Lost: O Primeiro Herdeiro

17 LIVRO 2 — CAPÍTULO 17: O SOM DO ARREPENDIMENTO



Aaron Littleton emergiu da mata fechada como um espectro. Suas roupas estavam rasgadas, o rosto arranhado por galhos e coberto de suor e terra. Ele caminhava com a urgência de quem tem um cronômetro disparado na cabeça.

A cada passo, o peso da pistola 9mm em seu bolso batia contra a coxa, um lembrete físico do pacto que fizera com o diabo. Entregar Ben. Salvar Clementine. Parecia simples na teoria, mas agora, vendo as luzes fracas da Vila da Dharma à frente, a realidade do que ele estava prestes a fazer o atingiu.

Ele precisava encontrar Ben. Sozinho. Sem testemunhas.

— Aaron!

A voz feminina cortou seus pensamentos. Aaron girou, a mão indo instintivamente para o bolso, mas parou.

Jessy Burke e o soldado Yago saíram de uma trilha lateral. A médica correu até ele, o alívio estampado no rosto exausto.

— Graças a Deus... — Jessy segurou os ombros dele, examinando-o em busca de ferimentos. — Nós estávamos te procurando há horas. Onde está a Clementine? Ela estava com você?

Aaron recuou, desvencilhando-se do toque dela. Ele não podia olhar nos olhos de Jessy. Não com o que ele estava prestes a fazer. — Ela... ela não está comigo.

— Onde ela está, Aaron? — insistiu Jessy, o pânico voltando.

— Eu preciso encontrar o Ben — disse Aaron, a voz rouca. Ele olhou por cima do ombro de Jessy, varrendo o perímetro. — Onde ele está? Eu preciso falar com ele agora.

Yago, que mantinha o fuzil em posição de descanso, deu um passo à frente. O instinto militar do mercenário apitou. Aaron não estava agindo como um garoto resgatado; estava agindo como alguém em missão.

— O Ben não está aqui — respondeu Yago, frio. — O Roger saiu para caçá-lo. O que aconteceu com a garota, Aaron?

Aaron passou a mão pelo cabelo sujo, a imagem de Clementine na jaula queimando sua mente. — Ela foi pega. Pelo Wilbert. E por um cara chamado Walt.

— Wilbert? Ele está na ilha? — Jessy franziu a testa, estava assustada.

— Eles a pegaram — continuou Aaron, falando rápido, atropelando as palavras. — Eles disseram que se eu não fizer o que eles querem, eles vão matá-la.

— O que eles querem? — perguntou Jessy.

Aaron hesitou. Ele olhou para Yago, depois para a Vila. — Eles querem uma troca.

Yago estreitou os olhos. Ele viu o volume no bolso da calça de Aaron. O formato inconfundível de um cabo de pistola. E a mão de Aaron tremia perto dele.

Num movimento fluido, Yago levantou o fuzil, apontando diretamente para o peito de Aaron.

— Solte a arma, rapaz — ordenou Yago.

— O que é isso, Yago?! — gritou Jessy, colocando-se entre eles. — Ele é o Aaron! Baixe isso!

— Saia da frente, Doutora! — Yago não piscou. — Ele está armado. E está escondendo alguma coisa. Coloque a arma no chão, Aaron! Agora!

Aaron congelou. O coração batia na garganta. Ele puxou a pistola do bolso, mas não para atirar, apenas num gesto de pânico defensivo.

— Eu não posso... — balbuciou Aaron, levantando a arma trêmula. — Eu preciso salvar ela!

— Aaron, não! — gritou Jessy.

Yago destravou o fuzil. O dedo indicador pressionou o gatilho.

CABUM!

O som de um tiro rasgou a noite. Mas não veio do fuzil de Yago, nem da pistola de Aaron.

O peito de Yago explodiu em vermelho. O mercenário olhou para baixo, surpreso, antes de seus joelhos cederem. Ele caiu de cara na lama, morto antes de tocar o chão.

Jessy gritou, cobrindo a boca com as mãos, o sangue de Yago respingado em suas roupas já sujas.

Aaron girou na direção do disparo.

Saindo das sombras de uma casa em ruínas, Benjamin Linus caminhava calmamente, engatilhando uma espingarda de caça fumegante. Ele olhou para o corpo de Yago com a indiferença de quem mata um mosquito.

— Abaixe a arma, Aaron — disse Ben, com a voz de um professor repreendendo um aluno. — Eu sei que você não sabe usar isso. Você vai acabar atirando no próprio pé.

Aaron olhou para Ben, depois para a pistola em sua mão. Era a sua chance. Ele tinha Ben ali, na sua frente. Era só render o homem e levá-lo para Walt.

Mas suas mãos tremiam incontrolavelmente. A violência súbita da morte de Yago o paralisara.

— Abaixe — repetiu Ben, parando a dois metros dele. — Antes que Roger ouça o tiro e venha terminar o serviço.

Aaron soltou a pistola. Ela caiu na grama com um baque surdo.

Ben chutou a pistola para longe e olhou para Aaron nos olhos. — O que te faz pensar que eu não atiraria em você também, Ben? — Aaron perguntou, tentando manter a voz firme, embora estivesse à beira das lágrimas.

— O fato de que você não é um assassino, Aaron. Ainda não. — Ben olhou para Jessy, que estava ajoelhada ao lado do corpo de Yago, em estado de choque. — E o fato de que você precisa de mim.

— Eu não preciso de você — cuspiu Aaron. — Eu preciso te entregar.

Ben arqueou uma sobrancelha. — Entregar? Para o Wilbert? Aaron, seja lá o que Wilbert DeGroot te prometeu, ele não vai cumprir. Ele vai matar a Clementine assim que tiver o que quer, e depois vai matar você.

— Não foi o Wilbert que fez a proposta — disse Aaron, olhando fundo nos olhos frios de Ben.

Ben parou. O sorriso presunçoso vacilou por um milésimo de segundo. — Quem foi?

— Foi um cara chamado Walt — revelou Aaron. — Walt Lloyd.

O efeito foi imediato. A cor drenou do rosto de Ben. A postura relaxada desapareceu, substituída por uma tensão rígida. Pela primeira vez, Aaron viu medo real nos olhos de Benjamin Linus.

— O Walt... — Ben sussurrou o nome como uma maldição. — Ele voltou.

— Ele quer você, Ben — continuou Aaron, percebendo que tinha acabado de ganhar uma vantagem. — Ele disse que solta a Clementine se eu te levar até ele. Vivo. Para ele poder se vingar.

Ben olhou para a floresta escura, onde os sussurros pareciam ficar mais altos. Ele sabia que Wilbert era um problema corporativo, mas Walt... Walt era um problema místico. E um problema pessoal.

— Então estamos sem tempo — disse Ben, recuperando a compostura com esforço. — Porque se o Walt está aqui, a Ilha está prestes a ficar muito mais perigosa do que qualquer mercenário com um fuzil.

Ben olhou para Aaron. — Vamos, garoto. Se você quer salvar a garota, vai ter que confiar no monstro.

Jessy levantou-se, as mãos sujas com o sangue de Yago, olhando para os dois com horror. — Aaron. Você está louco? Ele acabou de matar um homem!

— Ele ia matar o Aaron, Doutora — Ben respondeu friamente. — Escolha um lado. O tempo das boas ações acabou.

Ben virou as costas e começou a caminhar, não para fugir, mas para se preparar. Aaron olhou para a pistola em sua mão, depois para Jessy, e finalmente o seguiu. A caçada havia mudado. Agora, eles eram aliados por necessidade.

Um pouco longe dali, Bianca e Marcel caminhavam apressados pela trilha escura, o feixe da lanterna de Marcel cortando a névoa baixa. O livro Bad Twin queimava dentro da mochila de Bianca como se fosse radioativo. Eles tinham visto a Cerca Sônica, tinham entendido que estavam em uma prisão, e agora a prioridade era encontrar o restante do grupo.

Attendez... — Marcel parou bruscamente, erguendo a mão. — Você ouviu isso?

Bianca prendeu a respiração. No meio do zumbido dos insetos, um som humano e desesperado rompeu o silêncio.

— Alguém! Por favor! Socorro!

A voz vinha de uma estrutura de madeira apodrecida, quase engolida pela vegetação, a cerca de cinquenta metros da trilha principal. Uma antiga estação de vigilância ou um galpão de ferramentas da Dharma.

— É o Bryan — reconheceu Bianca.

Sem pensar duas vezes, eles correram em direção à cabana, afastando samambaias e teias de aranha. Marcel chutou a porta, que estava apenas encostada, e a luz da lanterna iluminou o interior mofado.

Miguel Cortez estava amarrado a uma cadeira de madeira no centro da sala, os pulsos presos com cordas de nylon que cortavam sua circulação. Ele estava suado, pálido e com uma expressão de terror genuíno.

— Bryan! — Bianca correu até ele, sacando um canivete do bolso para cortar as amarras.

— Graças a Deus... — Miguel arfou, os olhos arregalados varrendo os cantos escuros da sala. — Vocês precisam me tirar daqui. Rápido.

— Quem fez isso com você? — indagou Marcel, ajudando a soltar os nós dos pés. — Onde está o resto da equipe?

— Foi o Ben. — Miguel cuspiu o nome. — Ben Linus. Ele é louco. Ele me atraiu até aqui, disse que eu era um espião... ele ia me matar.

Bianca cortou a última corda e Miguel levantou-se, esfregando os pulsos doloridos. — Ele é perigoso, Bianca. Ele está jogando com a gente desde o começo. Precisamos sair daqui antes que ele volte.

— Vamos voltar para o acampamento — sugeriu Marcel, a lógica prevalecendo. — O Roger está lá. Ele tem armas e homens. Ele vai nos proteger.

— Não! — Miguel agarrou o braço de Marcel com força excessiva. — Não podemos voltar para a Vila. O Ben controla aquele lugar. Ele vai matar todos nós um por um. Roger não pode detê-lo.

— Então o que você sugere? — Bianca perguntou, desconfiada, mas lembrando-se dos avisos de Edward Widmore sobre os perigos da ilha.

— O helicóptero. — Miguel olhou para a porta, calculista. — O helicóptero ainda está na clareira norte. Se chegarmos lá, posso tirar a gente daqui. Podemos voar até o navio e pedir resgate.

Marcel e Bianca trocaram um olhar. A ideia de sair daquela ilha maldita agora mesmo era tentadora demais. Eles eram acadêmicos, não soldados. A promessa de segurança falou mais alto que a lealdade ao grupo.

— Você consegue voar no escuro? — perguntou Bianca.

— Eu sou o melhor piloto que vocês têm. — Miguel mentiu, ou pelo menos, omitiu que seu plano real era levá-los direto para Wilbert. — É a nossa única chance. Vocês vêm ou ficam para esperar o Ben voltar com a espingarda?

O som de um tiro ecoou longe, vindo da direção da Vila (o tiro que matou Yago).

Aquele som foi a decisão.

— Vamos para o helicóptero — disse Marcel, ajustando os óculos.

Miguel sorriu, um sorriso de alívio que escondia suas verdadeiras intenções. — Sigam-me. Eu conheço o caminho.

Os três desapareceram na mata, afastando-se de Aaron e Jessy, correndo em direção a uma armadilha diferente, guiados por um homem que não era quem dizia ser.

Enquanto isso, próximo dali, Roger marchava, não caminhava. Ele impunha um ritmo brutal, esmagando a vegetação sob suas botas táticas, tentando colocar a maior distância possível entre ele e a caverna maldita onde Hugo Reyes tentara lhe dar "água mágica".

— Loucos. Todos eles — resmungou Roger, checando a carga do fuzil pela terceira vez. — Fonte de luz... guardiões... Maldito Desmond, eu devia ter ficado na Escócia.

Mas, por mais rápido que andasse, as palavras de Hugo o perseguiam como um cão de caça. "Julia... ela está sorrindo para você... ela diz que não foi culpa sua."

Roger parou, apoiando-se em uma árvore, a respiração irregular. A raiva queimava em seu estômago. Como aquele gordo sabia o nome dela? Como ele sabia do acidente?

Foi então que o som mudou.

O zumbido natural da selva — grilos, sapos, vento — foi cortado abruptamente, como se alguém tivesse desligado um interruptor. Um silêncio de vácuo tomou conta do lugar.

E então, vieram os sons.

Ssss... devagar, Roger... ssss... olhe para a estrada...

Não eram vozes externas. Parecia estática de rádio misturada com vozes humanas, vibrando dentro de seu ouvido interno.

Roger girou, o fuzil colado ao ombro, varrendo o perímetro com precisão militar. — Quem está aí? — rosnou ele. — Saiam das sombras! Eu vejo vocês!

Ninguém respondeu. Apenas os sussurros, que aumentaram de volume, sobrepondo-se.

...você bebeu... o assassino... curva acentuada... ssss...

Roger levou a mão ao rádio comunicador no colete. — Yago? Câmbio. Tem interferência na linha. Vocês estão copiando?

Apenas estática respondeu. E, no meio do chiado, o som inconfundível de pneus cantando no asfalto e vidro se estilhaçando.

Roger arrancou o fone do ouvido e o jogou no chão. — Sai da minha cabeça!

Ele começou a girar, tonto. O cheiro da floresta sumiu, substituído pelo cheiro acre de gasolina e borracha queimada. A luz da lua, que filtrava pelas folhas, pareceu mudar de cor, tornando-se amarelada e dura, como faróis de um caminhão na contramão.

E lá estava ela.

Parada no meio da trilha lamacenta, vestindo o vestido azul que usava na noite de 1999. Não havia sangue, não havia ferimentos. Ela estava perfeita, intocada pelo tempo ou pela morte.

Julia.

Ela olhava para ele com um sorriso enigmático, sereno e terrível ao mesmo tempo.

— Olá, Roger — disse ela. A voz não tinha eco; era clara como cristal.

O fuzil escorregou das mãos de Roger e caiu na lama. Suas pernas, treinadas para marchar por dias, cederam. Ele caiu de joelhos, tremendo violentamente.

Acampamento de Treinamento do Regimento Real da Escócia — Maio de 1996

O sol de maio era enganoso; brilhava forte, mas o vento que varria o pátio de cascalho cortava como navalha. Desmond Hume e Roger Miles estavam sentados nos degraus dos fundos do alojamento, com as botas desamarradas e as mãos sujas de óleo de fuzil.

Eles dividiam um cigarro barato, aproveitando os dez minutos de intervalo antes da próxima inspeção.

Desmond tragou profundamente, soltando a fumaça com um suspiro que parecia carregar o peso do mundo. Ele tirou uma foto amassada do bolso da farda — Penelope Widmore, sorrindo em frente a um barco.

— Eu vou terminar com ela, Roger — murmurou Desmond, olhando para a foto como se fosse uma sentença de morte.

Roger, que limpava a graxa das unhas com um canivete, parou e olhou para o amigo. — De novo com isso, Hume? Semana passada você ia pedir a mão dela. O que mudou?

— A realidade mudou. — Desmond guardou a foto rapidamente, como se tivesse vergonha dela. — Eu olhei para o pai dela no último jantar. Charles Widmore. O homem compra empresas como se fosse sapatos. E olhe para mim... sou um soldado raso tentando virar cabo enquanto limpo latrinas. Eu não mereço a Penny, Roger. Eu sou uma âncora no pescoço dela.

Roger riu, balançando a cabeça. — Você é patético quando fica melodramático, sabia?

— É sério! — Desmond levantou-se, agitado. — Como eu posso olhar na cara dela e prometer um futuro? "Querida, hoje comi feijão enlatado e levei gritos de um sargento"? Ela é realeza, Roger. Eu sou plebe.

— Senta aí, Hume. — Roger puxou a manga da farda de Desmond, obrigando-o a sentar novamente. — Deixa eu te contar uma coisa sobre "merecer".

Roger olhou para o horizonte, onde os blindados estavam estacionados. Seu olhar, geralmente duro, suavizou. — Quando eu conheci a Julia... ela estava no segundo ano de medicina. Notas perfeitas, futuro brilhante, pais que queriam que ela se casasse com um advogado ou um médico. E eu? Eu era um mecânico que mal sabia soletrar "estetoscópio".

Desmond olhou para o amigo, surpreso. — Você nunca me contou isso.

— Porque não importa. — Roger deu de ombros. — Eu me sentia exatamente como você. Um lixo. Inferior. Achei que estava estragando a vida dela. Tentei me afastar duas vezes.

— E o que aconteceu?

— Ela bateu na minha porta na chuva e me chamou de covarde. — Roger sorriu com a lembrança. — Ela disse: "Roger, eu não estou escolhendo o seu saldo bancário. Estou escolhendo o homem que me faz rir quando estou exausta".

Roger virou-se para Desmond, o tom ficando sério. — É assim que funciona, irmão. Você olha para o Charles Widmore e vê o dinheiro. A Penny olha para você e vê o homem.

— Mas o velho me odeia, Roger. Ele disse que eu não tenho honra.

— O velho é um idiota com uma carteira gorda. E você é um idiota inseguro. — Roger deu um soco leve no ombro de Desmond. — Talvez ela tenha batido forte a cabeça quando criança e por isso ela gosta de você, mas ela te escolheu. Pare de fugir. Pare de insultar a escolha dela achando que você sabe o que é melhor. Dinheiro acaba. Patentes mudam. Mas encontrar uma mulher que olha para você do jeito que a Penny olha? Isso é raro.

Desmond ficou em silêncio, absorvendo as palavras. A covardia que sempre o impulsionava a correr vacilou diante da certeza de Roger. — Você acha mesmo?

— Eu sei. — Roger apagou o cigarro na bota. — Julia e eu... não temos muito, mas temos um ao outro. E te digo, Desmond: no final do dia, é a única coisa que importa.

Um apito estridente cortou o ar, seguido pelo grito rouco do Sargento-Mor. — MILES! HUME! O recreio acabou, princesas! Quero vocês na pista de obstáculos em trinta segundos ou vão limpar banheiros com a língua!

Roger levantou-se num salto, estendendo a mão para Desmond. — Vamos, soldado. O dever chama. E depois, você vai ligar para a Penny e pedir desculpas por ser um frouxo.

Desmond segurou a mão de Roger e levantou-se, sorrindo pela primeira vez naquele dia. — Sim, senhor.

Eles correram em direção ao pátio, ombro a ombro, sem saber que o destino separaria seus caminhos de forma cruel: um perderia o amor para a morte, e o outro perderia o amor para o tempo.

A Ilha – Presente

Roger Miles estava de joelhos na lama, as mãos pressionando as têmporas com tanta força que parecia querer esmagar o próprio crânio. Ele tentava expulsar a imagem à sua frente, forçando seu cérebro lógico e militar a retomar o controle.

— Você não é real... — grunhiu ele, a voz rouca. — É o estresse. É aquela água maldita que o Hugo me deu. Saia da minha cabeça!

— Eu não estou na sua cabeça, Roger. — A figura de Julia deu um passo à frente. O vestido azul que ela usava na última noite em que se viram estava impecável, sem um amassado sequer, contrastando violentamente com a sujeira da selva. — Estou aqui. Agora.

Ela estendeu a mão. Roger olhou para os dedos dela, lembrando-se de como planejava colocar um anel ali um dia, um dia que nunca chegou.

Vencido pela culpa que carregava há anos e pela quebra da realidade, Roger parou de lutar. Ele se levantou cambaleando e a puxou para um abraço desesperado, como um homem se afogando agarrando uma boia. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro familiar do perfume barato que ela adorava... misturado com um odor sutil de ozônio e terra molhada.

— Eu sinto muito... — Roger chorou, o corpo inteiro tremendo nos braços da aparição. — Deus, Julia, me perdoe. Eu sinto tanto.

— Sente? — A voz dela mudou ligeiramente. Perdeu a suavidade e ganhou uma ressonância estranha, fria, como o eco de uma caverna. — Sente pelo quê, Roger?

Roger afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, a vergonha queimando seu rosto. — Por ter fugido. Eu entrei em pânico quando vi a fumaça... eu ouvi você gemer e eu... eu só corri. Eu te deixei lá sozinha no carro. Eu sou um covarde.

Julia o encarou sem piscar. A expressão de amor começou a se dissolver em algo vazio, analítico. — Você correu para salvar a própria pele. Sempre o sobrevivente, não é, Roger?

Roger franziu a testa. Aquilo não parecia algo que sua doce Julia diria. — Como você pode estar aqui?

A mulher sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Era o sorriso de um predador brincando com a comida. — Eu não estou aqui de verdade, Roger. — Ela inclinou a cabeça. — Eu sou apenas o que você deixou para trás na estrada.

Um fio de sangue escuro e espesso escorreu da narina esquerda dela. Depois outro, pelo canto da boca.

Roger recuou, horrorizado, soltando-a como se ela queimasse. — Julia?

— Você não ficou para ver o final, ficou? — A voz dela agora era um sussurro múltiplo, como o som da floresta. — Você não viu o fogo chegar em mim.

O sangue começou a jorrar, manchando o vestido azul de vermelho vivo. A pele do rosto dela começou a escurecer e rachar, como se estivesse sendo consumida por chamas invisíveis bem na frente dele.

— Pare! — gritou Roger, cobrindo os olhos, incapaz de encarar o resultado de sua covardia.

— Olhe para o que você fez! — gritou a coisa que usava o rosto carbonizado de sua namorada.

O mundo girou. O cheiro de gasolina e carne queimada invadiu as narinas de Roger com violência, apagando o cheiro da floresta. O chão sob seus pés deixou de ser lama e tornou-se asfalto frio.

Roger abriu os olhos e gritou, pois não estava mais na ilha.

Londres, Reino Unido — Julho de 1996

A chuva caía sobre Londres como uma cortina de chumbo, transformando o asfalto em espelhos negros. Roger Miles saiu do quartel sentindo-se invencível. Ele ajeitou o colarinho da camisa civil no espelho do carro, sorrindo para o próprio reflexo. Hoje era a noite.

O restaurante italiano era pequeno, iluminado por velas e cheirando a alho e vinho tinto. Roger encheu a taça de Julia, observando como a luz dourada refletia nos cabelos loiros dela.

— Eu sinceramente não entendo o Desmond — disse Roger, cortando seu bife com precisão militar. — O cara é um soldado treinado, mas treme igual vara verde perto daquela garota, Penelope.

Julia girou a taça de vinho, apoiando o queixo na mão. — É amor, Roger. O amor assusta.

— Não é amor, é insegurança. — Roger riu, confiante. — Todo dia ele chora as mesmas pitangas: "Oh, ela é rica, eu sou pobre". E eu dou o mesmo conselho: "Seja homem, Hume".

— Claro. — Julia suspirou, desviando o olhar para a janela embaçada.

Roger parou com o garfo no meio do caminho. — O que foi?

— Roger, eu adoro você. E entendo que a seu "bromance" com o Desmond é sagrado. — Ela olhou nos olhos dele, séria. — Mas estamos aqui há uma hora e você só falou dele. Eu queria que falássemos sobre nós.

Roger piscou, surpreso. Ele largou os talheres e inclinou-se sobre a mesa, pegando a mão dela. — Sobre nós? — O sorriso dele mudou, perdendo a arrogância e ganhando ternura. — Julia, eu não falo de nós porque, para mim, já é um fato consumado. Eu quero passar o resto da minha vida irritando você.

Julia sorriu, aquele sorriso que fazia o estômago de Roger dar um nó. — É uma promessa, soldado?

— É uma missão.

Mais tarde, na porta do apartamento dela, a chuva continuava, mas eles não se importaram. O beijo foi urgente, desesperado, selando o pacto silencioso de um futuro juntos. Roger entrou, e a noite se tornou uma daquelas memórias que um homem guarda para aquecer a alma nos dias frios.

Na manhã seguinte, a realidade veio na forma de um despertador ignorado.

Roger acordou num salto, vendo o relógio marcar 07:15. A alvorada no quartel era às 06:00.

— Droga! — Ele pulou da cama, vestindo as calças enquanto pulava num pé só. Julia resmungou algo na cama, puxando o lençol, linda e sonolenta. Roger beijou a testa dela rapidamente. — Te ligo depois!

Ele dirigiu como um louco, mas não foi o suficiente. Quando chegou ao pátio, seu pelotão já estava em formação, fazendo flexões na lama sob a chuva fria.

O Sargento-Mor parou na frente dele, o rosto vermelho de fúria. — Olha só quem resolveu aparecer! A Bela Adormecida!

— Desculpe, Sargento! — Roger bateu continência, ofegante.

— O pelotão inteiro está pagando pelo seu sono de beleza, Miles! — gritou o sargento. — Junte-se a eles! Mais cinquenta, todos vocês!

Enquanto seus braços tremiam na lama e seus companheiros o xingavam baixinho, Roger sorriu para a grama molhada. Valera a pena. Cada segundo com Julia valera a pena.

Três dias depois — A Estrada

A tempestade piorara. Não era mais chuva; era um dilúvio bíblico. O limpador de para-brisas do carro de Roger lutava freneticamente, mas mal conseguia limpar a água.

Roger dirigia tenso, as mãos apertando o volante. No bolso do casaco, uma caixa de veludo pequena pesava. Ele ia pedi-la em casamento naquela noite. Tinha reservado um chalé fora da cidade. Nada ia estragar aquilo.

— Roger, por favor... — A voz de Julia estava trêmula. Ela segurava a alça de segurança do teto. — Não dá para ver nada. Pare o carro. Vamos esperar passar.

— Vai passar logo. O chalé é a vinte minutos daqui. — Roger acelerou, teimoso. Sua confiança militar dizia que ele podia vencer a natureza.

— Não é seguro! — Julia gritou quando o carro aquaplanou levemente. — Roger, pare agora! Eu estou com medo!

— Eu sei o que estou fazendo, Julia! Pare de gritar! — Roger virou-se para ela por um segundo, irritado com a interrupção de seu plano perfeito.

Foi o segundo fatal.

Quando ele olhou para frente, dois faróis cegantes surgiram da escuridão e da chuva. Um caminhão invadira a pista contrária ou talvez Roger tivesse invadido. Não importava.

— ROGER! — gritou Julia.

Roger puxou o volante.

O som foi o fim do mundo. Metal rasgando metal, vidro explodindo, e um estrondo que sacudiu os ossos de Roger. O carro girou, capotou e bateu contra o guard-rail com uma violência final.

Depois, o silêncio. Apenas o som da chuva batendo na carcaça fumegante.

Roger abriu os olhos. Tudo estava girando. Havia sangue em seus olhos.

— Julia? — Ele tentou se mexer, mas o cinto travou. Ele olhou para o lado.

O lado do passageiro não existia mais. A porta estava amassada para dentro. Julia estava lá, a cabeça pendida num ângulo estranho, o lindo vestido azul manchado de vermelho escuro.

— Julia! — Roger soltou o cinto com as mãos trêmulas e se arrastou até ela. — Amor, fala comigo!

Ele tocou o rosto dela. Estava quente, mas ela não se mexia. Havia muito sangue. Sangue saindo de lugares que não deveriam sangrar.

— Não, não, não... — Roger checou o pulso. Fraco. Quase inexistente.

De repente, um cheiro acre invadiu o carro. Fumaça. E logo depois, uma língua de fogo lambeu o capô esmagado.

— Fogo... — Roger sussurrou, o pânico animal tomando conta de seu cérebro.

Ele olhou para a estrada. O caminhoneiro estava debruçado sobre o volante, imóvel. Sirenes distantes começaram a uivar.

— Eu preciso te tirar daqui! — Roger puxou o braço de Julia.

Ela gemeu. Um som gorgolejante, horrível. Suas pernas estavam presas nas ferragens retorcidas. Ele puxou de novo, e ela gritou — um som que não parecia humano.

O fogo aumentou. O calor ficou insuportável no rosto de Roger.

Ele olhou para as chamas. Olhou para Julia presa. Olhou para as sirenes se aproximando.

O medo o engoliu. O medo da morte pelo fogo. O medo da prisão por homicídio culposo. O medo de ver o que ele tinha feito.

— Me perdoa... — Roger soluçou, recuando.

Ele chutou a porta do motorista e rolou para fora, caindo no asfalto molhado. Ele se levantou, cambaleante.

Ele olhou para trás uma vez. O carro estava virando uma bola de fogo. Julia estava lá dentro. Viva ou morta, ela estava lá.

E Roger Miles, o soldado confiante, o homem que prometera protegê-la... virou as costas e correu. Correu para a escuridão da floresta ao lado da estrada, deixando o amor de sua vida queimar na chuva, guiado apenas pela covardia absoluta.

Vila da Dharma – presente

A sala de estar da casa de Ben cheirava a mofo e abandono, mas agora também cheirava a pólvora.

Jessy Burke andava de um lado para o outro, esfregando as mãos como se tentasse limpar o sangue de Yago que já havia secado. Ben Linus estava sentado em uma poltrona de veludo puído, limpando o cano da espingarda com um pano sujo, com a calma de quem limpa talheres após o jantar.

No sofá, Ji Yeon observava tudo. Ela lixava as unhas, as pernas cruzadas, uma expressão de tédio calculado no rosto, como se estivesse em uma reunião de negócios entediante e não no meio de uma zona de guerra.

— Você não precisava matá-lo — disse Jessy, a voz trêmula de raiva. — Ele era um dos nossos. Ele estava apenas seguindo protocolos.

— Ele estava apontando um fuzil para o peito do Aaron — respondeu Ben, sem levantar os olhos da arma. — Protocolos mudam quando a integridade do ativo principal está em risco.

— "Ativo"? — Aaron, que estava encostado na janela vigiando a rua, virou-se bruscamente. — Eu sou uma pessoa, Ben. E eu estava apenas confuso. Eu não ia atirar.

— Mas Yago ia. — Ben fechou a espingarda com um estalo seco. — Eu salvei sua vida, Aaron. Um "obrigado" seria apropriado, mas não espero educação de quem está conspirando com o inimigo. — Ben caminhou lentamente até Aaron. — O que o Walt queria, Aaron? Por que você voltou com uma arma no bolso?

— E importa? — Aaron desencostou da parede, a fúria subindo. — Vocês mentiram para nós desde o começo. Desmond, a Widmore... você.

— Mentimos para protegê-los.

— Mentiram para nos usar! — gritou Aaron. — O Walt me contou a verdade, Ben. Não existe missão científica. Não existe pesquisa geológica. Nós somos Candidatos.

A palavra pairou na sala como uma granada sem pino.

Jessy parou de andar. Ela olhou para Aaron, confusa. — Candidatos? Candidatos a quê?

— A vigias... — respondeu Aaron, olhando com ódio para Ben. — Eles querem que a gente fique aqui para sempre. Guardando uma luz mágica ou qualquer porcaria dessas. Somos substitutos.

Jessy olhou para Ben, esperando uma negativa. — Isso é verdade? A Widmore... o Richard... era tudo mentira?

Ben suspirou, cansado. — Aaron, a situação é mais complexa do que o Walt, em sua mente embaralhada, pode explicar. Espero que você entenda a importância do que guardamos aqui.

— Me dê um motivo — Aaron avançou sobre Ben, a mão fechada em punho — apenas um motivo para eu não te arrastar para a floresta agora e te entregar para o Walt. Ele quer a sua cabeça, Ben. E eu estou muito tentado a dar a ele.

— Aaron, sente-se.

A voz veio da entrada da cozinha. Calma, grave e autoritária.

Todos se viraram. Hugo Reyes estava parado ali, segurando uma barra de cereal antiga da Apollo. Ele parecia cansado, o cabelo grisalho desgrenhado, mas sua presença enchia a sala.

Aaron recuou, pálido. — Você?!

— Quem é ele? — perguntou Jessy, olhando para o homem grande e barbudo que surgira do nada.

Ji Yeon, no sofá, parou de lixar as unhas. Ela olhou para Hugo de cima a baixo e soltou um risinho seco. — Como alguém não notaria uma pessoa do seu tamanho entrando na casa? Vocês são muito distraídos.

Hugo olhou para a garota coreana e sorriu, um sorriso triste. — Isso foi pesado, moça. Você puxou a língua afiada do seu avô, mas tem os olhos da sua mãe.

Ji Yeon congelou. A máscara de indiferença caiu por um segundo. — Você conheceu minha mãe?

— Sun Kwon. — Hugo assentiu. — Uma das mulheres mais fortes que já pisaram nesta ilha. E seu pai, Jin... ele era um bom amigo. Como esquecer?

— Espere um pouco! — Aaron interrompeu, olhando de Hugo para Jessy e Ji Yeon. — Vocês... vocês conseguem vê-lo?

Jessy franziu a testa, olhando para Aaron como se ele fosse louco. — Que pergunta é essa, Aaron? Claro que estamos vendo ele. Ele está ocupando metade da porta.

— É difícil não ver — murmurou Ji Yeon, voltando a roer a unha, agora nervosa.

Aaron sentiu o chão sumir. — Você é real... — sussurrou ele para Hugo. — Você não é um sonho. Você não é uma alucinação da Crise. Você é real.

— Sou tão real quanto você, dude. — Hugo entrou na sala e sentou-se na mesa de centro, que rangeu sob seu peso. — Desculpe pela confusão mental. Eu precisei entrar na sua cabeça antes de te trazer para cá. Era o único jeito.

Aaron bufou, uma mistura de alívio e raiva. — O que está acontecendo, Hugo? Por que estamos aqui? Chega de enigmas. Fale a verdade de uma vez por todas. O Walt estava certo?

Hugo olhou para Ben, que apenas deu de ombros, indicando que o segredo já tinha vazado. Hugo voltou o olhar para os três jovens à sua frente.

— Sim, Aaron. O Walt estava certo. — Hugo apoiou as mãos nos joelhos. — Vocês não são cientistas ou herdeiros corporativos. Vocês são Candidatos. Eu sou o Guardião desta ilha há muito tempo, mas meu tempo acabou. A ilha precisa de um novo protetor. E ela escolheu um de vocês.

Jessy caiu sentada em uma cadeira, atordoada. A missão médica, a redenção... era tudo uma entrevista de emprego mística.

Ji Yeon manteve a expressão neutra, mas seus olhos calculavam as probabilidades.

Aaron olhou para Hugo, para o homem que ele achava ser um guia espiritual e que agora se revelava como o sequestrador mestre.

— Eu não pedi por isso — disse Aaron, a voz fria. — E eu não vou jogar o seu jogo.

Sem dizer mais nada, Aaron virou as costas e saiu da casa, batendo a porta com força, deixando para trás o peso do destino que ele se recusava a carregar.

Enquanto isso acontecia, o mundo de Roger Miles havia se reduzido a um cubo de metal retorcido e fumegante.

Ele estava de volta ao banco do motorista. O cinto de segurança travava seu peito como uma cobra constritora. O calor era insuportável; as chamas lambiam o capô amassado, estalando e rugindo.

— Não! Não! De novo não! — gritava Roger, socando o vidro da janela que não quebrava. Ele tentava abrir a porta, mas a maçaneta estava derretida.

Ele olhou para o lado.

Julia estava lá. O pescoço quebrado num ângulo antinatural. O vestido azul empapado de sangue escuro. Mas os olhos... os olhos estavam abertos. Vidrados. Mortos. E fixos nele.

— Me tira daqui! — Roger soluçou, a covardia e o instinto de sobrevivência lutando dentro dele.

De repente, a cabeça de Julia se moveu. Os ossos estalaram. A boca dela se abriu, cheia de sangue coagulado e cinzas.

— Fuja, Roger... — A voz dela era um gorgolejo úmido. — Fuja como você sempre faz.

Roger gritou, um som primal de terror, e chutou a porta com toda a sua força.

A porta cedeu. Ele rolou para fora, caindo... na lama fria da selva.

Roger levantou a cabeça, ofegante. O carro em chamas à sua frente começou a tremeluzir. O metal virou casca de árvore. O fogo virou neblina. O asfalto virou terra podre. A visão se dissipou, deixando apenas a escuridão da ilha e o eco da acusação dela.

Mas o medo não passou. Ele sentia que algo estava atrás dele. Algo pior que o fogo.

Roger levantou-se cambaleando e começou a correr. Ele correu sem direção, sem tática, sem honra. Correu como o homem que abandonou a mulher amada para morrer.

Os galhos chicoteavam seu rosto, rasgando a pele, mas ele não parava.

— Saiam da minha cabeça! — berrou ele para a floresta.

Sua bota prendeu em uma raiz exposta e traiçoeira. O mundo girou. Roger caiu de frente, sem tempo para proteger o rosto. Sua testa colidiu com violência contra uma rocha coberta de limo.

Crrack.

O impacto foi seco e nauseante. Roger rolou de costas, a visão escurecendo nas bordas, um zumbido agudo substituindo os sons da mata. O sangue quente escorreu por sua testa, cegando um dos olhos.

Ele tentou se levantar, mas o corpo não respondeu. Ele estava paralisado, olhando para as copas das árvores que giravam como um carrossel.

— Ei!

Uma voz masculina. Real. Não era um sussurro, nem um fantasma.

Através da visão embaçada e sangrenta, Roger viu uma silhueta se aproximar. Um homem idoso, surgindo da névoa.

— Você está bem? — indagou o estranho, a voz carregada de uma preocupação genuína, mas cautelosa.

Roger tentou focar no rosto do homem, tentou alcançar sua arma, mas seus dedos estavam dormentes.

— Aju... da... — sussurrou Roger.

A escuridão engoliu as bordas de sua visão, fechando-se como uma lente de câmera, até que não restou nada além do preto absoluto. Roger Miles desmaiou, caído aos pés de um desconhecido no coração da ilha.

Nairn, Escócia — Fevereiro de 2001

O inverno nas Terras Altas era implacável. O vento uivava através das frestas da pequena cabana isolada onde Roger Miles se escondia. O lugar cheirava a madeira úmida, tabaco velho e vergonha.

Roger estava sentado diante de uma lareira que mal aquecia, olhando para as chamas com o olhar vidrado de quem vê fantasmas.

Batidas na porta.

Roger congelou. O instinto de sobrevivência o fez agarrar a faca de caça sobre a mesa. Ninguém sabia que ele estava ali. Ele abriu a porta apenas uma fresta, pronto para atacar.

Um homem estava parado na neve, tremendo dentro de um casaco militar surrado, sem insígnias. Cabelo comprido, barba por fazer e olhos de quem não dormia há dias.

— Hume? — Roger baixou a faca, incrédulo.

Desmond Hume sorriu, aquele sorriso nervoso e familiar, batendo os dentes de frio. — Você é um homem difícil de encontrar, brother. Posso entrar? Estou congelando.

Minutos depois, eles dividiam o resto de uma garrafa de scotch barato perto do fogo. Roger, o homem que sempre fora a rocha da amizade, estava desfeito. Ele contou tudo — o acidente, o fogo, a fuga.

— Eu a deixei queimar, Hume — confessou Roger, a voz rouca de tanto chorar. — Eu corri. Sou um desertor. Da vida e do exército.

Desmond apertou o ombro do amigo, sem julgamento. Ele conhecia o peso da desonra. — Sinto muito, Roger. De verdade.

— E você? — Roger secou o rosto com a manga da camisa. — Como me achou? E por que está parecendo um mendigo?

— Velhos contatos. — Desmond tomou um gole longo. — Eu também saí, Roger. Desonrosa. Passei os últimos anos na prisão militar.

— Preso? Você? O escoteiro do regimento?

— Digamos que eu não segui as ordens corretamente. — Desmond riu, um som sem alegria. — Somos dois soldados sem guerra, amigo.

— O que você vai fazer? — perguntou Roger. — Eu vou apodrecer aqui. Não posso voltar.

— Eu vou para a América. — Os olhos de Desmond brilharam com uma determinação maníaca. — Los Angeles.

— Fazer o quê? Tentar a sorte em Hollywood?

— Vou provar que ele estava errado. Charles Widmore. Ele acha que eu sou um covarde. Que não sou digno da Penny. Ele está patrocinando uma regata de volta ao mundo em solitário.

Roger olhou para o amigo, incrédulo. — Uma regata? Desmond, você não tem dinheiro nem para comprar esse uísque. Você tem um barco, por acaso?

— Não. — Desmond levantou-se, ajeitando a mochila nas costas. — Mas eu vou conseguir um. Tenho que conseguir. É o único jeito de recuperar minha honra. Vou para os Estados Unidos, vou treinar, vou arranjar um patrocinador... vou fazer o impossível.

Roger quase riu da ingenuidade. Ou talvez fosse inveja da esperança delirante do amigo. — Você é completamente louco. Vai acabar se matando no mar.

— Talvez. Mas é melhor do que morrer de frio aqui sem tentar. — Desmond caminhou até a porta. — Obrigado por me receber, Roger. Eu precisava ver um rosto amigo antes de partir.

— Boa sorte, Desmond. — Roger levantou a garrafa num brinde triste. — Tente não afundar.

— Não irei afundar. — Desmond sorriu.

— Desmond, não me procure mais. Somente se tiver algo para mim. — Disse Roger sério.

Desmond parou no batente, a neve entrando e rodopiando ao redor dele. Ele olhou para Roger uma última vez. — A gente se vê em outra vida, brother.

Roger viu a porta se fechar, deixando-o sozinho novamente com sua culpa. — Em outra vida... — murmurou ele.

A Ilha – Presente

O cheiro de gasolina e carne queimada desapareceu, substituído por algo salgado e limpo: maresia.

Roger abriu os olhos devagar. O teto acima dele não era de metal retorcido, mas de palha trançada com cuidado, deixando passar feixes de luz solar dourada. O som do mundo não eram gritos, mas o quebrar rítmico e suave das ondas na areia.

Ele tentou se levantar num impulso, o instinto militar gritando que ele estava exposto, mas uma pontada aguda e cegante atravessou seu crânio.

— Argh... — Roger gemeu, levando a mão à testa e caindo de volta no catre improvisado. O mundo girou.

— Ei, ei... vá com calma.

A voz era suave, maternal, com um tom de autoridade gentil que não aceitava objeções.

Uma silhueta bloqueou a luz do sol. Roger piscou, tentando focar a visão embaçada. Uma senhora negra, com cabelos grisalhos curtos e um rosto que transmitia uma paz impossível naquele lugar, inclinou-se sobre ele, trocando uma compressa úmida em sua testa.

— Quem... quem é você? — perguntou Roger, a voz rouca e seca.

— Meu nome é Rose. — Ela sorriu, ajustando o travesseiro dele. — E você, querido, teve um dia daqueles. Está se sentindo melhor?

— Minha cabeça... parece que foi partida ao meio.

— Não foi partida, mas chegou perto. — Rose torceu um pano numa bacia de água fresca. — Meu marido te encontrou desmaiado na trilha, a alguns quilômetros daqui. Você estava gritando. Parecia estar fugindo do próprio diabo.

Roger fechou os olhos por um segundo. As memórias do ritual, da alucinação de Julia, do acidente... tudo voltou, mas agora parecia distante, abafado pela calmaria daquela cabana. — Há quanto tempo estou aqui?

— Algumas horas. Já é quase meio-dia. — Rose passou o pano no rosto dele. — Você perdeu bastante sangue com esse corte na testa. Se eu fosse você, não tentava sair correndo tão cedo.

Roger olhou ao redor. A cabana era simples, mas incrivelmente organizada. Havia estantes com mantimentos, frutas frescas e uma sensação de lar que ele não sentia há décadas.

— Você... você veio com o grupo novo? — perguntou Rose, o tom ficando um pouco mais sério.

— "Grupo novo"?

— A ilha tem estado silenciosa por anos. — Rose olhou para a janela, para o mar. — Até ontem. Ouvimos o barulho. Helicópteros, tiros... fazia tempo que não tínhamos visitas barulhentas.

Passos na areia do lado de fora anunciaram outra chegada. Um homem branco, de cabelos brancos e barba bem aparada, entrou na cabana carregando lenha e alguns peixes.

— Ele acordou, Rose? — perguntou o homem, deixando a lenha num canto.

— Acordou, Bernard. E já está tentando fazer perguntas.

Bernard sorriu, limpando as mãos na calça. Ele se aproximou do catre, examinando Roger com um olhar clínico, mas amigável. — Prazer, sou Bernard. Como está a cabeça?

— Latejando. — Roger tentou sorrir, agradecido. — Obrigado por me tirarem de lá.

— Não podíamos deixar você virar comida de javali. — Bernard inclinou-se para ver o ferimento. — O corte foi feio, mas a Rose limpou bem. Fizemos uma sutura improvisada.

— Ficou muito bem feito. — Roger tocou o curativo com cuidado. — Você é médico?

— Dentista. — Bernard riu, orgulhoso. — Mas por aqui, a gente aprende a ser um pouco de tudo. Faz anos que não dou um ponto em nada que não seja gengiva.

Roger relaxou no travesseiro. Havia algo naqueles dois — Rose e Bernard — que neutralizava o veneno da ilha. Eles viviam à parte da guerra, à parte da magia. Eram apenas duas pessoas que encontraram paz no meio do caos.

Ele olhou para o teto de palha, observando a dança da poeira nos raios de sol.

Pela primeira vez em vinte anos, a imagem do carro queimando não veio acompanhada de um aperto no peito. A culpa estava lá, sim, mas parecia... silenciada. Como se alguém tivesse abaixado o volume do pesadelo.

Roger olhou para as próprias mãos. Elas pareciam as mesmas, calejadas e sujas. Mas ele sentia algo diferente. Uma clareza. Uma vibração sutil no ar que ele não notara antes.

O ritual de Hugo. A água da Fonte.

Roger franziu a testa. Hugo achou que tinha falhado porque não houve raios ou trovões. Mas Roger, deitado naquela cabana segura, teve a estranha sensação de que algo dentro dele havia sido destrancado. Ele não era um Guardião mágico, mas talvez... talvez ele não fosse mais apenas um soldado cego.

— Obrigado — sussurrou Roger, fechando os olhos e deixando o sono sem sonhos levá-lo.