandemia global — comentou Jessy, com um humor ácido.
— Ele gosta de você, sabe? — Charlotte olhou para Jessy de um jeito estranho, quase analítico. — Ele sempre diz que você tem uma "aura diferente". Que tudo poderia ter sido diferente para você se tivesse feito outras escolhas.
— Diga a ele que minha aura precisa de férias. — Jessy apagou o cigarro na sola do sapato. — Vou tentar visitá-lo amanhã, se eu sobreviver a este turno.
— Faça isso. Seria importante para ele... e talvez para você.
Jessy colocou a máscara de volta, escondendo a expressão, e voltou para dentro. Charlotte observou a médica se afastar, um sorriso enigmático nos lábios, como se soubesse que o destino de Jessy estava prestes a cruzar uma linha irreversível.
De volta à "zona limpa", Jessy pegou o prontuário do Leito 4. Complicações cardíacas pós-virais. Paciente jovem. Mãe.
Ela caminhou até a sala de espera reservada para familiares de casos críticos. Havia apenas duas pessoas lá, sentadas distantes uma da outra, unidas pelo medo.
Um homem na casa dos 40 anos, com cabelos loiros desgrenhados e tatuagens nos braços que denunciavam um passado de rock and roll, levantou-se num salto assim que a viu. Ao lado dele, uma jovem de cerca de 18 anos, com os mesmos traços dele, segurava um casaco como se fosse um escudo.
— Boa noite. — A voz de Jessy saiu abafada pela máscara. — O senhor é o esposo da Sra. Karen?
— Sou eu. — O homem adiantou-se. Ele tinha olheiras profundas e parecia ter envelhecido dez anos em uma semana. — Liam Pace. E esta é minha filha, Megan.
O nome fez um eco distante na mente de Jessy — algo sobre uma banda antiga, Drive Shaft? — mas ela estava cansada demais para conectar os pontos.
— Ela está bem? — perguntou Megan, a voz trêmula de quem ainda é muito jovem para perder a mãe.
Jessy olhou para o prontuário e depois para eles. Essa era a parte que ela mais odiava. — A Sra. Pace encontra-se em tratamento intensivo. O vírus causou uma miocardite aguda. O coração dela está lutando, mas... a inflamação é severa.
— Oh, meu Deus... — Liam cobriu a boca com a mão, os olhos enchendo-se de lágrimas. Ele cambaleou, e Megan o abraçou, chorando no ombro do pai.
— O que isso significa? — Liam perguntou, a voz embargada. — Significa que vamos perdê-la? Eu já perdi meu irmão, doutora... eu não posso perder a Karen. Não posso.
Jessy sentiu um aperto no peito. O desespero daquele homem era palpável. — Sr. Pace, eu prometo que estamos fazendo o impossível. Ela está sedada e não sente dor. Mas as próximas 24 horas serão cruciais. Eu vou monitorá-la pessoalmente.
Liam olhou para Jessy como se ela fosse a única boia em um oceano tempestuoso. — Por favor. Salve-a. Ela é tudo o que nos restou.
Jessy assentiu, sentindo o peso da promessa. Ela voltou para a UTI, determinada a salvar Karen Pace, custe o que custar.
A Ilha — Presente
Aaron permaneceu imóvel, a arma pendendo frouxa na mão, enquanto sua mente tentava processar a imagem à sua frente. O homem encostado na árvore parecia sólido, iluminado pelo luar, mas havia uma qualidade estática ao redor dele, como uma interferência em um canal de televisão.
Charlie Pace desencostou do tronco e deu um passo à frente, as mãos nos bolsos do casaco, um sorriso torto e convidativo no rosto.
— Você não está realmente aqui — afirmou Aaron, a voz vacilante, tentando convencer a si mesmo mais do que ao fantasma. — É a fome. O estresse.
— Estou aqui, Aaron. Mais "aqui" do que você imagina. — Charlie chutou uma pedra imaginária. — E tenho algo importante para te dizer, mate.
— Primeiro: quem é você? — questionou Aaron, recuando um passo. — Por que... por que você me parece tão familiar? É como se eu conhecesse o seu rosto de algum lugar que eu não consigo lembrar.
— Desculpe a falta de educação. Da última vez que nos vimos, você estava mais interessado em leite materno do que em apresentações. — Charlie fez uma reverência teatral. — Meu nome é Charlie Pace. Baixista, compositor e a alma criativa da banda Drive Shaft. Tenho certeza de que você já ouviu nosso hit.
Charlie cantarolou o refrão de "You All Everybody" e olhou para Aaron com expectativa.
Aaron franziu a testa. — Não. Nunca ouvi falar.
Charlie bufou, revirando os olhos para o céu noturno. — Inacreditável. Morri como um herói, salvei a todos, e o meu legado musical foi apagado? A cultura pop está morta mesmo.
A palavra "morri" atingiu Aaron como um soco. As peças se encaixaram. — Você estava no Oceanic 815. Certo?
— Detalhes técnicos. — Charlie deu de ombros. — Sim e eu morri. Mas nesta ilha, a morte é apenas uma mudança de frequência. Estou preso aqui, Aaron. Assim como todos que deixaram algo pendente.
Aaron soltou uma risada nervosa, a incredulidade lutando contra os seus sentidos. Ele estendeu a mão devagar, tentando tocar o ombro de Charlie, precisando de uma prova física.
Seus dedos atravessaram o tecido da jaqueta como se fosse fumaça de gelo seco. Um frio intenso, absoluto e doloroso subiu pelo braço de Aaron, fazendo-o arfar e recolher a mão instintivamente.
— Convincente o suficiente? — indagou Charlie, sério.
— Que loucura é essa? — Aaron esfregou o braço, sentindo o frio nos ossos. — Eu estou conversando com um fantasma de novo. Eu enloureci de vez.
— Não fique com medo. Eu vim em paz. — Charlie sorriu, tentando acalmá-lo. — E você não está louco. Digamos que você foi "vacinado" para ver coisas estranhas. Cortesia do nosso amigo Hurley.
— Hurley?
— O gordo. O Hugo. — Charlie apontou na direção do acampamento. — Ele tem o dom de falar com a gente. E acho que, de tanto conviver com ele, um pouco dessa "loucura" passou para você. Ou talvez... talvez esteja no seu sangue.
Aaron balançou a cabeça, tentando focar. — Ainda não explica a familiaridade. Eu tenho certeza que te vi nos meus pesadelos... mas sinto que te conheço de antes.
— Você sente porque eu estava lá. — A voz de Charlie suavizou, perdendo o tom de brincadeira. — Quando você era um bebê... um pequeno "Cabeça de Nabo", como eu te chamava... eu cuidei de você. Eu troquei suas fraldas, te fiz dormir quando a Claire estava exausta. Eu fui o pai que você não tinha naquela praia.
Aaron ficou paralisado. Aquele fantasma roqueiro tinha sido sua família? — O quê? — perguntou Aaron, a voz embargada. — Por que minha mãe nunca me falou de você?
— O luto faz coisas estranhas com as pessoas. — Charlie olhou para os próprios anéis. — Provavelmente ela nunca superou minha morte. Ou talvez... ela quisesse te proteger da dor de saber que a pessoa que mais te amava, além dela, ficou para trás no fundo do oceano.
— E agora você aparece para mim? — Aaron perguntou. — Por quê?
— Porque você está prestes a fazer uma besteira. — Charlie apontou para a arma na mão de Aaron. — O homem que você está caçando... Benjamin Linus. Ele é um dos bastardos mais astutos e perigosos que já pisaram nesta areia. Eu o odiei em vida, e não gosto muito dele na morte.
— O Walt disse para eu matá-lo. Disse que é a única forma de salvar a Clementine.
— O Walt está destruído, Aaron. Ele só quer vingança. Ele é um bom garoto. — Charlie aproximou-se, flutuando sobre a grama. — Mas escute bem: por alguma razão distorcida, o Ben é crucial para esta ilha. Se você entregá-lo ao Walt ou ao Wilbert... a luz se apaga. E se a luz apagar, a Clementine morre de qualquer jeito.
— Como você sabe disso?
— Sou uma alma errante. Eu vejo tudo. O passado, o presente... e as possibilidades ruins do futuro. E além do mais...
Aaron baixou a arma, confuso. — Isso não pode estar acontecendo. Vozes, fantasmas...
— "Me encontre". — Charlie disse as palavras com a mesma entonação dos sonhos de Aaron.
Aaron levantou a cabeça bruscamente. — Era você. A voz nos pesadelos.
— Eu tentei te chamar. — Charlie assentiu. — Não é fácil atravessar o véu. O Hugo é como uma porta aberta, mas você... você estava trancado. Tive que gritar nos seus sonhos para você ouvir. O Walt tinha o dom natural de atravessar, mas eu tive que me esforçar.
— O que eu faço, Charlie? — Aaron perguntou, sentindo-se uma criança novamente. — Como eu salvo ela sem entregar o Ben?
— Você é um sobrevivente do 815, Aaron. A gente improvisa. — Charlie piscou. — Siga as instruções que eu sussurrei no vento. Não confie no mapa do Walt. Confie na Ilha.
De repente, o vento mudou. O zumbido estático voltou, alto e agressivo.
Ssss... eles estão vindo... ssss...
Charlie olhou para os lados, sua imagem começando a falhar como um holograma defeituoso. — Meu tempo acabou. Eles estão interferindo.
— Charlie, espera! — Aaron tentou segurá-lo, mas o fantasma já estava se dissolvendo na névoa.
— You all everybody, Aaron... — A voz de Charlie ecoou, distante. — Salve a garota. Salve o mundo.
Charlie Pace desapareceu, deixando Aaron sozinho na escuridão, com uma arma na mão e uma escolha impossível no coração.
Enquanto Aaron estava tentando absorver o que acabara de acontecer, do outro lado da ilha, marcha forçada cobrava seu preço. Jessy sentiu as pernas falharem e, incapaz de dar mais um passo na lama, deixou-se escorregar pelo tronco de uma árvore coberta de musgo.
— Só um segundo... — pediu ela, ofegante, fechando os olhos para tentar parar o mundo que girava ao seu redor.
O soldado Yago parou alguns metros à frente, varrendo a escuridão com a lanterna, impaciente mas vigilante.
Foi no silêncio entre duas respirações que Jessy ouviu.
Ssss... ela está aqui... ssss... ajude a família...
Sussurros. Não vinham da mata, mas de dentro de seus ouvidos, como estática de rádio. Jessy abriu os olhos, assustada, esperando ver um animal ou um inimigo.
Em vez disso, ela viu um jovem encostado na árvore à sua frente. Ele brilhava com uma luminescência pálida, destoando completamente da escuridão da selva. Era Charlie novamente.
— Olá, Doutora — disse ele, com um sotaque britânico suave.
Jessy piscou, certa de que estava alucinando por desidratação. Mas o rosto dele... ela conhecia aquele rosto. Era mais jovem, mas os traços eram idênticos aos do homem que chorara na sua sala de espera em Sydney.
— Charlie da banda Drive Shaft?! — A pergunta escapou de seus lábios num sussurro incrédulo. O irmão de Liam Pace. O homem morto.
Yago, que estava de costas, girou rapidamente ao ouvir a voz dela, iluminando-a com a lanterna. — Disse alguma coisa, Doutora?
Jessy protegeu os olhos da luz forte, apontando para a figura luminosa ao lado de Yago. — Você... você não está vendo? Este homem loiro, bem aqui na minha frente?
Yago moveu o facho de luz para onde ela apontava. O feixe atravessou o ar vazio, iluminando apenas arbustos e cipós. — Não tem ninguém aí, senhora. — Yago ficou tenso, levando a mão ao rádio. — Você está delirando de exaustão.
— Ele não pode me ver, Jessy. — Charlie deu um passo à frente, ignorando a luz de Yago que passava através dele. — Somente você. Você tem o brilho.
— O brilho? — Jessy recuou, pressionando as costas contra a árvore. — O que está acontecendo comigo?
Yago se aproximou, preocupado, achando que ela estava tendo um colapso nervoso. — Doutora, olhe para mim. Respire. Não há ninguém aqui além de nós.
— Ignore o soldado. — A voz de Charlie tornou-se séria, urgente. Ele se inclinou, ficando cara a cara com ela. O frio que emanava dele era absoluto. — Eu não tenho muito tempo. Eu preciso que você se lembre.
— Me lembrar? — Jessy balançou a cabeça, confusa. — Me lembrar de quê?
A intensidade da voz fantasmagórica foi como um choque elétrico. Jessy gritou, fechando os olhos com força enquanto a selva, o soldado e o calor tropical eram sugados por um vácuo.
O cheiro de terra molhada sumiu.
Quando Jessy abriu os olhos, o mundo era branco, estéril e frio.
O zumbido dos insetos foi substituído pelo bipe rítmico de monitores cardíacos distantes e o zunido do ar condicionado central.
Ela estava de pé no meio do corredor da UTI do Hospital de Sydney. Mas estava vazio. Não havia enfermeiras correndo, não havia macas. As luzes fluorescentes piscavam com um zumbido intermitente, criando uma atmosfera de pesadelo asséptico.
Ela olhou para as próprias mãos. Não estavam sujas de lama. Estavam limpas, pálidas, cheirando a álcool gel.
— Onde... onde eu estou? — Jessy girou, procurando uma saída.
No final do corredor, a porta do quarto 42 se abriu lentamente. O quarto onde Karen Pace havia morrido.
Uma figura saiu de lá. Não era Karen. Não era Liam.
Era Richard Alpert. Ele estava parado sob a luz fria, segurando o prontuário médico, olhando para Jessy com uma paciência infinita.
— Você se lembra, Jessy? — perguntou Richard, sua voz ecoando no corredor vazio. — Você se lembra por que eu te escolhi?
Jessy deu um passo à frente, o medo misturando-se à curiosidade. O fantasma de Charlie a enviara para cá. Havia algo naquela noite que ela bloqueara. Algo que ela precisava recuperar para sobreviver à ilha.
Hospital Central de Sydney — Maio de 2020
Jessy caminhou pelos corredores com o olhar perdido. Karen Pace estava morta, e ela havia sido a portadora da notícia devastadora que destruiu uma família. O peso do jaleco parecia insuportável. Sem pensar muito, ela buscou refúgio em uma área restrita do hospital, um canto silencioso onde o mundo parecia parar por um instante.
— Não era isso que eu imaginava para mim aqui em Sydney — resmungou para si mesma, tirando um cigarro do bolso com as mãos trêmulas.
— Fumar não afasta momentos ruins, Dra. Burke. Pelo contrário, apenas os prolonga.
A voz masculina veio da penumbra do corredor mal iluminado. Jessy deu um sobressalto, guardando o cigarro.
— Quem é você? — indagou ela, conforme o homem dava um passo à frente.
Era Richard. Ele vestia um terno de corte clássico e exalava uma serenidade que parecia imune ao caos do hospital.
— Peço desculpas por abordá-la desta forma. Meu nome é Richard Alpert e represento o Instituto Widmore. Espero não estar atrapalhando seu descanso.
— Desculpe, senhor Alpert, mas esta é uma área restrita — disse Jessy, virando-se para sair, querendo apenas distância de qualquer conversa corporativa.
— Eu sei que o local é inapropriado — continuou Richard, sua voz mantendo um tom aveludado que a fez parar. — Mas o assunto que tenho para você é urgente. Envolve seu falecido irmão, Edmund Burke, e sua cunhada desaparecida.
Jessy congelou. A menção aos nomes que ela tentava enterrar na memória despertou uma curiosidade dolorosa. Ela se virou lentamente.
— Você conheceu o meu irmão?
— Se eu o conheci? — Richard esboçou um sorriso nostálgico. — Eu era o representante da Mittelos na época em que Edmund a presidia. Fui o responsável por recrutar Juliet para um trabalho de campo, juntamente com o senhor Ethan Rom.
Jessy soltou uma risada amarga. — O trabalho que fez a Juliet desaparecer do mapa, você quer dizer...
— Infelizmente, a pesquisa de vanguarda sempre traz seus riscos — Richard respondeu, sem perder a compostura.
— Senhor Alpert, peço que vá direto ao ponto. Preciso voltar para o meu plantão e não tenho tempo para fantasmas da Mittelos.
— A Mittelos não existe mais, como você bem sabe. Ela foi absorvida e hoje faz parte do Instituto Widmore, sob a direção dos filhos de Arthur Widmore, Olivia e Edward.
— E o que eu tenho a ver com isso? — Jessy cruzou os braços, defensiva.
— O objetivo não mudou, Jessy. Ainda recrutamos mentes brilhantes para missões científicas. O local para onde pretendemos ir é o mesmo onde Juliet, supostamente, desapareceu. — Richard aproximou-se, invadindo levemente o espaço pessoal dela, mas com um olhar que transmitia uma confiança quase hipnótica. — O Instituto Widmore quer você. Você herdou os estudos de Edmund e foi quem ajudou a irmã de Juliet a conceber aquele bebê contra todas as probabilidades biológicas. Você não é apenas mais uma médica, Jessy. Você tem o sangue Burke nas veias. Você entende o impossível.
— E você quer me levar para o mesmo lugar onde ela sumiu? Por que eu aceitaria algo assim?
— Porque estamos falando do futuro. Um futuro onde pessoas não morreriam por vírus microscópicos ou falências cardíacas evitáveis. Um lugar onde as impossibilidades da biociência seriam erradicadas para sempre.
Jessy desviou o olhar. Era tentador. Era tudo o que ela queria enquanto via pacientes morrerem em seus braços. — É uma proposta forte, senhor Alpert. Mas eu realmente preciso voltar ao trabalho.
Richard segurou-a gentilmente pelo braço, apenas o suficiente para que ela sentisse o cartão preto que ele estendia.
— Pegue pelo menos o meu cartão, Dra. Burke. Pense no assunto. Me ligue quando estiver pronta para terminar o que seu irmão e sua cunhada começaram.
— Eu vou pensar — disse ela, pegando o cartão.
Richard fez uma breve e elegante inclinação de cabeça e começou a se afastar.
— Mais uma vez, desculpe chegar desta forma em um momento tão pesado. Por enquanto, não vou mais incomodar.
Ele saiu pelo corredor, desaparecendo na luz fluorescente do hospital, deixando Jessy sozinha com o cartão da Widmore e a sensação de que, pela primeira vez, o passado estava lhe oferecendo uma saída.
De repente, a temperatura caiu drasticamente. O ar frio da noite tornou-se gélido, fazendo a respiração de Jessy virar vapor. As luzes de segurança do pátio zumbiram e piscaram violentamente.
— Olá, Doutora.
Jessy deu um pulo, o coração disparando.
Encostado na parede de tijolos, onde não havia ninguém segundos atrás, estava um jovem. Ele era loiro, usava um capuz e jeans rasgados. Ele tinha uma semelhança inegável com Liam Pace, mas havia algo diferente. Algo... estático.
— Você... — Jessy levantou-se. — Você é o irmão do Liam? O músico?
O jovem sorriu, um sorriso torto e carismático. — O próprio. Charlie Pace. Baixista, compositor e, atualmente, falecido.
Jessy recuou, batendo as costas na grade. — Isso não é engraçado. O Liam me disse que o irmão dele morreu no acidente do Oceanic anos atrás.
— E morreu. — Charlie desencostou da parede. Ele não andava; ele parecia deslizar, e o chão sob seus pés não fazia barulho. — Mas eu estou aqui. E você... você consegue me ver.
Ele se aproximou, e Jessy sentiu um frio absoluto emanando dele. — Interessante... — Charlie inclinou a cabeça, analisando-a. — Você tem o brilho, não tem?
— O quê? — Jessy estava tremendo, a mente tentando racionalizar a alucinação. — Eu estou cansada. Eu preciso ir para casa.
— Não vá ainda. — A voz de Charlie ecoou, não no ar, mas dentro da cabeça dela. Era autoritária e suave ao mesmo tempo. — Eu preciso que você me faça dois favores, Doutora.
Jessy tentou se mover, mas suas pernas não obedeciam. Ela estava paralisada pelo medo e pelo fascínio. — Favores?
— Primeiro: diga ao Liam que eu sinto muito. E diga que eu amo a Megan. Que eu cuidei dela de longe esse tempo todo. — A expressão de Charlie ficou triste.
— Você quer que eu dê um recado seu? — Jessy sussurrou. — Eles vão achar que eu sou louca.
— Segundo favor. — Charlie ignorou a objeção, ficando sério. Ele apontou para o cartão preto que Richard deixara. — Aceite a proposta.
— O quê? Por quê?
— Apenas aceite. — Charlie olhou para ela com urgência. — Você precisa ir para onde aquele homem quer te levar. É lá que você deve estar. É importante.
— Importante para quem?
— Para todos nós. — Charlie piscou. — Faça isso, Jessy. Vá até a Widmore.
As luzes do pátio estouraram com um estampido seco. O pátio mergulhou na escuridão total por um segundo.
Quando a luz de emergência vermelha acendeu, Jessy estava sozinha.
Não havia Charlie. Não havia pegadas. Apenas o frio persistente e o cartão da Widmore brilhando na penumbra.
Jessy pegou o cartão com a mão trêmula. Ela olhou ao redor, o coração martelando. Ela não sabia se estava louca ou se o universo acabara de se abrir para ela, mas a mensagem fora clara. O fantasma de Charlie Pace queria que ela fosse.
A Ilha — Presente
Jessy abriu os olhos, puxando o ar com força como se estivesse emergindo de um mergulho profundo.
A selva voltou num turbilhão. Ela estava caída na lama, com Yago sacudindo seu ombro.
— Doutora! — gritava o soldado. — Você apagou!
Jessy piscou, vendo o rosto preocupado de Yago. O fantasma de Charlie se fora, mas a memória desbloqueada queimava em sua mente. Ela finalmente entendia. Não fora apenas a oferta de Richard. Fora um comando do além.
— Eu me lembro... — sussurrou ela, sentindo o arrepio na espinha. — Eu vim porque ele pediu.
— Quem pediu? — perguntou Yago, confuso.
Jessy olhou para a escuridão da mata. Ela sabia agora que não estava sozinha. Havia vozes na ilha, e ela podia ouvi-las.
— O irmão do esposo da paciente. — Jessy levantou-se, limpando a lama com uma determinação nova. — Vamos, Yago. Temos que encontrar o Aaron. Eu tenho certeza de que ele precisa de nós.
Yago franziu a testa, mas não questionou a súbita mudança de atitude dela. Ele apenas assentiu e retomou a liderança, guiando uma mulher que acabara de descobrir que seus olhos podiam ver muito mais do que a medicina podia explicar.
Enquanto isso, na fonte, a luz dourada que emanava da gruta não era constante; ela pulsava, febril e irregular, como o batimento cardíaco de alguém doente. O zumbido eletromagnético era tão forte que fazia os dentes vibrarem.
— O que é isso? — Indagou Roger, observando a luz vindo da gruta.
Hugo Reyes estava suando frio. Suas mãos tremiam enquanto ele observava Roger encarar a luz com ceticismo. Hugo sabia que não tinha muito tempo. Osíris estava chegando. Ele sentia a escuridão roçando a barreira da ilha.
— Ben, a água — ordenou Hugo, a voz urgente.
Ben mergulhou uma cuia de madeira antiga no riacho brilhante. Ele se aproximou de Roger, mas hesitou por um segundo, olhando para Hugo com dúvida. O plano era apenas mostrar a Fonte para convencer Roger, não iniciá-lo. Mas o olhar de Hugo era irredutível.
Ben entregou a cuia a Roger. — Beba.
Roger olhou para o líquido turvo e brilhante. — E o que exatamente vai acontecer? Eu vou criar asas?
— Apenas beba, Roger — insistiu Hugo, dando um passo à frente. — Precisamos que você aceite o cargo. Agora.
— Cargo? Que cargo? — Roger recuou, desconfiado. — Eu não vou beber essa água radioativa até me explicarem que diabos está acontecendo.
— Por que não apenas beber e ver o que acontece? — questionou Ben, impaciente, mas curioso para ver até onde Hugo iria.
— Porque isso é loucura! — Roger jogou a cuia no chão, derramando parte da água. — Vocês são uma seita de malucos. Eu tenho uma missão real lá fora.
Hugo, num movimento rápido e surpreendente, abaixou-se, pegou a cuia com o resto da água e a empurrou contra o peito de Roger. — Osíris está vindo, Roger! Se ele passar pela porta, todo mundo morre. Aaron, Clementine, seus homens... todos. Eu não posso detê-lo sozinho. Eu preciso de um general.
Roger viu o medo genuíno nos olhos de Hugo. Por um momento, o mercenário vacilou. — Se eu beber essa porcaria, vocês calam a boca e me deixam trabalhar?
— Beba — implorou Hugo. — E proteja a ilha.
Roger revirou os olhos, pegou a cuia e virou o líquido de um gole só. Ele limpou a boca com as costas da mão, fazendo uma careta. — Gosto de terra. Satisfeitos?
Hugo recitou as palavras antigas, apressado: — Agora, você é como eu.
O silêncio reinou na caverna. A luz piscou, instável. Hugo olhou para Roger, esperando a mudança, o peso saindo de seus ombros e passando para o mercenário.
Mas nada aconteceu.
Roger olhou para as próprias mãos, depois para Hugo. — E então? Cadê os superpoderes?
Hugo baixou os ombros, derrotado. A ilha não aceitara a oferta. — Não funcionou... — sussurrou Hugo. — Você não acreditou. O ritual exige aceitação, Roger. Não é apenas água.
— É claro que não funcionou, seu gordo! — Roger jogou a cuia longe. — Porque é só água suja! Eu perdi tempo com vocês.
Roger virou as costas para sair, furioso.
— Não foi culpa sua, Roger.
A frase de Hugo parou o mercenário na saída da gruta. Roger congelou. Ele se virou lentamente, a expressão de escárnio substituída por uma máscara de choque. — O que você disse?
Hugo olhava para um ponto vazio atrás de Roger. — Julia. Ela está bem ali, atrás de você.
Ben olhou para o espaço vazio. Ele não via nada, mas sabia que Hugo via.
— Ela está dizendo que não foi culpa sua — continuou Hugo, a voz suave. — O acidente... ela não te culpa. Ela diz que você tem um bom coração, Roger. Que você pode proteger este lugar.
Roger avançou sobre Hugo, agarrando o colarinho da camisa dele com violência. — Cala a boca! Como você sabe o nome dela? Você leu minha ficha?
— Eu estou vendo ela, cara. — Hugo não recuou. — Ela está sorrindo. Ela queria que você aceitasse.
— Eu a matei! — Roger gritou, a dor rompendo a barreira do soldado. — Eu estava dirigindo! Fui eu! Pare de falar dela!
Roger empurrou Hugo contra a parede úmida da caverna e disparou em direção à selva, fugindo não de uma entidade, mas do colapso de sua própria realidade racional.
Ben observou a silhueta de Roger desaparecer na mata, depois virou-se para Hugo. Seus olhos eram fendas de puro julgamento. — Você perdeu o juízo, Hugo?
— O quê? — Hugo ajeitou a camisa, o peito subindo e descendo com força. — Eu fiz o que achei certo.
— Por que você tentou o ritual com ele agora? — Ben apontou para a saída escura. — O plano era o Aaron! O garoto é o candidato por direito, o sangue escolhido. Roger é apenas um soldado de aluguel.
— O Aaron não está pronto! — Hugo gritou, e sua voz vibrou nas paredes da gruta. — Ele ainda é um menino assustado fugindo de visões. Se o Osíris chegar hoje, ele esmaga o Aaron como se fosse nada. Eu precisava de alguém treinado. Alguém que soubesse o que é uma trincheira. Roger era a nossa linha de frente.
— E agora você o quebrou. E profanou a água. — Ben balançou a cabeça, a voz gotejando desprezo. — Você está agindo pelo medo, Hugo. E o medo é o pai das decisões estúpidas. Eu vou atrás do Aaron. Alguém nesta ilha precisa fazer o trabalho direito.
Ben saiu da gruta, deixando Hugo envolto na penumbra dourada e no som da água que corria, eterna.
Hugo olhou para a luz pulsante da Fonte, sentindo o peso de mil anos sobre seus ombros. — Qual é! — gritou ele para o teto da caverna, a frustração ecoando nas profundezas. — Eu estou tentando salvar todo mundo aqui! Vocês me dão regras que mudam, um monstro nas minhas costas e nenhum manual de instruções? Parece que vocês querem o fim do mundo!
Ele chutou uma pedra, o som ressoando como um tiro. — Eu não pedi por isso. Eu só queria um balde de frango frito e uma TV, droga.
Hugo virou as costas e saiu, resmungando, sentindo que o destino era uma piada de mau gosto.
Assim que o silêncio retornou, a luz da Fonte sofreu uma mutação. O brilho dourado foi substituído por uma incandescência branca e fria, tão pura que parecia sólida. O zumbido magnético cessou, dando lugar a um silêncio absoluto, onde nem mesmo o som da água se atrevia a existir.
Das profundezas da luz, como se caminhasse entre dois mundos, emergiu uma figura.
Ele vestia trajes que o tempo havia esquecido: couro curtido, linho antigo e ornamentos de bronze que brilhavam sob a radiação da Fonte. Uma máscara de feições ancestrais cobria a parte superior de seu rosto, mas sua boca estava descoberta, revelando um semblante que não pertencia a esta era. Era o primeiro guardião novamente. O Primeiro Herdeiro.
O guerreiro moveu-se com uma graça inumana. Ele se agachou diante da cuia que Roger jogara no chão. Suas mãos, marcadas por cicatrizes de batalhas que a história não registrou, pegaram o objeto com uma reverência quase religiosa.
Ele colocou a cuia cuidadosamente sobre a pedra central, alinhando-a com a precisão de quem conhece a geometria sagrada daquele lugar.
O guerreiro olhou para a saída por onde Hugo e Ben haviam partido. Um sorriso enigmático e triste curvou seus lábios.
Ele deu um passo de volta para a luz. Antes que sua silhueta se dissolvesse completamente, ele murmurou algo em uma língua morta, um som que parecia uma prece e uma despedida.
A luz brilhou uma última vez e, em um piscar de olhos, a caverna estava vazia. Apenas a cuia permanecia lá, como uma prova silenciosa de que a Ilha nunca esteve realmente desprotegida.
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