Lost: O Primeiro Herdeiro
14 LIVRO 2 — CAPÍTULO 14: HERDEIRO DE ESCOMBROS
A trilha, entardecer – Presente
A selva não era apenas mato e umidade; para Aaron, ela parecia um organismo vivo que pulsava em sincronia com seu próprio sangue. Enquanto abria caminho pela vegetação densa, o peso do facão em sua mão parecia natural, quase instintivo.
— É bizarro, eu sei... — Aaron comentou, parando para tocar o tronco musgoso de uma árvore gigante. Ele fechou os olhos por um segundo, absorvendo o zumbido da ilha. — Mas tem algo aqui... é como se o ar fosse mais leve do que em Sydney. Como se eu finalmente estivesse respirando de verdade.
Clementine, que vinha logo atrás tentando desvencilhar o cabelo de um galho espinhoso, soltou um bufo carregado de ironia.
— Leve? Aaron, eu estou sendo jantada por mosquitos do tamanho de drones, nosso anfitrião é um psicopata que confessou ter matado o pai à sangue frio e fomos sequestrados por um fuso horário psicótico — ela rebateu, limpando o suor da testa com as costas da mão. — Se isso é o seu conceito de 'respirar de verdade', eu prefiro a poluição da cidade.
Aaron se virou para ela, um brilho nostálgico nos olhos azuis que a deixou desconfortável. — É uma sensação de... reconhecimento. Eu passei as últimas semanas sonhando com essas árvores, Clementine. O cheiro da terra úmida, o som desses pássaros... eu nasci aqui. É como se cada célula do meu corpo estivesse dizendo: 'Finalmente você voltou'.
Clementine cruzou os braços, adotando a postura defensiva que herdara de James Ford. — Que lindo, Littleton. O 'Filho da Ilha' volta para casa. Pena que o seu 'lar doce lar' veio com um manual de instruções cheio de histórias de terror. Meu pai passou anos aqui e, sempre que eu perguntava sobre esse lugar, ele olhava para o horizonte como se estivesse esperando o apocalipse chegar. Ele trata esse chão como se fosse o de Chernobyl.
— Minha mãe também — Aaron suspirou, a euforia perdendo um pouco do brilho. — Ela guardou o segredo como se fosse uma maldição. O que aconteceu aqui que foi tão ruim a ponto de traumatizar uma geração inteira? Por que todos eles agem como se tivessem escapado do inferno, enquanto eu sinto que saí dele para chegar aqui?
— Talvez o inferno seja uma questão de perspectiva — Clementine ironizou, embora seus olhos estivessem atentos a cada sombra. — Mas concordo com você em uma coisa: viemos aqui para desenterrar o que eles tentaram enterrar, certo?
Eles retomaram a caminhada, o som do facão cortando o silêncio.
— O que mais me tira o sono... — continuou Aaron, a voz baixando para um tom quase confidencial, — é como algumas certas pessoas me olham. Ben disse que me viu quando eu era bebê. Desmond disse a mesma coisa. Mas eles não eram passageiros do voo 815. Eles não caíram com a gente.
— A ilha não era um resort, Aaron. Tinha gente morando aqui muito antes do avião dos nossos pais virar confete no céu.
— É pior do que isso — Aaron parou e se inclinou para perto dela, como se a selva estivesse ouvindo. — Minha mãe me contou uma coisa sobre o Desmond antes de eu partir. Algo que ele nunca admitiu para os outros.
Clementine arqueou uma sobrancelha, o sarcasmo dando lugar a uma curiosidade genuína. — O que o 'brother' andou escondendo?
— Aparentemente, ele não era só um habitante — Aaron revelou, os olhos fixos nos dela. —Foi ele quem derrubou o avião. Um botão que ele não apertou na hora certa, eu acho... um pulso magnético que rasgou o céu. Ele nos trouxe para cá, Clementine. Talvez por erro, talvez por destino.
Clementine sentiu o sangue fugir do rosto. Ela parou bruscamente, a náusea subindo pela garganta. — O quê? Você está me dizendo que o homem que nos contratou foi quem destruiu a vida dos nossos pais? Quem condenou James Ford e Claire Littleton a anos de tortura e desespero?
Aaron assentiu lentamente. — Ele é a razão de estarmos aqui. Pela primeira vez... e pela segunda.
Clementine soltou uma risada seca, amarga, que ecoou de forma sombria entre as árvores. — Isso é doentio, Littleton. Estamos trabalhando para o homem que puxou o gatilho magnético que arruinou nossas famílias. Se isso for verdade, quando encontrarmos o senhor Hume, eu mesma vou garantir que ele não precise de um botão para sentir o impacto.
Antes que Aaron pudesse comentar, um som seco estalou na mata à frente. Não era um animal. Era o som metálico de equipamento batendo contra equipamento.
Aaron congelou, fazendo um sinal brusco com a mão. — Fique quieta — sussurrou ele, puxando Clementine para trás de uma grande raiz de uma árvore.
Eles se agacharam na lama, prendendo a respiração. Através da folhagem, viram formas se movendo. Homens vestindo uniformes táticos pretos, movendo-se com disciplina militar em direção à Vila da Dharma.
— São os soldados de Roger? — indagou Clementine, num fio de voz.
— Não. — Aaron observou as armas de última geração e os coletes sem identificação. — Não os vi no navio. Esses caras são profissionais. Provavelmente já estavam aqui.
O grupo de soldados avançava silenciosamente. Eles não estavam patrulhando; estavam caçando. E a direção deles era clara: o acampamento de Ben.
— Eles estão indo atacar a Vila — percebeu Aaron. — Temos que voltar e avisar...
Ele tentou se virar, mas foi tarde demais.
Um braço forte envolveu o pescoço de Clementine por trás, aplicando um mata-leão perfeito. Ela tentou gritar, mas o som foi sufocado.
Aaron girou, levantando o facão, mas parou ao sentir o cano frio de um fuzil pressionado contra sua testa.
— Solte a faca, garoto. — A ordem veio de um soldado mascarado que surgiu da vegetação como um fantasma.
Aaron ergueu as mãos em sinal de rendição, deixando o facão cair na terra fofa. Clementine se debatia nos braços do captor, os olhos arregalados de terror.
Passos calmos e ritmados se aproximaram pela trilha. Um homem de roupas táticas cinzas, com detalhes verde e calça preta surgiu sorrindo. Ele olhou para os dois prisioneiros com uma satisfação genuína.
— Vejam só. — O homem bateu palmas devagar. — Aaron Littleton e Clementine Phillips. Eu estava justamente a caminho da Vila para buscar vocês, mas vocês foram gentis o suficiente para vir ao meu encontro. Isso é o que eu chamo de eficiência.
Aaron olhou para o rosto do homem. O reconhecimento foi instantâneo e gelado. — Você... — Aaron murmurou, a memória daquela noite em Sydney voltando com força. — O homem do carro. Na frente do escritório do Desmond naquele dia em Sydney. Você me disse "boa noite".
Clementine, ainda lutando para respirar, conseguiu chiar: — Aaron... é ele! É o Wilbert!
Wilbert DeGroot fez uma reverência zombeteira. — Em carne e osso. E devo agradecer por facilitarem meu trabalho. Eu esperava um tiroteio com o Sr. Linus para conseguir pegá-los.
Ele fez um sinal para os soldados. — Amarrem-nos. E amordacem a garota se ela continuar gritando. Temos o que viemos buscar.
Dois soldados avançaram com lacres de plástico. Aaron olhou para Wilbert, percebendo tarde demais que sua curiosidade e a "nostalgia" pela ilha os haviam levado direto para a armadilha. Eles não eram exploradores; eram a carga preciosa que Wilbert queria roubar.
— Levem-nos para a base — ordenou Wilbert, virando as costas para a Vila da Dharma. — temos uma conversa longa pela frente.
Ann Arbor, Michigan — Inverno de 1960
A neve caía em flocos grossos, cobrindo as ruas de Ann Arbor com um manto de silêncio branco. Gerald DeGroot, recém-doutorado pela Universidade de Michigan, caminhava pela calçada congelada como se flutuasse. Ao seu lado, Karen, sua esposa e parceira intelectual, segurava seu braço com firmeza, tanto pelo amor quanto pelo peso dos nove meses de gestação que carregava.
Gerald, um homem alto de cabelos cacheados desgrenhados e olhos que brilhavam com ideias, parou sob a luz de um poste.
— Nós conseguimos, Karen. — Ele tocou o rosto dela, corado pelo frio. — Doutores. O mundo acadêmico está aos nossos pés. Skinner vai ter que engolir nossas teses.
Karen sorriu, ajeitando o casaco pesado que mal fechava sobre a barriga. — Gerald, eu estou feliz, de verdade. Mas acho que a nossa maior tese está prestes a ser publicada aqui. — Ela tocou o ventre. — E ele está chutando como se quisesse defender a dissertação agora mesmo.
Gerald riu, a euforia do álcool do jantar de comemoração misturando-se à adrenalina. — Vamos para o hotel. Reservei a suíte. Vamos celebrar. Só nós dois... e o futuro.
Karen hesitou, olhando para a escadaria do pequeno hotel histórico à frente. — Gerald, não sei se é uma boa ideia... você sabe, aquilo. Estou exausta e... enorme.
— Bobagem. — Gerald puxou-a gentilmente. — É nossa lua de mel tardia, lembra? Vamos apenas pedir champanhe — ele piscou — e brindar ao começo da nossa revolução científica.
Eles entraram no saguão aquecido, sacudindo a neve dos casacos. A recepcionista, uma senhora corpulenta chamada Sra. Miller, sorriu para o casal jovem e brilhante.
Eles começaram a subir a grande escadaria de madeira rumo ao segundo andar. Gerald falava sobre utopias sociais e engenharia comportamental, degrau após degrau.
No meio do lance, Karen parou. A mão dela apertou o corrimão com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos.
— Gerald... — A voz dela saiu estrangulada.
Ele parou dois degraus acima, virando-se. — O que foi, querida? Esqueceu algo?
— Não. — Karen olhou para baixo. Um líquido claro escorria por suas pernas, manchando o carpete vermelho da escada. Ela olhou para o marido, o pânico e a dor misturados em seus olhos verdes. — É agora.
— Agora? — Gerald piscou, a mente acadêmica travando diante da biologia bruta. — Mas o médico disse que seria na próxima semana...
Um grito de dor cortou a frase dele. Karen dobrou-se, segurando a barriga. — O bebê não liga para o calendário, Gerald! Ele está vindo!
Gerald desceu os degraus pulando, amparando-a antes que ela caísse. — Socorro! — ele gritou para o saguão vazio. — Alguém me ajude!
A Sra. Miller saiu de trás do balcão correndo, toalhas nas mãos, como se tivesse esperado por aquilo a vida toda. — Não tentem movê-la para o hospital! Com essa neve, não vai dar tempo. Leve-a para o quarto mais próximo! O 101 está vazio!
Gerald pegou Karen nos braços, o peso do mundo e de seu filho em suas mãos, e a carregou para o quarto no térreo.
Os minutos seguintes foram um borrão de caos, gritos e água quente. Gerald, o homem que sonhava em consertar a humanidade através da ciência, sentia-se completamente inútil segurando a mão da esposa enquanto a natureza seguia seu curso violento e milagroso.
— Respire, Karen! Respire! — era tudo o que ele conseguia dizer .
E então, o choro.
Alto, forte e exigente. O som rompeu a tensão do quarto, mais poderoso do que qualquer tese ou descoberta.
— Parabéns, papai. — A Sra. Miller, suada e sorridente, ergueu o pequeno pacote humano. — É um menino. E ele tem pulmões fortes.
Gerald caiu de joelhos ao lado da cama, chorando abertamente. Ele olhou para Karen, exausta, mas radiante, segurando o filho deles contra o peito. O bebê abriu os olhos, escuros e curiosos, encarando o pai.
Gerald tocou a testa do filho. Ali estava. O começo de tudo. A verdadeira Gênese.
— Como vamos chamá-lo? — sussurrou Karen, beijando a mãozinha do bebê.
Gerald olhou para a criança. Ele viu grandeza ali. Viu um legado. — Wilbert. — O nome veio à sua mente com a força de uma certeza. — Vamos chamá-lo de Wilbert.
Karen sorriu, fechando os olhos. — Wilbert DeGroot. Soa como alguém importante.
Gerald beijou a testa da esposa e depois a do filho, sem saber que aquele menino, nascido numa noite de neve e improviso, um dia tentaria controlar o próprio tempo.
Prisão improvisada da Dharma – Presente
O som da grade de metal sendo trancada ecoou pela sala blindada como um tiro. Aaron e Clementine estavam presos em uma jaula no centro da sala — uma estrutura que parecia ter sido projetada para conter animais grandes. O logotipo octogonal da Dharma Initiative estava pintado no chão de concreto, desbotado, mas inconfundível.
Aaron agarrou as barras frias, a adrenalina do sequestro transformando-se em fúria. — Ei! — gritou ele, sacudindo a grade. — Qual é o plano, Wilbert? Nos manter aqui como animais de zoológico?
Wilbert DeGroot aproximou-se da cela, parando a uma distância segura. Ele ajeitou os punhos do terno, parecendo entediado com o drama. — Não sejam histéricos. Eu só quero conversar.
— Podia ter mandado um convite — disparou Clementine, a voz trêmula, mas carregada de veneno. — Não precisava de homens armados e algemas de plástico.
— E correr o risco de vocês fugirem? — Wilbert sorriu, um sorriso condescendente. — Não. Aqui vocês não têm escolha a não ser ouvir.
— Ouvir o quê? — Aaron bateu na grade novamente, o som metálico vibrando no ar. — Você tentou nos matar, seu desgraçado! No aeroporto no Novo México! Você matou o Richard Alpert!
Wilbert parou. O sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de genuína confusão. Ele franziu a testa, como se Aaron estivesse falando uma língua estrangeira.
— Aeroporto? — Wilbert repetiu, devagar. — Do que você está falando, garoto? Eu não ordenei ataque nenhum em aeroporto. E Richard Alpert... até onde eu sabia, aquele fóssil ainda estava protegido pela Widmore.
— Não se faça de idiota! — Aaron gritou. — Nós vimos os seus homens!
— Meus homens têm disciplina, Aaron. Se eu quisesse vocês mortos, vocês estariam mortos. — Wilbert balançou a cabeça, dispensando a acusação como um delírio do prisioneiro. — Richard morto... interessante. Parece que o tabuleiro está mudando mais rápido do que eu pensava.
Wilbert virou as costas, caminhando em direção à porta blindada.
— Ei! — Aaron chamou, vendo-o se afastar. — Aonde você vai? E a conversa? Você disse que queria conversar!
Wilbert parou na porta, a mão na maçaneta pesada de ferro. Ele olhou para trás, seus olhos frios analisando Aaron e Clementine como se fossem espécimes em um vidro.
— Ah, sim. A conversa. — Wilbert sorriu, um sorriso enigmático. — A conversa vai acontecer, Aaron. Mas não é comigo.
Ele saiu, a porta pesada se fechando com um baque surdo e definitivo.
Um único soldado armado permaneceu no canto da sala, imóvel como uma estátua, o rosto coberto por uma balaclava tática.
O silêncio que se seguiu foi insuportável. Clementine deslizou até o chão, abraçando os joelhos. O choque estava passando, dando lugar ao terror absoluto.
— Por que isso está acontecendo? — sussurrou ela, a voz quebrando. — Ele não sabia... você viu a cara dele? Ele não sabia do ataque no aeroporto.
— Ele é um mentiroso, Clementine. — Aaron agachou-se, tentando manter a calma. — É tudo parte do jogo mental deles.
— Não encosta em mim! — Clementine reagiu violentamente quando Aaron tentou tocar seu ombro, arrastando-se para longe até bater as costas na grade oposta.
Aaron recuou, surpreso. — Ei... eu só estou tentando ajudar.
— Ajudar? — Clementine levantou o rosto banhado em lágrimas. — Você me arrastou para essa furada, Aaron! Eu tinha uma vida! Você apareceu com aquele papo de "destino" e agora estamos numa jaula, esperando para falar com sabe-se lá quem!
— Sério que você vai me culpar agora? — Aaron levantou-se, ofendido. — Ninguém te obrigou. Você veio porque quis respostas!
— Eu queria respostas sobre física, não sobre uma guerra de corporações!
— Estamos no mesmo barco! — Aaron gritou, a frustração transbordando. — Eu também fui enganado. Os únicos culpados por isso são o Desmond... e o Hugo.
Clementine parou. O nome estranho pairou no ar. — Hugo? — Ela franziu a testa, secando uma lágrima. — Quem é Hugo? Desmond eu conheço. Mas você nunca falou de nenhum Hugo.
Aaron travou. Ele percebeu que tinha falado demais. O nome de Hugo Reyes, o homem dos seus sonhos e visões, escapara. Para Clementine, Hugo não existia.
— Esquece — murmurou Aaron, desviando o olhar e caminhando para o canto oposto da cela.
— Não, Aaron. Quem é Hugo? — Clementine insistiu, a desconfiança crescendo. — O que mais você sabe que não está me contando?
— Eu disse para esquecer! — Aaron sentou-se no chão, encostando a cabeça na parede fria, derrotado. — Você não vai acreditar em mim de qualquer jeito.
O silêncio voltou a reinar entre eles, mas agora era um silêncio dividido. Aaron e Clementine estavam na mesma cela, mas o medo e os segredos haviam construído um muro entre eles. E a promessa de Wilbert — "a conversa não é comigo" — pairava no ar como uma ameaça fantasma.
Universidade de Michigan, Ann Arbor — Primavera de 1961
O Salão de Ciências da universidade zumbia com o burburinho de acadêmicos, fumaça de cigarro e o cheiro de café barato. Era o Simpósio Nacional de Ciências Comportamentais, o lugar onde carreiras eram feitas ou destruídas.
No canto mais afastado do salão, longe dos estandes prestigiados de Harvard e Yale, Gerald e Karen DeGroot estavam sentados atrás de uma mesa dobrável. O cartaz acima deles, pintado à mão com letras precisas, dizia: "D.H.A.R.M.A. — Heurística e Pesquisa em Aplicações Materiais do Departamento".
Ninguém parava. Os professores passavam direto, lançando olhares de desdém para os gráficos complexos sobre "utopias sociais baseadas em Skinner" e "manipulação eletromagnética".
Gerald afrouxou a gravata, derrotado. — Vamos embora, Karen. Isso foi um erro. Eles não estão prontos. Eles querem ratos em labirintos, não a salvação da humanidade.
Karen, segurando o pequeno Wilbert de um ano no colo, tocou a mão do marido. — Eles são dinossauros, Gerald. Nós somos o meteoro. Só precisamos de um investidor que olhe para cima.
— Ninguém vai investir em "ciência de fronteira", querida. Estamos falidos.
Gerald começou a recolher os panfletos quando uma sombra caiu sobre a mesa.
Um homem jovem estava parado ali. Ele vestia um terno europeu de corte impecável e emanava uma aura de riqueza antiga que silenciava o ar ao seu redor. Ele não olhava para Gerald; ele lia os gráficos com uma intensidade voraz.
— "Aprimoramento da raça humana através da manipulação ambiental e genética" — leu o homem, sua voz grave e com um sotaque dinamarquês carregado. — Uma tese ambiciosa, Dr. DeGroot.
Gerald endireitou-se, surpreso por alguém saber seu nome. — É apenas teoria, por enquanto, meu caro. A universidade cortou nosso financiamento. Dizem que é... radical demais.
— O radicalismo é o único caminho para o progresso. — O homem finalmente olhou para Gerald. Seus olhos eram frios, calculistas. — O que vocês fariam se não tivessem limites éticos ou financeiros? Se tivessem um laboratório do tamanho de um mundo?
Karen levantou-se, ajeitando Wilbert no quadril. Ela reconheceu o broche na lapela do homem. — Com licença. Você não é da universidade. Quem é você?
O homem sorriu, um gesto mínimo. — Perdoe minha falta de educação, senhora DeGroot. Meu nome é Alvar Hanso.
O nome atingiu Gerald como um trovão. — Hanso? Da Fundação Hanso? O fornecedor de munições e armas da OTAN?
— O mesmo. — Alvar estendeu um cartão preto com letras douradas. — Minha família vende a guerra para financiar a paz, Dr. DeGroot. E eu estou procurando arquitetos para construir o futuro.
Gerald pegou o cartão com as mãos trêmulas. — Você... digo... o senhor leu nosso artigo?
— Li. E vi potencial. — Alvar apontou para o bebê no colo de Karen. — Vocês estão tentando construir um mundo melhor para ele. Eu quero dar a vocês as ferramentas para isso. Mas não aqui. Não sob os olhares mesquinhos da academia americana.
— Onde, então? — perguntou Karen, cética, mas intrigada.
— Tenho acesso a uma localização única. — Alvar baixou o tom de voz. — Uma ilha no Pacífico Sul. Ela possui propriedades eletromagnéticas e geológicas que desafiam a ciência conhecida. É um lugar onde as leis da física são... sugestões.
Gerald e Karen trocaram um olhar. Era a loucura que eles esperavam a vida toda. — O que o senhor está propondo? — perguntou Gerald.
— Uma parceria. — Alvar apoiou as mãos na bengala. — Eu forneço o dinheiro, a logística, o isolamento. Vocês fornecem o cérebro. Vamos criar uma comunidade de pesquisa autossustentável. Zoologia, meteorologia, psicologia, parapsicologia, eletromagnetismo. Sem restrições. Sem conselhos de ética.
— Uma utopia científica — sussurrou Gerald.
— A Iniciativa Dharma. — Alvar provou o nome. — Gosto disso. Soa como algo predestinado.
— E o que o senhor quer em troca? — Karen perguntou, abraçando Wilbert mais forte, sentindo um calafrio instintivo.
Alvar olhou para a criança, e por um segundo, seus olhos brilharam com algo que não era humano. — Quero resultados, minha cara. Quero mudar a equação de Valenzetti que condena a humanidade à extinção. Quero que vocês descubram como salvar o mundo.
Ele estendeu a mão enluvada para Gerald. — O que me dizem? Estão prontos para deixar a mediocridade para trás?
Gerald olhou para o salão vazio, para o fracasso iminente de sua carreira, e depois para a mão de Alvar Hanso. Ele não viu um pacto com o diabo; viu a chance de ser um deus.
— Estamos prontos — disse Gerald, apertando a mão de Alvar.
— Excelente. — Alvar sorriu, e naquele momento, o destino da família DeGroot foi selado. — Jantem comigo no hotel esta noite. Temos um mundo para construir.
Hotel The Graduate — Suíte Presidencial (Noite Seguinte)
O jantar havia terminado, e a mesa estava coberta de mapas náuticos e esboços de estações subterrâneas. Gerald estava eufórico, desenhando o logotipo octogonal em um guardanapo.
— A Estação Cisne... para estudar o eletromagnetismo. A Estação Pérola... para monitoramento psicológico. — Gerald apontava freneticamente. — Alvar, isso é... isso é genial.
Alvar Hanso observava da poltrona, bebendo um conhaque caro. — Fico feliz que compartilhe da minha visão, Gerald.
Karen, que estava colocando Wilbert para dormir no quarto ao lado, voltou para a sala. Ela parecia preocupada. — Alvar... você disse que a ilha não é um lugar comum. Que existem... riscos.
— Todo progresso exige risco, Karen. — Alvar girou o copo na mão. — Mas eu garanto: aquela ilha é o único lugar na Terra onde poderemos encontrar a resposta final.
— Resposta para quê?
Alvar olhou para os dois jovens cientistas. — Para a vida e a morte.
Ele levantou-se, caminhando até a janela que dava para a neve lá fora. — Vocês me deram a ciência. Eu lhes darei o reino. Mas lembrem-se: uma vez que começarmos, não há volta. A Dharma será o nosso legado. Ou a nossa cova.
Gerald riu, a arrogância da juventude cegando-o. — Com o seu financiamento e a nossa mente, Alvar, não haverá covas. Apenas descobertas.
Alvar olhou para o reflexo de Gerald no vidro da janela e viu não o cientista, mas a peça de xadrez que ele acabara de mover. — Assim espero, meu jovem. Assim espero.
Prisão improvisada da Dharma – Presente
O sol se punha sobre a ilha, tingindo o céu de um violeta hematoma que lembrava a anomalia temporal. Wilbert DeGroot estava apoiado no parapeito, fumando um cigarro com tragadas longas e nervosas. Ele não olhava para a beleza da selva; olhava para os fantasmas do que deveria ter sido.
Frank Lapidus aproximou-se, parando a dois passos de distância. Ele sabia quando o chefe estava de mau humor.
— Olhe para isto, Frank — disse Wilbert, gesticulando com o cigarro para as ruínas distantes da Vila da Dharma. — Meus pais dedicaram a vida a este lugar. Eles acreditavam que estavam construindo o futuro da humanidade. Uma utopia científica.
Frank permaneceu em silêncio, sabendo que não era uma conversa, era um monólogo.
— Eu nasci no berço dessa ideia — continuou Wilbert, a voz carregada de ressentimento. — Eu deveria ter herdado um império de conhecimento. Em vez disso, herdei escombros. Tudo porque um homem pequeno e invejoso decidiu que queria brincar de Deus e matou todos eles na Purgação. Benjamin Linus transformou o sonho dos meus pais em uma vala comum.
Wilbert apertou o cigarro até o filtro se deformar. — Recuperar esta ilha não é apenas negócios, Frank. É uma correção histórica. É vingança.
Frank pigarreou, desconfortável com o fanatismo nos olhos de Wilbert. Ele decidiu cortar o momento antes que ficasse mais sombrio. — Com todo o respeito, senhor, o passado já era. Temos problemas mais imediatos. O que pretende fazer com o casal na cela?
Wilbert piscou, saindo do transe de ódio. Ele jogou a bituca longe. — Nada, por enquanto. Eles são a isca. Mas precisamos que a armadilha seja ativada.
— O rapaz ainda está escondido nas sombras — avisou Frank. — Ele diz que precisa se preparar psicologicamente. Conversar com o pai, ou algo assim.
— Não é à toa que ele passou anos num manicômio — Wilbert riu, um som seco. — Mas ele é a chave. Vá chamá-lo, Frank. Diga que os convidados chegaram.
Frank assentiu, aliviado por sair da presença de Wilbert, e se afastou pelo corredor escuro.
Enquanto isso, na cela, o silêncio era pesado, mas a raiva inicial havia se dissipado, deixando apenas o medo e a exaustão. Aaron estava sentado em um canto, observando as botas sujas de lama. Clementine estava no lado oposto, abraçando os joelhos.
Ela olhou para ele. Viu o corte na testa dele, o cansaço nos ombros. A culpa a atingiu.
— Ei... — chamou ela, a voz baixa.
Aaron levantou a cabeça. — O quê?
— Desculpe — disse Clementine, sincera. — Por ter gritado com você. Por ter dito que a culpa era sua. Eu sei que não é. Eu só... eu estou com medo.
Aaron soltou o ar, a tensão saindo de seu corpo. Ele se levantou e caminhou até onde ela estava sentada. — Está tudo bem, Clem. Eu entendo. Eu também estou apavorado.
Ele estendeu a mão para ajudá-la a levantar. Clementine aceitou, e quando ficou de pé, não soltou a mão dele. Eles ficaram próximos, o calor do corpo um do outro servindo de único conforto naquela sala fria.
— Não leve a mal o que eu disse antes — continuou Aaron, sorrindo timidamente. — Sobre você me seguir.
— Não se preocupe. — Clementine deu um sorriso fraco, mas seus olhos brilharam. — Eu gosto de você, Aaron. Só tentei parecer durona porque... bem, estou cansada de todos me olharem como se eu fosse apenas a "nerd da física" que precisa ser salva.
— Mas você é uma nerd — brincou Aaron, tocando levemente o rosto dela. — A nerd que salvou minha vida no navio.
— Pare com isso, seu palhaço.
Clementine olhou intensamente para ele. A proximidade, o perigo, a incerteza de estarem vivos na próxima hora... tudo convergiu naquele momento. Ela não pensou. Ela se inclinou e o beijou.
Aaron correspondeu imediatamente, envolvendo a cintura dela. Foi um beijo desesperado, com gosto de medo e promessa.
Clementine se afastou alguns centímetros, a respiração acelerada, incerta se tinha cruzado uma linha. — Desculpa. Eu não devia...
— Não precisa se desculpar — Aaron sussurrou, encostando a testa na dela. — Eu gostei.
— Eu também gostei — admitiu ela.
Eles se beijaram novamente, ignorando as grades, ignorando a Dharma, encontrando um refúgio temporário um no outro.
Não muito longe dali, nas sombras de uma antessala sem iluminação, Frank Lapidus parou. Ele sabia que alguém estava lá, mesmo que não pudesse ver.
— Eles estão prontos — disse Frank para a escuridão. — Estão na cela.
Uma figura se moveu nas sombras, o som de passos arrastados no concreto. — Certo — respondeu uma voz jovem, mas carregada de um cansaço antigo. — Eu irei falar com eles. Vou acabar de vez com essa loucura criada por Hugo e Ben. Eles precisam saber a verdade.
Frank sentiu um arrepio. Aquele garoto não era mais o menino que ele resgatara anos atrás. — Tente não machucá-los, garoto. Eles não sabem de nada.
— Ninguém é inocente nesta ilha, Frank.
A figura passou por Frank, indo em direção à cela, mas permanecendo oculta nas sombras.
Frank saiu para a varanda, onde Wilbert ainda olhava para a selva.
— E então? — perguntou Wilbert, sem se virar.
— Ele está indo. — Frank apoiou as mãos na grade. — Você tem certeza de que isso vai dar certo? Usar o garoto? Ele é instável.
Wilbert virou-se, um sorriso predador no rosto. — O objetivo dele é vingança. O meu é expurgo. — Wilbert ajeitou o uniforme. — Acabar com cada um que participou ou se beneficiou da Purgação é o meu destino, Frank. Não é coincidência que meus ideais se esbarrem com os interesses vingativos dele. O inimigo do meu inimigo é minha arma.
Frank franziu a testa, vendo Wilbert sair, e rezou para que Aaron e Clementine sobrevivessem à tempestade que estava prestes a desabar sobre eles na forma de um velho amigo.
Península de Orote, Guam — 2015
O jato particular tocou a pista de um aeródromo privado sob a cobertura da noite. O ar de Guam era úmido e salgado, carregado com o cheiro de vegetação tropical em decomposição.
Wilbert DeGroot desceu a escada, seguido por Frank Lapidus e dois mercenários armados. Por último, desceu Alvar Hanso. Ele não precisava de cadeira de rodas naquela época, mas caminhava com a ajuda de uma bengala de prata, seus passos lentos e deliberados.
Eles caminharam até um galpão industrial anônimo, escondido atrás de uma cerca de arame farpado enferrujada. Não havia guardas. O lugar parecia morto.
— É aqui? — perguntou Frank, iluminando a fechadura com uma lanterna tática.
— Armazém de Logística da Dharma. — Wilbert passou a mão pela porta de metal frio. — O coração pulsante que manteve a Ilha viva por décadas.
Os mercenários arrombaram a porta. O som ecoou no interior vazio.
Eles entraram, os feixes de luz das lanternas cortando a escuridão e a poeira suspensa. O armazém estava repleto de caixas de papelão empilhadas em paletes, todas marcadas com o logotipo da Dharma e códigos de barras. Comida, produtos de limpeza, suprimentos médicos. Tudo abandonado, apodrecendo.
Wilbert caminhou até a sala de controle nos fundos. Ele empurrou a porta e parou.
A sala estava congelada no tempo. Computadores antigos, teletipos e impressoras matriciais estavam cobertos de pó. Sobre uma mesa, dois macacões beges da Dharma estavam dobrados cuidadosamente, com os crachás de identificação deixados em cima: GLENN e HECTOR.
Wilbert pegou o crachá de Glenn, sentindo uma onda de nostalgia amarga. — Eles se foram — murmurou ele.
— Quem eram? — perguntou Frank, observando os monitores desligados.
— Os fiéis. — Wilbert apertou o crachá. — Glenn e Hector. Eles passaram vinte anos nesta sala, empacotando pallets e enviando coordenadas para drones, sem nunca fazer uma pergunta. Eles achavam que estavam salvando o mundo, quando na verdade, estavam apenas alimentando fantasmas.
— E por que eles sairiam deixando o uniforme para trás? — Frank iluminou os macacões. — Parece que foram dispensados.
— Ou avisados. — Wilbert olhou ao redor. — Alguém esteve aqui, Frank. Alguém veio aqui e disse a eles que o show tinha acabado.
— E o que viemos fazer num depósito vazio? — Frank insistiu, impaciente.
Wilbert foi até o teletipo principal. Ele puxou a fita de papel amarelada que ainda estava na máquina. — Não é óbvio? A localização. Poucas pessoas conheciam essa estação. Era o único elo físico com a Ilha. Esses homens não sabiam onde a ilha estava, mas a máquina sabia. As coordenadas de lançamento dos drones estão registradas no buffer de memória.
Wilbert começou a digitar comandos no terminal antigo, o brilho verde do monitor iluminando seu rosto com um aspecto fantasmagórico.
Enquanto isso, Alvar Hanso caminhava pela sala com um interesse arqueológico. Ele parou diante de uma estante e pegou uma caixa de DVD. A capa mostrava o símbolo da Hidra.
— O vídeo de orientação — observou Alvar, sua voz arrastada. — Pierre Chang adorava o som da própria voz.
— Quem trouxe isso? — perguntou Alvar, virando o disco na mão. — Isso não deveria estar aqui. Isso pertence à Ilha.
— Imagino que tenha sido o mesmo homem que dispensou os funcionários — disse Frank, conectando os pontos. — O homem que "encerrou as atividades".
Wilbert parou de digitar. Ele olhou para a tela, onde a última entrada de log mostrava uma data de encerramento e um comando de sistema. — Benjamin Linus. — O nome saiu como veneno. — Ele esteve aqui. Ele fechou a estação para cobrir seus rastros.
Wilbert virou-se, o rosto contorcido em um transtorno que ia além da raiva corporativa. Era pessoal. — Ele destruiu o trabalho dos meus pais. Ele matou a Iniciativa e agora tentou apagar a memória dela. Mas ele cometeu um erro.
— Qual erro? — perguntou Frank, apreensivo com o brilho nos olhos de Wilbert.
— Ele deixou o equipamento intacto. — Wilbert arrancou a fita de papel com as coordenadas impressas. — Nós temos o caminho, Alvar. Sabemos onde a Ilha estava na última entrega.
Alvar sorriu, colocando o DVD no bolso do casaco. — Excelente.
— Vamos destruir todos eles — jurou Wilbert, olhando para os uniformes vazios de Glenn e Hector como se fossem mortalhas. — Cada pessoa que ajudou a destruir a Dharma vai pagar. Vamos reconstruir isso, tijolo por tijolo, em cima dos ossos deles.
Frank olhou para Wilbert, depois para Alvar. Ele viu orgulho nos olhos do velho Hanso, mas viu loucura nos olhos de Wilbert. Sua mente questionava se ele estava do lado certo da história, mas o peso das dívidas e a segurança de sua família falaram mais alto.
— Peguem tudo — ordenou Wilbert aos mercenários, sua voz ecoando no galpão morto. — Discos rígidos, registros, mapas. Levem tudo. A Dharma vai renascer.
Eles começaram a saquear a sala, recolhendo os fragmentos de um sonho falido para construir um novo pesadelo.
Prisão improvisada da Dharma – Presente
A noite caiu sobre a cela como uma mortalha pesada e sufocante. O único marcador de tempo era o ronco do estômago de Clementine, que parecia ecoar nas paredes de concreto.
A fome havia transformado o medo em irritação pura. Clementine agarrou as barras da jaula, sacudindo-as com a pouca força que lhe restava.
— Ei! — gritou ela para o soldado imóvel no canto. — Vocês acham que somos o quê? Baterias? Querem nos matar de fome antes mesmo de nos interrogar?
O soldado nem piscou, mantendo o fuzil atravessado no peito, uma estátua de indiferença.
— Não adianta, Clem. — Aaron estava sentado no chão, a cabeça encostada na grade fria. — Eles não vão responder. Somos carga, não hóspedes.
— Carga precisa de manutenção, Aaron. — Clementine chutou a grade. — Ei! Se eu desmaiar aqui, vai pegar mal para o relatório do seu chefe!
O som metálico de travas sendo liberadas cortou o silêncio. A porta blindada se abriu com um silvo hidráulico.
Uma mulher entrou, vestindo um macacão cinza funcional da Dharma. Ela trazia duas bandejas de alumínio fumegantes. O cheiro de comida processada — feijão e carne enlatada — invadiu a cela, e de repente pareceu o melhor aroma do mundo.
— Já não era sem tempo — murmurou Clementine, recuando para dar espaço.
O soldado destrancou a jaula apenas o suficiente para a mulher deslizar as bandejas pelo chão.
— Comam — disse a mulher, sem emoção. — Wilbert quer vocês vivos. Por enquanto.
— Obrigado — disse Aaron, puxando a bandeja para perto. A educação era um reflexo automático, mesmo no inferno.
A mulher sorriu para ele, um sorriso breve e triste, antes de olhar para Clementine com desprezo e sair. A porta se fechou novamente, selando-os na penumbra.
Aaron e Clementine atacaram a comida. Não houve conversa, apenas o som de talheres de plástico raspando o alumínio. Eles comiam com a urgência dos sobreviventes.
Eles estavam terminando quando um som diferente veio do corredor externo. Não eram botas militares. Eram passos leves, quase silenciosos, mas que carregavam uma autoridade pesada.
O soldado no canto da sala endireitou a postura, visivelmente tenso. A porta blindada não se abriu completamente desta vez; ela foi apenas empurrada.
As luzes da sala piscaram. Uma, duas vezes.
Uma figura alta deslizou para dentro, permanecendo nas sombras perto da entrada. Não dava para ver o rosto, apenas a silhueta de alguém que parecia ocupar mais espaço do que seu corpo físico deveria permitir.
— Acomodações rústicas para convidados tão importantes... — A voz veio das sombras. Era uma voz profunda, rouca, marcada por anos de silêncio e gritos.
Aaron largou a bandeja, levantando-se devagar. Ele sentiu um arrepio na nuca, o mesmo tipo de eletricidade estática que sentia nos seus sonhos.
— Quem é você? — perguntou Aaron, cauteloso, colocando-se na frente de Clementine. — Outro capanga do Wilbert?
A figura deu um passo à frente, entrando no feixe de luz da lâmpada de emergência.
Era um homem negro, alto, vestindo roupas táticas gastas. Ele tinha uma barba por fazer e cicatrizes que contavam histórias de sobrevivência. Mas eram os olhos que prendiam a atenção: olhos que pareciam ter visto coisas que nenhum humano deveria ver.
Ele olhou para Clementine com indiferença, mas quando seus olhos pousaram em Aaron, um sorriso enigmático e nostálgico curvou seus lábios.
— Capanga? Não. — O homem se aproximou das grades, segurando o metal com mãos calejadas. — Digamos que sou um velho conhecido da família.
— Eu nunca te vi na vida — disse Aaron.
— Você não se lembra. — O homem riu, um som baixo. — Você era muito pequeno. Eu costumava te segurar no colo quando sua mãe precisava descansar. Naquela praia.
Aaron sentiu o chão sumir sob seus pés. Outra pessoa da Ilha. Outra conexão com o passado esquecido. — Você... você estava aqui? Com a minha mãe?
— Eu passei boa parte da minha vida aqui, Aaron. Fui roubado, devolvido e destroçado por este lugar. — O homem encostou a testa na grade, olhando fundo nos olhos de Aaron. — Meu nome é Walt Lloyd. E é um prazer finalmente rever você Aaron, agora, como adulto.
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