Lost: O Primeiro Herdeiro

13 LIVRO 2 — CAPÍTULO 13: A CHAVE PARA A ROCHA



A Ilha — O Presente

A conversa com Hugo no porão havia terminado, mas a adrenalina de Benjamin Linus estava longe de dissipar. Ele subiu as escadas da casa antiga, o assoalho rangendo sob seus pés, e foi direto para o armário de suprimentos no corredor.

Ele não pegou uma lanterna ou mantimentos. Suas mãos fecharam-se em torno da coronha fria de uma espingarda de caça. Ele verificou a munição com um movimento seco e preciso. Miguel Cortez era um problema, e problemas na ilha precisavam ser cortados pela raiz.

Ben saiu pela porta dos fundos, deslizando para a densa floresta como uma sombra que retorna ao seu lugar de origem. Ele não correu. Ele conhecia a mata. Ele sabia que o medo faria Miguel correr em círculos, e que a ilha, eventualmente, o entregaria.

Quilômetros adiante, Miguel Cortez não tinha a mesma calma. Ele corria, os pulmões queimando, os galhos chicoteando seu rosto e rasgando suas roupas.

Mierda, mierda... — ele arfava, tropeçando em raízes expostas.

Ele sabia quem era Ben Linus. Wilbert DeGroot havia lhe contado as histórias de terror: o expurgo, o genocídio, a frieza. Miguel sabia que não estava fugindo de um homem, mas de um executor.

A floresta parecia fechar-se ao redor dele, sufocante e úmida. As árvores gigantes bloqueavam a luz do sol poente, criando um labirinto de sombras.

— Para onde estou indo? — perguntou Miguel ao vazio, a voz falhando.

Nenhuma resposta, apenas o som de insetos e pássaros estranhos. Desorientado e com as pernas tremendo de exaustão, ele parou ao ouvir o som de água corrente. À sua frente, um riacho cristalino serpenteava por entre as pedras.

Miguel caiu de joelhos na margem, jogando água no rosto suado, tentando lavar o pânico. Ele estava perdido. E sabia que, naquela ilha, estar perdido era o primeiro passo para desaparecer.

De volta à Vila da Dharma, a "ordem" imposta por Ben começava a ruir na ausência dele.

Aaron Littleton estava na varanda do alojamento masculino, observando a movimentação dos mercenários de Roger. Quando viu que a guarda estava baixa, fez um sinal discreto para a casa da frente.

Clementine Phillips saiu, casual, olhando para os lados. Eles se encontraram na lateral da casa, onde a vegetação começava a invadir o gramado aparado.

— Ele não está aqui — sussurrou Aaron. — Vi Ben sair com uma espingarda em direção à mata há dez minutos. É a nossa chance.

— Chance de quê? De nos perdermos? — Clementine cruzou os braços, mas seus olhos brilhavam com a mesma curiosidade que movia Aaron.

— De ver o que tem lá fora. — Aaron apontou para a trilha. — Não viemos até aqui para ficar trancados num subúrbio fantasma dos anos 70. Precisamos saber onde estamos pisando.

— Tudo bem. — Clementine cedeu, ajeitando a mochila. — Mas vamos voltar antes que o sol se ponha.

— Está com medo de ficar no escuro, Phillips? — provocou Aaron, lembrando-se da mudança súbita do dia para a noite no helicóptero.

— Estou com medo de que o sol apague de novo, Littleton. Vamos logo.

Enquanto os dois se esgueiravam para a floresta, um par de olhos atentos observava tudo da pequena escadaria do alojamento principal.

Marcel estava sentado, limpando os óculos com a barra da camisa. O arqueólogo francês parecia deslocado naquele cenário tropical, mas sua mente trabalhava freneticamente, catalogando cada detalhe arquitetônico das casas, cada símbolo da Dharma.

Passos na madeira o fizeram erguer o olhar. Bianca aproximou-se, sentando-se no degrau abaixo dele sem pedir licença. Havia uma familiaridade imediata entre eles — a conexão de quem sabe que é o mais inteligente na sala.

— Olá, Marcel — disse ela, direta.

— Olá... Bianca, não é? — Ele colocou os óculos, focando no rosto da geóloga.

— Exato. — Bianca olhou na direção onde Aaron e Clementine haviam desaparecido. — Eles não vão achar nada além de mato. Não sabem o que procurar.

Marcel sorriu, um sorriso sutil. — E nós sabemos?

Bianca virou-se para ele, a expressão séria e fascinada. — Você notou, não notou? No helicóptero. O GPS não apenas falhou; ele inverteu a polaridade. E o barômetro da minha mochila... a pressão atmosférica aqui não condiz com o nível do mar.

— Sim, notei. — Marcel assentiu, o interesse acadêmico superando o medo. — E as formações rochosas na costa... basalto vulcânico misturado com sedimentos que não deveriam existir nesta latitude. Geologicamente, esta ilha é uma impossibilidade.

— Isso não te deixa curioso? — Os olhos de Bianca brilhavam. — Esqueça a Widmore, esqueça o Ben. Estamos em cima de um mistério científico.

Marcel olhou para ela, reconhecendo a mesma fome de conhecimento que o trouxera até ali. — Eu sou arqueólogo, Bianca. Eu vivo para desenterrar o que não deveria ser encontrado.

— Então? — Bianca levantou-se, estendendo a mão para ele. — O que estamos esperando? Aaron e Clementine foram brincar de exploradores. Nós vamos fazer ciência.

Marcel aceitou a mão dela e levantou-se, sacudindo a poeira da calça. — Quando começamos a investigar?

— Agora — respondeu Bianca, liderando o caminho para uma trilha diferente, longe dos outros, em direção às respostas que a terra escondia.

Rio de Janeiro, Brasil — Fevereiro de 2019

O calor úmido de fevereiro castigava o subúrbio carioca. Dentro da pequena casa de alvenaria exposta, o ventilador de teto girava preguiçosamente, incapaz de vencer a temperatura.

Bianca Torres, estava sentada à mesa da cozinha, cercada por livros de geografia e amostras de rochas que ela coletava em excursões escolares. Enquanto seus irmãos corriam pela rua jogando bola, ela sonhava com placas tectônicas e formações vulcânicas, um futuro que parecia financeiramente impossível para a realidade de sua família.

Uma batida na porta interrompeu seus estudos.

Paula Martins, sua mãe, secou as mãos no pano de prato e foi atender. Ao abrir a porta, ela franziu a testa. O homem parado na calçada quebrada não pertencia àquele lugar. Vestia um terno de linho leve, impecável, e tinha uma postura de quem nunca precisou se preocupar com o preço da passagem de ônibus.

— Posso ajudar? — indagou Paula, desconfiada.

— Senhora Paula Martins? — O homem falou em um português suave, com um sotaque quase imperceptível. — Meu nome é Richard Alpert. Sou diretor-executivo da Fundação Widmore. Vim falar com sua filha, Bianca.

Paula olhou para trás, onde Bianca já estava de pé, curiosa, segurando um livro de geologia contra o peito.

— Sobre a Bianca? — Paula bloqueou a entrada, o instinto materno em alerta. — Ela fez alguma coisa?

— Ela fez. — Richard sorriu, um sorriso que transmitia calma. — Ela se destacou. Sabemos que ela é uma estudante brilhante com um interesse particular pela terra e seus segredos. Posso entrar?

Paula hesitou, mas a curiosidade venceu. Ela deu passagem. Richard entrou na sala simples, sem demonstrar qualquer desconforto com a humildade do ambiente. Os irmãos de Bianca, que haviam entrado para beber água, pararam para observar o estranho.

— Aceita um café? — ofereceu Paula, por educação.

— Não, obrigado. Serei breve. — Richard caminhou até a estante e pegou um porta-retratos antigo. A foto mostrava Paula abraçada a um homem jovem e bonito. — Este é seu irmão, certo? Paulo.

O clima na sala pesou instantaneamente. Paula tirou a foto da mão de Richard com firmeza. — É. Ele morreu. No acidente da Oceanic em 2004. Todos sabem disso.

— É o que todos sabem. — Richard olhou nos olhos dela, sua expressão tornando-se grave. — Mas não é a verdade, Dona Paula. Seu irmão não morreu na queda. Ele sobreviveu. Ele viveu em uma ilha no Pacífico por meses.

Paula recuou, chocada. Bianca largou o livro na mesa, aproximando-se. — O que o senhor está dizendo? Encontraram o avião no fundo do mar.

— Encontraram o que queriam que fosse encontrado. — Richard manteve a voz baixa. — Mas Paulo viveu. Ele e a namorada, Nikki. Infelizmente, eles faleceram na ilha algum tempo depois. Mas ele não morreu no impacto. Ele teve uma chance.

Paula começou a chorar, as pernas cedendo. Ela sentou-se no sofá, amparada por Bianca. — Por que está me contando isso agora? — soluçou Paula. — Para abrir a ferida?

— Para fechá-la. — Richard sentou-se na poltrona em frente a elas. — A Widmore quer reparar os erros do passado. Não podemos trazer Paulo de volta, mas podemos garantir que a família dele tenha o futuro que ele gostaria de ter dado a vocês. Queremos oferecer uma compensação financeira integral.

Ele tirou um envelope do bolso e o colocou sobre a mesa. Depois, virou-se para Bianca.

— E temos uma proposta para você, Bianca. Sabemos que seu sonho é ser geóloga.

Os olhos de Bianca brilharam. — Como vocês sabem disso?

— Nós observamos talentos. — Richard inclinou-se para frente. — A Widmore quer custear sua faculdade. As melhores universidades, os melhores equipamentos, tudo pago. Você se tornará a geóloga que nasceu para ser.

— É sério? — Bianca perguntou, o coração disparando. Parecia bom demais para ser verdade. — E o que vocês querem em troca?

— Lealdade. E disponibilidade. — O olhar de Richard tornou-se intenso. — A ilha onde seu tio morreu... ela é um lugar geologicamente único. Existem fenômenos lá que desafiam a ciência. Quando você estiver pronta, quando for formada... nós voltaremos lá. E precisaremos de alguém como você para nos ajudar a entender o solo onde pisamos.

— Voltar para a ilha? — Bianca olhou para a mãe, que ainda chorava, e para o cheque na mesa que mudaria a vida de seus irmãos.

— É uma expedição para o futuro, Bianca. — Richard estendeu a mão. — Aceita?

Bianca olhou para as paredes descascadas de sua casa e depois para o horizonte de possibilidades que aquele homem oferecia. — Eu aceito. — Ela apertou a mão de Richard.

— Excelente. — Richard levantou-se, ajeitando o paletó. — Prepare-se, Bianca. O estudo da Terra é fascinante, mas o que vamos encontrar lá... é de outro mundo.

A Ilha — O Presente

Miguel Cortez corria, o ar queimando em seus pulmões, tropeçando nas raízes expostas que pareciam tentar agarrar seus tornozelos. Ele parou abruptamente quando a mata se abriu.

Diante dele, erguiam-se os pilares negros da Cerca Sônica.

Ele se lembrou do que Ben dissera na chegada: "A cerca está morta". Mas Miguel era mecânico e piloto; ele sabia que sistemas podiam ser reiniciados. Se ele conseguisse ligar aquela barreira, mesmo que por um minuto, poderia impedir que Ben o alcançasse. Era sua única chance.

Miguel correu até o painel de controle embutido em um dos pilares, coberto de musgo. Ele usou a faca para abrir a caixa de metal corroída. Fios coloridos estavam expostos, alguns rompidos, outros ainda conectados.

— Vamos, vamos... — sussurrou ele, as mãos trêmulas tentando fazer uma ligação direta. Ele uniu dois fios vermelhos, esperando ouvir o zumbido característico da alta frequência.

Nada. Apenas o silêncio da selva e o som de sua própria respiração apavorada.

Ele tentou novamente, raspando o cobre dos fios, suando frio. — Funciona, maldita!

— Ela precisa de uma fonte de energia, Miguel.

A voz veio de trás dele, calma e quase entediada.

Miguel girou, levando a mão à faca, mas foi tarde demais. O mundo explodiu em branco quando a coronha de madeira da espingarda de Ben conectou com sua têmpora. Miguel desabou na lama, a escuridão o engolindo antes mesmo de sentir a dor.

O cheiro de mofo e madeira úmida foi a primeira coisa que Miguel sentiu ao despertar, seguido por uma dor latejante na base do crânio. Quando abriu os olhos, a luz vacilante de uma lamparina a óleo projetava sombras distorcidas nas paredes de pedra bruta. Ele tentou mover os braços, mas os pulsos estavam ancorados à estrutura de uma cadeira pesada. As cordas mordiam sua pele a cada movimento.

Ben Linus estava a poucos metros, encostado em uma viga de sustentação. Ele não parecia um sequestrador; parecia um observador entediado, limpando as unhas com um canivete de prata. A espingarda descansava displicente contra a parede, um lembrete silencioso de que a violência física era apenas o último recurso de Ben.

— Pode gritar, Miguel. Seus pulmões vão cansar antes que o som atravesse dois metros da parede — disse Ben, sem desviar o olhar de seu canivete. — A acústica deste porão foi projetada para o silêncio.

— Me solte, seu psicopata! — Miguel forçou as amarras, o suor escorrendo pelo rosto. — O que você quer? Vai me purgar como fez com o pessoal da Dharma? Eu sei quem você é!

Ben parou o movimento das mãos. Ele ergueu os olhos — aquelas orbes grandes e fixas que pareciam ler o que estava escrito atrás da retina de Miguel. Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.

— Você andou ouvindo as histórias de ninar do Wilbert? Ou apenas revirou o meu lixo?

— Eu vi o que sobrou deles. Você é um monstro. — Miguel cuspiu no chão, a respiração errática.

— Eu sou um cirurgião, Miguel. Às vezes, para salvar o corpo, você precisa remover o tumor — Ben guardou o canivete e caminhou devagar, parando a centímetros do rosto de Miguel. —- Tudo o que fiz, e tudo o que farei, é para manter este lugar longe de homens que veem a Ilha como uma mina de ouro. Homens como Wilbert DeGroot. E peões como você.

— Eu não sou um peão! Eu sou um piloto! Eu não sou uma ameaça para ninguém!

— Não? — Ben inclinou a cabeça, simulando uma curiosidade genuína. — Um homem que descarrega dois tiros no peito de um senador em plena luz do dia não se considera uma ameaça? Isso é modéstia ou amnésia seletiva?

O sangue de Miguel gelou. O pânico, que antes era apenas adrenalina, tornou-se um frio paralisante. — Do que... do que você está falando?

— Não gaste o nosso tempo com teatro, Miguel Cortez. — Ben puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ele, joelho com joelho, invadindo seu espaço vital. — Thiago Fernandez. O 'orgulho' de Monterrey. Você o matou e achou que a poeira do deserto cobriria seus rastros. Achou que Bryan Davis nasceu de um milagre na fronteira.

— Como você sabe disso? Ninguém sabia...

— Porque fui eu quem desenhou o seu milagre — Ben sussurrou, a voz carregada de uma autoridade gélida. — O segurança que te deu o passaporte? O homem que te indicou para o Wilbert? Ele recebe ordens minhas. Eu não apenas te salvei, Miguel; eu te contratei. Eu te dei uma vida nova para que você pudesse ser meus olhos e ouvidos dentro da Nova Dharma. E o que você faz? Tenta vender os meus segredos de volta para eles?

Miguel balançou a cabeça, atordoado. A percepção de que sua liberdade era apenas uma coleira mais longa o fez querer vomitar. — Não... é mentira. Você está mentindo.

— Eu não preciso mentir para um homem amarrado. — Ben enfiou a mão no bolso do casaco e tirou o celular. "Mas eu entendo. Você precisa de um motivo para acreditar em mim. Um motivo que não seja apenas o medo da morte.

Ben virou a tela. A imagem era nítida: uma menina jovem, caminhando distraída com fones de ouvido coloridos, uma mochila escolar nas costas.

— Marta... — O nome escapou como um soluço dolorido. Miguel fechou os olhos, as lágrimas vencendo a resistência. — Por favor... ela não tem nada a ver com isso. Por favor, Ben.

— Eu não machuco crianças, Miguel. Eu sei exatamente qual é o peso de ver uma filha morrer. — A voz de Ben fraquejou por um milésimo de segundo — uma rachadura real na armadura, um eco de Alex que Miguel não podia compreender. — Eu não quero feri-la. Quero que ela tenha o tratamento que merece. O dinheiro da Widmore pode garantir que ela viva uma vida longa e saudável longe daquele hospital no México.

— O que você quer? — Miguel perguntou, a voz quebrada, a lealdade a Wilbert desmoronando sob o peso da paternidade.

— Quero a localização exata — Ben endureceu novamente, a máscara de líder voltando ao lugar. — O Projeto Gênesis. Onde Wilbert está escondido na Ilha? O que eles trouxeram no compartimento de carga do Elizabeth que o radar não detectou?

— Eu não posso... Wilbert vai me matar. Ele tem gente em todos os lugares...

— Wilbert DeGroot é um fragmento do passado, um homem que não entende que o tempo dele e da Dharma acabou — Ben levantou-se, a paciência se esgotando. — O homem que o financia, Alvar Hanso, vê você e sua filha como estatísticas aceitáveis. Se eles ativarem o Gênesis, não haverá mundo para a Marta crescer.

— Você fala de salvar o mundo, mas é um parricida! — Miguel gritou, a raiva sendo sua última defesa. — Você matou seu próprio pai naquela van! Você matou todos na Purgação! Como pode ser o mocinho?

— Eu nunca disse que era o mocinho — Ben respondeu, a voz perigosamente suave. — Eu disse que era necessário. E se for 'necessário' deixar você apodrecer neste porão enquanto a Dharma usa a sua filha como alavanca, eu farei.

Miguel riu, um som seco e histérico. — Que Deus tenha misericórdia da sua alma, Ben. Porque você é o vazio entre as estrelas. Você não tem nada por dentro.

Ben olhou para Miguel com uma expressão indecifrável. A acusação pareceu flutuar no ar úmido. Ele pegou a lamparina da mesa, deixando o ambiente mergulhado em uma penumbra profunda.

— Pense na Marta, Miguel. Pense se a lealdade a um cadáver como Wilbert vale o futuro dela. Vou te dar o silêncio para decidir.

Ben saiu, o som da porta pesada sendo trancada ecoando como o martelo de um juiz. Miguel ficou sozinho, envolto pela escuridão e pelo peso insuportável de saber que, na Ilha, ninguém era dono do próprio destino.

Enquanto isso, longe dos porões e torturas, a ilha mostrava sua face mais sedutora.

Marcel e Bianca caminhavam pela orla da floresta, onde as árvores encontravam as rochas vulcânicas da costa. O sol da tarde iluminava as formações geológicas estranhas, e Bianca estava em seu elemento.

— Olhe para isso. — Bianca tocou uma parede de rocha negra. — Basalto com inclusões magnéticas. A bússola fica louca aqui perto. É como se a própria terra estivesse vibrando.

— Peculiar é pouco. — Marcel ajustou os óculos, fascinado. — Essas formações não seguem a erosão natural. É como se a ilha tivesse sido... moldada. Ou movida.

Bianca virou-se para ele, limpando a poeira das mãos. — Sabe, Marcel... quando eu era mais nova, no Brasil, um homem veio à minha formatura. Ele se chamava Edward. Edward Widmore.

Marcel parou de analisar a rocha. — Um Widmore foi à sua formatura?

— Ele me disse que esta não era uma ilha comum. — Bianca olhou para o horizonte, onde o mar encontrava o céu. — Na época, achei que ele estava tentando me impressionar ou me seduzir. Mas agora... vendo isso... olhando para este lugar impossível...

— Você acha que ele estava falando a verdade? — perguntou Marcel.

— Ele me disse que meu tio morreu aqui. Enterrado vivo. — Bianca estremeceu, abraçando os próprios braços. — Não sei se devo acreditar em tudo, mas... sinto que estamos pisando em cima de muitas histórias não contadas.

Marcel assentiu, olhando para a mata densa. — Histórias e corpos, Bianca. Vamos continuar. Quero ver o que mais essa ilha esconde antes que o sol se ponha .

Os dois riram, uma risada nervosa de quem explora uma casa mal-assombrada, e continuaram a caminhada em direção ao ponto mais distante do vilarejo, sem saber que estavam prestes a desenterrar segredos que mudariam o rumo da missão.

Rio de Janeiro, Brasil (2017) — Alguns anos após a visita de Richard

O salão de festas na Zona Sul do Rio pulsava com música alta e o tilintar de taças. Bianca estava radiante em seu vestido de formatura, cercada pela família e pelos novos horizontes que a bolsa da fundação havia aberto. Ela segurava o diploma de geologia como se fosse um cetro real.

Enquanto ria de uma piada de sua mãe, Bianca sentiu um peso sobre si. Alguém a observava com uma intensidade que atravessava a multidão.

Ela olhou para o canto do bar. Um homem de terno cinza-claro, com o colarinho aberto e uma elegância europeia que contrastava com o calor tropical, ergueu a taça de champanhe em sua direção. Ele tinha uma beleza madura e um sorriso que misturava charme e um cansaço existencial.

Intrigada e movida pela confiança que o diploma lhe trouxera, Bianca desvencilhou-se da mãe e caminhou até ele.

— Você definitivamente não tem cara de parente de nenhum formando brasileiro — disse ela, direta, apoiando-se no balcão.

— Culpado. — O homem tinha um sotaque britânico polido, mas sua voz era rouca. — Desculpe a intromissão, mas é difícil ignorar a formanda mais brilhante da noite. Sou Edward. Mas meus poucos amigos me chamam de Ed.

O nome na placa de reserva da mesa atrás dele chamou a atenção de Bianca: Fundação Widmore. Ela endireitou a postura.

— Widmore? A fundação que pagou meus estudos? Eles mandaram um diretor para conferir se o investimento valeu a pena?

Edward riu, um som seco e divertido. — Não, querida. Eu sou apenas um dos donos da Fundação Widmore, mas a parte burocrática me dá urticária. Deixo a administração para os contadores em Londres. Eu vim ao Rio apenas para passear, fugir do inverno inglês e apreciar a vista de Copacabana. Quando soube que a nossa bolsista prodígio estava se formando, achei que seria um crime não passar aqui para prestigiar e oferecer um brinde pessoal.

— Então você atravessou o oceano para passear e "por coincidência" apareceu na minha festa? — Bianca arqueou a sobrancelha, divertida. — E o que o patrono quer comigo?

— Conversar. E pagar uma bebida para a geóloga que, segundo os relatórios que eu finjo não ler, vai revolucionar o setor. — Ele fez sinal para o barman. — O que você bebe?

— Caipirinha. Forte. — Bianca desafiou.

— Duas, por favor. Com a melhor cachaça da casa.

Eles se afastaram da música alta, encontrando um canto mais reservado na varanda voltada para o mar. O ar noturno era quente e salgado.

— Então... qual sua ligação com a Widmore Corporation? — perguntou Bianca, testando o terreno. — O tal Charles Widmore era seu chefe?

— Charles era irmão do meu pai, Arthur Widmore, portanto, meu tio. — Edward tomou um gole da bebida, ignorando a força do álcool. — A Fundação é independente, mantemos uma ligação financeira com a Corporation, mas eu prefiro manter distância dos negócios principais. O atual CEO, Desmond, é... um homem peculiar, para não dizer, quase amador.

— Você parece um homem que foge de muita coisa — observou Bianca.

— Vim para lembrar que o mundo é maior do que escritórios e conspirações de família. — Edward virou-se para ela, os olhos percorrendo o rosto da jovem com uma intensidade que a fez corar. — E acabei encontrando algo muito mais interessante que essa linda vista da praia. Você tem um olhar analítico, Bianca. Gosto disso.

— É o olhar de quem estuda a terra, Ed. Procuramos o que está escondido sob a superfície.

— Então somos parecidos. — Ele riu, aproximando-se.

A aura de mistério e a melancolia que Edward exalava eram magnéticas. O beijo foi inevitável, uma colisão entre a curiosidade dela e a sede dele por algo que parecia ter perdido há muito tempo.

Horas depois...

O quarto do hotel de luxo em Copacabana estava silencioso, exceto pelo som do mar. Bianca estava sentada na beira da cama, vestindo a camisa social de Edward, observando as luzes da cidade. Edward estava na varanda, fumando um charuto, olhando para o oceano escuro como se esperasse um sinal vindo do horizonte.

— Sabe... — começou ele, voltando para o quarto. — Havia um escritor. Gary Troup. Ele escreveu um livro chamado Bad Twin. Era sobre a minha família. Mas o livro estava mais para dossiê sobre a Widmore e Hanso.

— Um livro sobre vocês? — Bianca virou-se, curiosa. — Onde posso comprar?

— No fundo do mar, eu temo. — Edward soltou a fumaça. — Troup morreu no voo 815 da Oceanic. Em 2004.

Bianca sentiu um arrepio. Aquele voo novamente. Richard Alpert já havia mencionado. — Meu tio estava nesse voo — disse ela, a voz baixa. — Richard me disse que... que eles sobreviveram. Em uma ilha.

Edward parou. A máscara de turista charmoso caiu, revelando o homem obcecado que ele realmente era. — Richard te contou sobre a Ilha?

— Ele disse que era um lugar especial. Mas os jornais mostraram os destroços no fundo do mar.

Edward soltou uma risada curta e sem alegria. — É claro que mostraram. Meu tio Charles gastou milhões para colocar um avião falso e corpos falsos lá embaixo. Foi tudo um teatro para o mundo não procurar o que realmente importa.

Bianca levantou-se, a camisa larga caindo sobre os ombros. — O quê? Ed, você está bêbado. Ninguém forja um desastre aéreo desse tamanho.

— Com o dinheiro da Widmore Corporation, você forja o que quiser, Bianca. — Ele segurou os braços dela, os olhos brilhando com uma urgência maníaca. — A Ilha onde seu tio morreu... ela se move no tempo. Ela tem uma energia que a geologia comum não explica. Por isso a Fundação pagou seus estudos. Não foi caridade.

— Você disse que veio para passear! — Bianca empurrou-o, assustada com a mudança brusca de tom. — Agora está dizendo que eu sou um investimento para uma caça ao tesouro magnética?

— Eu estou tentando te avisar! — Edward insistiu. — A Widmore quer que você mapeie aquela energia. Mas há outros. Wilbert DeGroot... Alvar Hanso... Eles estão vindo.

Bianca vestiu-se rapidamente, as mãos tremendo. O homem sedutor da festa havia desaparecido, restando apenas um homem quebrado por teorias que pareciam loucura.

— Foi um erro vir aqui — disse ela, pegando os sapatos. — Eu sou uma cientista, Edward. Eu acredito em evidências, não em aviões falsos e ilhas que se “movem”.

— Bianca, espere! Eu não vim aqui para te monitorar, eu vim porque... — ele hesitou, a mentira morrendo na garganta enquanto a observava partir.

— Adeus, Ed. Aproveite o resto do seu "passeio".

Ela bateu a porta, deixando Edward sozinho. Ele voltou para a varanda, o charuto apagado. Ele havia falhado. Bianca agora estava curiosa, e na mitologia daquela família, a curiosidade era o primeiro passo em direção ao abismo.

Vila da Dharma — Fim de Tarde

O sol começava a tocar a copa das árvores quando Benjamin Linus emergiu da trilha da floresta. Ele caminhava com passos tranquilos, a espingarda de caça descansando casualmente sobre o ombro, como um fazendeiro voltando de uma ronda matinal.

Mas a tranquilidade acabou assim que ele pisou no gramado central.

O silêncio na Vila era pesado. Os mercenários de Roger, que antes jogavam cartas ou descansavam, agora estavam de pé, as mãos próximas aos coldres, os olhos fixos no homem que voltava da mata.

Roger Miles estava no centro do pátio. Ele viu a espingarda de Ben. Viu a sujeira de terra fresca nas botas dele. E, principalmente, notou quem não estava com ele.

Roger caminhou até Ben, interceptando-o antes que ele pudesse chegar à sua casa. — Onde você esteve? — A voz de Roger era baixa, um rosnado de aviso.

Ben parou, ajeitando a espingarda no ombro. — Com todo o respeito, Roger, o que eu faço ou deixo de fazer no meu tempo livre é problema meu.

— Errado. — Roger deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Ben. — Estamos sob minhas regras de segurança. Ninguém sai do perímetro sozinho. E Bryan saiu há horas para o helicóptero e não voltou. Você saiu logo depois. Agora você volta... sozinho e armado.

Ben suspirou, como se estivesse lidando com um funcionário burocrático. Ele se virou para o centro da praça, ignorando Roger, e elevou a voz para que todos ouvissem: — Venham todos! Tenho um anúncio a fazer.

Foi a gota d'água.

Num movimento fluido, Roger sacou sua pistola e pressionou o cano frio contra a têmpora de Ben. — Eu não terminei de falar com você, Linus!

O som de travas de segurança sendo destravadas ecoou pelo pátio. Meia dúzia de fuzis se voltaram para Ben. O "líder" do acampamento estava cercado.

Ben não piscou. Ele moveu os olhos lentamente para encarar Roger. — O que você está fazendo, Roger? Isso é desnecessário.

— Onde está o Bryan? — Roger exigiu, o dedo tencionando no gatilho. — Se você tocou num fio de cabelo dele, eu espalho seus miolos aqui mesmo.

— Bryan? — Ben soltou uma risada curta e sem humor. — "Bryan" é um nome falso, Roger. O homem que você chama de piloto é um traidor. O nome dele é Miguel Cortez.

Roger franziu a testa, a confusão disputando com a raiva. — Do que você está falando?

— Foi ele quem sabotou as comunicações do navio. — Ben disse com convicção absoluta. — Ele trabalha para Wilbert DeGroot. Eu fui checar o perímetro e... digamos que confirmei minhas suspeitas. Wilbert está na ilha.

— Não dá para confiar em você. — Disse Roger.

— Não tem porque eu mentir para você.

— E onde o piloto está agora? — Roger pressionou a arma com mais força.

— Digamos que ele foi... dispensado. — Ben respondeu, evasivo. — Eu salvei a operação, Roger. Você deveria me agradecer.

— Abaixe a arma, Ben. — Roger ordenou, ignorando a explicação. — Coloque essa espingarda no chão. Agora.

Ben olhou para os soldados, depois para Roger. Ele sabia quando ceder. Lentamente, ele se abaixou e pousou a espingarda na grama, erguendo as mãos vazias em sinal de rendição. — Viu? Eu estou desarmado. Estou do lado de vocês, Roger. Miguel era o problema, não eu.

Roger não baixou a pistola. A desconfiança estava gravada em seu DNA. — Eu não confio em você. Você o matou, não foi? Você levou meu homem para o mato e o executou.

— Você está cometendo um erro... — advertiu Ben, a voz perdendo a paciência.

— O erro foi ter confiado em você. — Roger engatilhou o cão da pistola. O clique ecoou como um trovão no silêncio tenso.

— Ei! Calma aí, dudes!

A voz veio da varanda da casa de Ben. Roger e os soldados giraram, surpresos.

Hugo Reyes desceu os degraus, as mãos erguidas em um gesto pacificador, com a calma de quem já viu armas demais apontadas para ele naquela vida. — Vamos baixar as armas, pessoal. Ninguém precisa se machucar.

Dois soldados viraram os fuzis para Hugo, mas Roger fez um sinal para que esperassem. — Ora, ora. Finalmente o mamute apareceu. — Roger riu, sem tirar a mira de Ben. — Eu lembro de você. Estava em Sydney com esse psicopata naquele dia. Quem diria que te encontraria aqui também.

— Eu vim no pacote. — Hugo caminhou até ficar entre Roger e Ben, ignorando o perigo. — Entendam que estamos todos do mesmo lado aqui, Roger. Ben está dizendo a verdade sobre o Miguel. O cara era um infiltrado.

Roger olhou para Hugo, depois para Ben. A presença de Hugo, estranhamente, dava credibilidade à história maluca de Ben. Roger soltou o ar, frustrado, e baixou a arma. — Abaixem as armas! — ordenou aos seus homens. — Mas fiquem de olho neles.

A tensão diminuiu, mas não desapareceu. Antes que alguém pudesse fazer mais perguntas, passos apressados e respiração ofegante quebraram o momento.

Jessy Burke correu para o pátio, vindo da área dos alojamentos, o rosto pálido de pânico.

— Roger! — gritou ela.

Roger virou-se, já esperando o próximo desastre. — O que foi agora, Doutora?

— Eles sumiram! — Jessy parou, apoiando as mãos nos joelhos para respirar. — Fui levar água para os quartos e... eles não estão lá. Clementine e Aaron desapareceram.

— O quê?! — Roger praguejou, chutando a grama. — Eu disse para ninguém sair do perímetro!

Um dos soldados, que fazia a ronda nos fundos, correu até eles. — Senhor! Fiz a contagem. O francês, Marcel, e a geóloga, Bianca... também sumiram. As camas estão vazias.

— Agora isso... — Roger passou a mão pelo rosto, sentindo o controle da situação escorrer por entre os dedos. — Quatro civis soltos na selva com um assassino à solta. Brilhante.

Enquanto o caos se instalava e Roger começava a gritar ordens de busca, Benjamin Linus permaneceu parado no centro da praça. Um sorriso sutil, quase imperceptível, curvou seus lábios.

O caos era a sua escada. E o jogo estava apenas começando.

Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro — 2029 (Pouco antes do embarque para Sydney)

O saguão de embarque internacional zumbia com a ansiedade de mil despedidas. Bianca Torres estava sentada perto do portão, a passagem para a Austrália apertada entre os dedos suados. Ela olhava para o relógio a cada trinta segundos. A conversa com Edward Widmore na noite de sua formatura ainda ecoava em sua mente como um aviso de tempestade.

— Bianca Torres?

A voz veio de trás, rouca e com um sotaque americano carregado.

Bianca virou-se. Um homem de meia-idade, vestindo um terno que parecia caro mas mal ajustado, estava parado ali. Ele tinha olhos cansados e mastigava um palito de dente com uma calma enervante.

— Quem é você? — perguntou ela, o instinto de alerta disparando.

— Meu nome é Frank Lapidus. — Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Estou aqui em nome de um amigo mútuo. Wilbert DeGroot.

O nome fez o sangue de Bianca gelar. Edward a avisara sobre Wilbert. O inimigo.

Ela tentou se levantar para sair, mas Frank foi mais rápido. Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço, e Bianca sentiu algo duro pressionar contra suas costelas, oculto pelo paletó dele. O cano de uma arma.

— Sem cenas, garota. — Frank sussurrou. — Sorria e caminhe comigo. Vamos conversar num lugar mais tranquilo.

Ele a guiou através da multidão, passando pela segurança com credenciais que pareciam oficiais demais para serem falsas, até entrarem em uma sala de manutenção isolada, longe dos olhares curiosos.

Frank fechou a porta e guardou a arma, encostando-se na mesa. — Vamos direto ao ponto. Você teve um encontro interessante na sua formatura. Com Edward Widmore.

— Eu só falo com meu advogado — Bianca tentou manter a voz firme, mas estava tremendo.

— Não temos tempo para advogados. E acredite, eu não quero te machucar. — Frank suspirou, parecendo genuinamente cansado daquilo tudo. — Mas Wilbert quer saber o que o "garoto prodígio" te contou. Se você colaborar, embarca naquele avião e vive sua vida. Se não... bem, acidentes acontecem em aeroportos.

Bianca olhou para a arma no coldre dele. Ela não era uma espiã. Era uma geóloga. — Ele... ele me falou sobre a ilha.

— O que exatamente?

— Disse que Wilbert é perigoso. Disse que a ilha é um lugar místico, cheio de magia e histórias de contos de fadas. Que o avião no fundo do mar é falso. — Bianca soltou tudo de uma vez, esperando que a verdade a libertasse.

Frank balançou a cabeça, soltando uma risada curta. — "Contos de fadas". É, o garoto tem imaginação. Mas ele não está errado sobre o perigo.

Frank desencostou da mesa. Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó. Bianca encolheu-se, esperando o pior, mas ele tirou apenas um livro de capa dura, um pouco amassado.

O título em letras garrafais dizia: BAD TWIN. Autor: Gary Troup.

Ele jogou o livro no colo dela.

— O que é isso? — perguntou Bianca, confusa.

— Um presente. Considere um guia de viagem. — Frank abriu a porta da sala. — Você está liberada, Bianca. Vá para Sydney. Vá para a ilha. Mas leia isso no caminho. Talvez você entenda onde está se metendo antes de ser tarde demais.

Bianca pegou o livro, atordoada. — Por que está me dando isso?

— Digamos que um certo alguém andou procurando por essa cópia há anos. Será uma grande ironia ele estar com você. — Frank piscou. — Boa viagem, garota.

Ele saiu, deixando-a sozinha com o livro misterioso e a certeza de que sua vida acabara de se tornar parte de uma história que ela não escreveu.

A Ilha — O Presente

O som do vento balançando as folhas trouxe Bianca de volta ao presente. Ela estava sentada no chão da floresta, a mochila aberta ao seu lado.

À sua frente, erguiam-se os pilares negros da Cerca Sônica. As estruturas de metal estavam cobertas de musgo, silenciosas sentinelas de uma era passada.

Marcel estava de pé, analisando um dos pilares com fascínio acadêmico. — Incrível... — murmurou ele, tocando o metal frio. — Não há cabos de conexão visíveis. A tecnologia de transmissão deve ser subterrânea. Esses alto-falantes... eles foram projetados para emitir frequências que afetam o sistema nervoso.

— Uma barreira invisível para uma prisão sem muros — comentou Bianca.

— Acho que chegamos ao limite do perímetro seguro, Bianca. — Marcel olhou para a mata densa além da cerca. — Devemos voltar antes que escureça.

Bianca não se moveu. Ela tirou o livro "Bad Twin" da mochila. A capa estava desgastada pela viagem, mas o título parecia brilhar sob a luz estranha da ilha. Daniel olhou o livro com espanto.

— Não acho que seja o lugar ideal para uma leitura, Bianca — disse Marcel, impaciente. Porém aquele livro despertava sua curiosidade.

— Na verdade, Marcel... é o lugar perfeito. — Bianca abriu o livro, passando os dedos pelas páginas. — Frank me deu isso no aeroporto. Ele disse que era um guia.

— É um romance policial barato — desdenhou Marcel.

— Não, não é. — Bianca olhou para ele, os olhos brilhando com a descoberta. — O autor, Gary Troup, morreu no Voo 815. O mesmo voo do meu tio. E a história... é sobre a família Widmore. Sobre dois irmãos gêmeos, completamente opostos.

Marcel parou, ajeitando os óculos. — Uma biografia disfarçada?

— Mais do que isso. É um mapa. — Bianca levantou o livro, comparando a descrição de um cenário na página com a cerca à sua frente. — Edward me falou sobre os mistérios daqui. Frank me deu o livro que conta a história da família que quer controlar esses mistérios. E agora estamos aqui, diante de uma tecnologia que não deveria existir, numa ilha que se move no tempo.

Ela fechou o livro com um baque seco. — Nada disso é coincidência, Marcel. Nós não somos exploradores. Somos personagens em um roteiro que já foi escrito há muito tempo. E eu pretendo descobrir o final.

Marcel fitou Bianca com um olhar de perplexidade e respeito. As peças do quebra-cabeça — a Widmore, a Dharma, o livro, a ilha — estavam se encaixando para formar uma imagem aterrorizante. Eles estavam presos em uma teia, e a aranha estava prestes a acordar.

— Então leia — disse Marcel, sentando-se ao lado dela. — Vamos ver o que o Sr. Troup tem a nos dizer sobre o nosso destino.