Lost: O Primeiro Herdeiro
15 LIVRO 2 — CAPÍTULO 15: UMA VIDA POR UMA VIDA
A Ilha — Base de Operações da Nova Dharma (A Jaula)
A luz da lâmpada de emergência zumbia, lançando sombras longas e trêmulas sobre as barras de ferro. O ar dentro da cela estava viciado, pesado com o cheiro de medo e suor frio.
Walt Lloyd arrastou uma cadeira de metal para frente da jaula. O som das pernas da cadeira raspando no concreto foi agudo, fazendo Clementine encolher-se. Walt sentou-se ao contrário, os braços apoiados no encosto, observando seus prisioneiros com um olhar que misturava piedade e escárnio.
— Eu conheço esse olhar — disse Walt, sua voz rouca quebrando o silêncio. — O olhar de quem acha que tudo isso é um erro. Que logo alguém vai entrar por aquela porta com um pedido de desculpas e uma passagem de volta para casa.
Aaron segurou as grades, os nós dos dedos brancos. — Você disse que me conhecia. Disse que me segurou no colo. Se isso é verdade, por que está nos mantendo aqui?
— Porque eu já estive exatamente onde vocês estão agora, Aaron. — Walt inclinou a cabeça. — Preso. Confuso. Esperando por um resgate que nunca veio.
— Hugo... — Aaron murmurou, lembrando-se do rosto amigável. — Hugo mencionou você. Ele disse que você fugiu.
A menção ao nome de Hugo fez a expressão de Walt endurecer. Uma sombra de dor cruzou seu rosto. — Hugo fala demais. Mas ele esquece de contar a parte importante. Ele esquece de dizer o que acontece com quem tenta ir embora.
Clementine deu um passo à frente, a mente analítica tentando encontrar uma lógica. — O que você quer dizer? Estamos aqui numa missão científica da Widmore.
Walt soltou uma risada curta, seca e sem humor. O som ecoou na sala blindada. — "Missão científica". — Ele balançou a cabeça, incrédulo. — Vocês são tão ingênuos que chega a ser doloroso. Vocês realmente acham que Desmond gastou milhões para trazer um assistente e uma física recém-formada para o meio do nada para estudar anomalias?
— Então para que estamos aqui? — desafiou Clementine, cruzando os braços para esconder o tremor nas mãos.
Walt levantou-se e caminhou até as grades, ficando cara a cara com ela. — A Widmore não está interessada em ciência, Clementine. E essa ilha... ela não é um objeto de estudo. Ela é um motor. E ela precisa de combustível.
— Combustível? — Indagou Clementine, confusa.
— Pessoas. — Walt sussurrou. — A Ilha toma o que é mais importante para você. Ela mastiga a sua vida até não sobrar nada além da função que ela escolheu para você.
Aaron sentiu o coração acelerar. A conversa estava indo para um lugar sombrio que ele reconhecia dos seus pesadelos. — Se você sabe de tudo isso... por que não nos solta? Você parece odiar esse lugar.
— Não é tão simples. — Walt afastou-se, passando a mão pelo rosto cansado. — O tabuleiro não é meu. Vocês estão trabalhando com o homem mais perigoso que já pisou nesta terra. E não estou falando do Desmond.
— De quem você está falando? — impacientou-se Aaron. — Seja específico.
Walt virou-se, os olhos queimando com um ódio antigo. — Benjamin Linus.
O nome pairou no ar. Aaron e Clementine trocaram um olhar confuso. Ben, o homem que os recebeu com um sorriso e uma espingarda.
— Ben? — Aaron franziu a testa. — Ele é estranho, sim. Mas "o homem mais perigoso"? Ele parece apenas um gerente de acampamento frustrado.
— É isso que ele faz. Ele parece inofensivo. Até o momento em que ele atira no seu peito ou sequestra seu filho. — A voz de Walt tremeu. — Ben Linus é um manipulador, um assassino que ceifou a vida de centenas de pessoas na Purgação. Ele convenceu vocês de que é o guia, não é? O protetor?
— Ele disse que a ilha era perigosa — admitiu Clementine. — Que precisávamos seguir as regras dele.
— As regras dele são projetadas para manter vocês cegos. — Walt voltou para a cadeira, mas não se sentou. Ele apoiou as mãos no encosto, encarando Aaron. — E estou vendo que está funcionando. É triste ver a ignorância de vocês perante as verdadeiras intenções de Ben, Hugo e Desmond.
— Verdadeiras intenções? — Indagou Aaron. Apesar da curiosidade, o medo da resposta o oprimia, porque ele sabia que no fundo, todo aquele papo de missão científica parecia conivente demais.
— A questão é que agora, a Ilha precisa de sangue novo. — Walt aproximou-se novamente, segurando as grades com força. — Vocês não estão aqui por causa de seus currículos. A Widmore não quer a sua mente, Clementine. E não quer a sua habilidade administrativa, Aaron. Vocês são gado.
— Gado para quê? Fale logo. Chega de enigmas. — Clementine perguntou, a voz sumindo.
— Vocês são Candidatos. — Respondeu Walt. A palavra pesou como uma sentença. Aaron sentiu um zumbido no ouvido.
— Candidatos a quê? — perguntou Aaron, ainda duvidando.
— A guardiões. — Walt disse, implacável. — Hugo Reyes é o atual Guardião da Ilha. O protetor da Luz. Mas Hugo está cansado. Ou falhou. Não me importo. E ele precisa de um substituto. Ele tentou comigo, mas eu não quis esse fardo.
Aaron recuou um passo, batendo as costas na parede da cela. — Isso é ridículo. Guardiões? Luz? Isso é papo de seita.
— É a verdade! — gritou Walt. — Hugo trouxe vocês aqui com esse propósito. Desmond foi o cão de caça que farejou vocês e os arrastou para cá. A Widmore mentiu. Ben mentiu. A missão é uma farsa. Vocês estão aqui para ficar nesta ilha para sempre, protegendo uma rolha mágica no centro do mundo, até morrerem ou enlouquecerem.
Aaron e Clementine ficaram em silêncio. A vontade de rir daquele absurdo borbulhou na garganta de Aaron, mas morreu quando ele olhou para o rosto de Walt. Não havia loucura ali. Havia apenas a exaustão de quem carregava um segredo terrível.
Clementine virou-se lentamente para Aaron, os olhos arregalados de horror. — Aaron... e se for verdade? E se for por isso que o GPS falhou? Por isso que o tempo mudou?
— Não pode ser. — Aaron balançou a cabeça, negando, mas a lembrança de Hugo no avião ("A ilha precisa de você") e de sua mãe aterrorizada começou a fazer um sentido terrível. — Eu não sou especial. Eu sou ninguém.
Walt observou a negação deles com tristeza. — Eu também achava que era especial, Aaron. Até o dia em que eles me levaram.
Walt destrancou a pistola do coldre e a colocou sobre a mesa, fora do alcance deles, mas visível. — Agora vocês sabem. A questão é: o que vocês estão dispostos a fazer para escapar desse destino?
O silêncio na sala blindada era absoluto. A "missão científica" havia acabado. A realidade de que eram prisioneiros de um jogo cósmico começava a se instalar, fria e inescapável.
Instituto de saúde mental Santa Rosa, Califórnia — 2010
A noite envolvia o prédio de arquitetura árida do Santa Rosa, um lugar onde o tempo parecia estagnado entre corredores brancos e medicação. Ben Linus e Hugo Reyes tinham uma missão clara: erradicar os vestígios da Dharma e resgatar Walt. Como um dos "Candidatos" mais singulares da história da Ilha, o garoto precisava retornar.
Ben saltou do carro com a calma gélida de sempre. Ele entrou no saguão sozinho, movendo-se com a confiança de quem já orquestrou quedas de impérios. Ao parar diante da recepção, ele ajustou os óculos e encarou a mulher atrás do balcão.
— Olá, estou aqui para ver Keith Johnson — disse Ben, usando o pseudônimo de Walt.
— Você está na lista de convidados dele? — a recepcionista perguntou, sem desviar os olhos do monitor.
— Não — Ben respondeu, deslizando um pequeno pedaço de papel sobre o balcão. — Mas, se entregar isto, ele vai querer me ver.
A mulher leu o bilhete e um sorriso automático surgiu em seu rosto, prontamente retribuído pela máscara de cordialidade de Ben.
Minutos depois, Ben atravessava a sala de convivência. Ele portava um crachá de visitante e caminhava em direção a um canto isolado, onde Walt, agora mais alto e com o semblante carregado, brincava sozinho com as peças de um Connect Four. O som das fichas de plástico batendo no tabuleiro era o único ruído entre eles.
— Olá, Walt — disse Ben, suavemente.
O rapaz sobressaltou-se. O olhar que lançou a Ben era um misto de pavor e ódio reprimido; afinal, aquele homem era o arquiteto de cada tragédia que assolara a vida de seu pai. Sem pedir permissão, Ben puxou a cadeira ao lado e acomodou-se. Antes que o mais velho pudesse articular uma frase, Walt disparou:
— O que está fazendo aqui?
— Como o bilhete dizia, um amigo seu me enviou — respondeu Ben, referindo-se a Hugo, que aguardava do lado de fora.
— Eu não tenho amigos — comentou Walt, fixando os olhos em Ben com uma intensidade sombria.
— Todos temos amigos — Ben retrucou, mantendo um sorriso leve. — Até eu — Ele completou a frase com um sorriso mais largo, embora seus olhos permanecessem indecifráveis.
— Está aqui para me sequestrar de novo? — Walt perguntou diretamente, sem espaço para rodeios.
Ben desviou o olhar por um breve instante, fitando o tabuleiro. Ele sabia que a lógica não funcionaria com Walt; precisaria de algo mais humano.
— Eu realmente sinto muito por aquilo — disse ele, com uma sinceridade rara, referindo-se ao dia em que arrancou o menino dos braços de Michael. — Mas o que está feito, está feito. Não posso mudar o passado. Só posso assumir responsabilidade por ele.
Walt permaneceu em silêncio absoluto enquanto Ben falava.
— Walt, entendo por o que você teve que passar. Sei as dificuldades que teve fingindo ser quem não é. — Ao ouvir essas palavras, Walt finalmente sustentou o olhar de Ben. O golpe foi certeiro; Ben havia tocado na ferida aberta do isolamento e da incompreensão que o rapaz sentia.
Walt balançou levemente a cabeça, um reconhecimento silencioso da verdade nas palavras do inimigo. Ben sorriu de forma amigável, tentando construir uma ponte, mas Walt parecia lutar contra a própria comoção. Ele começou a desmontar o Connect Four bruscamente, tentando simular uma indiferença que suas mãos trêmulas traíam.
— Walt, estou aqui para ajudar você.
— Por quê? — Walt perguntou, a voz tingida de irritação e cansaço.
— Porque você é especial — disse Ben, sorrindo. — E acho que ninguém diz isso para você há muito tempo.
— Que bem isso faz para mim?
— Precisamos de você. Você tem trabalho para fazer — afirmou Ben, notando que as defesas do garoto começavam a ceder. — Começando por ajudar seu pai.
Walt congelou. Ele encarou Ben, os olhos marejados. — Meu pai está morto.
— Não significa que não pode ajudá-lo.
O rapaz abaixou a cabeça, mergulhado em um silêncio pensativo. Ben permaneceu imóvel, observando a luta interna de Walt. Finalmente, Ben quebrou o silêncio:
— Você virá conosco, Walt?
O peso da pergunta ecoou na sala. Walt viu a seriedade quase solene no rosto de Ben. Percebendo que o vínculo fora estabelecido, Ben estendeu uma barra de chocolate com o logotipo da Iniciativa Dharma. Após uma breve hesitação, Walt pegou o doce. Ben permitiu-se um último sorriso de vitória.
Pouco tempo depois, ambos caminhavam pelo estacionamento sob o céu noturno da Califórnia.
— Vamos, está tudo bem — tranquilizou Ben, percebendo o nervosismo de Walt em fugir da instituição. — Pode ir no banco da frente — completou, acenando para a icônica Kombi azul que os esperava.
Ao abrir a porta e sentar-se, uma voz familiar veio da parte traseira da van: — E aí, cara.
— Hurley — disse Walt, e um sorriso largo finalmente iluminou seu rosto.
— É bom ver você, Walt — disse Hugo. No banco do motorista, Ben observava a cena pelo retrovisor, satisfeito.
— Eu esperava que alguém viria me buscar. Disseram que eu estava louco — confessou Walt, a voz carregada de tristeza.
Hugo inclinou-se para frente e colocou a mão no ombro do garoto. — Você não está louco, dude, nem um pouco. Apenas precisa voltar para a Ilha, só isso. É onde você pertence. Onde sempre pertenceu.
Walt sorriu, sentindo o peso do mundo diminuir. — Por quê?
— Quero falar com você sobre um trabalho — explicou Hugo, referindo-se ao papel de Guardião que ele próprio exercia. Walt não questionou os detalhes; a liberdade era tudo o que ele desejava.
— Certo, Ben. Vamos sair daqui — ordenou Hugo. — É hora de todos nós voltarmos para casa.
Ben deu a partida na Kombi. O motor rugiu, e eles partiram, deixando o asfalto da Califórnia para trás rumo ao destino que os aguardava no coração do Pacífico.
A ilha – Presente
O ar dentro da sala blindada parecia ter sido sugado. Aaron e Clementine estavam paralisados, o peso da revelação de Walt sobre serem "candidatos" ainda ecoando em suas mentes. Mas Walt não deu tempo para processarem o choque.
Com um aceno seco de cabeça, Walt deu a ordem. O soldado no canto da sala avançou, destrancando a cela com um clangor metálico. Antes que Aaron pudesse reagir, foi puxado para fora pelo braço com violência.
— Aaron! — Clementine tentou correr atrás dele, mas o segundo soldado bloqueou a passagem, empurrando-a de volta contra a parede de concreto e fechando a grade na cara dela.
Aaron tropeçou para o centro da sala, livre, mas cercado. Ele olhou para Walt, que permanecia sentado na cadeira invertida, observando o pânico do casal com uma frieza perturbadora.
— Você quer sair daqui, Aaron? — perguntou Walt, a voz baixa e rouca. — Eu posso fazer isso acontecer. Mas a liberdade tem um preço.
— O que você quer? — Aaron perguntou, ofegante, olhando para Clementine presa.
— Uma troca. Uma vida pela outra. — Walt levantou-se, caminhando até Aaron. Ele era mais alto, mais forte, endurecido pelos anos de trauma. — Traga-me Benjamin Linus. Vivo. Entregue-o a mim, e eu solto a garota e deixo vocês partirem.
Aaron olhou para Clementine através das barras. Ela balançava a cabeça freneticamente, os olhos arregalados de terror, implorando silenciosamente para que ele não aceitasse. Ela sabia que negociar com aquele homem era assinar uma sentença de morte.
— Por que você mesmo não faz isso? Você tem seus soldados. Por que precisa de mim? — Indagou Aaron.
— Eu não preciso te dar motivos para o que faço, Aaron. Apenas faça o que ordenei. — Disse Walt, frio.
— E se eu não fizer isso? — Aaron desafiou, tentando encontrar coragem onde só havia medo. — E se eu recusar ser o seu cão de caça?
Walt não gritou. Ele apenas sorriu, um sorriso triste e macabro que gelou o sangue de Aaron. — Então eu a mato. Aqui e agora. — Walt disse com simplicidade. — E depois caço você na selva como um animal. Conheço cada estrada de terra, cada buraco onde você possa se esconder nesta ilha.
A ameaça não foi um blefe. Aaron viu nos olhos de Walt: não havia humanidade ali, apenas um buraco negro de vingança. Ele olhou novamente para Clementine, tão vulnerável na jaula. Ele não podia deixá-la morrer. Não por causa de uma guerra que ele nem entendia.
— Tudo bem — Aaron sussurrou, derrotado. — Eu trago ele para você.
Walt assentiu, satisfeito. Ele foi até uma mesa lateral e pegou uma pistola 9mm preta, pesada e fria. Ele a estendeu para Aaron, segurando-a pelo cano.
— Sabe usar isso? — perguntou Walt.
Aaron pegou a arma com mãos trêmulas. O metal parecia queimar sua pele. — Nunca segurei uma arma na vida.
— Mire na perna e puxe o gatilho. Mas use somente se ele resistir. — Walt avisou, o olhar endurecendo. — Eu o quero vivo, Aaron. Se ele morrer antes de eu olhar nos olhos dele, a garota morre também.
Em seguida, Walt arrancou o celular da mão de Aaron. Com dedos ágeis, ele digitou alguns comandos, instalando um software de rastreamento da Dharma. — Estou vinculando seu sinal ao meu, assim saberei que você está indo para a direção certa. Se você tentar fugir, eu saberei. Se você demorar, eu saberei. Se você tentar qualquer gracinha... — Ele olhou para Clementine. — Ela paga a conta.
Ele devolveu o celular a Aaron. — Agora vá. A caçada começou.
Aaron guardou a arma e o celular, lançando um último olhar de desculpas para Clementine. — Eu volto para buscar você — prometeu ele, a voz embargada.
Ele saiu da sala blindada, adentrando a noite da ilha, sozinho, armado e desesperado. Sua mente girava a mil por hora. Ele sabia que Walt poderia estar mentindo, mas a vida de Clementine era a única moeda de troca que importava. Ele teria que trair Ben Linus para salvá-la.
Enquanto isso, na Vila da Dharma, a movimentação era de preparação para guerra.
Roger Miles gritava ordens, organizando seus mercenários para uma missão de busca e resgate. Lanternas eram distribuídas, armas eram checadas. A prioridade era encontrar Aaron e Clementine antes que a selva os engolisse.
No meio do caos organizado, Benjamin Linus estava parado na varanda de sua casa, os olhos fixos na linha das árvores. Ele sentiu uma mudança no ar. Uma vibração que ele conhecia bem.
Eles fizeram uma jogada, pensou Ben.
Ele não precisava de rádio para saber que o equilíbrio de poder havia mudado. Wilbert estava na ilha. E se Wilbert estava agindo, Ben era o alvo.
Sem dizer uma palavra, Ben desceu os degraus e começou a caminhar rapidamente em direção à trilha sul, afastando-se do grupo de busca.
Roger, que distribuía munição, viu o movimento pelo canto do olho. A tensão no corpo de Ben era evidente. O "líder" estava fugindo.
— Yago! — gritou Roger para um de seus subordinados. — Assuma o comando. Lidere a equipe de busca. Encontrem os garotos.
— E o senhor? — perguntou o soldado.
— Eu vou ver aonde o rato está indo. — Roger engatilhou seu fuzil e correu atrás de Ben, desaparecendo na escuridão da floresta.
A Ilha — 2017 (Semanas antes da partida de Desmond)
O céu sobre a Ilha estava perpetuamente cinzento, como se o lugar estivesse segurando a respiração. A vegetação, antes vibrante, parecia opaca. Para Hugo Reyes, aquilo era um sinal claro: a Ilha estava infeliz.
Aos pés da estátua quebrada de Taweret, o som rítmico de dados batendo contra madeira ecoava. Clack. Clack.
Walt Lloyd, agora um jovem adulto com o olhar endurecido de quem viu coisas demais, jogava gamão sozinho. Hugo e Ben observavam de longe, sentados em um tronco caído.
— Dois dados. Um preto, um branco. — Walt murmurou, movendo as peças com desdém. — Eu costumava ver o Sr. Locke jogar isso na praia. É incrível como nada muda aqui. As pedras são as mesmas, o mar é o mesmo... e as mentiras são as mesmas.
Hugo trocou um olhar preocupado com Ben. A tentativa de trazer Walt de volta tinha sido um erro; eles sentiam isso no ar. A Ilha não o aceitara como Guardião. Em vez de milagres, havia apenas uma tensão estática no ar.
— Ainda falando do jogo, Walt? — perguntou Hugo, tentando manter o tom leve, embora estivesse preocupado.
Walt parou a mão sobre o tabuleiro. Ele levantou os olhos, fixando-os em Hugo. — Não é sobre o jogo, Hugo. É sobre as regras. Todo jogo tem regras. E eu quero saber qual é a regra que me proíbe de ir para o Norte da ilha.
— Já te dissemos — Ben interveio, afiando uma faca com uma pedra. — A barreira sônica está ativa lá. É perigoso. Estamos fazendo isso para te proteger.
— Me proteger? — Walt soltou uma risada seca e amarga. Ele se levantou bruscamente, chutando o tabuleiro de gamão. As peças pretas e brancas se espalharam na areia. — Vocês dois são engraçados. Eu sei sobre o Desmond.
— Como...? — Indagou Ben, sendo interrompido por Walt.
— Não tente mentir mais. Já estou aqui há sete anos. Mas não importa mais. Já aceitei meu destino de ficar aqui com vocês para sempre. — Disse Walt, cabisbaixo.
— Walt, cara, calma... — Hugo tentou se aproximar.
— Não. — Walt recuou. — Vocês dizem que eu sou o "escolhido", que eu tenho que proteger a Luz... mas me tratam como prisioneiro. Eu vou dar uma volta. E não me sigam.
Walt virou as costas e caminhou em direção à linha das árvores, desaparecendo na selva.
Ben olhou para as peças espalhadas na areia. — Ele está ficando instável, Hugo. Ele sente que estamos escondendo algo. E ele descobriu sobre o Desmond...
— Se ele encontrar o Desmond, ele vai descobrir que existe uma saída — sussurrou Hugo. — E se ele sair... a Ilha vai cobrar o preço.
— Ele não é o sucessor, Hugo. — Ben disse o que ambos sabiam, mas não queriam admitir. — A Ilha o rejeitou. Ele tem dons, sim, mas não é o Guardião. Você cometeu um erro ao trazê-lo.
Hugo abaixou a cabeça. — Eu sei. E acho que estou sendo punido por isso.
Walt caminhava sem rumo, guiado apenas pela frustração. A selva parecia se fechar ao redor dele. Ele não ouvia pássaros, apenas o zumbido constante em seus ouvidos, como estática de rádio.
Walt parou subitamente quando a mata se abriu. Diante dele, a clareira circular exibia o desenho que ele vira em suas lembranças e sonhos mais sombrios: um gigantesco "?" marcado na terra por uma grama rala e queimada.
Próximo a marca, repousavam os restos retorcidos de um avião bimotor. A carcaça de metal, agora era apenas um esqueleto de alumínio coberto por trepadeiras. Walt aproximou-se e tocou a fuselagem fria, sentindo o eco da queda e o peso do sacrifício que aquele lugar carregava.
Ele olhou para baixo, entre as rodas do avião. Ali, camuflada pela vegetação, estava a estação Pérola da Dharma. A entrada da estação era uma grande escotilha octogonal de duas portas. Abaixo, uma escada descia para o interior subterrâneo da estação.
— Pai... Eu voltei. — sussurrou Walt.
Com um esforço seco, ele girou a trava circular. A escotilha cedeu, revelando a escadaria escura que levava ao coração do monitoramento da Ilha. Ele não hesitou; desceu em direção ao silêncio, pronto para enfrentar o passado que o trouxera de volta.
Walt afastou a vegetação e desceu a escotilha. O interior estava escuro e cheirava a mofo. Ele ligou a lanterna que roubara de Ben. O feixe de luz iluminou as telas de monitoramento, agora negras e mortas.
Ele se sentou em uma das cadeiras giratórias, de frente para os monitores que um dia vigiaram seus amigos.
— Por que eu? — Walt perguntou para o silêncio. — Por que eu tenho que ser especial?
Pegou uma caixa de vela e acendeu uma com o isqueiro em seu bolso. Ele fechou os olhos, sentindo as lágrimas quentes.
Ssss... Walt... ssss... ajude...
Os Sussurros. Eles começaram baixos, vindo das paredes, do chão. Vozes sobrepostas, incompreensíveis. Mas uma voz se destacou.
— Oi, garoto.
Walt piscou. Abriu os olhos subitamente.
Diante dele, parado sob a luz fraca que vinha da escotilha aberta, estava Michael Dawson. Ele parecia exatamente como no dia em que morreu no cargueiro: vestindo roupas civis sujas, com o olhar triste de um homem que carrega o peso do mundo.
— Pai? — A voz de Walt falhou.
Ele levantou-se num salto e correu para abraçá-lo. Mas quando seus braços tentaram envolver o pai, encontraram apenas ar frio. Michael estava lá, visível, mas intocável. Um eco.
Walt recuou, tremendo. — Você... você não é real.
— Sou tão real quanto essa ilha permite que eu seja, filho. — A voz de Michael era carregada de culpa. — Eu estive esperando por você.
— Era aqui... — Walt olhou ao redor. — Era aqui que eles me faziam falar com você no computador. Quando eu fui sequestrado. Quando eles me levaram de você. Eu queria gritar para você que eu estava vivo e bem, mas eles não deixavam.
— Sim. — Michael olhou para as telas apagadas. — Eles usaram nosso amor um pelo outro como arma, filho. Eles nos quebraram aqui.
— A culpa é do Ben. — O ódio de Walt, represado por anos, transbordou. — Se não fosse por ele... se não fosse por essa maldita ilha... você estaria vivo. Nós estaríamos em casa.
— Eu entendo, rapaz. — A alma de Michael parecia oscilar, como uma interferência.
— Eles me chamaram de louco lá fora, pai. — Walt chorou. — Ninguém acreditava em mim. Tive que usar um nome falso. Tive que fugir. E agora o Hugo me trouxe de volta para ser "Guardião"? Eu não quero proteger este lugar! Eu quero queimá-lo!
Michael olhou para o filho. Ele viu a dor, a mesma dor que o levara a trair seus amigos anos atrás. — Sinto muito, garoto. Eu sou apenas uma alma perdida, presa aos sussurros. Não posso te abraçar. Mas posso te dar uma saída.
Walt levantou o rosto, secando as lágrimas. — Uma saída?
— Você quer acabar com essa dor? De uma vez por todas?
— Quero. Mais do que tudo.
— Existe um jeito. — Michael aproximou-se, sua voz tornando-se um sussurro conspiratório. — Mas a Ilha exige um equilíbrio, Walt. Uma vida por uma vida.
— O que eu tenho que fazer?
— Mate Benjamin Linus. — Michael disse o nome com um veneno frio. — Ele é a causa de tudo. Enquanto ele respirar, você nunca será livre. Mate-o por nós, filho.
Walt arregalou os olhos, o choque paralisando-o. — Eu... eu não posso fazer isso, pai. Eu não sou um assassino.
— Você é um sobrevivente. E é o meu garoto. — Michael apontou para o teto, para a saída. — Amanhã. Leve-o para a floresta. E depois... vá para o Templo.
— O Templo?
— Existe uma saída lá. Debaixo das pedras antigas. Uma passagem que os Guardiões usam. A saída que o Hugo e Ben taparam com pedras para esconder de você do Desmond. — Michael sorriu, um sorriso triste. — Faça o que precisa ser feito, Walt. Vingue a nossa família. E depois vá para casa.
A figura de Michael começou a se dissipar, junto com o fogo da vela, misturando-se às sombras da estação.
— Pai, espera! — Walt gritou, estendendo a mão para o vazio. — Não me deixe aqui!
Mas Michael se fora e a vela se apagou.
Walt ficou sozinho na Estação Pérola. O silêncio voltou, mas agora não era vazio. Era preenchido por um propósito. Ele olhou para as próprias mãos. Ele não queria ser o Guardião. Ele queria ser o vingador.
Vila da Dharma – Presente
Roger movia-se como um fantasma entre as casas decrépitas. Ele viu Ben Linus deslizar para dentro de uma das residências maiores, olhando para os lados com a paranoia de quem tem muito a esconder.
Roger esperou um segundo, contou até três e seguiu. Ele subiu os degraus da varanda evitando as tábuas podres que rangiam. A porta estava entreaberta. Roger empurrou-a suavemente com o cano da pistola, entrando na penumbra da sala de estar.
Estava vazio.
Roger franziu a testa. Ele viu Ben entrar ali. Não havia outra saída.
De repente, uma sombra se desprendeu da parede atrás dele. Antes que Roger pudesse girar, um braço envolveu seu pescoço, fechando a traqueia em um mata-leão técnico e brutal.
— O que você está fazendo me seguindo, Roger? — A voz de Ben sussurrou em seu ouvido, calma e perigosa.
Roger reagiu por instinto, cotovelando as costelas de Ben e tentando jogá-lo para frente, mas o homem menor era surpreendentemente forte e sabia usar o peso do corpo.
— Desgraçado! — engasgou Roger, a visão começando a turvar. — O que você está tramando?
— A pergunta é: para quem você trabalha? — Ben apertou mais. — Você é um dos homens de Wilbert DeGroot?
— Como é? — Roger conseguiu chiar. — Eu não conheço nenhum Wilbert!
— Não minta. — Ben afrouxou o aperto apenas o suficiente para Roger respirar, mas manteve a faca encostada nas costas dele. — Eu sei que você está procurando o piloto.
— Eu estou desconfiado que você matou o Bryan! — Roger rosnou, recuperando o fôlego.
— O nome dele não é Bryan. É Miguel. — Ben soltou Roger e recuou rapidamente, mantendo a distância segura. — E se você realmente não sabe disso, então talvez você seja apenas um peão ignorante, e não um traidor.
Roger virou-se, a arma apontada para o peito de Ben. — Do que diabos você está falando?
— Venha comigo. — Ben não parecia preocupado com a arma. — Sem gracinhas. Há alguém que quer explicar a situação melhor do que eu.
Roger hesitou, mas a curiosidade militar falou mais alto. Ele manteve a arma em punho e fez um sinal para Ben andar.
Eles atravessaram um corredor curto e entraram em uma sala de jantar iluminada por velas. Sentado à cabeceira da mesa, com a calma de um monarca exilado, estava Hugo Reyes.
— Ei, Roger! — Hugo acenou, como se estivessem em um churrasco de domingo.
Roger parou, olhando de Ben para Hugo. A dupla mais improvável do mundo. — O que vocês dois estão tramando? — Roger manteve a mira alternada. — Onde está o piloto?
Hugo apontou para uma cadeira vazia à sua frente. — Sente-se, dude. Precisamos conversar.
— Eu prefiro ficar em pé. — Roger encostou-se na parede. — O que é isso? Um motim?
— Talvez a gente não tenha sido totalmente sincero com vocês sobre o que está acontecendo aqui — começou Hugo, o tom ficando sério. — Sobre a missão. Sobre a Widmore.
— É, eu percebi. — Roger riu, sarcástico. — Viagem no tempo, piloto sumido, você aparecendo do nada. Comecem a falar.
Hugo suspirou, entrelaçando os dedos sobre a mesa. — Você já percebeu que essa ilha não é normal, certo? O GPS, a bússola, as vozes...
— Com certeza. É um inferno magnético. Todo mundo quer esse pedaço de terra por algum motivo estratégico. Petróleo? Urânio? — Roger disse, rindo.
— Não é minério, Roger. É luz. — Hugo disse aquilo com uma convicção que fez Roger parar de rir. — No coração desta ilha, existe uma fonte. A origem de toda a vida e de toda a morte. É o que faz os ponteiros das bússolas girarem. E tem alguém muito antigo e muito ruim que quer tomar essa fonte.
— Alguém? — Indagou Roger, franzindo a testa.
— Uma entidade. Ele vive entre os humanos há milênios. Se ele conseguir apagar essa luz ou tomá-la para si... o mundo acaba. Simples assim. Vocês não estão aqui para uma expedição científica. Vocês estão aqui para impedi-lo.
Roger encarou Hugo. Depois olhou para Ben, que assentiu solenemente. — Vocês são loucos. — Roger guardou a arma, balançando a cabeça. — "Fonte da vida"? "Entidade maligna"? Eu sou um mercenário, não um pastor. Eu não tenho tempo para fanatismo religioso.
Ele se desencostou da parede e caminhou em direção à saída. — Vou reunir meus homens. Vamos encontrar o piloto, pegar o helicóptero e sair deste manicômio.
— Espere, Roger. — A voz de Hugo ecoou atrás dele. — Eu sei que parece loucura. Mas é a verdade. A ilha escolheu você.
— A ilha não escolhe nada, é um pedaço de terra! — Roger girou a maçaneta da porta. — Não tentem me impedir.
Ele abriu a porta para sair. Mas Hugo estava lá.
Roger travou. Ele olhou para trás, para a mesa de jantar. A cadeira onde Hugo estava sentado segundos atrás estava vazia. Ele olhou para a frente. Hugo estava parado no batente da porta, bloqueando a saída, sorrindo tristemente.
— Como... — Roger recuou, tropeçando nos próprios pés. O sangue drenou de seu rosto. — Como você fez isso? Você estava sentado lá!
— Não importa como. — Hugo deu um passo à frente, e o ar ao redor dele pareceu vibrar. — O que importa é se você acredita agora.
Roger encostou na parede, a respiração acelerada. Aquilo não era um truque de ilusionismo. Era impossível.
— O que você é? — sussurrou Roger.
— Eu sou o Guardião. — Hugo estendeu a mão. — E se você quiser entender... eu posso te levar até a Fonte. Topa?
Roger olhou para a mão de Hugo. O medo dizia para ele correr, mas o instinto dizia que aquele homem gordo e barbudo era a coisa mais perigosa e poderosa que ele já havia encontrado.
— Topo — disse Roger, a voz falhando.
A ilha – 2017
O céu sobre a ilha estava da cor de chumbo, pesado e silencioso, como se o mundo estivesse segurando a respiração. Guiado por um coro de sussurros que só ele podia ouvir, Walt Lloyd caminhava em direção à muralha de pedra do Templo. Ele olhava para trás constantemente, a paranoia de anos de cativeiro (físico e mental) fazendo-o ver sombras onde não havia ninguém.
Ele se esgueirou pelas ruínas cobertas de musgo, entrando no santuário que Hugo e Ben tentavam proteger. O ar lá dentro era frio, parado há séculos.
— Pai? — Walt chamou, a voz tremendo e ecoando nas paredes de pedra.
O silêncio foi a única resposta. O sangue de Walt ferveu, o medo misturando-se à raiva de ser abandonado novamente.
— Você disse para eu vir! — gritou ele, girando em círculos. — Eu estou aqui!
De repente, o ar cintilou. Das sombras de uma coluna quebrada, Michael Dawson se materializou. Ele parecia cansado, carregando o peso de todos os seus erros no rosto.
— Oi, filho — disse Michael, suavemente.
Walt soltou o ar, os ombros relaxando. — Desculpa... achei que você não viria.
— Eu sempre venho quando posso, Walt. Mas as regras aqui são... difíceis. — Michael olhou para o corredor escuro que descia para as entranhas do Templo. — Você está pronto?
— Estou. Só me tire daqui. Onde é a saída?
— Siga em frente. Vire à direita no altar. Há uma escadaria que desce para o subsolo. — Michael apontou, mas não se moveu. — Lá embaixo, você encontrará uma parede de pedra solta. Atrás dela está o portal. Ele está inativo, coberto, mas você pode abri-lo.
Walt olhou para a escuridão do corredor. — Estou com medo, pai.
— Não tenha. — Michael sorriu, um sorriso triste. — A liberdade está logo ali. Siga em frente.
Passos apressados na entrada do Templo fizeram Walt congelar. Ele se virou, pronto para lutar.
Benjamin Linus surgiu na entrada, a respiração irregular de quem correu para interceptar um desastre. — Walt?!
— O que você está fazendo aqui? — Walt recuou, os punhos cerrados.
— Eu te faço a mesma pergunta. — Ben avançou devagar, as mãos levantadas em sinal de paz. — Este lugar não é seguro. Volte para a praia conosco.
— Cansei dos seus jogos, Ben. Cansei de ser o "especial". — Walt cuspiu as palavras. — Você deveria ter me deixado naquele manicômio. Pelo menos lá eu sabia que era louco. Aqui, vocês tentam me convencer de que sou um deus.
— Estamos tentando te proteger.
— Proteger? — Walt riu, incrédulo. — Você não vê? Você não vê o meu pai bem ali?
Ben parou. Ele olhou para o espaço vazio ao lado de Walt, onde Michael estava parado. Ben franziu a testa, a frustração visível em seus olhos. — Do que você está falando? Não tem ninguém aí.
— Ele não consegue me ver, filho — sussurrou Michael, uma pitada de satisfação na voz. — Ele nunca teve o dom.
Walt olhou para Ben com desprezo. — Ele está bem aqui. E ele está me mostrando o caminho de saída.
Walt virou as costas e correu para o corredor escuro.
— Walt, espere! — Ben gritou, correndo atrás dele. Ele não podia deixar o garoto chegar à Fonte.
Eles desceram as escadas antigas, passando por hieróglifos que contavam a história de deuses esquecidos, até chegarem a uma câmara sem saída. Apenas uma parede de rochas empilhadas grosseiramente bloqueava o caminho.
Walt parou, ofegante. — O que eu faço agora? — perguntou ele ao ar.
Ben alcançou-o, parando para recuperar o fôlego. — Não há nada aqui, Walt. É um beco sem saída. Vamos voltar.
Mas Michael estava lá, parado ao lado da parede. — Peça ajuda a ele, Walt. Diga para ele mover as pedras. Ele é fraco, mas vai fazer o que você mandar se estiver curioso.
Walt virou-se para Ben, um sorriso frio nos lábios. — Meu pai disse para você me ajudar. Tire aquelas pedras da parede.
Ben olhou para a parede, depois para Walt. A curiosidade, o vício eterno de Benjamin Linus, falou mais alto que a prudência. Se havia algo ali que ele desconhecia, ele precisava ver.
Relutante, Ben começou a remover as pedras pesadas. Walt ajudou. Juntos, eles abriram uma brecha na parede antiga.
No momento em que a última pedra caiu, uma luz branca, pura e cegante, inundou a câmara. O zumbido de energia eletromagnética fez os dentes de Ben vibrarem.
Ben cobriu os olhos, recuando, maravilhado e aterrorizado. — O que é isso? — gritou ele sobre o zumbido. — Essa luz... é igual à da Orquídea. Igual à da Roda!
Walt não respondeu. Ele olhava para a luz como se visse o paraíso.
— A luz corre por baixo de toda a ilha, filho — explicou Michael, sua voz clara mesmo no barulho. — Em alguns lugares, ela vaza. Perturbá-la move a ilha no tempo. Mas aqui... aqui é uma porta. Uma saída de emergência que Jacob mantinha para si.
— Como eu saio? — Walt gritou para o pai.
— Apenas entre na luz. — Michael sorriu, e sua figura começou a se dissolver no brilho intenso. — Você vai acordar em casa. Adeus, Walt.
— Pai! — Walt tentou segurá-lo, mas Michael se fora.
Restava apenas a luz. E Ben, encolhido contra a parede, assistindo ao impossível.
Walt olhou para Ben uma última vez. — Diga ao Hugo que eu sinto muito. Mas eu não sou o herói dele.
Sem hesitar, Walt deu um passo à frente e foi engolido pela claridade absoluta.
Houve um estrondo, um deslocamento de ar que jogou Ben no chão, e então... escuridão. A luz sumiu. A parede estava selada novamente, como se nada tivesse acontecido.
— Droga... — sussurrou Ben na escuridão do Templo.
Horas depois, na praia, o sol tentava romper as nuvens cinzentas.
Hugo Reyes estava sentado em um tronco, observando o mar com uma expressão de derrota. Ele viu Ben emergir da floresta, sujo de poeira e teias de aranha, caminhando com passos pesados.
— Onde você esteve? — perguntou Hugo, embora já temesse a resposta.
— No Templo. — Ben parou, limpando a terra das mãos. — O Walt fugiu, Hugo.
— Como ele conseguiu sair? — indagou Hugo.
— Você sabe que não adiantaria mantê-lo aqui, Hugo. A Ilha o rejeitou. Ele nunca aceitaria o cargo.
Hugo suspirou, chutando a areia. — Sem um sucessor, a estabilidade da Fonte está em risco.
— Então não temos escolha — disse Ben, olhando de relance para a floresta. — Teremos que enviar o Desmond. Ele é o único que pode sair e trazer os novos candidatos.
Antes que Hugo pudesse responder, passos pesados e apressados surgiram da mata. Desmond emergiu, a aparência selvagem, o cabelo comprido e o rosto marcado por uma década de frustração. Ele não ouvira a conversa toda, mas a linguagem corporal dos dois era o suficiente para acender sua paranoia.
— Tudo bem, dude? — Indagou Hugo, para Desmond.
Hugo e Ben trocaram um olhar sombrio. A jornada de Desmond estava apenas começando. E o fim do mundo também.
A Ilha, Base de Operações da Nova Dharma – Noite
Walt permanecia imóvel junto à janela tática, observando a escuridão da selva como se pudesse ver através das árvores. Seus olhos não buscavam apenas Aaron; eles buscavam o rastro de uma energia que ele conhecia intimamente. Na cela, Clementine o observava. Apesar do terror, ela notava as mãos de Walt — elas não tremiam, mas apertavam o metal com uma força que denunciava uma tempestade interna. Para ela, ele não parecia um vilão de filme, mas um homem que foi quebrado tantas vezes que esqueceu como se remontar.
O silêncio foi interrompido pelo som metálico de botas. Wilbert DeGroot entrou na sala, exalando a confiança de quem acredita ter o controle de todas as peças.
— Como está a caçada? — indagou Wilbert, parando ao lado de Walt e acendendo um charuto.
— Não é da sua conta — respondeu Walt, sem desviar o olhar do horizonte escuro. A voz era gélida, desprovida de qualquer cortesia.
Wilbert soltou uma baforada, um sorriso de canto surgindo em seu rosto. — Por que está me respondendo assim, Walt? Eu os entreguei a você exatamente como planejamos. O "Filho da Ilha" está lá fora, fazendo o trabalho sujo por nós. Não vai demorar muito para você ter sua vingança.
Walt finalmente virou o rosto. A luz da lâmpada de emergência revelou um brilho perigoso em suas pupilas. — Você não entende nada sobre vingança, Wilbert. Você quer ações, relatórios e prédios reconstruídos. Você quer o que o seu pai perdeu.
— E você quer o que o seu pai tirou de você — rebateu Wilbert, aproximando-se. — Estamos no mesmo barco. Ben Linus destruiu o meu legado e a sua infância. Eu te dei os soldados, os mapas e a tecnologia. O que mais você quer?
Walt soltou as grades e deu um passo na direção de Wilbert, diminuindo a distância até que o cheiro do charuto fosse sufocante. — Eu não quero o seu império, DeGroot. Eu quero o silêncio.
Walt desviou o olhar para Clementine, que encolheu-se na jaula. Por um breve segundo, ele viu a si mesmo ali — pequeno, assustado, sendo usado como moeda de troca. A memória o atingiu como um soco.
Ele se lembrou dos 7 anos que passou com Hugo e Ben ali. Lembrou-se de Hugo rindo enquanto tentava lhe ensinar a pescar, e de Ben, sempre nas sombras, observando-os com aquele olhar de professor paciente que escondia um monstro. Ele se lembrou da promessa de Hugo: "Você vai ser o Guardião, Walt. Você vai ser melhor que todos nós". E lembrou-se da traição sistemática de Ben, que o mantinha preso em rituais e testes, alegando que era "pelo bem da Ilha".
Eles o trouxeram de volta para ser um salvador, mas o trataram como uma ferramenta. Hugo com sua bondade sufocante e Ben com sua manipulação cirúrgica.
Walt sentiu a cicatriz invisível em seu peito arder. A raiva não era apenas um sentimento; era uma vibração eletromagnética que fazia as luzes da sala piscarem violentamente por um segundo.
— Ben Linus me disse uma vez que a Ilha exigia sacrifícios — sussurrou Walt, voltando-se para Wilbert com um sorriso que não chegava aos olhos. — Ele passou a vida sacrificando os outros no altar desse lugar.
Walt pegou o seu celular da mesa e apertou abriu o aplicativo de rastreamento, observando Aaron se mover na mata.
— Wilbert... você quer a Ilha. Pode ficar com ela. Fique com os escombros e com o mofo. — Walt guardou o rádio e caminhou em direção à porta, o ódio pulsando em seu sangue como um veneno doce. — Eu só quero ver o momento em que a luz nos olhos de Benjamin se apagar. Quero que o último rosto que ele veja seja o do menino que ele tentou transformar em deus, mas que acabou criando como seu próprio carrasco.
Walt saiu da sala, deixando Wilbert e Clementine no silêncio pesado. Ele não estava mais caçando um homem; ele estava indo encerrar um ciclo de sangue que começou naquela balsa, há uma vida atrás.
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